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Questão de cobertura

Uma das principais preocupações de quem ama F1 com a falta de brasileiros na categoria é saber o tratamento que a F1 terá no futuro. A cobertura da TV Globo sempre foi pautada na torcida por algum brasileiro, principalmente no período dos oito títulos conquistados em vinte temporadas na F1. Por causa disso para boa parte das pessoas, tem que haver um brasileiro na liderança da corrida para valer a pena estar ligado na F1. Porém, para quem ama corridas não precisa que o vencedor da prova seja inglês, alemão, brasileiro ou norueguês para se manter ligado na F1. A emoção da velocidade, o barulho dos carros, a tecnologia empregada e as disputas já nos bastam.

A incerteza de como será o futuro dos brasileiros na F1 nos faz pensar até quando a Rede Globo transmitirá as corridas ao vivo ou até mesmo manterá uma cobertura pelo menos decente da F1, mesmo que pelo Sportv. Nos tempos em que a F1 era garantia de liderança na audiência, a Globo fazia uma cobertura extensa, deixando saudades de quem curtiu de perto esses tempos. Mas já houve uma cobertura similar em outras categorias?

Para quem assiste pérolas como ‘Fofocalizando’ ou ‘Casos de Família’, é difícil imaginar que o SBT já investiu pesado no esporte. Mas isso já aconteceu. O SBT se consolidava como a segunda maior emissora do Brasil em meados da década de 1990 e mesmo ainda longe da Rede Globo em termos de audiência e faturamento, o SBT resolveu investir em programas similares da rival carioca, como novelas, telejornais e… esportes!

Após transmitir a Copa do Mundo de 1994, o SBT resolveu investir na desacreditada Copa do Brasil em 1995 e com uma cobertura diferenciada, o campeonato de mata-mata se transformou num sucesso estrondoso dentro da grade de transmissão do SBT. A final entre Corinthians e Grêmio foi a segunda maior audiência da história do SBT e uma das derrotas mais amargas da Globo no Horário Nobre. Convencida de que o esporte poderia garantir boas audiências e publicidade, o SBT comprou os direitos da Indy no final de 1994.

A primeira corrida transmitida ao vivo da Indy foi as 500 Milhas de Indianápolis de 1984, que também era a estreia de Emerson Fittipaldi na corrida. No ano seguinte a TV Bandeirantes comprou os direitos da categoria e era comum assistir as corridas de F1 pela manhã e acompanhar a Indy a tarde durante o inesquecível ‘Show do Esporte’. A boa fase de Emerson Fittipaldi e as emocionantes narrações de Luciano do Valle também eram sinônimos de sucesso, mesmo que muitas vezes restritas a quem tivesse antena parabólica, se você morasse fora de São Paulo.

De forma surpreendente a Indy saiu da Bandeirantes no final de 1992 e se mudou para a cambaleante TV Manchete. Mesmo a emissora da família Bloch estando em sérias dificuldades financeiras, havia vantagens na troca. A TV Bandeirantes transmitia muitos jogos de futebol domingo à tarde, horário em que as corridas da Indy aconteciam e por isso muitas corridas não eram transmitidas. Com a tarde de domingo inteira livre, a Manchete transmitiu todas as corridas ao vivo nos dois anos em que passou a Indy e a grande maioria in-loco. A emissora carioca apostou num jovem narrador goiano e que era desconhecido da maioria. Seu nome era Teo José.

Nos comentários estava o correto Dedê Gomes e nas reportagens estava Luiz Carlos Azenha. Nunca foi segredo que a Indy sempre deu mais abertura do que a F1 para a imprensa e Azenha se aproveitava para entrevistas com pilotos que mal saíam dos seus carros, sejam em casos de vitória ou tristes abandonos. Mesmo com muitas dificuldades técnicas, o trio se consolidou e a Indy crescia cada vez mais entre os fãs da velocidade. Circuitos ovais e bandeiras amarelas se tornavam rotina para quem acompanhava as corridas na época. A ida da Indy ao SBT fez com que a categoria se consolidasse de vez no Brasil, principalmente com os maiores recursos proporcionados pela emissora de Silvio Santos.

Falou-se que o SBT iria contratar Reginaldo Leme, mas a emissora fez o básico e trouxe o trio da Manchete para continuar a transmitir a Indy a partir de 1995. Teo José, Dedê Gomes e Luiz Carlos Azenha estiveram em todas as corridas da temporada inicial da Indy e com mais apoio, puderam falar com os pilotos brasileiros durante as corridas pelo rádio (lógico que em bandeira amarela…), usaram câmeras exclusivas, até mesmo com algumas tomadas de helicóptero, Azenha ostentava um macacão exclusivo do SBT e ainda ganhava a companhia em algumas provas de Antônio Pétrin.

Um momento marcante dessa época foi nas 500 Milhas de Indianápolis de 1995. Com Emerson Fittipaldi surpreendentemente de fora da corrida, o veterano piloto participou da transmissão da corrida e em determinado momento, ele pôde ser um spotter do seu sobrinho Christian, que falou a corrida inteira com Teo José. “Christian, cuidado com o lado de fora da curva 4, o Michael (Andretti) bateu porque está sujo lá”. Simplesmente sensacional!

Com tanta exposição e a economia brasileira em alta com o Plano Real, os anunciantes entraram com força na Indy. Christian Fittipaldi estreou na Indy em 1995 com um carro verde e amarelo apinhado de patrocinadores brasileiros. Maurício Gugelmin corria com um carro da Hollywood, enquanto Roberto Moreno dizia que o carro da Payton-Coyne era o ‘carro da Data Control’. Porém, a cervejaria Brahma ousou mais. De simples anunciante a Brahma comprou uma equipe e a batizou de Brahma Sports Team. E não era uma equipe qualquer. Era simplesmente a equipe Green, que tinha dado o título para Jacques Villeneuve em 1995 e o time, com o indefectível ‘número 1’, teria como piloto Raul Boesel. Infelizmente o projeto não deu certo, com uma temporada muito ruim em 1996 e mesmo a mudança para a tradicional equipe Patrick em 1997 não sustentou a marca por muito tempo. O que ficou foi um dos lay-outs mais legais dos anos 1990 na Indy!

Após muito lobby junto ao governo carioca, a Indy aportaria pela primeira vez no Brasil em 1996, num improvisado circuito oval enxertado dentro do autódromo de Jacarepaguá. A Rio 400 ganhou ampla cobertura do SBT em todos os canais disponíveis na época e a corrida foi um sucesso, com a vitória de um improvável André Ribeiro. Naquele mesmo ano aconteceu a famosa cisão da Indy.

Inicialmente o SBT ficou com os dois campeonatos, diferenciando-os apenas com denominação de ‘Campeonato Mundial de F-Indy’ para o certame da CART e ‘Campeonato Americano de F-Indy’ para a dissidente IRL. As duas primeiras corridas da história da IRL foram mostradas em VT durante a madrugada pelo SBT, o que irritou seus dirigentes e a nova categoria foi para a Bandeirantes. Em função disso, o nome ‘Indy’ ficou em poder da IRL e a partir de 1997 o SBT teria que renomear seu campeonato. Surgia a Formula Mundial. Denominação que eu detestava!

Um dos programas de maior sucesso de Silvio Santos na época era o ‘Em Nome do Amor’, que acontecia domingo à tarde. Em tempos pré-Tinder, rapazes e moças eram atiçados a fazerem pares e dançarem ao som de um bolero de Julio Iglesias, no qual ao final da dança Silvio Santos dizia as imortais palavras: É namoro ou amizade? Quando fazia o segundo ano uma garota da minha sala foi escolhida para fazer parte do programa. Foi um frisson no colégio. Quando ela voltou de São Paulo a pergunta óbvia era: Quando vai passar? A resposta era sempre a mesma: no próximo domingo.

Porém, sempre havia uma corrida da Indy para ‘atrapalhar’ de vermos a moça na TV e tirar a prova da lenda de que ela chamou ou não Silvio Santos para dançar forró. Para mim, era muito mais interessante as corridas da Indy, que na época fazia um enorme sucesso com o público que curtia corrida. Porém, muitas pessoas preferiam outros programas de auditória e a Indy no Brasil se viu ameaçada não pela IRL, mas pela própria concorrência dentro do SBT.

O ‘Domingo Legal’ ganhava cada vez mais espaço dentro do SBT com atrações apelativas como ‘A Banheira do Gugu’ e ‘Dia de Princesa’. O programa de Gugu Liberato tinha cada vez mais audiência e ameaçava o reinado do Faustão nos domingos à tarde. Porém, muitas vezes o programa era interrompido por uma corrida da Indy. E a audiência caía. Mesmo atraindo vários anunciantes, a Indy se tornava um empecilho para Gugu derrotar Faustão nos domingos. Para piorar, da mesma forma como esporte do SBT foi lançado com o futebol, o esporte bretão começou a enterra-lo dentro da programação da emissora. Silvio Santos fez uma proposta milionária para comprar os direitos do Campeonato Brasileiro, mas o Clube dos 13 ainda assim preferiu a TV Globo.

Chateado, o dono do Baú ainda transmitiu a Copa do Mundo de 1998 e logo depois praticamente fechou o setor de esportes do SBT. Azenha saiu da emissora e a Indy deixou de ser transmitida in-loco. O lobby de Gugu para ter as tardes de domingo inteiramente para si fez com que a Indy fosse relegada ao inacreditável horário das 23h de domingo em formato de VT de uma hora a partir de 1999, sendo comandado de forma solo por Teo José, já consolidado como um dos melhores narradores do Brasil.

Algumas corridas que não aconteciam domingo à tarde ainda passaram ao vivo pelo SBT. A Indy era praticamente a única sobrevivente dos bons anos de esporte no SBT. Quando a categoria chegou ao SBT, criou-se o bordão ‘Aqui o Brasil anda na frente’, mas após dois anos promissores em 1995 e 1996, os vários pilotos brasileiros na Indy decepcionaram nas temporadas seguintes. Gil de Ferran foi vice-campeão em 1997 sem conquistar uma única vitória e em 1998 simplesmente não houve vitórias tupiniquins na Indy.

Por essas ironias do destino, no último ano de contrato com o SBT, o Brasil teve um ano perfeito na Indy e Gil de Ferran foi campeão pela Penske no ano 2000, com direito a várias vitórias brasileiras. Inclusive com pódios inteiramente verde e amarelo. Porém, o descaso do SBT era tamanho com a categoria que a corrida final em Michigan foi adiada para o dia seguinte por causa da chuva e nem assim a corrida passou ao vivo. Quem quisesse ver o título de Gil, teria que esperar a madrugada de segunda para terça.

Foi o fim de um período mágico para a Indy no Brasil. Nunca antes ou depois a Indy esteve tão em evidência no Brasil, com uma emissora engajada em fazer da categoria tão ou mais forte do que a rival F1. A sanha do SBT em bater a TV Globo fez com que comprasse os direitos da Indy para rivalizar com a F1, mas foi também essa fome de crescer que fez o SBT abandonar a Indy de forma tão repentina. Se serve do consolo, pudemos acompanhar com uma cobertura nunca antes vista uma das melhores fases da história da Indy.

Abraços!

2 thoughts on “Questão de cobertura

  1. Grande JC!!!

    Realmente, foi uma época incrível e inesquecível, muitas boas lembranças, de um tempo que, infelizmente, não volta mais.

    O futuro da F1 na Globo, é realmente um mistério.

    Nos resta aguardar.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  2. JC,

    boas lembranças … bons tempos principalmente para os verdadeiros amantes do automobilismo … eu de certa forma fico pensando o que pode acontecer se um dia as corridas de Formula 1 não forem mais transmitidas ao vivo e em canal aberto.
    E que graça pode ter a Formula 1 se daqui a mais 10 anos ela se for totalmente elétrica como profetizou o R. Brown … vai ser o fim do ronco dos motores e seus escapamentos …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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