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Talento e maturidade

Quando Lewis Hamilton terminou sua volta de classificação no sábado, o inglês se ajoelhou ao lado do carro e ficou claro que ele tremia de emoção, misturado com a adrenalina de uma volta feita no limite para superar seu rival, que naquele momento tinha um equipamento ligeiramente melhor do que o seu. Alguns metros adiante, o público inglês que lotava Silverstone estava em êxtase. Lewis Hamilton tinha se preparado para vencer em casa pela sexta vez (quinta consecutiva) e se tornar o piloto com mais vitórias no tradicional Grande Prêmio da Grã-Bretanha. O mundo estava em seus pés naquele momento.

Vinte e quatro horas depois, Hamilton fez uma corrida espetacular de recuperação, onde saiu da última posição ao final da primeira volta para ser segundo na bandeirada. O público que esteva ali apoiou seu ídolo em todas as voltas, urrando quando Lewis fazia uma ultrapassagem, mas a linguagem corporal de Hamilton era bem distinta do sábado. Com os ombros curvados e de cabeça baixa, ele correu para não ser entrevistado antes do pódio por Martin Brundle e seu cabelo de ator pornô aposentado e ficou isolado na antessala do pódio, olhando para a parede, para não ter que encarar os pilotos da Ferrari.

Vettel ainda o cumprimentou, mas com Kimi Raikkonen havia um desprezo que empestava a sala.

Hamilton largou muito mal hoje saindo de sua espetacular pole, foi ultrapassado por Vettel nos primeiros metros da corrida e depois por Bottas. Raikkonen tentou uma manobra otimista em cima de Hamilton na curva três e o toque foi inevitável. Lewis caiu para último, iniciando uma corrida de recuperação épica, fazendo-o até mesmo se aproximar de uma vitória que seria memorável. Nisso, numa corrida onde Ferrari e Mercedes, os dois melhores carros do dia, não sofreram abandonos. No pódio, contrariado, Hamilton sugeriu que o ‘plano da Ferrari tinha sido interessante’, falando sobre o toque com Raikkonen na primeira volta, levantando a suspeita de que o incidente com Raikkonen havia sido proposital para prejudica-lo, pois a vitória acabou com Sebastian Vettel, que aumentou sua vantagem sobre Hamilton no campeonato. Toto Wolff não poderia ser mais infeliz no seu comentário, dando razão ao seu piloto, ao dizer que a manobra de Raikkonen ‘ou era proposital, ou de incompetência’.

O comportamento imaturo de Hamilton depois da corrida, somando à passada de mão na cabeça da Mercedes, representada por Wolff, não deixa de ser um belo paralelo com a situação de Neymar e todos em volta do craque brasileiro.

As carreiras de Lewis Hamilton e Neymar tem similaridades que não nos fazem surpreender que sejam tão paparicados. Ambos vieram de famílias pobres, mas logo mostraram que tinham um talento absurdo em cada especialidade. Descobertos, foram tratados com leite de pera nas categorias de base, subindo rumo ao estrelato sendo preparados para serem os melhores do mundo. Tanto Neymar como Lewis Hamilton tinham a presença forte dos seus pais em suas carreiras. Neymar é tratado como Neymar Jr, pois o Neymar-chefe é o pai. Hamilton e Neymar chegaram ao estrelato muito jovens com um estilo vistoso que lhe garantiram muitos fãs e com isso veio a fama. Ambos tem seus corpos apinhado de tatuagens. Usam brincos vistosos e roupas exóticas. Se tornaram ícones nas Redes Sociais, onde cada postagem é vista por milhões de pessoas. Namoram mulheres lindíssimas e sempre estiveram mais para popstars do que para atletas. Não é surpresa que sejam parças!

No momento em que a maturidade de Neymar é discutida praticamente vinte e quatro horas por dia desde a eliminação do Brasil na Copa do Mundo na última sexta-feira, ver Lewis Hamilton, um homem sete anos mais velho, com quatro títulos mundiais nas costas, tendo a torcida do seu país a seus pés e dono de recordes que o colocam entre os grandes da F1 (tudo o que Neymar sonha e não conseguiu) tendo uma atitude tão imatura depois da derrota de hoje na sua casa chega a assustar. A fase infantil de Hamilton parecia ter ficado para trás quando ele derrotou um rival tão ardiloso como Nico Rosberg, mas hoje o inglês teve uma recaída digna do cai-cai de Neymar.

Porém, o mais surpreendente foi ver Toto Wolff ter uma atitude de Edu Gaspar, que ontem disse que ‘não é fácil ser Neymar’. Wolff já enfrentou problemas bem mais espinhosos dentro Mercedes para passar a mão na cabeça de Hamilton em sua infeliz declaração. Levantar suspeitas de sua principal rival sem apresentar provas de um delito grave como mandar um piloto bater no outro para benefício da equipe é grave e pode esquentar de vez a disputa entre Ferrari e Mercedes.

A corrida de hoje foi uma das melhores de 2018, com uma disputa ferrenha entre Mercedes e Ferrari nas últimas quinze voltas, numa rara cena em que os quatro carros de italianos e alemães disputaram curva a curva a melhor posição na corrida. Mesmo que Hamilton não tivesse largado mal e posteriormente ter caído para último, Vettel teria nos brindado com uma briga de altíssimo nível com o inglês. Sem Hamilton, Vettel controlou a prova até a entrada do safety-car deixar a Mercedes de Bottas na sua frente. Mais uma vez a Mercedes se embananou na estratégia quando a corrida sofre algum tipo de intervenção.

Enquanto Ferrari e Red Bull chamaram seus pilotos para os boxes colocarem pneus novos para o último stint da corrida, a Mercedes preferiu deixar seus pilotos na pista com pneus velhos, sendo alvos fáceis. Bottas foi ultrapassado por Vettel já na parte final da prova e depois de forçar em demasia seus desgastados pneus, o finlandês foi sendo ultrapassado por Hmailton e Raikkonen. Aqui, uma diferença entre um ótimo piloto e um monstro das pistas. Bottas e Hamilton tinham pneus com quilometragem semelhante, mas Valtteri não suportou o ritmo mais forte da Ferrari, enquanto Hamilton conseguiu andar no mesmo nível de Vettel e Raikkonen…

Vettel quebrou um jejum de sete anos da Ferrari em Silverstone, que ainda comemorou Raikkonen subir ao pódio, após o finlandês ser justamente punido pelo toque em Hamilton. A trinca de corridas que poderia ser amplamente favorável a Mercedes acabou com a Ferrari vinte pontos na frente no Mundial de Construtores e Vettel oito pontos na frente de Hamilton.

Max Verstappen foi dono da manobra da corrida quando deu o troco em cima de Raikkonen por fora, após ser ultrapassado na reta oposta. Pena que abandonou logo depois com problemas de freio. A Red Bull simplesmente não teve carro para enfrentar Ferrari e Mercedes nas longas retas de Silverstone e o time austríaco ficou como uma isolada terceira força. A quarta força ou o melhor do resto foi uma briga fraticida entre Renault, Haas, Force India, Sauber e Fernando Alonso, levando a McLaren agora dirigida por Gil de Ferran nas costas. A Williams já pegou o bastão que era da Sauber como a pior equipe da F1.

Apesar de sempre haver reclamação da F1 atual, principalmente após uma corrida ruim, como foram os casos de Barcelona, Monte Carlo e Montreal, estamos vivenciando um campeonato espetacular, com as vitórias sendo divididas quase que de forma equilibrada entre Ferrari, Mercedes e Red Bull. Sebastian Vettel e Lewis Hamilton, dois tetracampeões consagrados, estão brigando ponto a ponto pelo pentacampeonato com duas das equipes (Ferrari e Mercedes) mais icônicas da história da F1. Enquanto Sebastian Vettel leva uma vida normal e longe de badalação, Hamilton vive um mundo à la Neymar, cheio de purpurina e glamour. Mesmo dois anos mais novo, Vettel aparenta ser mais maduro do que Hamilton e num campeonato que pode ser decidido nos detalhes, esse fator pode fazer a diferença lá na frente.

Abraços!

2 thoughts on “Talento e maturidade

  1. JC,

    sobre a corrida, vale a pena destacar a entrada do pace car que contribuiu para vermos ao fim da corrida ao menos um duelo entre Ferrai x Mercedes, já que entre Vettel e Hamilton a cada corrida que passa fica mais difícil de acontecer. Eu torci que pudesse acontecer agora em Silverstone, mas “races são races”.
    Sobre Neymar e Hamilton estou com Mauro.
    Sobre Vettel, ele pode ser até mais comedido mas não tem chorão maior que ele na Formula 1.
    O resultado de Silverstone sem duvidas algumas pôs lenha na fogueira. Vamos ver o que isso pode trazer de bom para a gente ver nas pistas.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Belíssimo texto JC!

    Neymar e Hamilton, são dois piazinhos mimados, dois babacas!

    Vejo Vettel mais ao estilo de Messi, que trabalham de forma dura e séria, longe das redes sociais, como fazem exatamente ao contrário a duplinha Neymar/Hamilton.

    E sim, o campeonato vai pegar fogo!

    Abraço!!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

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