O grande Luizinho

Edu, sem querer, me avisa via SMS* que Luiz Pereira Bueno, o Luizinho, faleceu. Era o começo da manhã de um dia cheio no qual não previa escrever minha coluna nº 1 de 2011 no Gepeto. Eu nunca prevejo, folgado que sou, pois o Edu avisa. Mas avisou algo além do que eu gostaria: morreu Luizinho.

Muitos de vocês ouviram falar dele, alguns até conhecem bem o que ele representou para o automobilismo nacional dos anos 60 e 70, mas desconfio que a maioria não saiba bem – ou de fato não saiba nada – sobre quem foi o grande Luizinho. Grande mesmo, com um carinhoso diminutivo do nome a carimbar sua vida. Paradoxo. Mas para os íntimos, os amigos das pistas, e não para o grande público ele era o Peroba. Por quê? Não sei, nunca soube.

Não vou fazer uma biografia dele aqui neste espaço. Precisaria pesquisar e como disse, o dia é atribulado. Colho a infeliz notícia de sua morte para homenageá-lo através dos simples registros de minha memória, e não através de sua grandiosa história oficial, suas conquistas registradas nos livros, sua impressionante galeria de títulos e troféus.

Com já contei aqui em minha coluna de estreia no Gepeto, em 17/10/2007, criativamente intitulada “Como tudo começou”, entre a escola onde estudava (com Edu) e minha casa havia a oficina da Bino, lendária equipe do final dos anos 60 e início dos 70, formada com a fina flor de pilotos, mecânicos e um dirigente especial, Luiz Antônio Greco, oriundos da gloriosa Equipe Willys.

Era como se eu morasse em Modena, na Itália e no meu caminho houvesse a sede da Ferrari, ou morasse em Hethel, na Grã-Bretanha e a Lotus (aquela de Colin Chapman…) estivesse na vizinhança do meu lar mas… pensando bem, a Bino era melhor pois os grandes portões estavam sempre abertos, coisa que na Ferrari ou na Lotus, mesmo nos anos 60, não devia acontecer.

E eu entrava com se estivesse em casa e lá encostei meus dedos no primeiro carro de corrida de verdade que até então jamais vira, nada menos que o Bino Mark III. O toque enfeitiçador, como um toque de Midas ao contrário, uma pedra filosofal amarela com listras verdes – e linda, número 47.

Pausa para respirar.

Naquele carrinho pequeno mas grandioso pelas glórias conquistadas, muitos pilotos se sucederam mas nenhum venceu tanto e tão bem quanto ele, Luizinho. Era o fim dos anos 60. Minha prima Bel ouvia Beatles e Johnny Rivers e eu ali, vendo o Bino, ouvindo Bino, tocando o Bino e olhando aquele vai e vem de gente que hoje é lenda: Chiquinho Lameirão, José Carlos Pace, Marivaldo Fernandes, Luiz Antonio Greco, Toni Bianco e outros tantos.

Aos 11 anos de idade ter ídolos? Não, não eram ídolos. Luizinho e o restante daquela turma que vi competir em Interlagos eram mais do que isso. E o Bino nº 47 a estrela guia desta hoje histórica constelação que à época, e me desculpem a imodéstia, eu sabia serem pessoas especiais fazendo algo excepcional. E ali, do lado do colégio, do lado de casa!!!

Os anos foram passando, a escola acabou e a Bino mudou. Outros tempos vieram: os de sentar na arquibancada ver aquele mesmo Luizinho (que tanto olhei saindo da sede da Bino com sua reluzente Belina branca de laterais pretas…) e o Porsche 908 “Hollywood” ou, antes disso, no March 711 batendo o recorde do anel externo de Interlagos na primeira F1 disputada no Brasil, em 1972, ou vê-lo domando o Maverick…

Tempo, tempo, tempo. Como passou rápido!

Um dia, dois ou três anos atrás, dou de cara com Luizinho. Ele sentado numa cadeira de praia, fumando, ao lado de um Maverick, solitário num box em Interlagos. Eu de macacão, meu carro poucos boxes adiante. Dia de treino.

Eu de macacão, Luiz Pereira Bueno à paisana? Parecia sonho, mas não era.

Criei coragem e fui falar com ele. Duas frases elogiosas e já estava contando a “minha história” com ele: a do bairro do Cambuci, da oficina da Bino, dos meus dedos no lendário Mark II, do medo que tinha que o Greco, com aquele vozeirão, me pusesse para fora, e da Belina branca de laterais pretas. E então o rosto dele se iluminou, exclamando “É, a Belina! É, a Belina!” E sorriu dizendo “Que tempo bom aquele!”

Naquele momento, sem saber, eu trouxe de volta à mente do velho Luizinho o melhor momento de sua vida, quando ele já era um grande piloto, e ainda continuaria sendo. Em 1970, ele estava no auge, e dali para frente conquistaria muito mais vitórias e títulos do que os já muitos que havia conquistado.

E eu ali, de macacão, brincando de ser piloto em Interlagos, diante do cara que ali fez mágicas com aquele pequeno carrinho amarelo, nº 47, aquele que toquei quase 40 anos antes daquele momento…

Descanse em paz Luizinho, e obrigado pelo espetáculo.

Roberto Agresti
*Coluna publicada originalmente em 09 de fevereiro de 2011.

2 thoughts on “O grande Luizinho

  1. Roberto,

    como um quase carioca, pois na verdade sou nascido, criado e sempre vivi em Niterói digo para voce que a unica inveja que tenho dos paulistas foi não poder como voce pôde conviver tão perto do melhor automobilismo do Brasil … e melhor ainda perto de Interlagos e das grandes equipes … eu como torcedor distante sempre sonhava com isto como leitor e colecionador assiduo da 4Rodas e Auto Esporte na minha adolescencia … e atraves destas revistas fiquei fã de pilotos como o Luiz Pereira Bueno, Emerson, Wilsinho, J.C. Pace, Bird Clemente, Alfredo Guaraná Menezes, Ingo Hoffman, entre outros … e relendo esta sua coluna o que mais me veio aflora foram estas lembranças …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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