God save the Queen

Nesta semana, o Reino Unido e todos do Commonwealth (54 países que faziam parte do império britânico) comemoram o jubileu de diamante da rainha Elizabeth – ou seja, 60 anos. Pra se ter uma ideia do que isso significa, é apenas a segunda vez que isso ocorre, a anterior tendo sido em 1897, com a rainha Vitória.

Como não sou súdito da realeza, não sei muito bem sua importância na vida cotidiana, política e econômica do Reino Unido – bom, duvido que até mesmo os britânicos saibam – mas de um jeito ou outro, acompanhei pela BBC o início dos festejos e o comentarista da emissora disse que a data significa mais que um parabéns à rainha, e sim um “muito obrigado”. Portanto, alguma coisa a rainha deve fazer para o bem daquela comunidade. Imagino que ajude muito o turismo, aquela coisa de viajar para ver o palácio, o casamento real, as carruagens e tudo mais, e ainda por cima exportar os descendentes mais diretos, para chamar a atenção para o país e mostrar o quanto o Reino Unido é interessante – assim como fez o  príncipe Harry quando passou pelo Brasil, terminando seu tour com um jogo de polo.

Mas, enfim, como diriam os ingleses, você deve estar se perguntando “so?”. Bom, resolvi abordar esse tema porque assistindo às comemorações pela TV, me chamou a atenção os desfiles, primeiramente o de mil barcos (algo que me interessa muito e gosto demais) passando pela London Bridge, desfilando pelo Tâmisa e chegando ao final com a barca real, onde toda a realeza acenava de pé ao público que lotou a margens do rio, mesmo debaixo de muita chuva – um bom clima londrino. Eu acompanhei somente para ver o Suhali, o veleiro com que Sir Robin Knox Johnston – um dos meus ídolos – completou a primeira volta solitária pelo globo, em 1969. Na mesma transmissão, anunciaram ainda um desfile de carruagens ao longo da semana, uma apresentação aérea , um show memorável e outros tantos mimos à rainha. E aí é que está: por que não fazem uma desfile de carros de corrida, já que é para mostrar as grandes riquezas maquinarias da terra da rainha? Afinal, os ingleses têm paixão por velocidade e essa coisa que até brincamos no Brasil quando vamos anunciar alguma notícia sobre a Fórmula 1, de que as discussões sobre o assunto vão tomar os bares da cidade e as conversas de balcão, por lá, realmente acontecem, tomam os pubs, e dá para ter uma discussão sobre a F1 bebendo uma “pint”.

Para exemplificar mais ainda essa paixão, me lembro de uma das corridas de F1 que cobri em Silverstone. No ano anterior, tive um grande problema para chegar ao autódromo. Antes das reformas no acesso a Silverstone, que deixaram tudo mais fácil (e foi uma imposição de Bernie, com a ameaça de tirar a corrida de lá), chegar ao autódromo era um ato de heroísmo. Lembro de histórias, segundo as quais os próprios pilotos tinham que ser escoltados a partir do meio da estrada para chegar a tempo do treino da manhã. Outra história dá conta de que um helicóptero teve de pousar na estrada para pegar David Coulthard e leva-lo ao circuito, e tantos casos mais.

Como não tinha esses privilégios, ou acordava muito, muito cedo para tentar chegar a tempo ou perdia a corrida. E mesmo assim, levantar de madrugada não era certeza de garantir o horário. Por isso mesmo, nós, jornalistas, tínhamos vários planos de fuga e de acesso, por estradas secundárias. Mesmo assim, o sofrimento pelo horário da corrida chegando e o carro não se movendo só aumentava o stress. Tentando me livrar dessa angústia, no ano seguinte, segui o conselho do amigo Rogério Gonçalves, responsável pelo combustível da Williams, na época abastecido pela Petrobras. Os pais de um engenheiro da Williams alugavam um quarto da casa todo ano, e ela era ao lado do autódromo, dando para ir a pé. Fui nessa!

A casa era ótima, as pessoas idem e o quarto, bastante curioso. Ele era da irmã do engenheiro em questão, típico de menina, com um diferencial: pôsteres de carros de corrida por todos o lados e fotos de um piloto em particular idem. O piloto? Rubens Barrichello!

Ela era louca pela Rubinho e há tempos. As fotos eram da F3 inglesa, em 1991, quando Rubinho começou na categoria. Tinha fotos só dele, dele com ela, dele com o carro, enfim, como se fossem fotos de um “rock star”. Sei qual é a pergunta que deve estar passando pela sua cabeça agora, e a resposta é… não. Eu não tive pesadelos com aquilo! Bom, pelo menos naquela noite não. Segundo a família (não me contive em perguntar), a menina era louca por Rubinho, gostava do jeito de pilotar do brasileiro e ela adorava vê-lo na pista. Gostava do piloto Rubinho.

Separador

Chegando a uma oportunidade mais próxima, no ano passado, tive outra chance de ver o quanto as garotas inglesas têm a velocidade no sangue. Em Gooodwood, no Festival da Velocidade – o encontro de pilotos e máquinas -, Jenson Button havia sido convidado para guiar o MP4-12C, o carro da rua da McLaren. Do outro lado de uma cerquinha baixa, uma garota chamava o inglês. Eu quis saber o que tanto ela sabia sobre Button e se toda aquela paixão explícita era pela pessoa ou pelo piloto. Achava que já sabia qual resposta ela daria, mas não é que me surpreendeu? Falou com propriedade das habilidades de Button na pista, de seu estilo de pilotagem e comentou, munida de muita informação, a corrida recém vencida por Button, aquele emblemático GP do Canadá 2011, uma baita corrida do inglês.

E por falar em Goodwood, já estava quase terminando o texto quando recebi da organização do evento que haverá neste ano, no final deste mês, uma raríssima exposição de carros que pertenceram à rainha, como forma de celebrar o seu jubileu. Segundo afirmam, a coleção nunca foi exposta com todos os carros reunidos. Não é bem o que eu tinha em mente, mas como Goodwood vai também celebrar a Lotus e toda a genialidade de Colin Chapman (para mim, o cara mais criativo e inventivo da F1 até hoje), no geral do caldo, tá tudo certo, e os carros estarão no jubileu da rainha.

Lá estarão também, Emerson Fittipaldi, Stirling Moss, Alain Prost, Jochen Mass, Martin Donnely, John Surtees, Jack Stewart, entre outros, como Bruno Senna que vai pilotar o FW08C, o Williams com que o Ayrton realizou seu primeiro teste na F1, em 1983!

É se eu pudesse dar um conselho para a rainha, diria para ela dar uma passadinha por Goodwood. É um ótimo jeito de comemorar o aniversário dela.

Até a próxima!

Tiago Toricelli
tiagotoricelli@hotmail.com

One thought on “God save the Queen

  1. Eu adoraria poder estar em Goodwood e assistir in loco este festival de velocidade. Deve ser muito bom demais … mesmo pra ver as carruagens da Dona Elisabeth … Alias espero do GP Total uma bela cobertura desta festa … Silverstone é um circuito sensacional, de alta velocidade e sempre proporcionou belas corridas …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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