Felipe, última chamada

É sintomático ou não o fato de que Felipe Massa nas últimas quatro corridas, as duas derradeiras da temporada 2012 e as duas primeiras de 2013, tenha conseguido se colocar à frente do companheiro e rival Fernando Alonso no delicado momento da definição da posição de largada?

Esta é uma pergunta que faço a mim mesmo. Não morro de amores por Felipe, especialmente nesta atual veste de conformado segundo piloto da Ferrari. Ele hoje é um personagem que, conformemo-nos, representa a vasta tradição de glória de brasileiros na F1. O incômodo papel de coadjuvante ele interpreta desde aquela tarde de 2008, quando venceu – pela última vez – perdendo o título para Lewis Hamilton diante de milhares de compatriotas.

Do Olimpo às fossas Marianas: de campeão do mundo a quase aposentado por invalidez quando, tempos depois, um dejeto de Brawn chancelou a fase mais negra do rapaz. Recuperado, mas não muito, uma vez de volta ao volante Felipe Massa virou uma cópia malfeita de si mesmo, alternando resultados ruins com outros piores, tomando décimos de segundo de seu esmagador colega Fernando Alonso como um alcoólatra toma tragos quando em recaída.

Não, não gosto, não gostamos do Felipe 2º piloto e que desde seu acidente só pisou no pódio em quatro ocasiões (e mesmo assim no último dos degraus). Porém, este 2013 parece nos mostrar uma luz no fim do túnel. Austrália e Malásia não foram de todo mal para Massa, principalmente pelo fato de que, no frigir dos ovos, estes 4º e 5º lugares o fizeram marcar mais pontos que os obtidos pelo colega de box, para o qual a Ferrari reserva seus melhores sonhos de vitória. Ao se ver nesta inesperada condição de prima-donna da companhia, Felipe pode e deve emergir. Aliás, parece que ele já fala até em vencer de modo mais convincente que nas vagas declarações dadas nos últimos anos sobre o tema, mais parecidas com as de um centroavante que não faz gol a trocentos minutos: olhar vago, balbuciante, “vamos melhorar, o importante é o resultado do grupo”. Sei, sei…

Sessenta e nove corridas sem vencer. Este é o cruel retrospecto do brasileiro, que chega à sua 11ª temporada na F1, oitava com a equipe mais icônica do planeta, sabendo que muito provavelmente estará fora do esquema de Maranello no final de 2013. Sua única chance de ficar é, paradoxalmente, fazer o que a Ferrari não quer que ele faça.

Sim, para permanecer na Ferrari Felipe tem de atender à última chamada e vencer o mais que puder, brigar pelo título, fazer com Fernando Alonso o que Fernando Alonso fez com Felipe Massa nos últimos anos. Usarei a pior palavra possível: humilhar.

Dois galos em um mesmo galinheiro só convivem se um deles fizer de conta que é galinha. O brasileiro, por conta de azar, do acidente, dos dolorosos problemas relacionados à recuperação de sua autoconfiança e plenitude física, foi galinha nesses últimos anos. A Malásia e Austrália deste inaugural 2013 o encaminharam para uma possível reação. E agora não basta só querer. É preciso ser safo, fdp, armar, orquestrar e se livrar desse roteiro chato para o qual aparentemente estava escalado, ou seja, o ocaso de uma carreira promissora, sair da grande Ferrari e se conformar com o melhor possível que conseguisse. Voltar para a Sauber, entrar na Force India  ou, pior, “aceitar um desafio” tipo Williams…

A China vem aí. É uma pista onde nem ele, nem Alonso, tenham brilhado particularmente nos anos anteriores. Um território neutro, portanto. E do primeiro ao último dos treinos, Felipe Massa tem de dar sequência ao seu (na verdade meu) projeto de esmagamento do asturiano.

Imagine só como ficará don Fernando se, pela quinta vez consecutiva, se classificar atrás de Felipe?

Abraços

5 thoughts on “Felipe, última chamada

  1. Engraçado, eu tenho uma visão completamente diferente sobre esse assunto. Em primeiro lugar, eu nunca achei o Massa um grande piloto. Pra mim, ele sempre foi daqueles pilotos que até são bons em conseguir resultados quando têm equipamento excelente nas mãos, mas jamais conseguem ir além disso quando não é o caso. Massa acumulou poles e vitórias de 2006 a 2008, mas isso não seria simplesmente um reflexo do fato que a Ferrari tinha o melhor carro ou algo muito próximo disso em praticamente todas as corridas desses três anos?

    Essa história de que o Massa era um “grande piloto” mas que de repente “ficou ruim” nunca me convenceu. Se isso fosse verdade, deveríamos ter visto grandes demonstrações de qualidade anteriores à 2006, o que nunca foi o caso. Ele estreou na Sauber e foi despedido após sua primeira temporada, passando à piloto de testes por um ano. Voltou em seguida e em mais dois anos de Sauber não fez absolutamente nada de relevante. Quando foi anunciado para a Ferrari, não foram poucos os que falaram que o motivo foi só o fato de ser gerenciado pelo filho do Jean Todt e, mesmo que a afirmação seja meio maldosa, é preciso admitir que, naquele momento, a contratação foi duvidosa. À exceção daqueles brasileiros que enaltecem todo e qualquer piloto nacional em equipes pequenas como “grandes talentos que infelizmente não têm um carro à sua altura”, não lembro de absolutamente ninguém, em 2005, que via Massa como uma grande promessa. E não é implicância minha com brasileiros não, basta comparar por exemplo com o Barrichello: ele fez uma pole e dois pódios de Jordan, teve corridas impressionantes como a de Donington 93 (que muita gente nem notou por motivos óbvios) e depois mais uma pole e três pódios de Stewart. Isto é, no caso dele, até dava pra falar que havia potencial mas faltava carro. Mas daria pra falar isso do Massa? Eu não acho. E também não ajuda muito o fato de que ele quase sempre ficava atrás de Heidfeld e Fisichella em carros iguais.

    “Ah, mas ele disputou o título”, poderia-se dizer. O que é verdade, mas muito mais por estar no lugar certo na hora certa do que por realmente ter talento diferenciado. Quase tudo deu errado para Kimi Räikkönen naquele ano, e raramente por culpa dele (falha mecânica na Austrália, uma corrida inteira com asa danificada na Turquia, a batida no Canadá quando era o mais rápido e ia sair dos boxes em primeiro, o escapamento na França quando liderava, o erro no boxe e o motor estourado em Valencia, a “fila no boxe” quando era o mais rápido na pista em Cingapura, o drive through em Mônaco porque a Ferrari esqueceu de colocar os pneus dele na largada). Com isso Massa foi promovido a primeiro piloto e disputou o título até a última corrida. Mas será que, se o título tivesse sido dele e não de Hamilton, algum não-fã acharia o resultado justo? Vale lembrar que foi um ano em que o tratamento dado aos pilotos foi absurdamente desigual devido à rixa entre Max Mosley e Ron Dennis. Alguns falam que Massa mereceu pois “ganhou mais corridas”, mas esquecem, por exemplo, que no GP da Bélgica foi Kimi que liderou até o finalzinho, e quando Hamilton foi atrás da vitória, foi punido de forma questionável (pois apesar de ter cortado caminho ao passar o Kimi, devolveu a posição, mas os comissários – na época liderados pelo Donelly, sidekick de Max Mosley – decidiram que Hamilton teria que esperar mais uma curva para voltar a atacar depois de devolver a posição), e aí a “vitória” passou para Massa, que foi completamente apático a corrida inteira e de forma alguma alguém que mereceu uma vitória naquela tarde.

    Hamilton, além de enfrentar a grande hostilidade da FIA em relação à McLaren que muitas vezes davam a impressão de um peso e duas medidas, teve falha no carro no Bahrein logo na largada, um pit stop desastroso na Malásia quando um pneu travou, um pneu furado na Hungria quando andava em segundo (e teve que remar da décima até a quinta), a perda da vitória na Bélgica, e um erro da equipe na classificação da Itália que o fez largar em décimo quinto (mas ainda conseguiu chegar só uma posição atrás do Massa que largou em sexto).

    Massa teve seus contratempos, é verdade – é comum ver gente falando “se não fosse o que aconteceu em Cingapura, ele seria campeão”. Mas esquecem dos incidentes que foram sua própria culpa, como o acidente evitável logo na abertura do campeonato, ou ter rodado sozinho na corrida seguinte, ou seu erro em Mônaco quando liderava.

    Enfim, sou extremamente cético quando vejo pessoas falando “daquele Massa que quase foi campeão do mundo”. A meu ver, ele foi postulante ao título muito mais por força das circunstâncias que pelos próprios méritos. E já no ano seguinte já seria notório novamente que, sem um grande carro, ele estava longe de ser um grande talento: um pódio foi tudo o que ele conseguiu com a Ferrari de 2009 e, apesar da sua temporada ter sido interrompida prematuramente devido ao acidente, eu acho pouquíssimo provável que ele fosse capaz de conseguiu uma vitória com aquele carro – o que Kimi conseguiu.

    Logo, não tenho como compactuar com a opinião de que “o Massa não é mais aquele que já foi”. Na minha opinião, ele é o mesmo piloto que sempre foi: alguém que tem plena capacidade de ganhar corridas e fazer poles com carros excepcionais, e que também é capaz de fazer uma boa volta lançada e, de vez em quando, bater em treinos pilotos melhores que ele. Mas ser capaz de disputar um campeonato até o final com um carro claramente inferior à concorrência, como Alonso já fez em 2012 e 2010 (e também na segunda metade de 2006) é algo que Massa jamais fez, mesmo antes do acidente. E não custa lembrar que o único motivo pelo qual ele está à frente de Alonso na temporada atual é porque Alonso teve um abandono. Não consigo compreender esse oba-oba por ele estar “à frente” ou por estar batendo o companheiro em treinos – isso não é nenhuma novidade, pois ele sempre foi bom em voltas lançadas. Mas em corrida a história é outra: enquanto Alonso é um gênio no que se refere ao “racecraft”, Massa está bem longe de se destacar nesse aspecto – vale lembrar que absolutamente nenhuma de suas vitórias na categoria aconteceu sem que tivesse um carro excepcional *e* largasse na primeira fila.

    O texto pergunta “como ficará don Fernando se, pela quinta vez consecutiva, se classificar atrás de Felipe?”. Não é difícil responder essa pergunta: basta lembrar que mesmo tendo feito uma única pole na segunda metade de 2006, ele foi campeão. Ou que ano passado levou o campeonato até a última corrida mesmo tendo feito só duas poles o ano inteiro. Logo, duvido muito que ele vá perder muitos cabelos se Massa se classificar novamente à frente na próxima corrida. Alonso corre com a cabeça, visando o campeonato, e sabe que o que dá pontos é a posição de chegada, não a de largada. E não há argumento melhor para mostrar que uma coisa é fazer uma boa volta lançada e outra bem diferente é fazer uma boa corrida que o próprio histórico entre os dois: em 10 corridas completadas pelos dois pilotos em que Massa largou à frente de Alonso desde 2010, só em duas Massa conseguiu terminar na frente. Teria sido a mesma coisa na corrida passada não fosse a quebra da asa, e Alonso sabe disso.

  2. Só em desagravo, foram seis pódios, com três segundos lugares. No mais, torcida e esperança, guardadas as devidas proporções.

  3. Olha, tomara que o Agresti acerte, mas sinceramente, concordo com o Fernando Marques, e não vejo Massa como um Galo malandro que pode esmagar seus adversários, da mesma maneira que o Barrichello nunca conseguiu ser.

    Logo logo Don Fernando vai acertar a mão e entrar no ritmo de corrida, pois o cara não é um bi campeão atoa.

    Essa temporada de 2013 tem TUDO para ser muito boa!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  4. Eu continuo achando que por mais que o Massa tente “humilhar” o Alonso como sugere o Roberto Agresti sempre haverá aquela vozinha lá no radio dizendo: o Alonso está mais rapido que você …
    A grande chance dele já passou … ele teve tudo para ser campeão em 2008 e perdeu na o titulo na ultima curva … e por que esta foi a sua ultima chance? … por que nunca mais ele terá um companheiro como Kimi de 2008 na Ferrari …
    Ele pode até fazer uma grande temporada em 2013, e tem mais que fazer mesmo, mas para poder arrumar um lugar numa outra equipe boa na Formula 1 em 2014.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  5. Acho bom o Massa acertar a mão inclusive porque, na Globo, uma vaga com a qual ele poderia sonhar já era…

    Edu

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