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A Ferrari tem o martelo

No exótico jogo de curling (aquele mesmo, no qual atletas ficam varrendo o caminho das pesadas pedras circulares no gelo enquanto gritam palavras ininteligíveis), uma grande vantagem é ter o martelo. O tal martelo é ter a última pedra, a última jogada, com a qual você pode pontuar, e/ou tirar as pedras rivais do caminho do alvo. Quem joga primeiro tem desvantagem, bom mesmo é jogar depois, e aproveitar-se dessa vantagem, que no curling é alternada entre os times.

Por tudo o que vimos em Spa-Francorchamps, a Ferrari tomou da Mercedes o martelo.

E mais: a sólida vitória de Sebastian Vettel na Bélgica nos faz ter a certeza de que ainda temos, sim, um campeonato. Da mesma forma como ele tirou do vácuo de Lewis Hamilton na primeira volta da corrida pra ser o primeiro, quer fazer o mesmo no campeonato, no qual a diferença entre ambos caiu para 17 pontos: 231 a 214, com vitórias empatadas em 5 a 5. Numa situação “normal”, isso significa mudança de liderança em três corridas com este mesmo resultado entre os dois.

Apesar de Hamilton ter feito uma corrida inteligente, em que sabia que não conseguiria alcançar a Ferrari número 5, e que igualmente sabia da importância de fazer 18 pontos, a Mercedes está em alerta. Eles nunca enfrentaram um time rival com tamanho desempenho desde o começo da Era Híbrida de motores, na qual sempre teve a primazia.

Ainda faltam 8 corridas, há muitos, muitos pontos em jogo. Podemos supor que ao menos a Ferrari deva andar melhor na próxima corrida, já no próximo domingo, nas longas retas de Monza, dado que seu conjunto motriz, em seu Pacote 3 de atualização, já é considerado o melhor da F1.

Mas assim como no curling, nem sempre o time que está com o martelo consegue impor a vantagem que lhe foi dada. A Ferrari e Vettel até capitalizaram pontos em cima da Mercedes, como na abertura da temporada, na Austrália. Mas o que mais fizeram este ano foi jogar pontos pela janela.

Na China, Vettel fez a pole, a Ferrari jogou o favoritismo fora ao tomar um undercut de Bottas ainda no começo, e de subestimar os pneus macios da Red Bull, que se aproveitaram bem de um Safety Car para vencer. Logo em seguida, no Azerbaijão, a Ferrari errou de novo na tática, colocando pneus demasiadamente duros no final para o favorito Vettel, que tentou uma manobra em cima de Bottas e jogou fora as chances de uma vitória que parecia certa.

A saga dos pontos perdidos em pleno favoritismo dá um salto e vai até a Alemanha, onde Vettel não precisou da Ferrari pra fazer bobagem e jogou fora todos os pontos possíveis e imagináveis, ao sair da pista de modo até infantil em piso molhado, demonstrando ter ficado full pistola consigo mesmo.

Na Bélgica, a Ferrari não errou com Vettel, mas errou como Kimi Räikkönen, um candidato natural à vitória quanto o assunto é Spa-Francorchamps. Um cálculo errado fez o finlandês perder sua última chance de volta rápida no qualify. Relegado a posições mais modestas, acabou sendo vítima secundária do carnage provocado pelo Hülkenberg, que fez a McLaren de Fernando Alonso decolar e pousar na Sauber de Charles Leclerc, também vitimando secundariamente Daniel Ricciardo.

Continua, portanto, a saga da Mercedes que morre de medo de perder, e da Ferrari que morre de medo de vencer.

A foto do dia não foi a do acidente do Flying Alonso. Foi a foto do “four-wide” proporcionado por Vettel, Hamilton e o duo da (agora Racing Point) Force India, Sérgio Pérez e Esteban Ocon. Por pouquinho o bote dos carros rosados não causa uma surpreendente mudança de liderança. Sabemos, claro, que o time está muito abaixo no desempenho, mas seria pra lá de interessante ver como Vettel e Hamilton se comportariam para retomarem seus postos.

Com o 5º lugar de Sérgio Pérez e o 6º de Esteban Ocon, a equipe Racing Point Force India, que ironicamente nasceu sem pontos, conseguiu um resultado tão bom na Bélgica que já passou a Williams, que, repito, tem a pior dupla de pilotos de sua história, o pior chassi do grid e vai perder o patrocínio da Martini ao fim do ano.

Mas como tudo que pode piorar piora, a grana de Lance Stroll já está mudando de endereço. Papi comprou pra ele a Force India, e tudo indica que haverá nos próximos dias um anúncio de dança das cadeiras.

Robert Kubica assume o lugar de Stroll, que vai para a Force India, empurrando Esteban Ocon para a McLaren, onde quem dança é Stoffel Vandoorne, um cara que dominou a GP2, mas que não teve tempo de mostrar seu potencial diante de uma McLaren problemática.

No começo do ano, propus um “Power Ranking” das equipes. Na Austrália, a ordem era: Mercedes(1), Ferrari (2), Red Bull (3), Haas (4), Renault (5), McLaren (6), Force India (7), Williams (8), Toro Rosso (9) e Sauber (10).

Pós-férias de agosto, o ranking, a meu ver, parece ser: Ferrari (1), Mercedes (2), Red Bull (3), Force India (4), Haas (5), Renault (6), Sauber (7), McLaren (8), Toro Rosso (9) e Williams (10).

As três primeiras equipes parecem estar bem definidas, com desempenho muito acima das demais, tanto que o 3º lugar de Sérgio Pérez no Azerbaijão, corrida pra lá de atípica, foi a única ocasião em que o pódio teve algum piloto do “resto” do pelotão que não fosse de Ferrari, Mercedes ou Red Bull.

As três equipes seguintes (Force India, Haas e Renault) alternam bem a luta de forças, dependendo das características do circuito a correr. A McLaren claramente caiu perante as rivais, com pacotes de atualização que não foram suficientes para se manter do meio para frente. A Sauber, como eu previ ainda na primeira corrida, está melhorando sua performance, a Toro Rosso mostra uns brilharecos quando o motor Honda colabora, e a Williams, mais uma vez falando dela, já é a pior equipe do ano.

Não são poucos os que estão exaltando o halo por ter “salvado a vida” de Leclerc diante do carnage provocado por Hülkemberg na primeira curva. De fato, o halo da Sauber do jovem monegasco ficou com uma grande marca de pneu em sua porção direita. Mas algumas câmeras mostraram categoricamente que, se o carro não contasse com o dispositivo, o pneu dianteiro de Alonso não teria, de qualquer forma, atingido o capacete do piloto da Sauber.

Na câmera interna da tomada da Surce temos a certeza de que, por sua trajetória, não resultaria em choque no capacete de Leclerc. As pessoas parecem estar em uma espécie de ânsia de querer justificar a presença e a eficácia do halo a qualquer custo.

O halo, de fato, tomou uma porrada. Mas não salvou o dia em Spa.

Encerro com a matéria especial feita pelo próprio canal de Youtube da F1,que visitou a coleção de Michael Schumacher em Colônia, Alemanha, relacionando seus carros com sua trajetória, em especial na pista de Spa, que marca sua estreia e vitória na categoria.

Não deixa de dar uma pontinha de melancolia, já que nada sabemos sobre seu real estado de saúde… Nos resta apenas torcer para que, de alguma forma, ele esteja bem.

Abração!

Lucas Giavoni

3 thoughts on “A Ferrari tem o martelo

  1. Grande Lucas!

    Temos um campeonato em aberto, e eu fico imaginando a euforia dos tifosi, e a festa que irá tomar conta do templo sagrado de Monza, caso os carros vermelhos vençam no domingo.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  2. Lucas,

    realmente nós temos um campeonato em 2018.
    A Ferrari hoje tem o melhor carro, mas a Mercedes ainda lidera é a equipe a ser batida.
    Agradeça a Vettel e a Ferrari pelos erros cometidos e bem citados por você. Ao contrário poderíamos estar assistindo ambos rumando ao título sem adversários.
    A corrida em SPA foi razoavelmente boa de se ver. Aquele alvoroço na largada, o bote de Vettel sobre Hamilton na reta após a Eau Rouge, a ultrapassagem de Verstappen sobre Occon e a ultrapassagem de Bottas (não me lembro agora sobre quem) por fora na Eau Rouge foram os pontos altos da corrida.
    No mais Vettel foi soberano e Hamilton não teve problemas em chegar em segundo pois a Ferrari vacilou feio com Raikkonen no Q3. Ao contrário, pelo desempenho do fim de semana, Raikkonen chegaria na frente do ingles.
    Aliás está claro que a única forma de Hamilton/Mercedes superar Vettel/Ferrari é se chuva aparecer, como mais uma vez apareceu em SPA no Q3. Em tempo seco, a Mercedes vai ter que rebolar para não tomar virada.
    Como voce bem disse o martelo está nas mãos da Ferrari

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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