O Grande Mario

Mario Andretti, o lendário patriarca de toda uma geração de gente ligada ao automobilismo e homem que soube ser vitorioso tanto na F1, como na Indy, Nascar e muitas outras categorias, teve um começo de vida difícil*.

Nascido em 1940 numa localidade chamada Montona D’Istria, teve que abandonar sua casa por conta do Tratado de Paris, que em 1947 determinou que a terra natal dos Andretti não mais pertencia a Itália mas sim a Iugoslávia. E o pequeno Mario com seus pais e um irmão gêmeo, foram viver num campo de refugiados numa região da Itália chamada Toscana, mais especificamente em Lucca onde, por coincidência, nasceram meus pais.

Um dia estava eu em Lucca, no final dos anos 80, e em uma cerimônia religiosa fui apresentado a um padre de idade bem avançada, amigo de minha família. Ao ouvir que eu era jornalista e que estava na Itália para, entre outras coisas, fazer a cobertura do GP da Itália, em Monza, o padre me disse: “Mario Andretti foi meu coroinha!”. E diante de minha cara de ponto de interrogação, me relatou a breve história de sorte no azar da família Andretti, que amargou bons anos de vida ruim até conseguir imigrar para os EUA em 1955, onde Mario literalmente “fez a América” e construiu sua excepcional carreira de piloto.

Me puxando pelo braço, o padre me levou para fora da igreja e, apontando para uma estradinha em declive exclamou: “O que Mario mais gostava de fazer era descer essa rampa com um carrinho que ele mesmo fez, um pedaço de tábua com quatro rodinhas. E ninguém era mais rápido do que ele!“.

Lembrei de toda história domingo passado quando, tentando assistir à corrida da Formula Indy, ouvi o locutor citar o nome Andretti. Não era Mario, mas mais um do grande clã que tenta a sorte com um volante nas mãos.

Façam o que fizerem, esses novos Andretti dificilmente conseguirão conquistar sequer uma fração do que o hoje setentão Mario colheu em sua gloriosa carreira nas pistas.

Dos poeirentos ovais americanos do final dos anos 50 à sua última conquista na Fórmula Indy, em 1993, Mario Andretti venceu muito e muito bem. Foi campeão da F1 em 1978 com a Lotus de Colin Chapman na época dos ‘wing cars’, porém tal título veio numa 2ª fase de sua experiência na categoria, já que sua estreia na F1 se deu ainda nos anos 60, mais precisamente em 1968. Com um Lotus 49 (mesmo modelo no qual Emerson Fittipaldi estreou), ele fez nada menos que a pole em seu primeiro GP. Todavia a sua 1ª vitória não foi com Lotus, mas sim três anos depois, na África do Sul, em sua estréia como piloto da Ferrari.

Mario levou tempo para se dedicar a uma temporada integral na F1, dividindo seu talento com o automobilismo do país que o abrigou, colhendo glórias e títulos nas categorias norte americanas até que, em 78, pilotando o mágico Lotus 78 e seu sucessor 79, foi campeão da F1, vencendo seis GPs.

Na Indy, foi campeão em 1964, 66, 69 e 84. Faturou a Indy 500 em 1969 e chegou pertinho de vencer mais uma vez em 1981 (8 segundos atrás de Bobby Unser) e 1985. Ainda é o piloto mais velho a vencer um GP da Indy (Phoenix, em 1993, aos 53 anos e 34 dias de idade).

E com carros de rodas cobertas correu Le Mans em quatro décadas diferentes, dos anos 60 aos 90, sendo 2º colocado em 1995. Mas se em Le Mans Mario não deu sorte, as 12 horas de Sebring ele venceu três vezes, assim como uma vez nas 24 Horas de Daytona.

Mario é casado há cinquenta anos com Dee, que conheceu em Nazareth, na Pensilvânia, quando buscava ter aulas de inglês e onda ainda mora atualmente. É dono de uma cadeia de postos de gasolina, uma revenda Toyota, uma vinícola na Califórnia e outros negócios.

Lenda viva do esporte a motor, Mario é um tipo de piloto que fez uma carreira praticamente impossível de ser reproduzida atualmente, tanto pela longevidade quanto pela variedade de categorias em que competiu. A ele é atribuída uma das frases mais diretas sobre como se leva um carro de corrida: “Se tudo parece estar sob controle, é porque você não está sendo suficientemente rápido“.

Abraços

*Coluna publicada originalmente em 05 de maio de 2011.

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