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Homens pequeninos que têm medo de mulher

Eu juro que não queria falar sobre isso, juro mesmo. Não sou afeita a debates feministas, quem me conhece de perto sabe. E não porque discorde da causa, mas por algo que pode ser classificado como mera ilusão: gosto de acreditar que o feminismo já fez o que tinha de fazer, que a mulher já conquistou seus direitos na sociedade. É ilusão porque isso pode ser verdade na minha vida ocidental de classe média, mas tenho consciência de que o feminismo é uma bandeira atualíssima ainda. Por uma questão, admito, individualista, prefiro sempre achar que já chegamos lá, nós, as mulheres.

Mas é uma obrigação minha abordar o tema levantado pelo piloto inglês Jenson Button. Na medida em que sou uma estranha no ninho, uma mulher escrevendo sobre automobilismo, não tenho direito de ficar fora do debate. Em entrevista para uma revista de seu país, Button afirmou que a Fórmula 1 não é lugar de mulher. É claro que ele não se referiu às modelos gostosas que circulam no paddock e no pit lane, antes das corridas. Falou especificamente de mulheres pilotando carros na categoria mais prestigiada do automobilismo mundial. Para ele, não pode.

E não pode por uma questão anatômica: mulheres têm seios. Seria “estranho” ver mecânicos ajustando os cintos de segurança no colo protuberante das competidoras. E outro detalhe apontado pelo inglês, futuro companheiro de Rubens Barrichello na BAR: a TPM. Durante uma semana, seria impossível aturar as oscilações de humores das colegas.

Ah, Jenson, você nem me conhece e me faz tão mal. Por quê?

Quando li a reprodução dessas opiniões no nosso site co-irmão, o Grande Prêmio, apenas balancei a cabeça em atitude de desânimo. Pareceu-me uma bobagem de garoto, garoto que deve estar mergulhado em graxa desde a mais tenra idade, só pensando em pneus e motores, sem tempo para ler um livro, para saber quem foi Simone de Beauvoir, para conversar, conviver e aprender com as mulheres. Mas, então, refleti se esse meu ato de relevar tal bobagem não era, ele mesmo, fruto de um preconceito meu. Não estaria eu ignorando as besteiras de Button apenas porque elas saíram da boca de um esportista, e sempre tendemos a achar que “essa gente” é, em geral, truculenta e ignorante o bastante para não prestarmos atenção ao que dizem?

Pois foi essa reflexão que me tirou do conforto da omissão. Se Button e grande parte da “comunidade da velocidade” não se importam em perpetuar o estigma de que mulheres são incapazes, eu me importo em ficar arraigada ao preconceito de que esportistas são broncos. Por isso, não me limito a balançar a cabeça em sinal de desaprovação. Por mais toscos que sejam os argumentos de Button, vamos a eles. Leitores, aproveitem, o GPTotal hoje fala de um tema inédito por essas paragens: seios!

Foi isso mesmo que Button falou: seria constrangedor, para os mecânicos, afivelar os cintos das moças, já no cockpit do carro, sob o “risco” de resvalar em seus seios. Que medo será esse? Fiquei pensando em enfermeiras que têm como função realizar procedimentos como higiene e tricotomia, muitas vezes próximas das regiões genitais dos pacientes. Não conheço nenhuma que tenha tido reservas em fazê-lo. Vai ver que as mulheres têm menos medo de pênis do que os homens, em relação aos seios. Ou talvez os seios sejam uma manifestação inequívoca da força de uma mulher: com eles, nós alimentamos outro ser humano. Homens só matam a fome dos outros se caçarem ou pagarem a conta do restaurante, coisas que as mulheres, convenhamos, também podem fazer.

Deve ser penoso, ou no mínimo estranho, para a instituição da Fórmula 1, ter em seu ambiente um ser humano com seios. Alguém que também tem braços para virar a direção, pés para acelerar e frear, mãos para trocar marchas e acionar toda a parafernália de botões por trás daqueles volantes modernos. Ah, e principalmente, um cérebro para comandar tudo isso. Os seios diluem-se nesse universo de órgãos e membros, mas estão lá. Deve ser muito difícil, para Button e seus amigos, ter seios por perto, seios que não estão ali, acintosamente, para ser admirados, cobiçados. Deve ser terrível ter uma mulher, com seios, macacão, balaclava e capacete, capaz de fazer o mesmo que você faz.

Quem der uma busca nas colunas do GPTotal, vai encontrar um texto meu abordando a competição esportiva entre homens e mulheres, no qual eu defendi a idéia de que os homens, por sua constituição orgânica, sempre levarão vantagem sobre as mulheres (considerando, obviamente, homens e mulheres com o mesmo grau de condicionamento físico). Transpus isso para o ambiente das corridas e afirmei que homens teriam melhor desempenho.
Passados alguns meses, fatos se opuseram aos meus argumentos, começamos a ver uma seqüência de vitórias de mulheres em provas “mistas”: Bia Figueiredo venceu uma prova na Fórmula Renault, a inglesa Katherine Legge ganhou outras na Fórmula Atlantic, na América do Norte, e a norte-americana Danica Patrick teve desempenhos de destaque na IRL, chegando em quarto lugar nas 500 Milhas de Indianápolis. Revi meus conceitos e escrevi outra coluna, intitulada “Mão à palmatória”, na qual reconsiderei a questão da superioridade física masculina no campo do automobilismo, diante de uma constatação óbvia: é muito mais uma questão de perícia do que de força, o que iguala em grande medida as condições para homens ou mulheres.

Se parece evidente, hoje, que uma mulher pode vencer um grid inteiro composto por homens, não é de se estranhar o medo de Button. Cedo ou tarde, essa vitória vai acontecer. Ser o segundo em uma corrida vencida por uma mulher representará mais ou menos a mesma glória do goleiro que levou o milésimo gol de Pelé. Uma glória ao avesso, que o diga Andrada, o arqueiro do Vasco a quem coube a honra. (Sempre me chamou a atenção a imagem do goleiro, socando a grama com raiva, enquanto Pelé corria para o abraço e para a célebre frase das “criancinhas”.)

Mas Jenson não se limitou aos seios, evocou também a Tensão Pré-Menstrual para justificar o apartheid machista da Fórmula 1. Então, por essa lógica, não é que Button rejeite a idéia de uma mulher pilotando, certo? Ele abomina a idéia de ter mulheres por perto, porque em algum momento do mês, cada uma delas passará pela montanha-russa hormonal que leva algumas à irritação extrema. Nada de mulheres pilotando, trabalhando nas equipes ou relatando as corridas para órgãos de imprensa, nada! Apenas homens para cada uma dessas funções, pede Button. As mulheres que apareçam nos minutos antes das corridas, com seus shortinhos curtos, seus lábios cheios de gloss, seus decotes (deixando ver um pouco de seus seios!) e desfilem pelo pit lane e pelo paddock.
O que Button talvez não saiba é que muitas empresas, fora do mundo da Fórmula 1, privilegiam a contratação de mulheres por sua sensibilidade, capacidade de organização, habilidade com as diferenças, talento para lidar com o público. Talvez o piloto também não saiba que muitos setores da nossa economia contratam profissionais por seu conhecimento, sua experiência, sua postura e seu potencial, independentemente de seu sexo. E Button, certamente, nem desconfia que há lugares onde essas características são buscadas prioritariamente entre as mulheres, privilegiando a contratação desses seres com seios, justamente para promover a diversidade no quadro de colaboradores, enxergando isso como algo salutar para a organização.

Button, falando por si só, explicitou um medo que parece acometer todas as sociedades marcadas pelos preceitos do machismo, do racismo, da homofobia, da intolerância religiosa etc. O medo de que esses preceitos podem – e vão – ruir.

Alessandra Alves

Coluna publicada originalmente em 3/11/2005

3 thoughts on “Homens pequeninos que têm medo de mulher

  1. Pô Alessandra.

    Fiquei feliz com a sua volta aqui para o Gepeto mas não encontro textos seus!! Só de vez em nunca, e quando vi que hoje sim! hoje sim!… hoje não? (eu lembrava desse texto aí)

    Tem algum lugar onde escreve textos atualmente? Qualquer assunto: maratona, curintia, Clube da Esquina, qualquer coisa. Dá até tristeza ver o John e a Yoko desejando feliz natal em 2012!!.

    #prontotietei

    Abraços.

  2. Na minha opinião a Formula 1 poderia ter corridas apenas com mulheres … assim como existe em vários esportes …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. Alessandra

    O tema ainda é bem atual, não me parece que o preconceito contra as mulheres seja algo que passados 8 anos que originalmente você escreveu, tenha sido superado, nem sei se melhorou, de qualquer forma acho que temos que olhar e analisar por dois prismas, primeiro a declaração do Button já naquela ocasião era algo totalmente imbecil, principalmente na forma como ele coloca e continua assim nos dias de hoje, o segundo é porque afinal nenhuma mulher conseguiu chegar e se firmar nas categorias maiores do automobilismo? será que não seria o caso de talvez se pensar na impossibilidade dos dois sexos conviverem nesse esporte e como em outros pensar na criação de categorias separadas? é só uma pergunta de minha parte, futebol, volei, basquete, entre outros encontraram essa solução. Olhando a participação feminina em 100 anos das competições automobilísticas, se fosse apenas preconceito acredito que já teríamos uma pioneira vencendo essa barreira,até porque pelo lado comercial haveria um forte apelo para patrocinadores, quando olhamos os resultados obtidos pelas mulheres são efêmeros e em categorias de base, quando chegamos nas categorias maiores parece a principio que a barreira física sim faz diferença, olhando o retrospecto a vitória de Danica Patrick na Indy foi muito festejada mas infelizmente a carreira dela foi muito errática e não decolou como esperávamos,mas como não sou especialista em aspectos de treinamento físico prefiro não aprofundar por esse viés para não cair na armadilha de meus próprios paradigmas.
    Para mim o único ponto que é importante é dar condições de igualdade as mulheres mais respeito e deixar elas assumirem seu espaço e não deixar o tema esfriar, volto a dizer mesmo após tantos anos me parece que o espaço das mulheres ainda é tímido e por isso deve sim ser ampliado
    abraços
    Mário

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