Alex, o baixinho voador

Quando se fala em “Atletas de Cristo” geralmente pensamos naqueles jogadores de futebol que, indisciplinados, vestem faixas ou camisetas com o nome de Jesus após alguma conquista coletiva, oferecendo gols e troféus a um deus que os selecionou para vencerem nas profissões que escolheram.

São geralmente muito famosos, e pensam realizar missão evangelística ao anunciarem suas vitórias como bênçãos dessa divindade. Há até lutadores de MMA no pacote, dedicando a esse deus o sangue, o braço quebrado ou o desmaio de seus adversários.

Não se pode afirmar, mas parece mais uma jogada publicitária. No entanto, como diz o apóstolo Paulo em sua carta aos Filipenses (cap. 1, v. 18), “que importa? O importante é que de qualquer forma, seja por motivos falsos ou verdadeiros, Cristo está sendo pregado”.

A origem da missão, porém, aponta para outra direção.

Nos anos 80, o movimento evangélico começava a crescer no Brasil. Já em 1977 surgia a famigerada Igreja Universal do Reino de Deus, em número a maior congregação dita neopentecostal.

Pela primeira vez na história, a Igreja Católica — que até a Proclamação da República era a única religião permitida no território nacional — se via numa posição de “desafiada”. Surgia então muita confusão, muita desinformação, muito preconceito na acepção da palavra.

“Crente” era termo pejorativo, “capa preta” era a Bíblia “dos evangélicos”, igrejas históricas eram confundidas com seitas e todo o mais. Assumir essa fé, portanto, era um risco grande para pessoas públicas, ainda mais aquelas com forte apelo midiático.

Mas alguns personagens do esporte foram contra essa regra. Um deles era Baltazar, centroavante conhecido como “O Artilheiro de Deus”. E o outro era Alex Dias Ribeiro, piloto, o nono brasileiro a correr na Fórmula 1.

Mineiro, Alex passou sua infância em Brasília. Na capital federal, ele sagrou-se bicampeão metropolitano de kart (1970 e 1971). No ano seguinte ao segundo caneco, faria sua estreia na Fórmula Ford. De cara, o vice-campeonato, mas um ano depois teria sua maior conquista, levando o título da categoria.

O troféu o credenciaria a começar sua carreira na Europa. Alex chegaria à Fórmula 3 Inglesa, o grande passaporte dos pilotos brasileiros que brilharam e brilhariam na Fórmula 1. O título não veio, ele sendo vice campeão tanto em 1974 quanto em 1975.

O próximo passo seria a Fórmula 2, último degrau para se chegar ao Olimpo do automobilismo.

A edição de 1976 foi para ele um bom campeonato, de forma geral: conquistou 4 pódios (dois segundos e dois terceiros lugares) e terminaria o certame na quinta colocação. Os três primeiros? Jean-Pierre Jabouille, René Arnoux e Patrick Tambay, todos donos de vitórias na F1 futuramente. Alex terminou a disputa à frente de nomes importantes como Keke Rosberg e Eddie Cheever.

Mas foi ali que ele começaria a perceber que sua grande corrida era outra…

Imagine a cena: um carro com um desenho de uma mulher sensual — estilo pin-ups — para fazer propaganda de uma revista erótica (inimaginável numa época em que as ‘grid girls’ deixam de aparecer…). Vá além e pense no surreal: esse mesmo carro é pilotado por alguém que estampa “Jesus Salva” em seu capacete.

Ironia do destino, essa foi a estreia de Alex Dias Ribeiro na Fórmula 1: pela equipe Hesketh, patrocinada pela Penthouse.

Provavelmente ele lembrou do que disse o apóstolo Paulo em sua carta à Igreja de Corinto (ep. 1, cap. 6, v. 12): “todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convém”. Ele conseguiria se qualificar para a prova, partindo no 22º lugar, e galgou algumas posições, ou se beneficiou do abandono de alguns adversários, terminando na 12ª colocação, a duas voltas do vencedor.

(Dizem as línguas, não sei se boas ou más, que Alex distribuiu Bíblias a seus mecânicos, os quais aceitaram de bom grado — diante, especialmente, da postura do piloto –, mas que preferiam os exemplares da revista que recebiam…)

Já era o penúltimo GP do ano, e Alex correria a temporada seguinte pela March. Na nova equipe, outra ironia — embora essa menos surpreendente: o patrocinador era uma marca de cigarros, e o logo “Hollywood” dividia a carenagem com a inscrição “Jesus Saves” (às vezes em outras línguas).

Se perguntado por que usou a mensagem, Alex provavelmente citaria o Apóstolo Paulo em sua carta aos Romanos (cap. 1, v. 16): “Porquanto não me envergonho do Evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que nele crê”.

Seus melhores resultados na F1 aconteceriam naquela temporada: ele foi o oitavo colocado em duas provas, Alemanha e Canadá. Em outros GPs, ele sequer conseguiu se classificar para a largada.

A ausência de pontos, e também a importância dos patrocínios, influenciaram decisivamente e Alex não consegue contrato para a F1 no ano seguinte. No entanto, ele defende a March na Fórmula 2 e consegue uma vitória.

Em 1979 formou dupla com Emerson Fittipaldi na lendária Copersucar. Poucas corridas e nenhum ponto.

Era o fim amargo de um sonho. No entanto, Alex certamente lembrou do Apóstolo Paulo mais uma vez, quando ele falou aos Coríntios (ep. 2, cap. 12, v. 10): “regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades (…), pois quando sou fraco é que sou forte”.

Após sua passagem pela Fórmula 1, Ribeiro deixou temporariamente as pistas, mas não parou de correr. Entre 1983 e 84, participou do Brasileiro de Marcas.

A essa altura ele já havia entendido que corrida deveria vencer, e em 1986 tornou-se diretor executivo nacional da Missão Atletas de Cristo, fundada pelo ex-goleiro do Galo, João Leite, dois anos antes. Alex iria exercer essa função até 2007.

Ainda nos anos 80 pilotou na Fórmula Ford e na Fórmula 3 Sul-Americana, mas intensificou seu trabalho discipulando e influenciando atletas das mais diversas modalidades. Por exemplo, é ele quem vai levar a mensagem para Ayrton Senna, que a assumiu com muita intensidade no final daquela década, especialmente a partir do famoso acidente em Mônaco.

No seu cargo — ou em razão dele –,  Alex atuou como palestrante e mentor de atletas em cinco Copas do Mundo e três Olimpíadas, acompanhando e fortalecendo os atletas brasileiros. Também lançou livros que tornaram-se best-sellers, e segue em palestras motivacionais país afora.

Alex retornaria à F1 20 anos depois de sua saída da Copersucar. Entre 2000 e 2002 foi o piloto do Medical Car da FIA. Nesse período, conviveu intensamente com o grande Sid Watkins, já tantas vezes relembrado aqui no GPTo (leia as colunas de Lucas Giavoni e Lucas Carioli sobre o doutor).

Inesquecível a cena do GP do Brasil de 2002, quando Alex por muito pouco não foi atropelado por Nick Heidfeld.

O parágrafo abaixo é um trecho extraído do livro “Sucesso e Significado”, de sua autoria:

“Paralelamente a minhas funções de ministro do evangelho e burocrata do esporte, Deus me permitiu voltar a pilotar. Esse tempo de grande fluxo de adrenalina e alegria foi uma dádiva de grande valor para a cura dos traumas do coração com o fechamento de um ciclo aberto em meu passado, através de um sepultamento decente para minha carreira. Esse processo agregou um significado extraordinário à minha existência, uma enorme gratidão a Deus e a uma das pessoas mais extraordinárias que já conheci: O Professor Sid Watkins”.

A forma como Alex entende a oportunidade de pilotar o Safety Car é sublime. Provavelmente, ele lembrou do Apóstolo Paulo novamente, cumprindo à risca o que ele disse a Timóteo (ep. 2, cap. 4, v. 7): “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé”.

No início deste texto eu falei sobre os anos 80 e o início da efervescência evangélica no Brasil.

Resulta que sempre haverá mais trigo do que joio, e no mesmo período em que a igreja hoje dona de canal de TV surgia, aparecia também um dos grupos vocais mais talentosos do Brasil: o Rebanhão.

Em 1984, Janires, um dos membros do conjunto, compôs “Alex, o Baixinho Voador”, justa homenagem ao piloto: “no céu quando você chegar (…) vai descobrir que as derrotas aqui foram consideradas vitórias pelos anjos”.

Marcel Pilatti

4 thoughts on “Alex, o baixinho voador

  1. Boa tarde, Marcel. Excelente artigo sobre um dos lendários do automobilismo brasileiro. Só tenho uma ressalva: Se referir a Jesus Cristo como “essa divindade” pareceu um desdém ofensivo contra a fé de milhões de brasileiros e tantas centenas de milhões de cristãos no mundo. E, como você mencionou citando vários versículos bíblicos, Alex nunca deixou de divulgar sua fé e suas convicções cristãs. Mesmo em meio a patrocinadores como a revista Penthouse e os cigarros Hollywood. No mais devo acrescentar que Alex foi, inclusive segundo outros artigos do GpTotal, “fritado” na March por influência de Bernie Ecclestone devido à recusa de assinar contrato para correr na Brabham em 77. Resumindo: outro grande piloto, embora não tão genial quanto Emerson e Piquet, que teve o talento minado em carros péssimos e/ou defasados graças à armação do baixinho inglês.

  2. O Alex Dias Ribeiro deu muito azar quando chegou na Formula 1. No ano anterior quando ele divulgou que correria pela March, todos tinham certeza que ele estava numa equipe que tinha um bom carro, afinal a March se mostrava competitiva … mas em 1976 … ela fez o pior carro de sua história …
    Como piloto sempre achei ele “mais fraco” que seus mecânicos Nelson Piquet e Roberto Moreno, mas era muito bom de braço …
    Quanto ao seu lado religioso, o que sempre admirei nele foi o fato dele não precisar “apelar para o sensacionalismo” para divulgar a sua fé … ele sempre foi discreto e bem diferente do que a gente costuma na ver na TV …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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