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A soma de todos os medos

Antes da corrida começar, tinha equacionado na cabeça: a Mercedes está com medo de perder; a Ferrari com medo de vencer; e a Red Bull não tem nada a perder.

Como se existisse destino, cada um acabou cumprindo, a seu modo, esses papeis com excelência no Azerbaijão.

1) O medo de perder

A Mercedes já percebeu que seus três anos de hegemonia da atual Era Híbrida da F1 se esvaíram e está apavorada com isso. E até mesmo a sorte de campeão está em falta, como foi o caso da corrida de abertura, na Austrália, em que um safety car (provocado pelo Perigoso Porca Solta) acabou colocando Sebastian Vettel na liderança e tirando uma vitória certa de Lewis Hamilton.

No Bahrein, um rendimento notoriamente inferior em relação à Ferrari, o que se repetiu na China, com diferença na, que Red Bull surpreendeu a todos com uma boa tática de pneus após Safety Car.

Em Baku, mais uma vez os prateados não estavam com o status de favoritismo, dado que o problema do novo F1 W09 é uma janela muito estreita de bom funcionamento dos pneus. Muito frio e não há aderência; muito calor, e os pneus acabam logo. E o fim de semana foi todo de ventos e asfalto gelado.

Mas a vitória acabou sorrindo para Lewis Hamilton, no que seria uma dobradinha capitaneada por seu companheiro Valtteri Bottas, pego de surpresa por aquele famoso personagem romano, o Detritus, que lhe rasgou um dos pneus a apenas dois giros do fim. Nem deu tempo de dizer “puxa, o Bottas vai passar o Hamilton no campeonat…” e o pneu furou! A gente gosta… mas ô esportezinho injusto!

Digno de nota o atraso do vencedor Hamilton para cerimônia do pódio. Ele fez questão de se encontrar com Bottas e consolar o companheiro que fez tudo certo, mas que não levou nenhum ponto pra casa.

O medo de perder da Mercedes se esvaiu apenas no final, já que o domínio, mais uma vez foi da Ferrari. Mas esta mais uma vez apresentou…

2) O medo de vencer

Kimi Räikkönen neste ano parece ter uma Ferrari mais ao seu gosto. Responsivo, sempre gostou de uma frente “pregada”, com ódio mortal a carros que saem de frente, aos quais nunca soube responder muito bem. Vinha sofrendo desde sua volta à Ferrari, em 2014, perdendo terreno primeiramente para Fernando Alonso, e em seguida para Sebastian Vettel.

Só que mesmo com um ótimo carro nas mãos, e mais afeito à sua tocada, Kimi parece ter imposto a si mesmo a famosa barreira da vitória, expressão cunhada por Jackie Stewart. Ele era o mais rápido dos treinos em Baku, e jogou fora a pole por um erro em sua tentativa final na Q3. Largando em sexto, encontrou Esteban Ocon nas primeiras curvas, e já ficou com bico avariado, comprometendo uma prova a qual poderia certamente ser o vencedor.

Räikkönen passaria toda a corrida mais uma vez de maneira burocrática, e soa como desaforo dizer que ele tentou seu máximo para ultrapassar Hamilton nas voltas finais.

Kimi hoje parece ser um piloto sem fome, o que em velhos tempos deixaria o Comendador fulo da vida. Ele parece não se importar em apenas pegar pódios pela equipe. Queria que o Kimi de 2005, que fez miséria em Suzuka, voltasse. Por enquanto, a opção de piloto para vitórias e títulos continua sendo apenas Vettel.

Quanto a Vettel, a certa altura da prova, eu o vi relembrando seus melhores momentos de Red Bull: pole, e liderança sólida, com ritmo estonteante. Ele nunca teve essa oportunidade a bordo de uma Ferrari, sempre a tentar alcançar o nível de excelência que a Mercedes impunha. O alemão passou a maior parte da prova claramente a puxar o ritmo, para fazer Hamilton derreter seus pneus. E estava conseguindo o que queria. Lewis gastou muito mais seus pneus, e foi obrigado a parar relativamente mais cedo, comprometendo uma possível virada de jogo. O inglês estava claramente em xeque.

A pergunta era como a Ferrari arruinaria uma corrida que era dela? Com o medo de vencer. Assim que ficou claro que o primeiro jogo de pneus com que todos largaram (vermelho, super soft) era bastante resistente, foi aberta uma interessante opção: em vez de calçar o soft amarelo, mais duro, por imposição da estúpida regra de troca obrigatória, os pilotos poderiam, com algumas voltas a mais na pista, colocar o pneu rosa, ultrasoft, com rendimento notadamente superior.

O que a Ferrari fez? Assim como na China, em análise sensacional do meu irmão Márcio Madeira, ficou fazendo marcação com a Mercedes de Hamilton em vez de cuidar da própria vida. Literalmente amarelou, colocando pneus duros para Vettel.

Tal atitude teve consequências logo adiante, quando foi acionado o Safety Car pelo acidente da volta 40 entre as Red Bull. Bottas acabava de herdar a liderança, parou e colocou pneus rosas, já que tinha a informação que esse composto aguentava bem por pelo menos 22 voltas, muito mais do que precisava rodar.

Para Vettel e a Ferrari não restou alternativa senão fazer um pit extra, abrindo mão da liderança, para colocar também pneus rosas, o que foi seguido por praticamente todos naquele momento.

E essa perda de liderança desencadeou o mergulho pra lá de otimista de Vettel na relargada, quando o alemão saiu completamente da trajetória, e ainda arruinou um jogo novinho de pneus, a ponto de perder posição não apenas para as Mercedes e seu companheiro Räikkönen, como para um valente Sergio Pérez e sua rósea Force India.

O mais irônico é pensar que, se Vettel não se arriscasse tanto na relargada, poderia ter herdado a liderança de Bottas, que teve seu pneu rasgado…

3) Nada a perder

O começo problemático da temporada fez a Red Bull, que tem um bom carro nas mãos, se comportar como um time franco-atirador. Não há como assumir um compromisso de luta pelo título, então seus pilotos estão livres para tentarem de tudo contra os adversários.

O problema é que em Baku, eles tentaram de tudo contra eles mesmos. E conseguiram!

O choque entre Daniel Ricciardo e Max Vertappen aconteceu exatamente às 10:28, no horário de Brasília. Eis que eu, no fervilhante grupo de whatsapp do GPTo, disse profeticamente às 9:37: “As Red Bull vão se bater, né?”.

Fiquei rindo uns bons minutos, assistindo ambos saindo de seus carros destruídos, cada um para um canto, para não estragar ainda mais o velório.

Apesar de ter a nítida impressão de que o rei das frenagens Ricciardo dessa vez teve mais peso na ocorrência, a Red Bull não quis nem saber de análises mais detalhadas. O cérebro do time, Dr. Helmut Marko, já determinou de uma vez que os dois são culpados, e que não só devem um pedido de desculpa a todos da equipe como deve fazê-lo em visita oficial à sede da Red Bull em Milton Keynes.

Eles vinham em 4º e 5º lugares, atrás de Hamilton e à frente de Räikkönen. Ou seja, é realista dizer que brigariam por pódio ao fim da corrida, sobretudo porque tinham pneus rosas, contra Hamilton e Vettel com pneus amarelos, duros como torresmo de bar.

A Red Bull também tem seu próprio medo. O de autoimplosão. Agora todas têm seus próprios medos!

Nota rápida: eu detesto o termo “corrida maluca” usado no esporte a motor. Esse termo deve ficar restrito àquela famosa série de desenhos dos estúdios Hanna Barbera, em que o Dick Vigarista sempre conseguia perder no final, pra Penélope Charmosa, os Irmãos Rocha, o Peter Perfeito e toda a turma.

Quem usa o termo “corrida maluca” para o GP do Azerbaijão é porque não tem capacidade analítica de escrever boa coisa. Pronto, falei.

Com um ótimo rendimento, sobretudo nas retas, a Force India aparecia como a quarta força da corrida, com boas perspectivas. Mas Esteban Ocon bancou o otimista imprudente, acabando no muro ao fechar Räikkönen, e Sergio Pérez também foi nocauteado logo nas primeiras curvas, acumulando ainda uma punição.

Eis que Pérez faz uma exibição de excelência, e driblando a destruição que o cercava, fechou a corrida em terceiro, como já havia feito em 2016. O mexicano está virando o rei dos pódios alternativos.

Enquanto isso, a Renault, que apareceu tão bem nas primeiras voltas, foi fogo de palha: seu bom rendimento, a rivalizar com Red Bull, só aconteceu quando seus pilotos estavam calçados de ultramacios.

Mas é uma equipe em crescimento.

Fernando Alonso fez o que chamei de “Double Gilles”. Chegou aos boxes aparentemente nocauteado, destruído, mas mandou botar pneus novos, bico novo, seguiu em frente e conseguiu mais um sétimo lugar na caderneta.

“Muitos pilotos nessas condições simplesmente estacionariam o carro”, disse o asturiano que é 6º no campeonato, à frente de pilotos com carros notadamente superiores ao dele…

Grosjean, meu filho, como te defender? Justo eu, que estava contente pra caramba com sua 6ª posição nas voltas finais, após largar em último. Está mais fácil defender o Sérgio Cabral.

O que faz a corrida no Azerbaijão tão divertida? A combinação de um traçado urbano com retas infinitas e asfalto liso como teflon, que ainda por cima fica empoeirado, já que não é um circuito permanente.

Esse cenário cria uma dificuldade para fazer o set-up dos carros, e de administrar os pneus, e isso explica tantas táticas variadas. Faço minhas as palavras do meu querido amigo e colega JC Viana:

Quando a F1 aportou pela primeira vez em Baku em 2016, a corrida no exótico Azerbaijão tinha toda a pinta de ser mais uma herança maldita da gestão Bernie Ecclestone, que com sua enorme sanha por dinheiro, chegou junto em mais um governo ditatorial querendo aparecer no mundo e bastante disposto em gastar o dinheiro necessário com esse intuito. A primeira corrida insossa aumentou a ojeriza à Baku, que teve pouco público e emoção dentro da pista, principalmente com a catarse que havia acontecido minutos antes em Le Mans. Veio 2017 e tivemos uma corrida diferente, com várias zebras e histórias para contar. A verdade é que o circuito de rua à beira do Mar Cáspio começava a criar uma identidade. Algo que poucas pistas têm ou tiveram. No Azerbaijão, o vento forte era um fator importante num circuito de rua em que os carros atingem 330 km/h no final da reta quase infinita dos boxes, mas tem trechos bastante estreitos como na bela subida do castelo. Se em 2017 a corrida já tinha sido animada, a de 2018 foi ainda melhor, reunindo todos os ingredientes para uma corrida que já entrou para a história e terá muitas consequências, principalmente na equipe Red Bull.

A pista de Baku nos lembra que a F1 urge de traçados bastante diferentes entre si, uma das maneiras naturais de provocar diferença de performance entre os times. Isso quer dizer que, se Berni caiu, Hermann Tilke também tem que cair. Não canso de dizer que ele se autoplagia em cada autódromo que projetou. Como esperar resultados diferentes em circuitos que são todos iguais?

Termino com calorosos cumprimentos a Charles Leclerc, piloto do dia, que com seu 6º lugar com a Sauber (Alfa Romeo!) é o primeiro monegasco a pontuar desde Louis Chiron… em 1950!

Abração!

3 thoughts on “A soma de todos os medos

  1. Grande Lucas!!

    Essa corrida foi muito boa mesmo, e confesso que não esperava por tanto.

    O crash caseiro da Red Bull, me lembrou de um também crash caseiro que os energéticos nos brindaram na Turquia 2010, o que é sempre bom!

    rsrs

    Agora, para o campeonato, ficou muito boa esta situação, e como o Mário Salustiano comentou no domingo, Vettel nestas duas ultimas provas, perdeu 21 pontos.

    Vamos aguardar o quanto este número irá fazer falta no desfecho do campeonato.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  2. Engraçado que o Kvyat por pouco menos foi chutado da equipe…já pensou se o Verstappen volta para a Toro Rosso?rs
    Como disse o Fernando eu achei que o Max forçou pra cima do Ricciardo, porém pior que ele só o Magnussen, nossa, esse cara é sujo demais na pista.

  3. Lucas,

    vou discordar de você sobre dois pontos cruciais da corrida.
    A primeira foi a batida entre Ricciardo e Verstapen …
    a explicação foi dar depois de comentar o 2º ponto. O erro de Vettel na relargada em que jogou a sua corrida fora e a liderança dele também.
    Não vi ninguém exaltando a defesa de posição pelo Bottas. De maneira limpa e esportiva ele deu espaço para Vettel passar. Não fechou como Magnussem fez e nem como Verstapen costuma a se defender. A manobra do Bootas foi tão perfeita que ele saia que pela situação ele no mínimo teria uma chance de dar um “X” e retomar a liderança. Ele deixou Vettelsem chance de fazer uma boa tangência na curva.. V. Bottas foi perfeito em sua manobra. O que cabia a Vettel fazer? … A unica chance dele tentar alguma coisa na corrida .era na relargada. Naquele momento a corrida era do Bottas. Vettel não tinha como ser mais rápido que ele. Os problemas de Vettel já apareciam no meio da corrida ao reclamar dos pneus. O de Bottas não. Sinal que era o carro que melhor lidava com as temperaturas deles, talvez aí o cheque mate da Mercedes em cima da Ferrari. Vettel fez o certo até por que não sabia que o pneu de Bottas ia estourar. Me desculpe mas não concordei com sua opinião neste sentido. O que Vettel não sabia era que ia se dar muito mal com esta manobra, mas no lugar dele faria a mesma coisa. Carreras são carreras.
    Voltando ao 1º ponto, Verstappen deveria ter feito o mesmo que Bottas. Era simples. Ele ia dar o “X e ponto. Mas ele preferiu entrar na frente, ou espremer e aí não deu tempo para Ricciardo evitar o que aconteceu. Foi erro de estratégia apenas e não uma culpa pelo acidente. Para mim foi acidente de corrida.
    Agora o que eu gostei a corrida foram os imprevistos. Acho muito bom as corridas terem estes imprevistos. Faltando 10 voltas para terminar a corrida, para mim o pódio estava definido com Bottas, Vettel e Hamilton. No fim não foi assim. Hamilton com sorte campeão venceu e tomou a liderança do campeonato. E o Raikkonen chegou em segundo. O cara fez uma bela corrida de recuperação ou não? … A situação dele na Ferrari não difere a que Barrichello tinha na época do Schumacher e do Massa na época do Alonso.
    Falando em Alonso ele foi genial.
    O circuito de Baku merece elogios. Cicuito de rua, com a maior reta da Formula 1, pontos estreitos onde só passa um carro de cada vez e muitos pontos de ultrapassagens. Imagina se Mônaco fosse assim.

    FernandoMarques
    Niterói RJ .

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