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Revisionismo histórico

Todos os fatos têm três versões: a sua, a minha e a verdadeira
(provérbio chinês)

O ano de 2018 tem sido um prato cheio para quem se interessa por história: nas eleições brasileiras, por exemplo, vimos momentos e movimentos históricos sendo invocados por diferentes lados (não apenas dois) da moeda, cada um atacando o que lhe conviesse, escondendo o que não interessasse: fascismo, nazismo, ditadura militar, comunismo, socialismo, imperialismo, invasões americanas, declínio venezuelano, capitalismo, marxismo, fome, exploração, materialismo, Palestina, Israel, eleições de Trump, debates presidenciais, Guerra Fria, Privatizações, prisão de Lula, Impeachment(s).

As campanhas dos presidenciáveis, quando referindo-se ao adversário, sempre focaram em ressaltar os aspectos negativos daquilo que representassem: se o presidente eleito puxava à memória os inúmeros casos de corrupção e incompetência e o caudilhismo do PT, o segundo colocado evocava o que de pior houve nos governos militares, indo da ausência da liberdade de expressão às barbaridades físicas impostas aos opositores.

O nome que se dá à corrente acadêmico-filosófico-politica que busca reavaliar eventos e fatos ocorridos no passado é “revisionismo histórico”. Trata-se de complexa pesquisa e, sobretudo, argumentação contra o que é estabelecido como verdade até então. E isso varia desde professores e historiadores buscando trazer luz a evidências que apontam para diferentes datas do Descobrimento do Brasil até grupos neonazistas ou extremistas islâmicos querendo negar o Holocausto.

Nos esportes, o revisionismo não tem o tamanho de um “movimento”, porém — ou até mesmo por isso –, constantemente se vê opiniões e perfis serem reavaliados na perspectiva histórica.

Se observarmos as famigeradas listas de “melhores de todos os tempos” ao longo dos anos, perceberemos que posições ora consolidadas passam a estar “sob suspeita” pouco tempo depois. Principalmente quando se tratar de visão editorial.

2013 é um ano a ser estudado no futuro: foi quando se iniciaram os protestos em massa que culminariam nas eleições de 2018.

Tudo começou por conta do aumento das passagens de ônibus em São Paulo (alguém se lembra quem era o Prefeito?…), e ergueu uma série de pautas, dentre elas o Impeachment de Dilma Rousseff.

Mundialmente, foi o ano da renúncia de Bento XVI e da eleição do Papa Francisco. Morreu Hugo Chávez, abrindo caminho para Nicolás Maduro. Morre também Nelson Mandela. E Edward Snowden fez suas denúncias que revolucionariam a internet.

Na Fórmula 1, víamos a história em polvorosa: Sebastian Vettel vencia seu quarto título consecutivo, e ganhou as últimas 9 provas do ano.

À época, escrevi o texto “Sebastian Vettel e seu lugar na história“, onde alertava para as condições que permitiram, de certo modo, que Vettel obtivesse tais feitos.

Ponderei que o fato de Vettel alcançar marcas tão semelhantes às de Schumacher menos de dez anos depois não deveria depor contra ele, mas mostrava que qualquer análise sobre os pilotos do passado precisaria de um olhar mais clínico sobre a evolução da teconlogia, da confiabilidade e, principalmente, sobre as dificuldades impostas através de regulamentos e restrições técnico-orçamentárias.

Querer embarcar na onda e atribuir ao talento do alemão a força maior (se não única) a impulsionar seus recordes não passava de histeria.

Naquele momento, Lewis Hamilton trilhava rota distante dos grandes holofotes, parecendo traçar aquele caminho do piloto combativo e exuberante que, às vezes, abocanhava vitórias, e só isso.

Hamilton era relativizado: seu título de 2008, mera sorte. Suas distrações extra-pista, sinal de fraqueza. A ausência de companheiros de equipe de primeiríssimo nível, blindagem questionável.

Vettel era rei.

5 anos depois, essa narrativa se inverteu. E ninguém fez o exame sobre o que dissera ou deixara de dizer.

Pra quem compra a ideia de que os esportistas só melhoram com o tempo, recomendo o video abaixo:

Antes do começo da temporada 2015, Júlio “Slayer” Oliveira escreveu o texto “Reputação abaixo do talento“. Nele, fez uma análise reflexiva sobre a trajetória de Nico Rosberg na Fórmula 1, e sobre como ele era (ainda é, creio) subestimado por fãs e especialistas.

Sobre o campeonato de 2014, Júlio escreveu: “Enquanto Rosberg surpreendeu aos mais desavisados por não ter sido massacrado por Hamilton, na realidade, ele decepcionou os que sabem de seu real potencial e que muito esperam dele“. Nosso colunista já apostava em Nico para um eventual caneco, que viria um ano depois de seu texto.

Nico, em seguida, anunciou sua aposentadoria, mostrando que talvez seja aquela ambição quase sanguinária que diferencia os Schumachers, Sennas e Hamiltons de seus pares, e não necessariamente suas capacidades como pilotos.

Nico, gostem ou não, venceu sete corridas seguidas na F1 — feito igual ao de Schumacher e só menor que os de Ascari e Vettel, que emendaram 9. 4 homens em quase 70 anos.

“Mas também, com aquele carro!”, dizem.

O mesmo de Hamilton, agora chamado de melhor de todos os tempos…

Alguém já pesquisou como se deu a eleição em que Pelé foi escolhido o “Atleta do século”?

Centenas de jornalistas, representando 20 publicações ao redor do mundo, receberam uma lista com 50 nomes das mais diversas modalidades, e tinham de elencar os 3 primeiros – com pontuação invertida.

Pelé terminou em primeiro, somando mais pontos no total. No entanto, ele só foi apontado em primeiro 5 vezes. Quem foi mais vezes escolhido no topo foi o americano Jesse Owens, com 7 primeiras colocações. Pelé obteve 178 pontos; Owens, 169.

Mas há um importante detalhe: Owens não constava na lista de 50 entregue pela revista. Suas menções foram espontâneas!

E aí o ponto interessante: o grande feito histórico de Owens data de 1936, 4 anos antes do nascimento de Pelé, e quase meio século antes da premiação. O rei havia parado de jogar apenas quatro anos antes da eleição…

Talvez — que ironia! — Pelé tenha sido favorecido por… ser mais recente.

No entanto, o fato de, passados quase 40 anos daquele primeiro reconhecimento, Pelé continuar como essa referência mundialmente, demonstra que ele de fato foi alguém extraordinário não apenas no futebol. Muito além de seu tempo.

O revisionismo, por mais bem intencionado que seja, é ineficiente por um simples motivo: sempre se propõe a defender um ponto de vista e “comprová-lo”. Não houve (haverá?) quem se propusesse a analisar os mais variados lados da história.

No Impeachment da ex-presidente Dilma, tivemos um deputado federal homenageando um ex-oficial do exército que foi torturador durante o Regime Militar; outro parlamentar homenageou um civil que, como o mesmo se declarou, era “guerrilheiro urbano”.

Os dois homenageados, supõe-se, atentaram contra vidas humanas não uma nem duas vezes. E ambos, vejam só, tinham todas as justificativas do mundo para seus atos, pois estariam “impedindo um mal maior”. Para os dois congressistas, as figuras evocadas seriam a síntese da frase de que os fins justificam os meios.

Mas um deles foi execrado, e foi até alvo de processo por conta dessas declarações; o outro, visto como alguém que bradava por esperança e hoje sequer lembramos seu nome.

Um virou Presidente; o outro, “resistente”.

Não é preciso ser petista para ser contrário à tortura e outras formas de opressão praticadas durante o Regime que vigorou no Brasil por mais de duas décadas. Semelhantemente, não é preciso ser “coxinha”, “minion” ou o “fascista” de hoje para se opor a todas as ilegalidades e desmandos do partido que comandou o país por durante 13 anos e meio.

Basta ter bom senso.

4 thoughts on “Revisionismo histórico

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