39 anos depois

Nosso líder e guru Edu Correa me telefona com uma proposta tentadora: “Vamos ver a largada das 6 Horas de S. Paulo, amanhã?” Recheou o convite com um detalhe importante: “E vamos no esquema dos velhos tempos, sem credencial, sem nada. Vamos, entramos, assistimos ali da arquibancada, e saímos antes do fim pois tenho compromisso no fim da tarde. Que tal?”

Premissa básica necessária: frequentadores de Interlagos desde a adolescência, a última vez que estivemos juntos ali como espectadores, e não como convidados, jornalistas credenciados ou, no meu caso, como piloto de um campeonatinho mequetrefe denominado Classic Cup, jamais haviamos repetido tal programação nas últimas três décadas.

“E vamos pular o muro?”, perguntei, provocando Edu, já que naqueles distantes anos 70 pagar ingresso era contra nossos princípios. “Não, desta vez vamos pagar…”.

No final, pagou ele. Uma gentileza de 140 reais por dois ingressos na arquibancada A, a mais ‘simplinha’  – a “B”, em frente ao box e coberta, facultaria ver as trocas de pilotos, pneus e reabastecimento, um show à parte em qualquer corrida de longa duração. Mas nós, tradicionalistas, queriamos mesmo ocupar nosso velho lugar, ali na caixa d’água, local que definimos ainda imberbes ser o ideal para assitir corridas em Interlagos, é claro após estudos científicos aprofundados, horas e mais horas de elaboradíssimas conjecturas.

Foram tantas corridas que vimos ali daquele ponto que tanto eu quanto Edu sabiamos exatamente para onde olhar na busca pelo competidor “A”, “B” ou “C”. Nós tinhamos o ‘timing’ da pista, o olho treinado para seguir três ou quatro disputas ao mesmo tempo sem perder tempo caçando as lutas com o olhar. Era o circuito antigo, aquele assassinado em 1989, de 8 quilômetros, que tinha a Ferradura, curvas 1, 2 e 3, Laranja, Sargento…

E neste sábado, postados à sombra das agora frondosas paineiras que margeiam o topo da arquibancada, tentamos lembrar qual foi nossa ultima vez ali, juntos. O veredicto, incerto, recaiu sobre a Taça Centauro, uma corrida de motos realizada pelo extinto anel externo em agosto de 1973. 39 anos atrás…

Interlagos mudou, Edu e Roberto também, claro. Mas a sensação naquele ensolarado sábado era que as quase quatro décadas não haviam passado. Pura sensação: bastava olhar para os Audi e o Toyota (e nossas barrigas…), francos favoritos à vitória, para perceber que muito havia mudado especialmente quanto à tecnologia. Motores híbridos, recursos de reaproveitamento da energia nas frenagens para transformá-las em potência, a tração integral e os materiais empregados em todos aqueles carros seriam, em 1973, uma miragem, quase um feitiço de mago Merlin antecipando o futuro ao jovem pupilo Arthur.

E para minha alegria, o espetáculo não se restringia só ao show de alta tecnologia dos carros na pista. Pela primeira vez estive em Interlagos e não saí irritado com o tratamento dado ao público. E explico.

A carreira de jornalista e a especialização em esportes a motor nos facultaram a entrada nos bastidores, nos ditos “camarins” de qualquer espetáculo ali realizado. Assim, do começo dos anos 80 até agora ir a Interlagos para mim e para Edu significou trabalho. Seja para ir a F1 seja para uma etapa do Paulista de Arrancada, estivemos ali não como público mas no papel de repórteres, capturando imagens ou informações para passar à vocês.

Tanto eu como Edu testemunhamos o que aconteceu com Interlagos nestas quatro décadas: a mudança da pista, as sucessivas etapas de F1 e, infelizmente, o declínio do automobilismo “de raiz”, aquele acessível, aquele “pé no chão”, que cheira a borracha, que tem graxa e fumaça como componente básico e indissociável.

Não é saudosismo mas arquibancada cheia mesmo, como vimos nas clássicas 25 Horas de Interlagos dos anos 70, nas etapas do Paulista da Divisão 3, nas Copa Brasil ou nas temporadas de Fórmula 2 (Peterson, os Fittipaldi Brothers, Hailwood, Pace, Pescarolo… que grid!) e, claro, na F1. Havia então um interesse grande pelo automobilismo de um modo geral, e não apenas pela F1, ou pela anabolizada (ingresso grátis….) Stock Car ou pela patética corrida de bigas denominada Fórmula Truck.

O que aconteceu? Muita coisa, especialmente maus tratos. Enquanto as atrações da cidade (e a população) cresceram e se multiplicaram, o público da arquibancada em Interlagos foi sendo cada vez mais mal tratado e o espetáculo oferecido, pífio.

Já sábado passado, em Interlagos, houve um grande espetáculo esportivo, uma etapa de um campeonato altamente tecnológico e espetacular e, arrisco dizer, até mesmo mais interessante do ponto de vista esportivo do que a badalada F1. Quatro categorias correndo conjuntamente, carros que parecem espaçonaves e outros que podem ser vistos nas ruas disputando um mesmo espaço. Lindo mesmo. E muito importante: na entrada, um perfeito folheto oferecia a lista de inscritos como também o mapa, horários e uma breve descrição das categorias e do que se tratava o espetáculo. Pode parecer algo idiota mas é básico dar ao público ao menos uma lista de inscritos e de seus carros. E nos anos 70 qualquer corrida do Paulista de Automobilismo oferecia isso, nem que fosse em papel mimeografado.

Mas não foi só isso ou “tudo isso” que sentimos nestas 6 Horas: melhor mesmo foi ver que, diferentemente da travada Fórmula 1 que ali acontece, e na qual o público paga uma fortuna para ficar engessadinho num único lugar, nas 6 Horas de S. Paulo eu e o Edu, munidos do nosso ingressinho baratinho, pudemos caminhar livremente, ir até o paddock, circular por entre os carros da Porsche Cup que fez papel de coadjuvante ao evento principal, vermos uma exposição de carros do Emerson Fittipaldi (organizador do evento), uma excitante apresentação de Drift. Pudemos até chegar ao pé do “S” do Senna e ver os carros em plena disputa a uma distância de menos de dez metros, passando no nosso nariz, e isso sem infringir regras, sem pular muros, vazar alambrados. E havia mais: parquinho para crianças com roda gigante, show-room com motos e carros, praças de alimentação, enfim, uma festa completa.

Tenho certeza de que quem foi a Interlagos sábado achou que seus 70 reais foram muito bem gastos. O conceito de corrida-espetáculo, com atrações outras que não a estrita competição em pista é uma receita que nasceu nos EUA e tem vingado mundo afora. Pensaram em oferecer uma programação não só para o papai tarado por corridas, mas para seus filhos e patroa.

Críticos mais arraigados do automobilismo poderão dizer que isso é dispersão, que desvia o foco do real alvo. E tem razão, mas hoje é assim mesmo. Assistimos TV com um olho no tablet e outro no celular. Falamos em telefones que ao mesmo tempo mandam mensagem de texto e fotos ou te dizem qual será o tempo no fim de semana. E em alguns, dá para ver novela. Assim, para capturar novas gerações, há de se oferecer um espetáculo múltiplo, como Emerson e parceiros fizeram este fim de semana.

É claro que Interlagos, como é hoje, é carente em infraestrutura. Por exemplo, falta um placar eletrônico como o que há na bela pista de Montmeló, na Catalunha, visível a grande distância por quase todo o público. Falta favorecer quem queira se instalar no miolo da pista e acampar, seja com barracas, seja como seus motor-homes e trailers. Faltam forrar as arquibancadas de telões para mostre as cenas das disputas e do que acontece nos boxes. No único que havia na Arquibancada A, o público ali se concentrou. Enfim, ainda falta. Mas as 6 Horas de SP mostraram um bom caminho. E mesmo sem registrar público recorde e tampouco a atenção da grande mídia (não li nada a respeito na Folha de S.Paulo, por exemplo) foi uma mostra de como se deve fazer para atrair novos edus e robertos para o fascínio do esporte a motor.

A para cumprir meu dever informativo, aviso: a Toyota de Alex Wurz e Nicolas Lapierre bateu a poderosa armada Audi. E até disso, uma quase zebra, as 6 Horas de SP nos ofereceram de bom…

Abraços

Roberto Agresti

10 thoughts on “39 anos depois

  1. Agresti! Tomei conhecimento de sua existência na revista motoshow, creio eu, pois ñ tenho mais as revistas, infelizmente. C ñ foi nesta revista foi em outra, só sei q faz tempo, muito tempo. De qualquer forma, através do blog do jovino cheguei neste site e devo dizer q ñ achava legal o teu texto naquela época, mas estou lendo as colunas antigas e sou obrigado a reler, pois são simplesmente fantásticas. Sou de 65 e lá pelos meus 14/15, apaixonado pelas baratas, meu pai m acordava para ver as corridas do Rato, comprava carrinhos machtbox e quatro rodas desde meus cinco anos de idade, q eu lembre, pode ser antes, além d deixar eu tirar e colocar o carro na garagem lá pelos meus 9/10 anos e antes disso, dirigia no colo dle, então, adentrei em Tarumã com os camaradas em grande estilo – pulando a cerca – O fato é q nós jamais pagavamos ingresso e sempre invadiamos os boxes. Questão de honra. Para assistir a corrida, somente em cima da figueira q fica na descida para o tala, após a curva do laço. Naqueles tempos, acompanhavamos vários pegas e conheciamos os pilotos pelos capacetes – hoje em dia nem tem como ver o piloto dentro da barata – além de incentivar os pegas com os nossos preferidos. Churrasco nunca. Com o tempo, somente eu e mais um amigo continuamos a ir em guaporé, santa cruz e tarumã q este ano nem fui ainda e passamos a pagar ingresso. No ano passado no velopark, q eu ñ curto, meu camarada arrumou umas credenciais e eu assiti a corrida nos boxes da full time – gente fina a galera e a fotografa da equipe – e foi só. Sei lá, as corridas ñ são mais as mesmas, mas ficando nos boxes o papo e d quem entende, então é legal. Então kra, teu texto tá show e encontrei uns kras q fazem e faziam como nós, apaixonados e fissurados nas baratas.

    Abração

    Tazio Nuvolari

  2. Ótimo texto, mas endosso o comentário do Márcio Madeira da Cunha: a truck é bem melhor do que indicam as aparências. E não sou eu quem diz, mas pilotos como Felipe Giaffone, C. Fittipaldi, etc… Da minha parte, sendo uma categoria multimarca nacional com casa cheia, é o melhor que temos por aqui. Sim, melhor que a Stock.

  3. Hey, Edu!
    Aproveitando o espaço, queria pedir algo: Reescreve teu livro, ou atualiza o antigo. Tem tão poucos livros de automobilismo no mercado. O teu é muito bom. Carece de atualizar ou de escreveres outro.
    Valeu!!!

  4. Belo texto, Agresti. Vale até pensar num encontro do GPtotal no ano que vem.
    Só faço uma pequena defesa da Truck aqui, que, apesar de alguns defeitos, ainda é uma categoria que serve de exemplo sob vários aspectos, principalmente no que toca a adoção de fórmulas de equivalência e a popularização do esporte.
    Abraços a vc e ao Edu.

  5. Infelizmente não pude nem acompanhar nada pela TV … mas ir a Interlagos neste sabado deve ter sido um belo programa …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  6. Como eu gostaria de ir, e olha que não estava difícil, mas não me programei, infelizmente…

    Belo texto!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  7. Ótimo programa, amigos. Se eu não tivesse me estrepado tanto no fim do meu mestrado, teria planejado direito para também comparecer.

    E Roberto, você leu o que nosso líder e guru escreveu: não o chame de líder e guru e ponto final.

    Abração!

    Edu

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