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Porta da frente

Há trinta anos Ayrton Senna abandonava o sonho da Lotus para abraçar o maior desafio de sua carreira, ao migrar para a McLaren de Alain Prost com a missão autoimposta de bater aquele que era considerado o melhor piloto do mundo, dentro da equipe pela qual já havia conquistado dois títulos mundiais.

Há pouco menos de dez anos, ainda nos tempos do bravo Última Volta, dei início a uma série de textos que tinha por objetivo recordar em detalhes aquela que foi a maior rivalidade da Fórmula 1 moderna, especialmente nos anos de 1988 e 1989.

Jamais cheguei a terminar aquele projeto, mas ao menos cheguei até Suzuka 1988, e hoje tomo a liberdade de dividir com os amigos do GPTotal o texto que ainda registra meu ponto de vista a respeito dos fatores cruciais que permitiram a Senna brigar em igualdade de condições.

A grande maioria dos analistas automobilísticos concorda que a melhor maneira de comparar características de dois pilotos distintos é colocando-os para correr num mesmo time. No entanto – e aqui parece estar o grande erro de avaliação amplamente cometido – ilude-se quem imagina que através deste procedimento seja possível eliminar da equação o fator equipe. Defender uma mesma escuderia não significa, por definição, dispor de igualdade de condições. Este é o primeiro ponto crucial.

O segundo ponto é que existem vários fatores dentro do ambiente de trabalho de um piloto que vão muito além do equipamento recebido. Noutras palavras, mesmo que uma determinada equipe tenha meios (e disposição) para proporcionar a seus dois pilotos equipamentos virtualmente iguais, ainda assim restará considerar o tratamento direcionado a cada um. Este é outro fator decisivo.

Lançados os pressupostos, podemos então mergulhar no contexto que uniu Ayrton Senna e Alain Prost sob o mesmo teto nos anos de 1988 e 1989.

Em teoria, a McLaren não precisava de Senna. Afinal, Prost havia superado tanto a Niki Lauda quanto a Keke Rosberg nos anos anteriores, e no processo havia assegurado dois títulos mundiais de pilotos em quatro anos. Torna-se desnecessário especular quem será o melhor piloto do mundo quando se tem um piloto que está perfeitamente integrado ao time, e que irá vencer sempre que tiver um carro compatível em mãos. Esta era a situação exata de Prost.

No entanto, a McLaren precisava dos motores Honda, e a forma embaraçosa como os carros da Williams haviam deixado a concorrência comendo poeira ao longo da maior parte de 1987 deixava isso claro como água. No fim de 1986, inclusive, Ron Denis e Alain Prost chegaram a ir ao Japão tentar um acordo, sem sucesso. E naquele momento Ayrton já havia se tornado, na prática, um piloto Honda. A rigor, a melhor definição que já li a respeito é a de que, em 1988, Alain Prost pilotava para a McLaren, usando motores Honda. E Ayrton Senna pilotava para a Honda, usando carros McLaren.

Talvez esta colocação nos permita compreender que Senna, de fato, entrou na McLaren pela porta da frente, graças à longa relação de confiança estabelecida com os japoneses – por iniciativa própria – junto à mais cobiçada fornecedora de motores daquela época.

Mais do que seus nada desprezíveis serviços, portanto, o brasileiro oferecia à equipe a chance de dispor do melhor motor do mercado. E o que era tão bom quanto: este mesmo motor seria tirado justamente da rival Williams.

Todo este pacote, evidentemente, tornou muito mais forte a presença de Senna dentro da McLaren, e desenhou a conjuntura que lhe garantiu a retaguarda política necessária para desafiar Prost dentro de sua própria casa. Não tivesse sido assim, e nem toda a velocidade do brasileiro teria sido suficiente para inverter a lógica dos fatos. Nunca é demais, no entanto, lembrar que Ayrton atingiu esta condição através de méritos próprios, ao entender que o caminho para uma carreira vencedora passava por atitudes que iam muito além de sua pilotagem.

Passados mais de vinte anos, Alain Prost gosta de dizer que poderia ter vetado a ida de Senna, e não o fez. Difícil mensurar a verdade por trás de tal afirmação, dado o valor de barganha garantido pelos propulsores nipônicos. Certo é que, se Prost optou por não usar seu poder de veto, com certeza não foi pela alegada razão de que a ele interessava apenas o fortalecimento da McLaren. A verdade é que, se Prost algum dia teve tal poder, não o usou porque queria muito correr com os melhores motores do mercado. E porque, em seu íntimo, tinha a absoluta certeza de que poderia bater Senna ou qualquer piloto em condições de igualdade.

Ron Dennis, por sua vez, não poderia ver com maus olhos a presença de um desafiante que pudesse reduzir um pouco o papel estratégico de cada um de seus pilotos. Eles que guerreassem, enfim, desde que os interesses da equipe fossem preservados.

E a guerra começou no Brasil. No dia 1º de abril de 1988, quando os carros ganharam o saudoso traçado de Jacarepaguá para a 1ª das sessões classificatórias da temporada, Alain Prost foi apresentado ao primeiro e único companheiro de equipe sensivelmente superior em termos de rapidez com o qual teve de conviver em sua longa e vitoriosa carreira.

Mas havia, é claro, o outro lado da moeda.

Não é preciso especular muito para se ter a certeza de que Ayrton Senna, em seu corner, também tinha a convicção de que poderia vencer Alain Prost, mesmo dentro da McLaren, caso tivesse para isso equipamento e tratamento equivalentes. O que Senna ainda não sabia era a complexidade da guerra na qual estava se metendo. E que, em diversos momentos, rapidez e velocidade simplesmente poderiam não bastar. Prost, afinal, havia perdido um título para Niki Lauda em 1984, apesar de ter sido sempre mais rápido que o companheiro. O francês havia aprendido, com o melhor mestre e da maneira mais dolorosa, que havia sim uma infinidade de alternativas para a luta.

Mas é claro que esse tipo de expediente só viria à tona um pouco mais tarde. O convívio entre ambos estava apenas começando, e Alain ainda iria levar algum tempo até entender e aceitar que simplesmente não era rápido o bastante para enfrentar Ayrton com armas convencionais. Senna, por sua vez, também precisaria de algum tempo até compreender que estava jogando um jogo muito mais complexo, e lidando com um rival muito mais preparado do que aparentava.

Esta primeira fase do convívio durou exatamente duas corridas. Tanto no Brasil como em Imola não houve batalhas diretas, e as vitórias foram dividas irmamente. Por diversas razões, o GP de Mônaco daquele ano se tornaria o primeiro grande marco da maior rivalidade vista pelo automobilismo moderno.

Mas esse é assunto para encontros futuros.

7 thoughts on “Porta da frente

  1. Grande Márcio, sempre brilhante! Se bem me lembro, a definição sobre Senna ser um “piloto Honda num carro McLaren” e “Prost ser um piloto McLaren usando motores Honda” _a qual também considero a mais precisa sobre a dupla em 88/89_ foi proferida por Jo Ramirez, certo?
    Outro dia procurei o bravo Última Volta para relembrar a sensacional saga “A Batalha do Século” e fiquei triste em não encontrar o domínio.
    Obrigado por essa coluna. Aguardo ansiosamente a sequência.
    Ah, e o livro do Baixo?
    Grande abraço! Saúde e paz a toda a família

    1. Salve Stephano!
      Rapaz, eu e Lucas estamos tentando entender por que a página está fora do ar. Não era para estar não.
      Quanto ao livro do Moreno, vai no ritmo que as vidas corridas vão permitindo. Uma pena demorar tanto, mas ao menos acho que está ficando bem legal.
      Abraço, velho amigo.

  2. Que bom ler que quando Lauda e Prost conviveram na McLaren em 1984 a definição de que Lauda era o mestre e Prost aprendeu com ele ficou bem clara. Mas Prost já firmou sua reputação de professor da suavidade desde 1981 quando conquistou suas primeiras vitórias de forma limpa e ficou apenas a três pontos de Alan Jones, campeão anterior. Mas se envolver em cartolagens pra vencer (Brasil/82 e Japão/89), acho que não devia ter feito isso.

  3. Marcio,

    este é um tema dos bons para ser debatido aqui no GEPETO 2018, que como bem disse o Mauro, vem com tudo e não está prosa. .
    Não li seus textos no “Ultima Volta” e assim portanto tudo será uma bela novidade para mim.
    Se tem um título que só o Alain Prost tem é o de ser o piloto mais politico já visto no circo da Formula 1. A sua força, conhecimento do regulamento e poder de convencimento junto ao Ballestre nunca foi visto igual. Acho que isso permitiu ele não tomar um sacode ainda maior do que tomou do Senna nas pistas. Prova do que falo, foram as conquistas de seus títulos em 89 e 93. Em 89 ao aplicar aquela manobra vigarista em Suzuka. Em 93 ao conseguir impedir e proibir o Senna de ir para Willians, e mesmo assim viu o brasileiro brilhar com um carro muito inferior ao seu.
    Esta rivalidade entre Senna e Prost, se de um lado proporcionou grandes momentos nas pistas, também mostrou o que de mais podre tinha o circo da Formula 1. Este lado ruim deixou um legado e quem mais soube aproveitar foi o Alemão Dick Vigarista que usou todo o seu poder politico e traquinagens dentro das pistas para ganhar corridas e títulos …
    Estou ancioso também pelos próximos capítulos …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    1. Embora o Prost fosse o mestre da politicagem, a verdade é que sempre que pôde o Senna também fez manobras internas pra se fortalecer (como o veto ao Warwick na Lotus). É do jogo, praticamente todos os campeões da era moderna fazem isso – veja o que o Piquet fez na Williams em 1987 pra ser campeão.

      Mas de fato, e nisso concordo integralmente contigo, o conluio entre Prost e Balestre em Suzuka/89 foi algo nojento, talvez um dos episódios mais nojentos da história da F1 – além deste, lembro da primeira vitoria do Prost em Dijon-1981, a guerra FIA x Foca em 1981-82, a “vista grossa” da FIA às equipes que burlaram o regulamento em 1994 (Williams inclusive), o caso de espionagem da McLaren em 2007 e a batida proposital do Nelsinho em Cingapura-2008.

  4. Que legal! Já tinha lido muitas vezes aqueles textos do Ultima Volta. Aguardo ansioso o desfecho da série, contando o ano de 1989.

  5. Caramba, o Gepeto 2018 inciou com tudo e mais um pouco!

    Show, amigo Márcio, este tema é sempre prazeroso para debates.

    E sim, li todos aqueles textos fantástico no saudoso Última Volta.

    Que venham os próximos capítulos!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

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