Os pilotos daquela foto – parte 3

Os pilotos daquela foto – parte 2

Confira as partes anteriores clicando na imagem acima.

A temporada de 1987 começa em 12 de abril com o GP do Brasil. Longos cinco meses separam essa corrida da decisão do campeonato de 1986, e a equipe Williams se mantém como a franca favorita ao título, apesar da decepção da perda do título para Prost e sua McLaren.

O elenco principal de 1987 estrelou os mesmos quatro personagens ao ano anterior: Prost, Senna, Piquet e Mansell.

A temporada foi uma espécie de repetição do ano anterior, na medida em que estes quatro abocanharam 14 vitórias em 16 corridas, novamente com Gerhard Berger sendo o “intruso”, ao vencer as outras duas corridas restantes, desta vez pela Ferrari.

A temporada 1986 atingiu o maior patamar de potência da história da Fórmula 1, e a antiga FISA resolveu agir, restringindo a cavalaria através de restrições da pressão do turbo (restrito a 4 bar em 1987). Ao mesmo tempo, a entidade incentivou a volta os motores aspirados, na tentativa de, aos poucos, criar uma fórmula de “equivalência” entre esses dois tipos de motores para, finalmente, banir os turbos a partir de 1989.

Para incentivar times a já aderirem aos aspirados, que seriam de 3,5 litros, a FISA criou dois campeonatos paralelos para pilotos e construtores com carros aspirados, respectivamente os troféus Jim Clark e Colin Chapman. Nesse modelo, a Tyrrell é quem estava melhor preparada para a mudança e, consequentemente termina 1987 conquistando os dois troféus: a equipe levou a taça Colin Chapman e seu piloto Jonathan Palmer ganhou a taça Jim Clark.

As tensões se intensificaram dentro da favorita Williams. Piquet e Mansell quase não se falavam e o brasileiro optou por esconder os acertos em seu carro. Para isso, contou com a lealdade de um pequeno grupo de engenheiros e mecânicos que atendiam o seu carro.

O ano se resumiu na astúcia de um piloto que derrotou um ambiente nada favorável. Não tenho mais a ideia, após tantos anos, que houve qualquer tipo de complô contra Piquet. O elemento crucial que criou um ambiente tenso dentro da Williams foi a ausência de Frank Williams na equipe, devido a seu acidente do ano anterior, e que fez com que questões entre seus dois pilotos não tivessem “a palavra final do chefe”.

A falta de liderança de Patrick Head, que é engenheiro, mas não é dono do time, foi um elemento crucial e que acabou criando a lenda do boicote. O próprio Head explica esse período no documentário “Williams”, lançado em 2017 – recomendo que vocês assistam e tirem suas conclusões.

Hoje é possível entender que a possibilidade de Frank não sobreviver colocava em risco a continuidade da equipe e que isso mexeu de forma importante no ambiente que Head teve que administrar. Evidente que ele deve ter torcido para Mansell, mas também é fato que nunca Piquet teve um carro inferior ao inglês de forma deliberada.

Piquet rasgou o verbo ainda mais durante 1987, e passou a usar a tática de atacar Mansell sempre que possível. Numa das ocasiões, declarou:

Não mudei de equipe para brigar com outro piloto da equipe, eu tenho contrato como primeiro piloto e eles estão estragando tudo, perdemos ano passado e se ficar desse jeito vamos perder de novo. Não vim para usar toda a minha experiência e afinar o carro do meu companheiro de equipe, que está dificultando minhas vitórias. Tecnicamente a Williams é a melhor equipe onde já pilotei, mas não foi isso que acertei com Frank.

Quando perguntado por que em 1986 ele não havia falado isso com tanta ênfase, Piquet alegou que o acidente e o estado de Frank, haviam colocado ele na sinuca de levar algo menos importante para Frank quando ele ainda estava lutando para se manter vivo.

Nessa altura, a imprensa europeia, sobretudo os ingleses, não davam eco a Piquet. Ao contrário, estavam claramente torcendo por Mansell. Já havia passado dez anos desde a última conquista de um piloto inglês e numa equipe inglesa. Não seria um brasileiro que tiraria esse gosto deles.

Tenho a sensação que esse ranço da imprensa inglesa para com o brasileiro perdura até os dias atuais.

Mas a tática de atacar verbalmente Mansell surte efeito. O inglês, apesar da sua velocidade, passou o ano frágil do ponto de vista emocional. Juntando-se a isso alguns infortúnios improváveis, e ele novamente perde um título que tinha tudo para ser dele.

A Williams estava desenvolvendo o FW12 para a temporada de 1987, com uma nova ancoragem, mais baixa, para o poderoso motor Honda, que estava ainda melhor. Mas a Lotus, que acabava de assinar um contrato de fornecimento, disse que a Honda não precisava mudar os pontos de fixação e podia manter o motor mais alto.

Como a Honda não ia fazer dois motores diferentes para seus clientes, uma irritada Williams teve que jogar seu novo projeto fora, e optou por fazer a revisão B do já consagrado modelo FW11. Para isso, apenas adaptaram-se ao novo regulamento com tanque de 195 litros – além, claro, da pressão do turbo em 4 bar. A Honda trabalhou muito bem dentro dessas novas restrições, e as novas versões “G”, seguida da “GE”, com eficiência superior da queima de combustível, e entregavam uma potência ainda maior.

Essas melhorias aumentaram ainda mais a diferença de desempenho para seu concorrente direto, o TAG-Porsche da McLaren, que já entrava em seu quinto ano de criação.

Piquet sabia que seu maior rival no ano seria Mansell, e ele começou a trabalhar firme no desenvolvimento da suspensão ativa. A Williams possuía uma versão mais simples que a utilizada pela Lotus, outro time que também criou sistema próprio, que se diferenciava por também abrigar um conjunto de molas e amortecedores comuns como “reserva”, caso houvesse falha hidráulica.

Piquet adquiriu uma boa vantagem ao concentrar seus esforços no desenvolvimento do carro. A Williams venceu novamente 9 das 16 provas disputadas, só que dessa vez com um placar maior para o piloto inglês: foram seis vitórias de Mansell (San Marino, França, Grã-Bretanha, Áustria, Espanha e México) contra três de Piquet (Alemanha, Hungria e Itália). Das quatro dobradinhas conquistadas todas foram vencidas por Mansell. Piquet, por sinal, foi o maior colecionador de segundos lugares do ano, nada menos que sete vezes

Além da velocidade do companheiro, Piquet enfrentou um ano difícil após o seu acidente em Imola nos treinos. Ele ao menos passou três meses com dificuldades para dormir direito, além de perder o senso de profundidade, como se a paisagem estivesse “chapada” diante dos seus olhos o tempo todo, o que, claro dificulta muito as frenagens e tomadas de curva. Ele teve que enfrentar esse drama sem recorrer ao vitimismo de falar que sua pilotagem esteve, sim, afetada nesse período.

Piquet usou como arma a regularidade. A despeito de vencer menos que Mansell, ele esteve presente no pódio em 11 das 15 corridas que participou, uma quebra de recorde na época. A lembrar que o GP de San Marino ele não disputou, Piquet só sofreu 3 quebras, contra 5 quebras de Mansell. Isso evidencia a sua sensibilidade como piloto em entender a parte mecânica do carro e ele tirou um bom proveito disso. Em suma, Piquet correu visando o campeonato, e nesse quesito ele foi mestre.

Alain Prost teve uma temporada apagada. Apesar de ter vencido duas das três primeiras corridas do ano (Brasil e Bélgica), o Professor termina o ano na quarta posição no mundial de pilotos, muito pouco para quem estava defendendo o título. A McLaren até fez uma boa atualização de seu consagrado chassi, mas que tinha um motor no limite de seu desenvolvimento técnico. Foram nada menos que seis abandonos.

De notável, a sua terceira e última vitória no ano, em Portugal, quando supera a marca de Jackie Stewart, passando a ser o novo recordista de vitórias da categoria com 28 tentos.

Ayrton Senna, por sua vez, começou o ano com duas novidades, o motor Honda e a suspensão ativa. Novamente é um ano em que ele precisa tirar no braço a pouca competitividade de seu carro. Ele termina o campeonato na terceira posição, e é nítida a sua curva de evolução como piloto, já que ele se mostra mais consistente na coleta de pontos, até mesmo ameaçando Mansell na disputa pelo vice.

Ao assinar com a McLaren para 1988 fica claro que Senna tem um plano bem definido para ser campeão. De destaque, obtém duas vitórias nos dois circuitos de rua (Mônaco e EUA-Detroit), o que se tornaria uma de suas especialidades.

Das corridas disputadas em 1987, recomendo muito rever as corridas de Mônaco, da Grã-Bretanha, da Itália e de Portugal, cada uma vencida por um dos quatro da foto: Senna, Mansell, Piquet e Prost, respectivamente.

Esse campeonato foi mais morno em disputas que o anterior, um pouco pela esticada de desempenho que a Williams teve em relação a uma cansada McLaren, que piorou muito em confiabilidade, e uma Lotus que apostou muito na suspensão ativa, e não cuidou da atualização de seu datado chassi.

A disputa na tabela de pontos foi animada como em 1986 até a sétima etapa, na Grã-Bretanha. Ao fim daquela prova, Senna era o líder com 31 pontos, Piquet e Mansell dividiam a segunda posição com 30 e Prost vinha na cola, com 26. Foi a partir da Alemanha que Piquet deu uma estilingada para o título, com suas três vitórias, enquanto seus rivais diretos começaram a passar apuros com a confiabilidade. Prost era para ter vencido lá, mas seu alternador quebrou a apenas algumas voltas para a bandeirada.

E foi justamente nessa fase da temporada que tanto Senna quanto Piquet estavam se preparando para se mudar de equipe. Competitivo como ele era, Senna finalmente decidiu que a Lotus não era suficientemente forte para concretizar sua ambição de ser campeão, então ele iniciou ainda em maio as negociações com a McLaren.

Apesar de ter o melhor carro, Piquet não aguentava mais o ambiente na Williams, enquanto que Senna iria buscar um time para ser campeão, Piquet queria um ambiente de mais paz, de quebra, com alto salário.

A decisão, como todos lembra, acontece ainda nos treinos do GP do Japão, país que voltava ao calendário com uma pista inédita, a maravilhosa Suzuka. O placar do momento era 73 pontos para Piquet contra 61 de Mansell, que tinha obrigação de vencer as duas últimas corridas do ano (esta e Austrália), torcendo com infortúnios de seu companheiro.

Ainda nos treinos de sexta, porém, Mansell bate forte e é impedido de disputar a prova. O campeonato está liquidado e Piquet é declarado campeão no sábado.

A corrida seria vencida por Berger, que repetiria a façanha na prova final, nas ruas de Adelaide, indicando uma boa forma da Ferrari.

Fazendo um balanço das temporadas de 1986 e 1987, encontramos alguns números emblemáticos:

– Das 32 corridas disputadas, a Williams ganhou 18 delas, ou seja, 56% do total. Mansell obteve 11 dessas vitórias, contra 7 de Piquet;

– Prost e Senna obtiveram 11 vitórias, sendo 7 de Prost, 4 de Senna;

– Juntos esses pilotos ganharam 29 das 32 corridas, ou 91% do total;

– Apenas Gerhard Berger venceu além destes quatro pilotos.

Foram, sem dúvidas, os protagonistas de duas temporadas fantásticas.

Para a Williams, o gosto foi amargo ao termino do ano de 1987. Com todo esse domínio, a perda do campeonato de 1986 ainda estava atravessada na garganta dos dirigentes da Honda, que romperam o contrato e anunciaram a transferência de seu motor para a equipe McLaren, praticamente ao mesmo tempo em que Piquet anunciou sua ida para a Lotus, que teve seu contrato de motores mantido.

Essa conversa fica para a próxima coluna.

2 thoughts on “Os pilotos daquela foto – parte 3

  1. Mario,

    mais uma vez o amigo nos prestigiou com uma história super bem contada e bem lembrada como foi a de 1987.
    Com relação ao Piquet, as sequelas do acidente na Tamburello foram até que pequenas se levada em conta a porradona que ele deu naquele fatídico muro … atrapalharam mas não lhe tiraram o direito de brigar pelo título … Graças a Deus!!!
    Piquet, sabendo que não podia ser mais rápido que o MAnsell, fez o certo … acumulou muitos pontos quando o “Idiota Veloz” quebrava … estrategicamente ele foi sensacional … já no final da temporada com sua visão totalmente recuperada ele fez uma volta em Suzuka que ninguém da Willians ( muito menos Mansel ) esperava e e botou a pressão em cima do ingles que precisava para definir e ganhar o campeonato …
    Eu chamo atenção que o ponto alto da conquista do seu tri campeonato foram as suas 3 vitórias aquela volta incrível em Suzuka nos treinos para definição do grid de largada … na Hungria onde até então ele era imbatível, na Alemanha no ainda veloz circuito de Hockenheimring e na Italia em Monza … tirando Hungria ( circuito de baixa velocidade) o melhor da pilotagem que Piquet tinha foi visto e usado em circuitos de alta velocidade … pistas que ele mais gostava e onde ele tinha certeza que bateria o MAnsell … somando tudo isso com a sua regularidade não poderia no fim dar outra coisa …

    Show de bola

    Fernando MArques
    Niterói RJ

  2. Show Salu!

    Nesta época, eu já acreditava que Berger poderia ser campeão no futuro, assim como Senna.

    No GP da Inglaterra, dependendo da combinação do resultado daquele GP, poderia ter ocorrido algo inédito até hoje, com Prost, Senna, Mansell e Piquet, empatados com o mesmo número no topo da tabela de classificação.

    E a respeito de Senna, recomendo a excelente coluna do Edu de 2009 “Os 5 títulos de Senna”.

    Foi uma época de corridas mágicas!

    Que venha 88!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

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