Massa, cuidado com o Vatapá!

Embora o texto penda mais pro lado confessional e tenha um quê de anedota, é curioso notar que a corrida descrita por Tiago Toricelli acabou sendo o GP onde Felipe Massa recebeu ordens de equipe para deixar Nick Heidfeld passar – video abaixo. E é a mesma Hockenheim onde, 8 anos depois, aconteceria a ordem de equipe da Ferrari e o famoso “Fernando is faster than you”.

Nos últimos dias, estive pensando o que poderia escrever sobre Felipe Massa, um cara que respeito e admiro muito, assim como a Rubens Barrichello. Mas para Felipe, tenho um olhar diferenciado, já que o vi começando na Fórmula 1, quando eu ainda acompanhava toda a temporada, fazendo as reportagens para a Rádio Globo/CBN. E foi em meio a essas memórias que lembrei de algo curioso – uma recordação que pode servir para que o mesmo não se repita, e ele tenha que faltar justo na hora de dar a bandeirada do GP Brasil!

Na época, prometi a Felipe que não sairia espalhando, mas como isso foi em 2002, acho que o prazo já venceu. Massa estava em seu primeiro ano como piloto oficial da equipe Sauber, um time simpático, que tinha como proprietário Peter Sauber, grande fã de charutos. A corrida sobre qual vou falar especificamente é o GP da Alemanha, em Hockenheim. Um autódromo lindo na ocasião, antes da reforma que tirou suas grandes retas que entravam fundo na floresta negra alemã – acho que ficou óbvia minha predileção pelo antigo circuito de lá, não?

Bom, mas antes que o texto desvie de seu rumo, vamos aprumá-lo. Na verdade, quero contar sobre algo que aconteceu fora da pista. Na real, fora do circuito. E sim na casa do Baiano (com B maiúsculo mesmo, ele é tão conhecido assim, que o apelido já ganhou promoção para nome). Baiano era (e me parece que ainda é) o cinegrafista da TV Globo na F1. Então, inevitavelmente, nos encontrávamos a cada 15 dias ou menos. A mesma coisa acontecia com meus colegas de cobertura; Everaldo Marques (pela Jovem Pan, hoje na ESPN), Fábio Seixas (Folha de S. Paulo), Cândido Garcia (saudades… Rádio Transamérica), Flávio Gomes (então pela Rádio Bandeirantes), Graminho (TV Globo, hoje capitaneando na Stock Car), Dentinho e João Pedro Paes Leme (ambos da Globo).

Baiano, casado com uma alemã, morava em uma cidade próxima a Hockenheim, chamada Heidelberg, e que servia de base para todos nós, já que dispunha de boa localização e hotéis justos. Foi lá que nasceu Nelsinho Piquet. Trata-se de uma cidade universitária, com suas construções bem próprias da arquitetura alemã e pontes semicirculares sobre um rio que corta boa parte dela.

Voltando ao assunto, bom baiano que é, Baiano nos convidou a todos para um jantar – claro que “baiano”. Comida baiana em plena Alemanha! Quem recusaria? O prato da noite? Vatapá. Eu nunca tinha comido aquilo e minha curiosidade gastronômica estava despertada. Além de nós, quem foi convidado foi Felipe Massa, que não recusou a ida.

Sexta-feira, lá estávamos todos, mais Massa para provar o quitude. Baiano o descreveu: um típico prato afro-nordestino-baiano, com amendoim moído, farinha de rosca, gengibre, pimenta, castanha de caju, leite de coco, azeite de dendê, carne (peixe, frango), com uma consistência bem cremosa e não me perguntem como ele achou, ou mesmo estocou todos esses ingredientes por lá. É servido com arroz branco, e foi assim que fizemos. O prato realmente estava uma delícia – todos adoraram. Poucos já o conheciam. Não era o meu caso, tampouco de Massa. Comemos bem. Logo após o primeiro prato, emendei um segundo, e ao final um terceiro. Não houve aviso de “o prato é forte”, vindo do Baiano, que me fizesse parar.

Assim, como eu, Massa também emendava uma garfada em outra. O prato realmente é saboroso, recomendo mesmo, o negócio é bom. É bom, mas cuidado! Cuidado… Foi isso que não tive.

A noite, como todas em companhia de bons amigos, foi ótima. Nos despedimos e cada um foi para seu hotel. Tínhamos que dormir cedo, afinal, no dia seguinte pela manhã teríamos o warm-up, e na sequência o treino classificatório. Everaldo, Candido e eu dividíamos o mesmo quarto (bem-vindo ao glamour da cobertura de F-1). Tão logo deitamos, dormimos. Podia-se ouvir os roncos como pano de fundo. No meio da madrugada, contudo, algo aconteceu. Uma onda quente foi tomando conta da minha barriga e, de repente, senti uma necessidade sem igual de ir ao banheiro. Foi chegar na casinha, sentar no trono, e sentir o alívio – foi como se um alien saísse de dentro de mim. Aliviado, voltei para a cama, mas durante a noite toda, ruídos eu ouvia vindos da minha barriga. Fiquei “conversando” com o vatapá a noite toda. Após duas ou três idas ao banheiro durante a madrugada, o despertador anunciou o início de mais uma jornada.

Naquele dia, era minha vez de guiar nosso carro alugado. Do hotel até o circuito, uns 35 km de percurso. É bem possível vencer esse trajeto com enorme facilidade – se não fosse… se não fosse, o que? Sim! O trânsito! Ou você pensa que tráfego pesado em saída de autódromo é só no Brasil que existe? Você não imagina como era o de Silverstone, na Inglaterra, há alguns anos – mas essa é outra história.

Enfim, mal andamos 10 km e tudo parou. Não andava nenhum centímetro sequer, era carro para todos os lados. Conversávamos tranquilamente, tentando esquecer que o horário se apertava quando de repente, não mais que de repente, sinto uma onda de calor, já por mim, àquela altura bastante conhecida, aproximar-se. O calor começou na ponta do dedinho do pé e outra iniciou-se na extremidade do meu fio de cabelo mais longo. Um calor subia, outro descia. Até que se encontraram bem na barriga. Uma revolução ali se instalou e em fração de segundos não via mais nada na minha frente, a não ser a necessidade incontrolável de achar um banheiro… estivesse ele onde fosse.

Desesperado e sabendo onde aquilo poderia terminar, olhei dos lados e vi na mão contraria ao sentido que seguia, uma loja de… bom, sei lá do que. Naquela altura só imaginei que ali deveria haver um banheiro. Sem pensar uma vez, (imagina então duas?), fiz uma manobra que até hoje não sei como não esbarrei em nenhum carro, atravessei um canteiro que separava as vias, acelerei entre os veículos, desci correndo, entrei na loja, atravessei seus corredores sob olhares curiosos das vendedoras, cheguei ao banheiro – assim como o imã procura o ferro -, e ali despejei toda minha angústia… Que alívio! Nossa, que alívio!

Não sei descrever o que senti, mas acho que você imagina. Chegando no autódromo, fui direto para a sala de imprensa, onde acompanhei o final da sessão de warm-up. Dei mais uma passadinha no banheiro, de regra. Após o treino, desci as escadas em direção a pista e encontrei Felipe Massa sentado em uma cadeira, em volta de uma mesa armada perto do motorhome da Sauber.

Putz… você não sabe o que passei com o vatapá de ontem, fui não sei quantas vezes ao banheiro… tá feio o negócio”, eu disse.

httpv://youtu.be/1ol0KTDmO54

Se tá feio pra você, imagina pra mim, que fui ao banheiro a mesma quantidade que você, só que todas as vezes que fui hoje, tive de sair correndo de dentro do carro e tirar o macacão! Você sabe o desespero que dá achar que não vai dar tempo de tirar o macacão? Não vai falar isso pra baiano, heim!”, ‘anunciou’ Massa.

Portanto: Massa, cuidado com o vatapá!!

Bom fim-de-semana a todos.


Coluna publicada originalmente em 09 de outubro de 2009

3 thoughts on “Massa, cuidado com o Vatapá!

  1. E ninguém avisou os pobres cidadãos sobre a possível “letalidade” do alimento.

    Se bem que o perigo mesmo, na carreira do Massa, é o Alonso. O equivalente a 10 mil “caganeiras”. Incrível como o Massa não teve a idéia de procurar outra alternativa em 2011 – por que não correr por uma equipe média, mostrar que ainda sabe das coisas, e depois tentar dias melhores numa McLaren, Red Bull, Lotus?

    A comparação com o Alonso faz com que a imagem do Felipe, hoje, seja pior do que deveria. Pode ter encurtado a carreira na F1 em uns bons anos devido a essa insistência em permanecer na Ferrari.

    1. E lá no Mexico o pessoal manda uma pimenta que o Mansell que o diga … Nelson Piquet conhece bem esta historia …

      Fernando MArques
      Niterói RJ

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