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Um misto de Steve McQueen e Ayrton Senna? – final

Confira as partes anteriores clicando aqui.

Terminada a temporada, Bernd teve um tempo para se dedicar a Elly e Bernd Jr., que nasceu em novembro.

Sabendo que a Auto Union agora iria ter, além da sua estrela fulgurante alemã a lenda Nuvolari, a Mercedes tratou de se mexer. O que ela poderia fazer para impressionar a opinião pública antes da temporada começar?

O recorde de velocidade pura estava em poder da Auto Union.

Então que tal tentar se apropriar dessa marca? Que tal 28 de janeiro, pouco antes do salão do automóvel de Berlim?

As providências foram tomadas e feito o pedido de bloqueio da autobahn Frankfurt-Darmstadt-Heidelberg. Assim que soube disso a direção da Auto Union decidiu contra-atacar. Robert Eberan von Eberhost debruçou-se sobre a prancheta e concebeu um chassis novo, revolucionário, inteiramente carenado, com rodas cobertas para canalizar o ar em baixo do carro. Tudo pensado para criar vácuo. Portanto antecessor dos Chaparral, carros-asa etc..

Para termos uma ideia do que era, naquela época, essa tentativa de recorde sob o ponto de vista do piloto, vamos ver o testemunho do próprio Rosemeyer:

“… na faixa de 240 mph as juntas de concreto da pista da auto-estrada parecem como explosões, gerando a correspondente ressonância dentro do carro, mas isso desaparece em velocidades mais altas. Quando se passa em baixo dos viadutos o piloto recebe um terrível golpe no peito, porque o carro está empurrando o ar que estava preso pelo viaduto. Quando você entra debaixo do viaduto, por uma fração de segundo o ruído do motor desaparece e em seguida volta como um trovão, quando você chega ao outro lado.

Na manhã do dia 27 Neubauer checou com a torre do aeroporto de Frankfurt as condições meteorológicas na área do recorde e foi informado que a manhã do dia seguinte seria ideal, mas ventos fortes dariam as caras por volta de 9:00.

Às oito da manhã Rudi faz sua tentativa e bate o recorde da Auto Union, atingindo 268 mph, 428 km/h.

Rudi: “Eu não estava nervoso. A pista parecia uma estreita fita branca e os viadutos pequenos buracos pretos à frente. Era uma questão de fazer o carro passar por eles.”

Consta que Bernd estava entre os primeiros a cumprimentar Rudi e disse “É minha vez agora”. Rudi afirmou ter avisado a ele que ventos fortes estavam para chegar, ao que Bernd teria respondido: “Sou sortudo.”

Por volta do meio dia ele entrou no cockpit do carro e disparou pela estreita fita branca. Em sua terceira saída, quando estava a 270 mph o carro foi atingido por um vento de través, desviou-se de sua trajetória, capotou e vitimou Bernd. Ele foi catapultado do cockpit. Foi encontrado junto a uma árvore. O coração ainda batia, mas logo parou. 10 semanas depois do nascimento de seu filho.

Contrariando o que seria sua vontade, foi sepultado com honras militares completas. Contrariando a vontade da viúva, que queria um sepultamento simples, sem política, os nazistas se apossaram do herói morto. Hitler disse que pensar que Bernd Rosemeyer morreu lutando de manter alta a reputação da Alemanha talvez pudesse diminuir a tristeza…

Algumas frases emblemáticas sobre Rosemeyer e seus autores, igualmente significativos.

“Bernd literalmente não conhecia o medo e às vezes isso não é bom”. (Rudolf Caracciola)

“Os riscos que ele corria, às vezes no limite da imprudência, eram inacreditáveis” (George Monkhouse, autor de livro sobre a equipe Mercedes na temporada de 37)

“Rosemeyer nunca correu qualquer risco tolo. Ele simplesmente pilotava mais rápido que qualquer outra pessoa” (Dr. Porsche)

Ellie sobreviveu a isso, à guerra, e morreu com 100 anos de idade, em 2007.

Bernd Jr. também sobreviveu à guerra, tornando-se ortopedista.

Carlos Chiesa

7 thoughts on “Um misto de Steve McQueen e Ayrton Senna? – final

  1. Acompanho suas colunas, bom ter alguém por aqui (Brasil) para escrever sobre “A Era dos Titãs”. Gosto da revista inglesa Motorsport (criada na década de 1920) que faz uma leitura ampla das corridas de Grande Prêmio. Penso que a F-1 se valeu de um valioso legado, como lugares, conhecimentos e mesmo paixões para crescer e se consolidar como categoria máxima. Mas o DNA da era pré 1947/1950 está presente em suas provas, no vermelho que cobre a Ferrari (e na logo que carrega da Alfa Romeo) bem como na Mercedes com sua cor prateada. E como é enriquecedor assistir uma prova hoje em dia conhecendo essas simbologias, suas origens!!!
    Pistas tradicionais como Spa, Mônaco, Nurburgring e Monza aproximam de seu centenário.Será que a Liberty Media vai montar evento comemorativo?

  2. Carlos Chiesa,

    creio que esta foi a melhor história que você contou … cheia de detalhes e emoções … muito bom demais da conta .
    Penso que o melhor adjetivo para explicar o que foi ou o que era o Bernd Rosemeyer na verdade pode ser dito apenas com uma palavra: FENÔMENO.
    Possivelmente, até pelos riscos que se corria naquela época, ninguém foi mais piloto do que Bernd na história do automobilismo mundial … ninguém foi tão louco esportivamente falando como ele …
    Somando paixão, romance, velocidade, destemor, risco de morrer, corridas, falta de segurança nada se compara ao tempo da pré 2ª guerra … aos tempos do Grand Prix …

    Fernando Marques
    Niterói

    1. Muito obrigado, Fernando. Realmente ele foi extraordinário. Não me arrisco a comparar com os demais, porque nunca os vi correr. Penso que cada participação de um piloto tem uma história, e ela precisa ser levada em consideração, para poder ter um mínimo de justiça na comparação. Veja, teve um GP em que ele simplesmente não conseguia se concentrar, por que sua esposa estava fazendo uma viagem em solitário por vários países, em seu pequeno Taifun. Isso quer dizer que ele era menos que seus colegas? Naquela corrida eles o venceram com certa facilidade, mas isso os fez maiores? E que tal um Nuvolari que, mesmo nos Estados Unidos, mesmo sabendo pelo telégrafo da morte do filho mais velho, resolve correr? Aquele não deve ter sido o melhor Nuvolari. Só para ficar neste plloto, que equivalia a um Alonso de hoje, talento inquestionável com carro inferior, em outra coluna contei como ele batia com uma mão no capô, em reta de alta velocidade, como se o carro fosse um cavalo necessitando um estímulo extra. E o esforço de Fagioli, atormentado por uma doença paralisante, fica privado de competir por umas 2 corridas. Volta de bengala. Os mecânicos precisam retirá-lo do carro e este estava longe de exigir dotes atléticos como os de hoje em dia. Coragem, bravura, paixão, disposição para o sacrifício… me parece que eram traços comuns a todos esses pilotos de ponta. Como sabe, minha tese é que não dá pra fazer uma lista dos melhores de todos os tempos sem considerar esses caras.

      1. Chiesa,

        infelizmente a história da Formula 1, desde que foi criado o Mundial em 1950, nunca levou em consideração o automobilismo do tempo da Pré 2ª Guerra … a própria imprensa esportiva em sua grande maioria quando cita os maiores de todos os tempos ignora da mesma forma … um leigo na certa ao se deparar com esta situação, na certa vai achar que as competições automobilísticas só tiveram início em 1950 e que antes disso nada acontecia …
        E é nestas horas que eu tiro o chapéu para o GEPETO … as histórias são contadas … aliás sempre muito bem contadas … é muito bom aprender lendo as colunas do GEPETO …

        Mais uma vez parabéns a voce e ao GEPETO por proporcionar-nos grandes leituras contando histórias que jamais devem ser esquecidas ou ignoradas …

        Fernando Marques

        1. O prazer é todo nosso, Fernando. Escrever sobre coisas que a gente gosta e encontrar gente que também gosta, e dá valor, é realizador. Muito obrigado por nos acompanhar.

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