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#Senna30 – As três faces de um tricampeão

por Vinícius Mamede Chaer

O próximo dia 30 marca o trigésimo aniversário do primeiro título mundial de Senna na Fórmula 1. Já faz 30 anos aquela que foi uma madrugada para audiência brasileira e uma tarde de sol e chuva em Suzuka, no Japão. Devo ser suspeito para falar, pois a memória afetiva foi capturada ao vivo por uma retina emocionada de 12 anos de idade, mas aquela temporada de 1988, e também as que a cercam no tempo, foi o ápice da F1. Dane-se o risco de parecer nostalgia. Havia ali o equilíbrio – há quem tenha certeza de que o equilíbrio é a verdade. Refiro-me aqui não exatamente ao equilíbrio competitivo.

Naquela F1 havia equidistância entre a barbárie das três mortes por ano do passado e o interromper GP na chuva do presente. Havia um misto entre pilotagem pura, no braço, e já um tanto tecnológica. Misto de fabricação-garagem com proto-telemetria. Era Fórmula 1 espetáculo global com um pouco ainda de circo, naqueles autódromos de sempre. E naquele ano, em especial, os dois melhores pilotos daquela era pediram licença ao resto. A parada seria resolvida entre ambos, dentro de casa, sem joguinhos de equipe e com combinações mandadas às favas. Um magistral choque de gerações, de estilos e de genialidades a bordo de uma McLaren… Bem, uma McLaren-Honda turbo inesquecível, o MP4/4. Os titulares deste Gepeto falarão com mais propriedade da temporada e da corrida final nos próximos textos. Eu vou ficar com o protagonista dessa história.

Muito já foi dito, escrito, filmado e comentado sobre a obra e o legado de Ayrton Senna, incluída aí a curiosa e íntima relação do personagem com o Brasil. E, no auge do piloto, era aquele Brasil carente e difícil – Ayrton venceu seu primeiro GP no dia em que morreu Tancredo Neves, e faleceu às vésperas do lançamento do Plano Real, período que marcaria a retomada de certo horizonte político e social no Brasil. O período de maior brilho de Senna é uma curiosa e exata coincidência com quase uma década de superinflação, exclusão social e desilusão com a democracia então recém retomada. Muito já se discutiu sobre o suposto impacto da morte trágica e precoce no crescimento do mito, tal qual James Dean ou John Lennon – os tais rostos jovens eternizados. Sem falar nas recorrentes teses do “mito construído pela Rede Globo” e “reforçado pelo Instituto que leva seu nome”. Difícil, portanto, atrever-se a comentar algo sobre o piloto sem parecer repetitivo e pouco original.

Arriscando em outro caminho, três visões parecem bem claras e distintas entre si no que diz respeito à memória do piloto paulistano, no Brasil e no mundo, entre público e crítica. São distinções que vão um pouco além da tradicional divisão Ayrton-homem e Senna-piloto, uma obviedade, ou mesmo das análises estritas sobre o “herói da mídia”, objeto de livros e teses acadêmicas. O que se observa aqui é um tanto diferente e até menos pretensioso. Trata-se de uma curiosa multiface de Ayrton Senna: um mesmo ser humano, de carne e osso, morto jovem há quase um quarto de século, e três personagens sobreviventes sob a égide de seu legado.

O primeiro é reflexo da imagem pública mais imediata de Senna, predominantemente no Brasil, mas não somente por aqui. Imagem do ídolo de quase todos os pilotos da Fórmula 1 contemporânea – o que na verdade já ocorre há vários anos –  e de seguidas gerações de esportistas brasileiros. Ídolo confesso também de não esportistas no Brasil e no mundo, pessoas que de algum modo se inspiram em Ayrton nas suas batalhas profissionais e cotidianas. O homem que, para muita gente, também no Brasil e no mundo, incluindo pessoas que nunca o viram correr ou jamais se interessaram por automobilismo, é um símbolo de alguns valores como dedicação, busca pela vitória, perseverança diante das dificuldades e também diante do “sistema”, seja qual for ele.

São diversas e recorrentes as homenagens oriundas de diferentes meios – Ayrton Senna, dezenas de vezes biografado no planeta, é nome de ruas, viadutos e escolas públicas Brasil afora; outras tantas homenagens e menções foram e são feitas em diferentes lugares do mundo. E claro que neste mesmo bonde se dependura um ou outro radical, com devoção quase religiosa, com pouca disposição, por exemplo, para um debate mais técnico ou de maior esmero sobre o real significado do personagem, como também é bastante comum e esperado na carona desses grandes vultos. Trata-se da imagem, sim, de um mito contemporâneo, de um verdadeiro herói nacional, mas amado e admirado também em diferentes partes do globo, inclusive por ser reconhecido lá fora, legitimamente, como um ícone de seu povo.

O segundo personagem, possivelmente desconhecido por quem fica apenas nas manchetes das principais mídias se o assunto é Senna ou corridas, parece construído por uma espécie de incômodo que Ayrton, por um punhado de razões, parece causar em partes do público e da cobertura especializada em Fórmula 1 no Brasil. É comum notar nesse pessoal uma suspeita e contínua tentativa de desvalorização – no extremo, até desconstrução – tanto dos feitos da carreira quanto da imagem pública do tricampeão. Alguns formadores de opinião, seguidos por sua ressonância pública numa relação de mútua influência, apegam-se a erros e falhas morais de Ayrton – que ao vestir a balaclava realmente adotava a ética da “faca no dente”, mas não menos do que alguns de seus pares mais famosos -, praticando espécie de exercício iconoclástico. Talvez não notem que ao se afundarem nessa percepção se misturam sem querer com os fanáticos que creem de fato no São Ayrton ou no Super Senna.

A antiga rivalidade com Nelson Piquet e a consequente divisão entre “senistas” e “piquetistas” ocorrida na imprensa e no público brasileiros em meados dos anos 80, além de toda sua herança, talvez explique um pouco, mas não tudo. Muito além de piquetismo, é possível, por outro lado, que pese algum rancor remanescente da convivência de jornalistas com o disputado e impaciente tricampeão nos paddocks da vida. Parece haver ainda, entre público e crítica, os simplesmente invejosos – da grandeza de Senna e da preferência natural da Globo – ou aqueles, mais na crítica, que simplesmente querem ver seus blogs e posts explodirem nos comentários – criticar Ayrton é uma receita infalível. Cada qual a seu modo, todos construtores da imagem do “santo de barro”, do “produto de mídia”, do “talento supervalorizado” e outros signos semelhantes.

Todavia, não se incluem nesse grupo aqueles, na imprensa especializada, que apenas se calam ou moderam bastante no tema Ayrton Senna, provavelmente receosos de se envolverem no turbilhão dos radicais de um lado e dos preconceituosos anti-Senna – para quem fãs e admiradores do piloto são “viúvas” – do outro. Há também, claro, aqueles que simplesmente não simpatizam – ou não se afinam – com o estilo de vida ou com a personalidade de Ayrton Senna. Há, por exemplo, quem naturalmente prefira, gozando seu pleno direito de preferir, a tranquilidade de Émerson Fittipaldi ou mesmo a acidez do “inimigo” Piquet – mais ainda quando emerge uma era do politicamente incorreto.


O terceiro e último personagem, provavelmente o mais tangível deles, é notável pela consagração mundial de Senna no meio da Fórmula 1. Refiro-me à visão mais profissional das pessoas que fazem e acompanham o circo em todo o mundo e de várias épocas, de pilotos e ex-pilotos a chefes de equipes, passando por projetistas, engenheiros e jornalistas especializados, inclusive os aposentados, entre os quais foi praticamente nula a audiência a Galvão Bueno. São notáveis o reconhecimento e a reverência a Ayrton nesse meio, tal como ocorre com outros poucos nomes da história dos grandes esportes, e aparentemente de modo crescente nos últimos anos.

Falando apenas de pilotos e ex-pilotos, poucos esportistas na história devem ter tamanho reconhecimento de seus pares de várias gerações, conforme evidenciou uma grande enquete organizada pela revista inglesa Autosport em 2010, envolvendo quase todos os pilotos de F1 ainda vivos àquela altura – entre eles, vários competidores dos anos 50 e 60. E em casos como este, porque há outros, ficam claros a visão e o respeito que se tem pelo piloto e pelo personagem, sem beatificação, mas com enorme reverência. Ayrton Senna, mesmo depois de alguns sucessores superarem de longe suas marcas, é considerado em seu meio de modo bastante disseminado – obviamente aquém da unanimidade – o melhor e maior piloto da Fórmula 1 de todos os tempos.

Mito, produto da mídia e maior piloto da história. Os donos da segunda visão, a de parte dos especializados brasileiros e sua ressonância no público, parecem muitas vezes empenhados em ridicularizar ou deslegitimar o primeiro personagem, o mito internacional ou o herói do povo brasileiro, e parecem fingir ignorar o terceiro, o da consagração mundial do piloto, que por sua vez é algo flagrante e comprovadamente independente de fatores midiáticos, nacionalistas ou ufanistas. É realmente digna de nota essa multiface de um homem que, independentemente desta e de qualquer outra divagação mais teórica, já tem há bom tempo seu nome ecoado na história do esporte mundial, e também – por que não? – na história social do Brasil.

Quanto ao piloto Ayrton Senna da Silva, porque sobre tal face é mais fácil deixar subjetividades de lado, não é difícil concordar com a maioria dos profissionais da história da F1 sobre quem melhor e definitivamente fez as pazes entre a pressa e a perfeição a bordo de um carro de corridas.

Foi este o verdadeiro e único milagre do São Ayrton.

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4 thoughts on “#Senna30 – As três faces de um tricampeão

  1. Vinícius Mamede Chaer,

    sempre fui Piquetista. A razão principal foi que desde os tempos dele na Super Ve (da qual não perdia uma corrida aqui no Rio) já me simpatizava por ele e quando Piquet foi para Europa, depositei nele a confiança do Brasil ter novamente um campeão na Formula 1, como aconteceu.
    Quando Senna surgiu, pelo menos comigo, não havia mais espaço para ter outro ídolo na Formula 1. Sempre admirei o Piquet pela forma como ele levava a vida fora das pistas e sus histórias antes de ir para Europa, Roberto Moreno que o diga. Eu vi Piquet correr aqui no Brasil antes dele ir para a Europa. Isso sempre valeu muito para mim, pois acompanhei as carreiras de Emerson, Pace, Wilsinho, Luis Pereira Bueno entre tantos outros vencendo e correndo aqui no Brasil antes de rumarem para Europa. Naquela época nada melhor do que a 4 Rodas e a Auto esporte para acompanhar e saber de tudo o que se passava no automobilismo nacional e mundial.
    O Senna, como piloto foi demais da conta de bom. Vibrei muitas vezes por suas vitórias e o seu primeiro título no Japão. Mas tirando o Kart, ele nunca correu aqui no Brasil. Ele não andou em arumã, Cascavel, Brasilia, Goiania. Mas mesmo assim ele sempre quis se mostrar o maior e melhor dos brasileiros e sempre achei as suas atitudes fora da pista meio falso neste sentido, pois me parecia claro a intenção dele em querer vender a sua imagem. Nada como namorar a Xuxa neste sentido. E a meu ver o Galvão Bueno adorava esse lado dele. Ele ganhava, GB idem e a Globo também. Business. Obvio que ele mirava cifras ($$$). Hoje todos os grandes esportistas, seja lá qual for o esporte, fazem isso. A meu ver ele conseguiu vender bem a sua imagem, tanto que ela é fortíssima até hoje.
    Senna é um grande campeão? Com certeza que sim. O mais veloz de todos, acho que sim. Mass ele a meu ver não foi tão automobilista quanto Piquet, Emerson, Pace, Wilsinho, L. P. Bueno. Eles viveram o automobilismo na veia de forma mais intensa e natural.
    Senna merece todas as homenagens. Seu legado é grande. mas eu continuo sendo um Piquetista,

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    1. Caro Fernando,

      É isso aí. Quando entram as subjetividades, não há discussão. Há, sim, quem veja excesso de planejamento e até falsidade na construção da carreira do Senna. Mas há também quem veja um gênio precursor dos novos tempos dos grandes esportes midiáticos e globais. Preferências são preferências, algo normal, inclusive os modos pelo quais os esportista abordam suas atividades e suas relações com elas. Acho difícil, contudo, que algo construído sobre falsidade tenha legado tão perene como o de Ayrton piloto e símbolo. Ademais, o reconhecimento global já há mais de três décadas, desde quando ele corria, é pra lá de sólido. Está mais pra “casinha de tijolo”. Globo, Galvão e marketing puro devem ter pouco ou nada e ver com isso. Mas respeito suas opiniões. Piquet é uma grande figura do automobilismo internacional, orgulho para o Brasil.

      Um abraço

      1. Vinicius,

        não discordo, mas como não sou bom de escrever, troque o falso do texto pelo politicamente correto. Para mim não havia conexão entre o Senna dentro das pistas com o Senna fora dela. Senna nas pistas foi tão Dick Vigarista com o Prost, assim como Prost foi com ele, que nunca admitiu, muito menos o Senna, mesmo sabendo que todos pensam ao contrário. E uma verdade como Nigel Mansel e Piquet em entrevista aqui no Brasil há pouco tempo atrás afirmarem que jogar um companheiro para fora da pista para ser campeão jamais fez parte da história da carreiras deles não ter crédito algum.
        Quanto ao seu reconhecimento global, foi aquilo que eu disse acima, ele soube vender bem a sua imagem, sem duvidas seu legado é grande.
        Valeu pela atenção a mim dispensada. Show de bola!!!

        Fernando Marques

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