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Um misto de Steve McQueen e Ayrton Senna? – parte 4

Confira as partes anteriores clicando aqui.

A Vandervilt Cup consistia em 90 voltas no Roosevelt Raceway, de 5,64 km, em Nova Iorque. Nesse ano de 1937 ela teve lugar no dia 5 de julho, uma segunda-feira, atraso de dois dias por causa da chuva.

As duas montadoras alemãs e a Alfa Romeo, por meio da Scuderia Ferrari,

sua equipe oficiosa, decidiram participar dessa prova apesar de ser próxima demais do GP da Bélgica. Provavelmente consideraram boa ideia uma exibição para o mercado americano, talvez também gesto de boa vontade política, além do valor dos prêmios. Me parecem bem atraentes: USD$ 20.000 para o primeiro, $ 10.000 para o segundo, $ 5.000 para o terceiro… Dólar da época valia muito mais do que vale hoje.

Lembro que ainda no inicio da década de 70, antes de Chapman introduzir o Gold Leaf Team Lotus, os prêmios de largada e chegada eram importantes para as finanças das equipes.  

Por isso cada equipe enviou somente dois carros e dois pilotos, mas era o que havia de melhor. Durante a viagem de navio Tazio, que tinha perdido o pai recentemente, recebeu a horrível notícia de que seu filho mais velho, Giorgio, tinha morrido. Sua participação tornou-se compreensivelmente incerta.

Em outro navio, Caracciola era só felicidade. Aproveitava essa viagem para fazer sua lua de mel.

A pista tinha sido modificada para este ano e estava mais rápida. Não agradou nada aos europeus, tinha curvas cegas que dificultavam encontrar os pontos de frenagem. Havia uma cerca de madeira que impedia a visão.

Caracciola fez a pole, seguido por Rosemeyer. O terceiro lugar ficou para o piloto local Rex Mays, com uma Alfa 8 cilindros que tinha sido carro reserva da equipe italiana no ano anterior. Ela tinha sido modificada, contava agora com um grande compressor e cometeu a façanha de se classificar adiante das 12 cilindros trazidas da Italia para a prova deste ano.

Também é digno de nota que a Mercedes resolveu instalar um novo sistema de compressor e carburadores (carburadores de sucção), visando melhorar a prestação nas rotações médias. O resultado foi tão bom que aposentou definitivamente o tradicional ruído de seus motores, que vinha desde Eifelrennen 1934.

Dada a largada 80.000 espectadores viram Rosemeyer se lançar vigorosamente para a esquerda e assumir a ponta na primeira curva, seguido por Rudi, Rex, Tazio (que tinha decidido competir), Seaman (Mercedes) e o futuro campeão do pós-guerra Farina.

Na quarta volta Seaman passou Nuvolari e Rudi passou Bernd, logo abrindo 6 segundos. Billy Winn, um piloto local, brilhava passando Farina, Nuvolari e encostando em Seaman, passando a brigar pela quarta posição até ter problemas mecânicos. Na volta 11 Bernd volta a ultrapassar Rudi, que não se entrega, e os dois passam a duelar furiosamente, se distanciando dos demais.

As Alfas não eram páreo para as máquinas alemãs mas isso não impedia Tazio de dar tudo que tinha. Era o que ele sempre fazia. Já tinha passado Seaman quando na volta 16 o motor entrega os pontos.

Na volta 22 é a vez de Caratsch abandonar, com falha no compressor.

Seaman passa a encurtar a distância para Bernd, seguido pelo surpreendente Rex Mays, von Delius e Farina.

Na volta 38 Rosemeyer pára por 35” para trocar pneus e abastecer. Seaman passa à frente e abre 30”. Mays também pára, por 78”, e Farina faz o mesmo na volta 40, mas agora Tazio assume seu posto.

Bernd retoma a liderança quando Dick Seaman pára na volta 46. Em grande forma, apesar de tudo, Tazio passa von Delius, que é seguido por Winn, que se mantém na pista. O Mantuano continua avançando e passa Mays.

Mas na volta 70 o motor começa a falhar e ele vai aos boxes, devolvendo o volante para Farina tentar chegar ao fim, coisa que ele consegue, em quinto.

Dick Seaman consegue se aproximar de Bernd, mas é obrigado a fazer uma parada extra para abastecer e tem que se contentar com o segundo posto, 50” atrás.

 

Qual a relação de Rosemeyer com o nazismo?

Convém lembrar que em 1938 ninguém tinha uma ideia clara do que viria a partir do ano seguinte. O que estava claro é que já em 33, quando Hitler se tornou chanceler e posteriormente chefe de governo, com a morte do presidente Marechal Hindenburg, a Alemanha estava novamente com uma capacidade industrial extraordinária. Exibia tecnologia e inventividade nas mais diversas áreas. Muita gente nos USA, por exemplo, via com simpatia o regime nazista, a começar por Henry Ford e Charles Lindbergh. O avião Ford Trimotor por exemplo, feito por associação entre um empreendedor americano e Henry Ford, foi objeto de ação da Junker, que o achou “extremamente parecido” com seu modelo Ju52, avião básico de transporte de passageiros e tropas durante todo o conflito mundial.

Nessa edição da Vanderbilt Cup foram os americanos que pediram para que as equipes alemãs enfeitassem seus carros com a suástica, coisa que hoje parece absurda.

Um rapaz com tanto potencial como “garoto-propaganda” como Bernd não poderia escapar ao olhar de um profissional como Goebbels. Por isso ele recebeu uma patente de oficial das SS, Obersturmführer (primeiro-tenente), por sua vitória em Eifelrennen em 36. Com a vitória em Nova Iorque, foi promovido a SS-Hauptsturmführer (capitão).

No GP da Alemanha em Nürburgring Bernd chega de avião, pousando numa pista (Flugplatz) junto ao circuito, taxiando em sentido contrário para chegar direto até os boxes.

Na classificação ele faz mais um prodígio, conquistando a pole por impressionantes 6” de diferença.

Antes da corrida o Korpsführer Adolf Hühnlein, o oficial nazista destacado para a categoria GP informou aos pilotos que manifestações públicas de afeto, como trocar beijos com esposas ou namoradas era considerado um comportamento não-ariano, portanto em desacordo com o regime vigente.

Depois de levarem os carros para o grid, liderados por Rosemeyer todos os pilotos correram para os boxes e beijaram afetuosamente suas companheiras, para alegria dos torcedores.

Durante a corrida Bernd escapou da pista várias vezes mas, após 4 horas, chegou em terceiro (Rudi venceu). Em certo momento ele voltou para a pista com um tanto de feno enroscado na roda traseira. Chegou a estar 80 segundos atrás de von Brauchitsch e reduziu para 15”. Outros teriam se acomodado, mas Bernd não.

GP da Alemanha, equipes alemãs e pilotos alemães no pódio, prato cheio para a propaganda política. Rudi recebeu um enorme troféu, com uma figura feminina representando a Deusa da Velocidade. Sem medo da Gestapo, Bernd enfia seu cigarro aceso nos lábios da Deusa, enquanto Hühnlein está de costas para ele. O público irrompe em gargalhadas. O zeloso nazista se volta para ver o que está acontecendo de divertido naquele momento solene, de celebração da superioridade ariana. Olha para Bernd e este está com sua melhor expressão de inocência. Outros aproveitariam a ocasião para ficar de bem com os poderosos de plantão mas… Bernd não.

A nota triste desse corrida é que Seaman e von Delius se enroscaram a 250 km/h em uma reta, porque este, na tentativa de ultrapassar, raspou na cerca viva e, desequilibrado, tocou na Mercedes. Seaman foi bater em um poste de telégrafo, fraturando o nariz. Von Delius quebrou uma perna, mas sofreu uma serie de ferimentos internos e veio a morrer no dia seguinte em decorrência deles. Era o melhor amigo de Rosemeyer.

Bernd vai com o Taifun a Cannes, para o GP de Monaco. Na volta 19 ele escapa no Gasômetro e vai parar nos sacos de areia que funcionavam como amortecedores de choques na época. O sistema de direção fica imprestável e ele mais uma vez passa em branco, no que seria sua última tentativa nessa pista. Mas ainda voltaria com o carro de Stuck, para terminar em quarto.

A Coppa Acerbo começa com mais uma das peraltices de Rosemeyer. Devido ao calor, ele se classifica sem camisa, de shorts, luvas, sandálias e aquele – digamos – capacete. Faz a pole com 10’32″ e Rudi o segue com 10’56”. Nuvolari estreava a nova Alfa 12C/37 e as esperanças italianas cresciam, a montadora milanesa deixava de ser representada pela Scuderia Ferrari e voltava a ser Alfa Corse, equipe oficial de fábrica. Mas os resultados não corresponderam. Na corrida mais uma façanha extraordinária de Rosemeyer: na volta 7 ele e Caracciola, que o seguia de longe, param para trocar pneus e a equipe Mercedes consegue desenvolver seu piloto à pista mais rápido. Na volta seguinte, em uma derrapagem controlada Bernd bate com a roda traseira direita no marco de 10 km (lembrando que o circuito era composto por estradas) e ela sai rolando até ir parar no… depósito de pneus do boxe da Auto Union, para espanto dos mecânicos. O espanto aumenta quando o carro entra em seguida nos boxes, sem a roda. Rosemeyer volta andando novamente no limite, como é habitual, e vence. Era a 13a. edição da Coppa Acerbo. Destaque para Fagioli, que tinha estado longe das pistas devido a um reumatismo. Ele ainda não tinha se recuperado e precisa de ajuda para poder sair do carro, após chegar em terceiro. Não se pode acusar essa turma de falta de empenho, não?

Embora tivesse conseguido diversas vitórias frente o rolo compressor da Mercedes, Bernd pensava em melhorar ainda mais a equipe. Para isso achava que a lenda, Tazio Nuvolari, seu amigo, seria uma grande aquisição, e naturalmente tornaria a equipe mais forte. Era voz corrente na época que tanto Mercedes quanto Auto Union recebiam subsídios do governo nazista, o que em parte explicava sua superioridade tecnológica e material, mas o mesmo não ocorria com a Alfa Romeo, que na maior parte do tempo foi representada pela Scuderia Ferrari. Por isso de certa forma era um desperdício um piloto como Nuvolari não ter chances de vencer.

No GP da Suíça Tazio é inscrito pela Auto Union. O mau resultado da Alfa a obriga a dar uma parada geral e seu principal piloto é liberado. Debaixo de chuva, Bernd comete um erro e sai fora da pista. Alguns torcedores o ajudam a voltar mas a desclassificação é certa. Ele então pega o carro de Nuvolari, que ainda estava se adaptando ao monstro de motor traseiro, faz a volta mais rápida e termina em quinto.

Mais uma vez usa o Taifun para se deslocar, desta vez para Livorno, onde teria lugar o GP da Italia. Durante o voo ele se resfria e sofrendo com uma forte dor de garganta não consegue ir além de um terceiro lugar.

No GP tcheco, outro resultado ruim mas precedido de show. Ele liderava quando os freios bloquearam e bate na nona volta. Pega o carro de Müller, novato vindo de excelente carreira nas motos, como ele, que estava em quarto e parte para a briga com as Mercedes. Estava a 48 segundos de Seaman. Quando abrem a última volta ele ultrapassa o inglês e reduz a diferença para von Brauchitsch para meros 5 segundos.

Donington é a última prova. Até aquele momento a Inglaterra não tinha tido o prazer de ver um GP. Cerca de 50.000 pessoas comparecem. Ao contrário do que ocorre hoje, o Reino Unido não tinha carros nem equipes que pudessem fazer frente às Mercedes e Auto Union. Seus melhores representantes eram os ERA, voiturette, categoria até 1.500cc. Von Brauchitsch fez a pole com 2’10”, Bernd o 2º tempo um segundo mais lento, com Lang e Seaman completando a primeira fila. As duas primeiras ERA se classificaram com 2’26…

Os ingleses estavam tão desinformados do que ocorria no continente que suas casas de apostas pagariam meros 5:1 em caso de vitoria de Rosemeyer. Percebendo isso os mecânicos alemães apostaram forte nos seus pilotos.

Dada a largada Lang assume a liderança, seguido por Rudi, von B, Seaman, Bernd, Müller e Hasse. Bernd logo passa Seaman e este se enrosca em seguida com Müller na curva Coppice, saindo fora da pista. Caratsch tinha optado por fazer uma única parada, assim ia em velocidade de cruzeiro, esperando para dar o bote mais tarde.

Na volta 12 Lang passou a ter problemas para manter o carro na pista e von B passou à frente.

Na volta 23 Lang entra nos boxes e os mecânicos descobrem que um amortecedor dianteiro tinha quebrado. Suas chances acabam ali. Von B pára para trocar pneus e Bernd passa a liderar, com uma vantagem de 30”. A raposa Caracciola em terceiro, von B., Müller, Seaman, Hasse, era a ordem dos “big guns”. Na volta 29 Seaman descobre que também tem problemas com amortecedor. Na disputa com Müller logo no começo um amortecedor traseiro foi danificado e agora entregava os pontos, tirando da prova o único piloto britânico com alguma chance de sucesso.

Na 32a. volta Bernd pára para trocar pneus, gastando 31”. É o momento que Rudi aguardava para assumir a ponta. Mas ele não esperava que a concorrência imediata viesse de um colega de equipe. Um agressivo von Brauchitsch ataca e ultrapassa 4 voltas depois. Na volta 40 Rudi faz sua única parada programada e cai para terceiro. Bernd está agora 24” atrás do líder. Os dois passam a andar no limite e von B consegue aumentar em mais 2” sua vantagem. Fatores inesperados sempre podem vir misturar as cartas e um pneu dianteiro de von B estoura, quando ele estava a 175 km/h. Ele consegue controlar, vai para os boxes mas agora passa a ter uma desvantagem praticamente inalcançável em condições normais, 30”. Bernd obtém sua 13a. e última vitória. Rudi termina em terceiro.

O espírito esportivo inglês, uma das características tidas como típicas desse povo, parece ter sido pego desprevenido. Não apenas esquecem de tocar o hino alemão como os operadores das casas de apostas tratam de desaparecer de vista, para evitar pagar altas somas aos mecânicos alemães. Os organizadores precisam intervir e resolver o problema para não passar vergonha.

2 thoughts on “Um misto de Steve McQueen e Ayrton Senna? – parte 4

  1. Chiesa,

    a história continua um deleite assim como os vídeos … legal que naquela época andar de avião também deveria ser um risco danado e o Rosemeyer usava seu Taifun para se deslocar entre uma e outra corrida …
    O Flavio Gomes considera o Rosemeyer como o melhor piloto já visto nas pistas … e a história parece não mentir neste sentido …

    Fernando Marques
    NIterói RJ

    1. Muito gentil, Fernando. Desconheço a idade do Flavio Gomes, mas seguramente não tinha nascido em 1936, 37. Assim como acho injusto não considerar Bernd e seus contemporâneos em uma lista de melhore de todos os tempos, apenas porque não os vimos correr, acho que não podemos proclamar que um deles foi o melhor de todos os tempos. Qual a base? Em alguma coluna antiga reproduzi uma frase de Eric Hartmann sobre quem era o melhor piloto de caça que ele já vira. Eric é o mais bem sucedido piloto de caça de todos os tempos, com cerca de 350 aviões inimigos abatidos. Mais excepcional que isso, nunca perdeu um ala, o companheiro que lhe protegia. Sobreviveu à guerra, mesmo tendo lutado contra os russos, que nunca se destacaram pela piedade com seus prisioneiros. O que Eric respondeu? Que provavelmente foi algum piloto sem treinamento suficiente, obrigado a decolar em missão ainda despreparado, e que não retornou. Sua modéstia pode parecer forçada, para não bater no peito diante de uma pergunta direta, ou mesmo para não encher a bola de algum colega rival, mas não vejo dessa forma. Quantos pilotos vimos na F1 que, por diversos motivos, mostraram talento mas não conseguiram se firmar? Penso que seria trabalhoso demais poder fazer médias ponderadas entre pilotos que tiraram muito de pouco, se não venceram nenhuma corrida. Dando um exemplo prático, sobre Baku: vitória imerecida para Hamilton, prémio merecido de piloto do dia para Leclerc. Mas o que vai ficar nas estatísticas frias é a vitória de Hamilton e pronto. Daqui 50 anos ninguém notará que a façanha de Leclerc supera imensamente o atuação de Lewis, que aliás só se destacou por ter se portado cavalheirescamente com seu colega de equipe.

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