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Nocaute psicológico

Trinta e três anos atrás Monza se preparou para o que seria uma festa que resultaria na realização de um sonho. Se os torcedores da Ferrari já torcem enlouquecidamente para qualquer piloto que esteja atrás de um volante da marca de Maranello, se ele for italiano essa emoção seria ainda maior.

Michele Alboreto vinha fazendo a temporada de sua vida em 1985 e brigava ponto a ponto com Alain Prost pelo título daquele ano. A corrida anterior, em Zandvoort, viu Prost assumir a liderança do campeonato por apenas três pontos. Mas em Monza, casa espiritual da Ferrari, ninguém tinha dúvidas que Alboreto voltaria aos trilhos da vitória e rumaria para o seu esperado campeonato.

Porém, tudo deu errado para Alboreto e a Ferrari naquele 8 de setembro de 1985. Desde os treinos era claro que a Ferrari não brigaria pela vitória e Alboreto fez uma corrida apagada, na qual acabou abandonando com o motor quebrado logo depois de tomar uma volta do segundo colocado Alain Prost. Para piorar, na volta seguinte o líder Keke Rosberg abandonou e o francês da McLaren conquistava os nove pontos da vitória e abria doze para Alboreto.

Ainda restavam quatro corridas para o fim daquele campeonato, mas o golpe em Monza fora forte demais. Alboreto não marcaria mais pontos em 1985 e Prost conquistaria seu sonhado título duas corridas depois, de maneira antecipada. A Ferrari demorou a se recuperar do impacto daquela derrota na qual estava tudo a ser favor e a carreira de Alboreto pode ser separada entre antes e depois do Grande Prêmio da Itália de 1985.

Neste domingo a torcida da Ferrari se preparou com esmero para fazer uma festa de arromba. Após a vitória categórica de Sebastian Vettel em Spa-Francorchamps, na semana passada, a Ferrari finalmente mostrava que tinha um carro superior à rival Mercedes e numa pista com características similares à de Spa.

Monza era o palco ideal para a arrancada de um título que não vem desde 2007 com o autor da pole da corrida, Kimi Räikkönen, mas todas as atenções estavam para Vettel, a ponta da lança da Ferrari rumo ao título. Porém, assim como aconteceu em 1985, as coisas saíram completamente diferentes do que os tifosi esperavam.

O fato de Sebastian Vettel já ter quatro títulos mundiais no currículo e ser alemão, muitas vezes sinônimo de frieza e eficiência, não faz de Seb um piloto parecido com Michael Schumacher, herói da Ferrari e assim como Vettel, trazido para o time italiano para liderar e ser campeão pela Ferrari. Vettel nunca se mostrou forte mentalmente e com o tempo passando e o esperado título pela Ferrari teimando em bater na trave, os nervos do alemão vão se deteriorando.

Há inúmeros exemplos de atitudes irracionais de Vettel nessa sua luta com Lewis Hamilton, sendo a mais visível o destempero atrás do Safety-Car em Baku no ano passado. Vettel vai se tornando cada vez mais latino até do que os próprios italianos da Ferrari. Hoje, em Monza, o alemão assumiu o papel de Michele Alboreto ao se envolver num incidente evitável com Hamilton ainda na primeira volta de uma corrida na qual a Ferrari era favorita.

No afã de assumir logo a ponta como fez em Spa, Vettel partiu para cima do seu companheiro de equipe nos primeiros metros da corrida, mas nisso abriu uma brecha para Hamilton tentar a ultrapassagem na Variante Della Roggia. O toque maroto entre os dois tetracampeões acabou fazendo Vettel rodar na frente do pelotão, quebrando a asa dianteira do alemão e deixando Hamilton focado unicamente em Räikkönen.

 

Praticamente de saída da Ferrari, segundo informações surgidas nessa manhã, cedendo seu cockpit ao jovem Charles Leclerc, Kimi teria uma chance de ouro para vencer no que seria seu canto do cisne. O finlandês não contava com o talento de Hamilton e a esperteza da equipe Mercedes. Hamilton acompanhava Räikkönen de perto quando a Mercedes mandou seus mecânicos saírem dos boxes para efetuar o pit-stop do inglês. Ato contínuo, a Ferrari chamou seus mecânicos e Räikkönen entrou nos pits para fazer sua única parada. Só que Hamilton permaneceu na pista.

O blefe da Mercedes teria seu toque sutil mais tarde, quando Kimi se viu isolado contra os dois pilotos prateados trabalhando contra ele. Até então, Bottas fazia uma corrida medíocre, em que não conseguia ultrapassar a Red Bull de Max Verstappen mesmo tendo mais carro. Kimi não demorou a se aproximar do seu compatriota após sua antecipada parada, enquanto a Mercedes chamava Hamilton para a sua única parada voltas depois do imaginado pela Ferrari.

Räikkönen se viu colado atrás de um Bottas 1s mais lento, mas sem chance de ultrapassar. Pior do que ficar atrás de Bottas e ver Hamilton se aproximar rapidamente, Kimi via seus pneus superaquecerem por ficar atrás da turbulência da Mercedes de Bottas. A Mercedes tinha feito seu trabalho e Bottas deixou a disputa com Kimi totalmente comprometido, com os pneus cheios de bolhas e mais desgastados que os de Hamilton. Bastava agora entrar em cena o talento de Hamilton. Se Räikkönen se conformou em ficar atrás do seu compatriota quando estava claramente mais rápido, Hamilton não pensou assim e, numa ultrapassagem cirúrgica, colocou por fora na freada da primeira curva e assumia a liderança. Nesse momento, Hamilton assumia também o papel de Alain Prost.

Mesmo com a torcida toda contra e com um carro inferior, Lewis Hamilton derrotou os dois pilotos da Ferrari em Monza na pista, destruindo a festa preparada pelos tifosi, que revidou a derrota com vaias no pódio, além de xingamentos. Vettel fez sua protocolar corrida de recuperação até o quarto lugar, ajudado por outro afobamento de Max Verstappen. O holandês fazia uma corrida heroica, na qual segurava como podia a Mercedes de Bottas nas voltas finais. Mas Max aprontou outra das suas ao mudar de direção durante a freada, literalmente jogando o finlandês para fora da pista. Punido, Verstappen perdeu a posição para Bottas e Vettel. Verstappen poderia muito bem usar o exemplo de Hamilton, que nos seus anos ao lado de Nico Rosberg, se fortaleceu mentalmente. A derrota para Nico em 2016 fez de Hamilton o grande piloto que ele é hoje e se Max Verstappen usar seus revezes como um aprendizado poderá num futuro chegar ao alto nível que Hamilton está hoje.

A corrida no meio do pelotão viu a Haas ser o melhor do ‘resto’, mas um assoalho irregular acabou gerando a desclassificação de Romain Grosjean. A equipe americana estava empatando em pontos com a Renault, mas os franceses reclamaram e a Haas acabou saindo de Monza zerada. A nova Force India vai amealhando pontos em circuitos que lhe favorecem, o mesmo acontecendo com a claudicante Williams. Num circuito onde as asas usam as configurações de menor arrasto em todo o ano, a Williams usou a força do motor Mercedes para colocar seus dois pilotos na zona de pontuação.

O ponto de Sergey Sirotkin faz com que todos os pilotos do grid tenham marcado pelo menos um ponto, algo inédito na história da F1. Fernando Alonso segue sua sina de sofrimento com uma McLaren que segue a passos largos o infeliz caminho que está fazendo a Williams. A tradicional equipe inglesa andou em último a maior parte dos treinos e Alonso se envolveu numa polêmica vazia com Kevin Magnussen durante a sessão de qualificação. Alonso está saindo da F1 porque nenhuma equipe de ponta quer seu temperamento complicado.

Nesse final de semana surgiu um vídeo de 1975 com Graham Hill sendo perguntado sobre o apelo das corridas com o público. “Eles não vêm os pilotos como no passado?”, perguntou o entrevistador. Graham foi fleumático como sempre. “Só vejo as pessoas dizendo que os velhos tempos eram melhores. Acho que as pessoas olham demais para o passado e é preciso olhar para frente. É um grande esporte e moderno. Ainda existe o interesse.” Isso na década de 1960-1970, mas nunca esteve tão atualizado…

A corrida que Lewis Hamilton fez hoje deverá lembrada daqui a 33 anos ou mais como uma de suas melhores pilotagens. Uma das melhores pilotagens de um dos grandes da história da F1. Um piloto que evoluiu com o tempo, aprendeu com os carros e sem diminuir o ímpeto de sua velocidade, caminha para um excepcional pentacampeonato.

Vettel levou um direto de direita no queixo e está cambaleando nas cordas. Ele tem sete corridas para se recuperar e contra-atacar Hamilton. Se ele terá a força que Alboreto não teve em 1985, isso só o tempo dirá. O certo é que esse ano poderá ser lembrado como uma grande época, apesar da maioria das pessoas não enxergarem isso.

Abraços!

5 thoughts on “Nocaute psicológico

  1. JC,

    belo texto de uma corrida épica, como bem disse o Mauro,
    L. Hamilton demonstrou a meu ver que está muito a frente do Vettel em termos de pilotagem. E a Mercedes deu o troco na Ferrari em termos de estratégia se comparado ao que aconteceu no GP da Austrália. E deu com sobras. Blefou e a Ferrari caiu direitinho na armadilha.
    Confesso que fiquei com um pouco de pena do Kimi. Pela primeira vez, desde que voltou para a Ferrari, ele teve uma real possibilidade de vencer uma corrida. E torci como nunca para ele vencer em Monza. O que o Kimi passa na Ferrari, Felipe Massa passou nos tempos do Alonso. É duro para um piloto ter um carro vencedor e não poder vencer. Sei que ele, assim como Massa, ganha rios de dinheiro na Ferrari para ser apenas um escudeiro, mas esportivamente falando não deve ser fácil para quem assume este papel. Numa comparação com Kimi e Massa, Barrichello até que conseguiu bem mais neste sentido.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    1. Vibrei muito com isso, pois eu não apenas estava testemunhando a quebra de um recorde antigo, mas a volta mais rápida da história da Fórmula 1! Não é um recorde que se quebra todo dia.

      E creio que esse fim de semana em Monza era a última chance que a Fórmula 1 atual teria para conseguir esse feito, pois diz-se que os carros do ano que vem ficarão mais lentos, por conta das mudanças na aerodinâmica. Por isso, torci muito para que não chovesse no Qualify, ou essa oportunidade seria perdida.

      Também gostei do recorde ter caído justamente com o Kimi Raikkonen, que é um dos pilotos mais queridos da torcida atualmente. Se os carros realmente ficarem mais lentos a partir do ano que vem, o finlandês deverá ficar um bom tempo com seu nome na história!

  2. Perfeito o texto, JC. Foi um duríssimo golpe sofrido pela Ferrari “que tem medo de ganhar”, como bem disse o Marcio Madeira.

    E não sei se mais alguém concorda, mas esse GP da Itália me recordou um pouco o de 1990, quando Senna esmagou Prost e a Ferrari com uma pilotagem assombrosa, sem nem de longe ter o melhor carro. Hamilton fez ontem algo parecido. Já estou cravando Hamilton pentacampeão este ano, devido muito mais ao piloto que ele tem se mostrado ser.

    Na verdade, eu não gosto muito do temperamento nem de Hamilton nem de Vettel, ambos mimados demais, reclamões demais, chorões demais. Neste aspecto, o Ricciardo é de longe o mais equilibrado dos top-drivers, e minha torcida é enorme para que a Renault “aconteça” ano que vem (mesmo porque tenho um carro Renault e claro que ela é minha equipe predileta).

    Mas no geral foi uma boa corrida, muito melhor que Spa.

    Abraço!

  3. Grande Coluna JC!!

    O que pesa em favor de Vettel, é o fato do campeonato ser muito longo, e assim, reviravoltas podem acontecer.

    Ontem foi uma corrida épica, daquelas de entrar nos acervos de nós, amantes da F1.

    Esse vídeo do Graham Hill é impressionante, parece que ele estava dando uma entrevista esses dias atrás, pelo fato de ser tão atual.

    Confesso que, vou rever meu jeito de avaliação com a F1.

    Abraço e uma excelente semana!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

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