Marc Marquez

Enquanto a Fórmula 1 moeu quilômetros nos treinos em Jerez de La Frontera, sua contraparte sobre duas rodas, a MotoGP, fazia o mesmo em Sepang, na Malásia. São dois mundos ao mesmo tempo próximos e distantes; na F1 o business é mais pesado, claro, há mais grana envolvida no negócio e uma audiência incomparavelmente maior, proporcional talvez ao que o carro é para a sociedade atual: quase todo mundo tem um carro, mas nem todo mundo tem uma moto. É assim, ao menos nos ditos países de 1º mundo… Todavia, o Mundial de Motovelocidade e sua categoria principal, a MotoGP, vem crescendo, ganhando músculos em termos de audiência e interesses comerciais, aplicando receitas boas (e também as más…) que o mago Bernie Ecclestone ensinou nestas últimas décadas.

Mas, mais do que falar de categorias, fazer comparações entre duas e quatro rodas, o que quero agora é falar de Marc Marquez, um espanhol que dia 17 próximo completará 20 anos.

Vocês não conhecem Marc Marquez? Provavelmente a maioria não. Na última vez que o Brasil recebeu o Mundial de Motovelocidade, no GP Rio de 2004, Marquez tinha 11 anos. Portanto, jamais pisou no Brasil, ao menos como piloto. O garoto é o típico fenômeno que ciclicamente surge na motovelocidade, arrebatador, assutador até. Aliás, o fenômeno de envergadura semelhante que surgiu bem antes de Marquez (em 1996…), o italiano Valentino Rossi, usou a palavra “scary” – assustador em inglês – para definir o que Marc Marquez vem fazendo na pista, naquele que foi seu primeiro treino “sério” ao guidão de uma MotoGP, categoria na qual estreará este ano.

Valentino Rossi não faz parte daquele gênero de pilotos que prefere se calar sobre o talento (ou a falta dele) alheio. E nos dias de treino em Sepang o ritmo em que Marc Marquez evoluiu, “corroendo” os tempos de volta em uma pista não exatamente fácil como Sepang, foi digno de grande nota.

Nos três dias de teste, onde participaram todas as equipes que tomarão parte da MotoGP 2013, Marc foi 3º colocado nos dois primeiros, e 4º na jornada conclusiva.

Campeão da categoria 125 em 2010, da Moto2 em 2012, o magricelo espanholzinho queima etapas com rapidez impressionante. Por vezes foi exageradamente agressivo, e dedos acusadores apontaram para ele, réu de condutas no limite do razoável em ferrenhas disputas com quem quer que seja. No ano passado conquistou o título da categoria que precede a MotoGP, uma espécie de GP2 das motos, a Moto2. Mas o título poderia ter vindo antes, em 2011, não fosse um tombo e a tremenda cabeçada que afetou a visão do rapazinho por semanas, e que o obrigou a saltar etapas decisivas do final daquele campeonato, entregando o título de bandeja a seu adversário então, o alemão Stefan Bradl.

A cabeçada não deixou Marquez xarope, pois ele, de acordo com seus adversários, já é: muitos deles comentam que Marquez faz coisas ao guidão de dar medo, tipo “sem noção”. Se dá medo neles, pilotos do Mundial, imagine só o que o cara faz…

Nicky Hayden, norte-americano campeão Mundial da MotoGP em 2006 e atual piloto da Ducati na MotoGP foi outro que comentou acerca da exuberância de Marquez. “Lean angle” ou ângulo de inclinação em inglês, foi o quesito que estimulou Hayden a dizer que a chegada de Marquez à categoria vai chacoalhar as estruturas vigentes, inclusive no modo de pilotar de todos. Afinal, antes de Marc mostrar o que sabe fazer ao guidão da Honda RC213V, a MotoGP de 1000 cc da equipe oficial da marca, nenhum piloto abusava tanto do ângulo de inclinação no centro da curva. Era comum ouvir que a tocada da MotoGP, ao contrário da aplicada nas motos das categorias menores e menos potentes do Mundial, Moto2 (substituta da antiga 250) e Moto3 (herdeira da 125…) premiava com bons tempos de volta os pilotos que freavam por último e cumpriam trajetórias “quadradas”, de modo a passar o menor tempo pssível com a moto inclinada.

E porquê? Por que moto inclinada não despeja cavalaria no solo, apenas – e quando muito – mantém a velocidade, não a incrementa. Mas com Marquez realizando tempos dois ou três ínfimos décimos de segundo menores do que os atuais patrões da MotoGP, o campeão Jorge Lorenzo e seu arquirrival Daniel Pedrosa, o conceito de pilotagem talvez mereça ser revisto. Marc Marquez não raspa só o joelho no chão, raspa o cotovelo. E se não estivesse de capacete, ralaria a orelha!

É claro que seu estilo de pilotagem provém de motos que, como dissemos, rendiam bem se a velocidade no centro de curva fosse elevada pois, por serem pouco potentes (ou melhor dizendo, menos potentes que uma MotoGP, que hoje beiram os 270 cv para um peso de 135 kg), rendem melhor se pilotadas “lançadas”, enquanto o acelerador de uma poderosa MotoGP é quase que um interruptor “on-off”, e é a avançada eletrônica que se encarrega de conter derrapagens através de sofisticados sistemas de controle de tração, e até controlar as coreográficas empinadas, limitando o ângulo que a moto assumem ao serem aceleradas, mantendo a roda dianteira apenas alguns centímetros fora do ar, não mais que isso.

Marc Marquez, pelo que se viu em Sepang, chegou arrebentando a boca do balão. Se não arrebentar a sí próprio antes da hora, poderá cometer a ousadia de disputar o título em seu ano de estreia.

Imaginem só: na F1 Webber deixa o assento vago na Red Bull e no lugar dele entra o campeão da GP2 em 2012, Davide Valsecchi, e de cara, em Jerez, roda a ínfimos milésimos de Sebastian Vettel. É o que Marquez vem fazendo.

Scary…

One thought on “Marc Marquez

  1. É sempre bonito ver os diferentes estilos de tocada por parte dos pilotos, principalmente sobre duas rodas.
    Temo, no entanto, que Marc acabe tendo que limar suas inclinações, principalmente por conta da epidemia de Tilkódromos mundo afora. Afinal, a técnica de carregar velocidade para as curvas através da inclinação é perfeita para traçados de alta velocidade (de preferência com o piloto se deslocando para o lado interno e usando seu próprio peso para equilibrar as forças, evitando que a moto precise inclinar demais e com isso perca banda de rodagem), especialmente quando tais curvas antecedem longas retas, dando especial valor à velocidade de transição.
    Todavia, com pistas desenhadas para a Fórmula 1, a regra tornou-se espremer retas entre curvas de baixa velocidade na entrada e na saída, transferindo a maior parte das forças para momentos em que a moto encontra-se próxima da posição vertical. Mais pneu no chão para acelerar mais e frear melhor.
    Se isso se confirmar será uma grande pena, e um prejuízo a mais causado por esse processo infeliz de caça às curvas de alta. Ainda assim, em pistas “da antiga” como Phillip Island, creio que podemos esperar bons resultados por parte de Marquez.
    Abs!

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