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Um misto de Steve McQueen e Ayrton Senna? – parte 2

Relembre o início desta história clicando aqui.

Em Bremgarten, GP da Suíça, sob chuva, o Regenmeister se impõe. Bernd termina em terceiro. No GP da Italia ele abandona na 19a. volta por quebra da transmissão, assume o carro de Pietsch e o leva ao terceiro posto. No GP da Espanha termina em 5º porque uma pedra quebra seu parabrisa e o obriga a fazer um pit stop.

O acerto da escolha de Walb é confirmado no GP da Tcheco-Eslováquia, em Masaryk. Rosemeyer vence, pela primeira vez, com respeitáveis 6 minutos à frente de Tazio e Louis Chiron. Até certo ponto isto foi facilitado porque a Mercedes decidiu não comparecer. Aparentemente achava que seus carros não seriam suficientemente competitivos e deu uma desculpa.

Mas na pista estariam Varzi e Stuck, muito mais experientes em corridas e com o Auto Union.

Stuck assume a ponta, seguido por Varzi e Bernd, mais atrás Nuvolari liderando o resto da turma, formada por Alfas, Bugattis, Maseratis e muitos carros de 1500cc, chamados de Grupo 2, “voiturette”, que usualmente completavam o grid. Em impressionante ritmo, Varzi marca 12’57″ na primeira volta, contra 13’04″ de Stuck e 13’05 de Bernd. Na segunda volta Varzi já abriu 8” de Stuck e Bernd. Tazio se mantém em 4º.

Bernd ultrapassa Stuck na terceira. Na 4a. Varzi marca a melhor volta, Bernd ainda está virando em 12’56”. Um passarinho vai ao encontro dos óculos de proteção de Stuck quando este está em plena reta. Fragmentos de vidro penetram no olho direito, ele obviamente diminui o ritmo e com tremendo auto-controle dirige até os boxes. Pietsch, o piloto reserva, assume o volante enquanto o austríaco é medicado. Agora atrás de Nuvolari, ele vai para o ataque. Ao iniciar a quinta volta Pietsch passa à frente do mantuano.

Na 9a. volta, a turma da frente pára para reabastecer. Na volta 12 Varzi diminui de repente e vai para os boxes. Problemas no motor. Bernd assume a liderança, seguindo por Nuvolari.

Na volta 13, Stuck volta ao volante de seu carro. Não eram ferimentos graves. Mas ele está com uma tremenda dor de cabeça, que o faz ouvir barulhos de motor inexistentes. Na volta seguinte abandona de vez.

Ao cabo de 17 voltas Bernd recebe a bandeirada sob os aplausos de cerca de 150.000 torcedores. É carregado nos ombros de seus mecânicos.

Ninguém tinha mais dúvidas. Assim como aconteceu com Senna após aquela apressada bandeirada de Ickx em Monaco, o circo todo reconhecia o brilho da nova estrela.

Mas essa primeira vitoria tornou-se ainda mais decisiva em sua vida. Ainda no pódio Bernd é apresentado a Elly Beinhorn. Ela era uma celebridade, uma das raras aviadoras de seu tempo. Tinha ficado famosa – internacionalmente – por ter sido a a única mulher a sobrevoar o Sahara, em uma viagem sobre o oeste da Africa. Entre 1931 e 33 ela se destacou por ter voado até a Australia, ter cruzado a América do Sul e os Estados Unidos, ambos costa a costa.

Ela tinha ido a essa corrida esperando ver uma vitória de Stuck, que era muito mais conhecido que Rosemeyer naquele momento, e não ficou empolgada com o rapaz de Lingen. Mas ele ficou empolgado com ela e, mostrando ser tão rápido em sua vida amorosa quanto era nas pistas, decidiu na hora que essa era a garota com quem iria casar. Depois de ter tirado a moça para dançar perguntou se poderia ter uma foto dela quando voltasse a Berlim. Era uma desculpa para um encontro. Em sua biografia Elly disse que ficou impressionada em ver que, na festa da vitória, o vencedor tomou apenas uma limonada e foi dormir às 11:00. Profissionalismo incomum naqueles dias. Disciplina seguida e ampliada por Senna, não?

Elly mal tinha chegado em casa em Berlim e lá estava Bernd, cobrando a foto. Ao invés de agradar, isso irritou a moça. Ela disse que não era uma estrela de cinema para ficar distribuindo fotos nem professora de jardim da infância. Elly aludia à evidente juventude de Bernd, que era dois anos e meio mais novo.

Claro que ele não desistiu. Começou descobrindo que o número de sorte dela também era o 13. Ele gostava de carros, ela de aviões, então ele passou a se interessar pela aviação também. Os dois gostavam de correr riscos então…

Um ás das pistas e uma aviadora famosa. Ele também vai se tornando uma celebridade e o casal parece reunir tudo que agradava o povo alemão na época. Jovens, bonitos, bem sucedidos, aventureiros no melhor sentido da palavra… Essa popularidade evidentemente não passou despercebida para um profissional da comunicação como Goebbels. Matéria prima de primeira para divulgar a superioridade ariana interna e externamente.

Himmler, um dos principais operadores do nazismo, recruta Rosemeyer para fazer parte das SS, a sinistra organização paramilitar nazista. Impossível recusar, sob pena de passar a ser perseguido pela Gestapo, a policia política. Todos os pilotos de destaque tinham que fazer parte do Corpo Nazista de Esportes a Motor.

Mas todos que viviam à volta de Bernd sabiam e comprovaram posteriormente que ele tinha horror ao partido e suas idéias.

Sabe-se que nunca usou o uniforme.

Na temporada seguinte o brilho continua.

O GP de Monaco é disputado sob chuva pesada.

Na 6a. volta ele tem que parar nos boxes para ajustar o cabo do acelerador. Na tentativa de recuperar o tempo perdido derrapa em uma poça de óleo e vai bater em um muro de pedra perto do Hotel de Paris. O choque faz com que um vaso ornamental de pedra caia ao chão. Exemplo do senso de humor/carisma de Rosemeyer: ele aparece nos boxes com o vaso nos braços. “Se não vou poder ganhar o troféu de vencedor, pelo menos vou levar este para casa”, diz sorrindo.

Os dois GPs do norte africano, Tripoli e Tunis, em maio, são um fracasso, o carro pega fogo em ambos. Nos treinos para o Penya Rhin (Barcelona) o sistema de direção falha e ele bate, machucando o nariz e o joelho. Na corrida fica 5 voltas parado para fixar um tanque de combustível e obtém um mero 5º.

Em Eifelrennen, Nürburgring, seu circuito favorito, tudo muda e seu brilho se torna fulgurante. É considerada sua obra-prima.

Apesar da chuva e neblina, como era habitual uma multidão foi ao autódromo, cerca de 300.000 pessoas.

Na hora da largada chovia torrencialmente.

Tazio assume a ponta, seguido por Rudi, que tinha largado da terceira fila, e Bernd. Comprovando a fama de mestre da chuva, ainda mais combatendo um rival sem equipamento à altura, Caratsch ultrapassa o mantuano no Karussell.

Mas este não desiste e dá o troco duas voltas depois. O duelo não prossegue porque Rudi teve que abandonar. Na disputa por mais potência com a AU a Mercedes tinha elevado a cilindrada para 4,7L e isso enfraqueceu o bloco. Os três primeiros lugares agora eram ocupados por uma Alfa, uma Auto Union e a Mercedes de von Brauchitsch. Nesse momento a neblina dá novamente as caras. É a hora de Bernd atacar Tazio. Ele passa na Südkehre e abre vantagem seguido por 3 Alfas, uma vez que von B também abandona, pelo mesmo motivo.

A visibilidade vai ficando cada vez pior, em alguns trechos não passa de 20 metros. A pista fica quase invisível. Mas Bernd parece ter faróis de neblina nos olhos (ou uma memória espetacular para um circuito tão longo) e mantém um ritmo forte. Percorre a Antoniusbuche a mais de 300 km/h! Nuvolari é o único que tenta acompanhar, mas sem chance. Bernd abre em média 30” por volta. E mesmo assim as Alfas fazem bonito, ocupando as 3 posições seguintes, com Lang em quinto. Reforça o brilho desse quinteto o fato das demais AU chegarem em 7º, 8º e 9º.

Assim como Caratsch era o Regenmeister, o Mestre da Chuva, Bernd passa a ser chamado de Nebelmeister – o Mestre da Neblina – após essa façanha.

Em Budapest, pista cheia de curvas, Nuvolari tem mais chances. O Alfa era menor que o Auto Union, e na ânsia de vencer Bernd fica com as mãos sangrando, tendo que tirar as luvas. Lá pela volta 35 ele não aguenta mais o esforço e diminui o ritmo. Tazio passa e vence. Como Senna em Interlagos, Rosemeyer não tem condições de usar as mãos para sair do carro e é preciso que os mecânicos o retirem.

Em 13 de julho Bernd e Elly se casam. 13 dias depois ele vence o GP da Alemanha (Nürburgring), 4’ à frente de Stuck, aplaudido por mais de 350 mil espectadores.

Largando em quarto, na terceira fila, ele pula para segundo, atrás de von Brauchitsch, seguido por Lang, Caracciola, Stuck, Nuvolari, Fagioli, Chiron.

Von B tem problemas com os freios e vai para os boxes. Bernd assume a liderança escoltado por Lang. Este quebra um dedo ao mudar uma marcha em Brünnchen mas vai se aguentando. Uma amostra de como os carros da época não eram nem um pouco…. amigáveis…. Quando pensamos no conforto que os pilotos atuais da F1 desfrutam…

Na volta seguinte Bernd já vira em menos de 10’, façanha inédita, uma vez que os tempos de classificação tinham estado acima dessa marca. Von B tinha virado a primeira volta em 10’24”, para se ter uma ideia. Abre 20” de Lang.

Caratsch vinha em terceiro, Tazio em quarto, mas é ultrapassado por Stuck na Südkehre. Rudi abandona na volta seguinte. Na 7a. Bernd para por 42” para trocar pneus e abastecer. Lang assume a liderança mas logo em seguida vai para os boxes, e é substituído por Rudi. O público vaia, até ficar sabendo pelos alto-falantes que Lang precisava de cuidados médicos.

Na volta 10 von B abandona, mas Lang, agora com o dedo imobilizado, se oferece para tomar seu lugar. A esta altura Bernd estava 2 minutos à frente de seu colega Stuck, com Tazio em terceiro.

Na volta 13 Louis Chiron, o famoso ex-piloto da Bugatti, estava percorrendo a longa Antoniusbuche quando sua Mercedes repentinamente derrapa para a esquerda e capota. Ele sofre apenas ferimentos leves na cabeça e nos ombros, felizmente.

Na volta seguinte Bernd e Rudi fazem suas segundas paradas enquanto Tazio abandona, com problema nas velas. Caratsch abandona com o carro de Lang, pouco depois. Quando Fagioli leva uma volta de Rosemeyer pára nos boxes e diz cruamente a Neubauer o que pensa a respeito da curta distancia entre-eixos do Mercedes. Este não se dá por achado e o substitui por Rudi.

Mas este também não podia fazer milagres e esse GP da Alemanha se mostra uma corrida desastrosa para a Mercedes.

No quesito “carro sem conforto” von Delius dá sua contribuição, terminando com bolhas sangrentas nas mãos.

Na Coppa Ciano Rosemeyer se apresenta diferente do habitual. Está desconcentrado e abandona na 6a. volta. O motivo? Elly estava cometendo mais uma façanha, sobrevoando três continentes em um único dia com seu Messerschmitt Taifun.

O marido novato ficou nervoso e, quando ela chegou, sã e salva, enviou um telegrama: “Parabéns, mas você não deve me deixar novamente.”

Em sua biografia Elly conta que não foi difícil tomar essa decisão: ele tinha um futuro mais promissor como piloto de GP do que ela como aviadora.

Ela passa a acompanhá-lo nas corridas e o efeito é espetacular: ele vence a Coppa Acerbo (Pescara), o GP da Suíça, a prova de subida de montanha da Alemanha, o GP da Itália e a subida de montanha Feldbergrennen, tornando-se campeão europeu, o que equivalia, em tempos pré-linhas aéreas de longo curso, ao título mundial, e campeão alemão de subida de montanha.

No GP da Suíça Bernd e Rudi se estranharam. Rudi estava na frente e bloqueou como pode o rival, gerando bandeira azul e punhos erguidos. Consta que a discussão continuou no hotel, diante das esposas. Parece que o vilão era mesmo Caratsch, porque na mesma corrida Bernd foi ultrapassar Tazio e errou a freada. Corrigiu de modo a não prejudicar a trajetória do italiano, arriscando a ser ele mesmo prejudicado. Entre outras coisas, isso gerou uma boa amizade entre os dois.

1937 começava com provas na África do Sul e as corridas de handicap Grosvenor, em janeiro. A Auto Union decidiu enviar apenas dois carros.

Bernd e Elly decidiram aproveitar para transformar essa viagem até a Africa do Sul em uma lua de mel, oito dias viajando com seu Messerschmitt Taifun. Elly naturalmente como piloto, Bernd como co-piloto e eventual mecânico. O critério de handicap tornava muito difícil a vitória para os carros da Auto Union (por isso a equipe reduzida) então mesmo dando o máximo, como sempre, Rosemeyer teve que se contentar com um 5º e um 2º.

Na viagem de volta, uma má noticia o alcança, o falecimento repentino de sua mãe.

6 thoughts on “Um misto de Steve McQueen e Ayrton Senna? – parte 2

    1. De fato, o fim não foi nada bom, mas vale a pena esperar. Tem uma nova perspectiva sobre esse ponto.

  1. Chiesa,

    vou aguardar a próxima parte de uma história que até aqui está sendo magnificamente bem contada para tecer meus comentários.
    Me encanta não só a história mas os videos e os carros …

    Parabens

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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