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#Senna30 – A corrida do título

por Lucas Giavoni

O passar do tempo nos traz uma possibilidade fantástica: o de jogar luz em fatos passados e, com nossa maturidade e senso analítico aguçado, ter a capacidade de reavaliar e conhecer melhor cada acontecimento. Com o GP do Japão de 88, que neste 30 de outubro de 2018 completa exatos 30 anos, não é diferente.

Comecemos pelo sistema de pontos que possibilitou o título de Ayrton Senna e que, em última análise, foi o que deu graça ao campeonato. Estávamos sob a égide do sistema dos Melhores Resultados, famigeradamente conhecido como “sistema de descartes”. Das 16 corridas do ano, só seriam computados os 11 melhores resultados de cada piloto.

Como a McLaren tinha no MP4/4 um bólido absolutamente dominador, que era na maioria das vezes 1,5s mais rápido por volta, o campeonato ficou concentrado entre seus dois pilotos, e em qual dos dois conquistaria o maior número de vitórias, ou seja, quem conquistaria mais “melhores resultados”. Era uma situação inédita para esse sistema de pontos, assim como tal domínio de um carro, que foi o favorito da minha infância.

Não fosse esse sistema e o campeonato já estaria decidido desde o começo, dada a fantástica consistência de Alain Prost, que abandonou apenas duas corridas (Grã-Bretanha e Itália) e no restante do ano foi 1º colocado 7 vezes e 2º colocado outras 7. Vale lembrar que Senna já começou com um abandono (desclassificação no Rio), e ainda teve abandonos em Mônaco e na Itália – ambos por acidente. Ao fim do ano, Prost tinha 105 pontos, Ayrton apenas 94. Contando apenas os 11 melhores resultados, no entanto, o placar foi de 90 x 87 para o brasileiro.

Uma série de fatores acabou dando contornos dramáticos àquela corrida de três décadas atrás. Após uma sequência de quatro vitórias consecutivas, Senna vinha do antológico revés que tomou em Monza, e das misteriosas corridas na Ibéria, em que o seu computador de consumo indicava erroneamente um consumo tão elevado (coisa de 13%), que não passou de 6º em Portugal e 4º na Espanha. O momento, portanto, era todo de Prost.

Suzuka é a casa da Honda, e a montadora estava às turras com Jean-Marie Balestre (quem nunca?), que em sua posição de presidente da FISA, publicou uma carta aberta em que pedia igualdade de equipamentos para Senna e Prost – dando a entender que o francês estava sendo prejudicado pelos japoneses.

No acender da luz verde, tivemos o erro crasso de Ayrton em deixar o motor morrer, caso único em toda a sua carreira de F1. Sim, foi um erro enorme que quase colocou tudo a perder. Até hoje não se de onde Gerhard Berger tirou tanto reflexo para desviar sem bater.

A questão é que Senna conseguiu no segundo tranco colocar em funcionamento o seu poderoso Honda RA188E V6 e seguiu para fazer a primeira curva na 14ª colocação. Poucos notam, mas Satoru Nakajima, que largava num honroso 6º lugar, também deixou o motor morrer e perdeu várias posições com sua Lotus amarela.

Quem diria, Senna se igualava a Nakajima naquele momento. Mas só naquele momento!

A recuperação de Ayrton ainda na primeira volta foi notável, já que em menos de uma volta completa, pulava do 14º para o 8º posto, com pneus frios e tanque cheio, assumindo riscos enormes – seu único bônus foram as posições herdadas de Derek Warwick e Nigel Mansell, que se estranharam no hairpin, resultando pneu furado pra um, bico quebrado pra outro.

Pena que a Fuji TV não captou essa evolução, já que o líder Prost foi continuamente assediado pela Ferrari de Gerhard Berger na volta inicial – assédio este que parou por aí e apontava que o vencedor do GP do ano anterior não tinha carro pra tentar mais nada. Fogo de palha.

Enquanto Senna passava os adversários em modo rolo compressor, Prost esteve longe de poder poupar equipamento na liderança, como fez, por exemplo, na corrida de abertura, no Brasil. Logo na volta 4, Ivan Capelli crava a melhor volta da corrida até o momento. A bordo da March-Judd 881 que marcou a estreia de Adrian Newey como projetista-chefe, não demoraria para que Capelli se livrasse de Berger, mirando o líder Prost, lá pelo 10º giro.

Algumas voltas depois e Suzuka vivia sua primeira garoa. Não era caso de troca de pneus, mas os tempos de volta subiram coisa de 4 a 5 segundos, momento em que Senna, que chegou a estar 13s atrás do líder, tratou de mostrar um de seus mais preciosos predicados: o de encontrar como poucos o limite de aderência de uma pista em condições variadas.

Não deixa de ser irônico que Prost, que havia aplicado a Senna lições desconcertantes em Mônaco e Monza, estaria sendo vítima de um blefe total. Toda aquela pressão exercida por Capelli, e que permitiu que ele liderasse alguns metros da corrida, na volta 17, só foi possível porque o italiano largou com apenas 40 litros de combustível.

A participação de Capelli era apenas pra dar showzinho frente ao principal patrocinador da equipe, a Leyton House. Essa informação consta na biografia de Ayrton Senna escrita por Francisco Santos e foi confirmada por Maurício Gugelmin em depoimento ao meu irmão Márcio Madeira.

Depois do susto inicial e de todo o trabalho para escalar o pelotão, o cenário sorria a Ayrton. O piso escorregadio, apesar de aumentar os riscos, expôs sua pilotagem exuberante nesse tipo de situação, havia um Capelli para fungar no cangote de Prost, e este alegadamente estava com alguns problemas de câmbio. Para melhorar ainda mais, aqueles 40 litros de gasolina de Capelli secaram exatamente quando o brasileiro chegou em ambos.

Na volta 27, enfim uma ultrapassagem que parecia improvável de acontecer logo após o sinal verde. Senna precisou ir até a parte suja da pista, junto ao muro dos boxes, e segurou uma escorregada arrepiante de traseira na tomada da curva, a mesma onde alguns pilotos já haviam escorregado em condições muito menos extremas, como Nelson Piquet e sua horrorosa Lotus.

Não podemos dizer que, dali em diante, Prost jogou a toalha. Ele genuinamente tentou acompanhar o ritmo do colega de equipe, mas qualquer revide se mostrou impossível. Na bandeirada, aquelas imagens eternizadas, dos punhos erguidos, viseira aberta e visível choro de alegria dentro do capacete.

Eu particularmente encontro enorme uma enorme dificuldade em escrever sobre Suzuka 88 com um enfoque estritamente técnico, sem carregar nas tintas sentimentais. Foi um evento definitivo em minha infância, um garoto de 4 anos de idade recém completados que testemunhou o primeiro título mundial de Ayrton Senna, mas que não entendia por que aquela corrida era de madrugada, já que nem sabia o que diabos era fuso horário.

Mas não se engane, eu já sabia muita coisa de Fórmula 1. Não sabia como funcionava uma embreagem, mas sabia quem eram Ayrton Senna, Alain Prost, Nelson Piquet, Nigel Mansell, Gerhard Berger, Derek Warwick, Satoru Nakajima etc., aquela turma toda, dos postulantes ao título até os participantes do fundão. Não sabia ler, mas reconhecia cada carro, sabia cada motor, cada capacete, qual carro era aspirado, qual era turbo.

Eu estava absolutamente imerso em tudo aquilo, mesmo com tão pouca idade. Meses antes, meus pais haviam comprado o álbum de figurinhas da temporada 1988, da finada Multi Editora. A intenção era que aquilo fosse um passatempo, uma atividade gostosa e paradidática pra me distrair.

Só que a intenção inicial tomou um rumo fora da proposta inicial e ficou absolutamente fora de controle. Eu gostei demais daquilo, e do alto meu metro incompleto de altura, não parava de apontar pro álbum e perguntar quem eram aqueles pilotos, carros, circuitos etc.

Então, claro, ter testemunhado aquela corrida e ter gravado em VHS para rever quando quisesse foi a grande confirmação de que eu era portador do tal incurável vírus do automobilismo, que me faria curtir tanto o que aconteceu adiante, quanto me levou a conhecer tudo o que havia acontecido antes – a bela e rica história do esporte a motor.

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5 thoughts on “#Senna30 – A corrida do título

  1. Lucas,

    GP do Japão em 1988 … que corrida fez o Senna … foi demais da conta mesmo …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Esse álbum de 1988 eu tive, completei e se perdeu…
    Conta a lenda que um colega de classe invejoso jogou ele fora no colégio. Isso mesmo, eu vivia com esse álbum nas mãos e levava ele pra cima e pra baixo. Me lembro que chorei horrores quando ele se perdeu.

  3. Tb tive o album de 88 e, com 11 anos, vi meu idolo de infancia coroar o 1o titulo numa corrida épica. Ate hj revejo no youtube e consigo reconhecer a maior parte dos carros e pilotos sem legenda. Enfim, ficou marcado na minha historia, na sua, e na de muitos outros. Tivemos o privilegio de ver um dos melhores de todos os tempos atuar por anos nesse magico esporte a motor.

  4. Grande Lucas!

    Rapaz, aquela madrugada foi mesmo inesquecível, uma festa danada que pudemos prestigiar.

    E sim, aquele álbum de 88 foi bom demais de colecionar, e vire e mexe, me pego folhando as paginas amareladas e surradas de uma época tão especial, que de maneira automática, me remete aquele GP do Japão de 88.

    Eramos felizes, e sim, sabíamos que eramos felizes.

    Grande abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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