Carreras…

Em 1986, um grupo de donos de carros antigos viajava para Brescia, na Itália, para participar da Mille Miglia uma das provas mais tradicionais do antigomodelismo. Foi aí que esse grupo teve uma ideia – levar esse grande evento para a Argentina, seguindo à imagem e semelhança a competição italiana. Como toda grande ideia, ela não emplacou logo de cara, foram três anos até tomar forma, então somente em 1989, e organizado pelo Sport Club do Automóvel argentino, a primeira edição das 1000 Millas aconteceu na terra dos hermanos.

Em 1996, o evento já estava consolidado e contando com equipes internacionais. Da Europa vieram carros do Museu BMW, Mercedes Benz, Alfa Romeo e grandes personalidades  como Stirling Moss, Carlos Reutemann, Clay Regazzoni, Jacques Lafitte e Rene Arnoux.

Hoje o evento faz parte do calendário da FIVA (Federação Internacional de Veículos Antigos) e é visto como o principal evento na América do Sul. Podem participar da competição somente 150 carros clássicos e fabricados até 1981. Durante 3 dias esses veículos cruzam parte da Patagônia argentina por cerca de 1200 km (o percurso, diferente do que o nome indica, não soma o total de 1600 km, ou seja, 1000 milhas).

A disputa desse ano terminou no comecinho de dezembro, e entre os carros, verdadeiras relíquias: Peugeot Grand Prix (1922), Studebaker Big Six (1924), Salmson SS (1926),  BUgatti Type 35 A (1926), e carros que, eu pelo menos, não conhecia, como o Osca (Officine Specializzate Costruzioni Automobili) que tem uma história super interessante. A marca foi fundada por dois irmãos Maserati!

Os brasileiros também estiveram representados, foram cinco duplas de colecionadores e donos de carros clássicos que colocaram pra rodar MG B (1973), Alfa Romeo 2000 GT Veloce (1974), Alfa Romeo Spider 2000 Veloce (1974), Austin Healey MK 1 (1960) e BMW 2002 Targa Baur (1973)

E a todo momento estou chamando o evento de disputa, porque é realmente isso – uma competição. Confesso que achava que as 1000 Millas eram apenas um tipo de diversão e passeio para os carros antigos, meu engano. Claro, que muitos vão para lá para se divertir, mas na verdade outros vão para ganhar o título de campeão, numa disputa que exige muita precisão.

A competição é um rally de regularidade, onde em vários trechos do trajeto os pilotos passam por um tipo marcador no solo, e de um ponto A até um ponto B tem que percorrer em determinado tempo, dessa forma piloto e navegador tem que dosar velocidade e cálculo de segundos e minutos para completar no tempo exato a distância. Ela se difere de um rally de regularidade comum, porque tradicionalmente o registro do tempo começo e termina não com um radar que registra o tempo e sim com um tipo de mangueira de borracha esticada no chão e com isso, o piloto tem que ser sensível o suficiente para muitas vezes sentir no volante o momento exato da marcação. É um tanto complicado explicar em palavras, mas é mais complicado ainda calcular toda essa precisão.

E as paisagens que os carros atravessam, então? Puxa… deixam a gente sem fala … Estradas que parecem tapetes negros, com faixas fortemente riscadas amarelas, um entorno de vegetação colorida e ao fundo das longas retas, picos altos nevados. Enfim, de tirar o fôlego! Imagine tudo isso com esses carros clássicos, entre charutos e desenhos primorosos. Não dá para pôr defeito!

Assim como as 1000 Millas argentinas  existem mais dois eventos que reverenciam a “piu bella corsa del mondo”, a Festa Mille Miglia, no Japão e a Mille Califórnia.

Todos conhecemos o quanto os argentinos são ufanistas a sua nação e aos seus conterrâneos, por isso mesmo, não sei se é verdade, mas conta-se que Juan Manuel Fangio, que nunca venceu a prova das 1000 Millas, teria dito que trocaria um de seus títulos mundiais de Fórmula 1 por tal mérito. Isso eu não tenho certeza, mas vai saber , afinal … “carreras son carreras”, não é?

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