Baixando as cartas

Dando continuidade à nossa série de textos sobre a disputa entre Ayrton Senna e Alain Prost em 1988, é chegada a hora de relembrar o emblemático GP de Mônaco, no qual os dois rivais efetivamente foram apresentados às maiores virtudes um do outro.

De novo, a reprodução é do texto originalmente publicado no site ultimavolta.com, quase uma década atrás.

Acredito de coração que em algum canto sentimental mais profundo nas personalidades tanto de Ayrton Senna quanto de Alain Prost, quando do início da convivência de ambos na McLaren-Honda em 1988, havia a sincera disposição de se estabelecer uma ótima relação profissional, e quem sabe até pessoal. O diabo era que havia esse campeonato a ser disputado, e todo mundo sabia que apenas um deles poderia ser o campeão.

Pior. Senna e Prost eram dois pilotos cujas próprias vidas giravam em torno de um único objetivo, que ia além da mera conquista de títulos mundiais: ambos queriam assumir o posto de melhor piloto do mundo. Na prática isso significava que ninguém ia ceder, ninguém ia aceitar a derrota, e aí voltamos ao início deste especial, e ao postulado físico que reconhece a impossibilidade de dois corpos ocuparem o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo.

Olhando assim, numa perspectiva mais afastada, não havia mesmo qualquer chance de um bom relacionamento entre ambos enquanto estivessem disputando retas e curvas. A primeira troca de golpes, e a própria guerra entre eles, era uma certeza matemática. Uma questão de tempo.

No Brasil, diante da torcida, Senna formou o conjunto mais rápido da pista, mas perdeu a prova num problema de câmbio que o levou a trocar para o carro reserva após a formação do grid. Obviamente foi desclassificado, cabendo a vitória ao francês. No entanto, saiu do Rio com a sensação de que teria vencido, e reforçou este sentimento com a vitória segura em Imola, na etapa seguinte, quando esteve sempre à frente de Prost, atrasado por uma má largada.

Passadas duas corridas, ninguém havia ganhado ou perdido. Senna mostrava-se surpreendentemente mais rápido, mas Prost também não havia sido forçado ao limite. Por sua vez, com tudo na balança, era Prost quem liderava o mundial, apesar de Senna dar mostras de que – em condições normais de temperatura e pressão – seria ele o vencedor da maioria dos GPS.

A calmaria prenunciava uma forte tormenta, e quis o destino que fosse em Monte Carlo, na terra do principal cassino europeu, que aqueles dois grandes jogadores baixassem suas cartas pela primeira vez.

O primeiro foi Senna.

Em 1988 a Goodyear era a única fornecedora de pneus na F1, e por isso não via a necessidade de entregar às equipes os compostos especiais para qualificação. Assim, a exemplo do que já havia ocorrido no ano anterior, o grid de largada continuou a ser definido através de sequências de voltas razoavelmente longas por parte de cada competidor. Na prática, um formato que reduzia a importância da rapidez dos pilotos – de longe a principal virtude de Senna –, na medida em que todos tinham tempo suficiente para encontrarem seus melhores ritmos. Valia, portanto, a velocidade máxima de cada competidor, e não a rapidez com que era capaz de atingi-la.

O que Prost e o mundo até então não imaginavam era a dimensão da velocidade que Ayrton Senna seria capaz de imprimir.

Guiando numa dimensão particular, o brasileiro emendou uma lendária série de voltas que, por duas vezes naquela sessão, chegaram a o deixar com tempos 3s mais rápidos que os de seu companheiro de equipe. Assustado com o próprio desempenho, obtido a partir de uma experiência que extrapolou os limites de sua consciência, Senna passou toda a segunda metade do treino de sábado sem arriscar uma volta rápida, e viu Prost assumir muitos riscos e dar muitas voltas a mais para enfim terminar o dia ainda a 1,427s de sua melhor volta. No processo, o francês havia virado 1,260s abaixo de Berger, 3º no grid. Tudo isso numa pista com pouco mais do que 3 km de perímetro!

A “experiência do túnel”, como ficaria conhecida, foi uma espécie de revelação para Senna. Raras vezes na história do esporte a motor um piloto alcançou tais extremos em sua condução. Não se tratou, com o perdão da ênfase, de uma atuação genial. Estamos falando aqui de algo que vai muito além disso: um desempenho situado nas fronteiras da humanidade.

Para todos em Monte Carlo – incluindo aí o próprio Senna – foi um momento quase que assustador. Colocar 4 segundos sobre um piloto como Satoru Nakajima era uma coisa. Girar um segundo e meio mais rápido que Alain Prost em Mônaco, onde o francês já havia vencido três vezes, usando pneus de corrida e equipamento idêntico, era outra completamente diferente.

De repente, Alain Prost e o mundo da velocidade se davam conta de que estavam convivendo com uma verdadeira entidade automobilística. No entanto, o que ninguém poderia imaginar, depois daquele sábado, era que o mesmo Prost – apesar de jamais ter precisado demonstrar –, trazia no bolso do colete um complexo manual sobre como jogar (e vencer) em meio a adversidades. O brilho de Ayrton no sábado havia sido a senha de que, para ele, já não valeriam mais as armas convencionais. No domingo, cerca de 24 horas após a epifania do brasileiro, seria a vez do francês mostrar ao mundo a verdadeira dimensão de sua inteligência, e a complexidade do jogo que estava disposto a jogar.

Dada a largada, acontece o previsível. Senna assume a ponta, enquanto Prost paga o preço de largar do lado sujo e se vê obrigado a dividir a freada com Gerhard Berger, que a esta altura não tinha nada a perder. O francês recolhe prudentemente, posicionando-se atrás da Ferrari, numa pista onde ultrapassar é quase impossível. Haviam sido percorridos menos de 500 metros mas, em condições normais, seria lícito supor que a corrida estava formalmente definida.

Correndo sozinho, Senna monopoliza a melhor volta da corrida, a qual melhora por nove vezes sem alternância, até o giro de nº 20. A partir daí, é ele quem melhor lida com o constante tráfego, ampliando a vantagem até a margem dos 54 segundos, por altura da volta 52. Nesta altura restavam 26 voltas, e Alain Prost continuava em terceiro, a quase um minuto de Senna. É quando o francês prepara seu golpe de mestre.

Desde a volta 50, Prost vinha permitindo uma certa fuga do austríaco à sua frente. Sem mais nada a perder na corrida, o francês havia esperado pacientemente por quebras que não vieram, e agora se dedicava a um plano que conjugava arrojo, blefe, antecipação e caos. Tudo isso, vale lembrar, a quase 300 km/h, e a poucos centímetros dos guard-rails.

Por duas voltas Prost busca ar frontal, aguardando até que a temperatura de seu carro se abaixe. Na volta 52 o francês parte com tudo para cima de Berger, conseguindo a improvável ultrapassagem no momento em que ambos completavam a volta de nº 54. Alain já havia se dado conta de que aquele campeonato seria decidido entre ele e Senna no número de vitórias, e por isso sabia que a segunda colocação não era boa o bastante. Seria preciso atacar Senna. Mas como?

A partir de então, com pista livre, Prost começa a blefar. Todos sabiam que seria impossível descontar 55 segundos em 24 voltas, mas ainda assim o francês simula estar disposto a iniciar uma terrível perseguição ao brasileiro, somente para jogar-lhe a isca. A verdade é que naquela altura Prost levava a enorme vantagem de conhecer muito melhor seu adversário, ao mesmo tempo em que a patológica obsessão de Senna por ser sempre o mais rápido o tornava, em última análise, um competidor previsível.

Prost podia antecipar, por exemplo, que ao fazer voltas rápidas estaria enviando um recado a Senna – as chamadas “ondas de pressão” –, e este, por condicionamento, iria responder a ela. Assim, na volta 56, Prost torna-se o primeiro piloto que não Ayrton Senna a assinalar uma volta mais rápida naquele dia. E Senna, conforme Prost previra, morde a isca.

Na volta 57 ambos os pilotos fazem a volta mais rápida da corrida. Primeiro Senna, quebrando o tempo de Prost na volta anterior, e depois o próprio Prost, superando a marca recém-estabelecida por Senna. E a partir de então Prost retoma seu ritmo normal, suspendendo o ataque. A corrida parecia definida.

Lá na frente, porém, Ayrton ainda sente a necessidade de marcar seu território, traindo aí toda a sua juventude. Apenas para mostrar que poderia ser o mais rápido, ele marca novamente a melhor volta no giro 59, superando a marca estabelecida pelo francês, duas passagens antes. Um ato de indisfarçável vaidade e afirmação, de alguém que até ali não imaginava o tamanho do problema que tinha do outro lado da equipe.

Dentro de seu cockpit Senna experimenta a euforia de finalmente estar dominando sem oposição o pináculo do automobilismo, sem jamais desconfiar que aquela sensação interessava e havia sido induzida pelo próprio Prost. De repente aquelas 20 voltas finais haviam se tornado uma mera formalidade, como se afinal fosse possível relaxar e confabular dentro de um carro de corridas em Monte Carlo.

Senna havia se deixado afetar, e é neste ponto que se dá o inexorável encontro com a realidade, materializada àquela altura na forma de um guard-rail a poucos metros da entrada do túnel. Guiando sozinho, com a vitória nas mãos, Ayrton Senna havia sido induzido a cometer um erro besta, diante dos olhos de todo o mundo. A premeditada injeção de caos, adrenalina e relaxamento executada meticulosamente por Alain Prost havia pagado seus dividendos, expondo seu jovem rival a um terrível golpe emocional e psicológico.

Imediatamente começaram a pipocar em todos os idiomas questionamentos acerca do valor de toda aquela velocidade e exuberância, quando afinal era Prost quem rumava seguro à 4º conquista monegasca e ao aparente 3º título mundial.

Tendo seu orgulho ferido, e sendo obrigado a lidar com críticas declaradas e desconfianças mais ou menos disfarçadas, Senna vira seu mundo desabar. Ele viajara do céu ao inferno sem escalas, ao mesmo tempo em que descobria efetivamente o tipo de homem que teria de derrotar para se tornar o nº 1.

4 thoughts on “Baixando as cartas

  1. Puxa, Márcio! Como te falei, não achei mais o domínio do Última Volta. Que prazer, portanto, reler esses textos! Forte abraço!

  2. Marcio,

    como já tinha dito, não li seu belo texto no “Ultima Volta” e agora está sendo um deleite poder desfrutar dele.
    Acho incrível como seu texto valoriza esses dois grandes pilotos que Formula 1 produziu e o quanto valoriza também a disputa entre eles na pista e fora delas na Mclaren, já que eram da mesma equipe.
    Eu tenho um ponto de vista que Senna era mais rápido como piloto e Prost tinha mais velocidade nas corridas.
    Prost não precisava fazer a volta mais rápida da corrida. Prost era um relógio e fazia suas corridas dentro de uma velocidade quase que constante que lhe garantia no fim a vitória.
    Senna ao contrário girava voltas excepcionais e em outras girava muito abaixo do que se esperava e na média entre estas voltas o francês ficava na frente. E a meu ver ele custou a descobrir esta “qualidade do Prost”.
    O que aconteceu em Mônaco em 1988 foi um caso a parte. Em Mônaco um erro por menor que seja vale uma pancada no muro. Senna aprendeu a lição e provou isso depois vencendo 6 vezes lá e se tornando o Mister Mônaco até hoje. Por causa deste erro em 1988 ele aprendeu a ser imbatível no Principado.
    No mais fico no aguardo da próxima parte.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. Grande Márcio!

    Que prazer foi poder reler este texto brilhante, que li anos atrás no saudoso Última Volta.

    Desculpem o termo, mas Prost era foda, um Mestre Maquiavélico, e que não era atoa, chamado de Professor.

    Fosse algum outro piloto daquele Grid no lugar do Senna, e talvez o campeonato estivesse liquidado em Mônaco.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  4. Belo texto amigo!!! Compartilho do mesmo ponto de vista. E para aqueles que não acompanharam o período basta ler o texto e assistir a prova que chegará a mesma conclusão. Digo isso por ter ouvido o Galvão Bueno falar (isso mais de uma vez) que o Senna bateu pq queria dar uma volta no Prost !!!! A fala do Galvão não me incomoda, mas ele citar que ouviu do Senna me soa estranho. Por acaso você lembra desse comentário?
    Veja essa interessante citação, do anuário do Chico Santos; “Prost herda o comando incontestado da prova a 12 voltas do final, em circunstâncias semelhantes às que lhe fizeram perder em 1982 …”

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