Nelson e Ayrton: eram eles mesmos

Não, não foi como foi para todos, para a maioria de vocês. Viver a época em que Nelson Piquet e Ayrton Senna dividiram a pista na Fórmula 1, a partir de 1984, foi muito estranho para mim. Mais do que devia ser, mais do que eu queria que fosse.

Num corner, pesando tanto quanto pode pesar um filho de um ex-ministro da Saúde, criado na asséptica e rotulada Brasília dos anos 60 e 70, dono de uma vontade de fibra de carbono+kevlar a ponto de mandar o pai e todo o seu poder se catar, contrariá-lo, e ir correr de carros em vez de jogar tênis, está Nelson Piquet Souto Maior. O “Piket”.

Noutro corner, pesando o que costumam pesar os filhos dos fazendeiros neste agro-país, provinciano morador de Santana, bairro da cosmopolita São Paulo, e assíduo frequentador do kartódromo de Interlagos, onde chegava levado pelo motorista de seu papai, grande incentivador dos gostos gasolinísticos do garoto, está Ayrton Senna da Silva. O “Beco”. Meu conterrâneo. Meu coetâneo.

Piket e Beco. Água e óleo. Dia e noite. Preto e branco…

Piket com “K” foi o pseudônimo escolhido pelo jovem Nelson em suas primeiras andanças no automobilismo. Sobrenome da mãe corrompido com uma letra inexistente no alfabeto brasileiro de então, como para demarcar um território onde seu Estácio, o pernambucano pai, funcionário graduado do governo João Goulart, não pudesse interferir.

Beco era o apelido de Ayrton em casa, na família que azeitou com mimos, dinheiros e concessões à vontade de motores do varão do seu Milton. Colégio Rio Branco de manhã, kartódromo à tarde. Sempre que desse. E sempre dava, com nota boa ou ruim no boletim.

Piquet eu vi correr em Interlagos algumas vezes. O cara começou de fusca mas me chamou atenção mesmo na Fórmula VW. Arrojado, cavalo de raça sem medo de fazer a parte do pangaré, de passar fome para bancar a carreira, morar em hoteleco espelunca na beira do circuito, abdicar da vida boa em favor dos rumos certos.

Senna vi correr no kartódromo. Deu raiva. O Tadeu e o Dinga, meus amigos, corriam na mesma categoria que Ayrton em 1974, 75… sei lá. Carregavam (carregávamos!) os karts pra cá e pra lá, a pé mesmo, os pneus usados até o osso, arame e improvisação as peças fundamentais para fazer os karts andar.

Tomavam pau.

Nesse ambiente no qual eu circulava nos bastidores sem nenhuma chance de pular para o palco, Senna já era diva, desfilando sem grande discrição o melhor do melhor, do macacão ao motor, do capacete ao chassi. Nada mais adequado a um dos melhores entre os melhores – como saberíamos mais tarde. Mas naquela época não sabíamos, e quanta antipatia! Inveja talvez? Claro, claro…

Foi facinho optar em qual tribo me engajaria quando Senna, finalmente, compartilhou de um mesmo grid na F1 com Piquet.

Piquet! Piquet! Piquet! Eu era Piquet desde criancinha…

Não pesava nisso o fato de Nelson, naquela altura dos acontecimentos, já ter dois de seus três títulos mundiais enquanto Senna, apesar de chegar em grande estilo à categoria, ainda era “a conferir e confirmar”.

Pesava na minha opção saber que Nelson era rato de oficina, que botava a mão na graxa, que inventara os cobertores de pneus e não só – oh genialidade! –: esquentava seu Fórmula 3 inteiro dentro de um caminhão baú na gélida Inglaterra e saía para o treino arrasando de cara. E havia as mulheres também, área na qual o palato fino do moço de Brasília contrastava fortemente com o nevoento e obscuro currículo de Ayrton no setor. E este que vos escreve, metido a mecânico e renhido admirador dos seres humanos dotados de cromossomos XX, não tinha dúvida sobre para quem torcer, mas aí…

Aí um dia o mané aqui foi trabalhar em alguns GPs da F1. Entrevistar pilotos na categoria máxima não era exatamente fácil nos anos 80, mas nem tão difícil assim.

Piquet era reconhecidamente arredio e corria a boca escancarada nas salas de imprensa mundo afora sua crueldade com os repórteres generalistas e suas perguntas laceadas, do tipo “Como você enfrenta o medo a 300 km/h?”.

Já Senna, bom menino (Colégio Rio Branco…), podia não brilhar na criatividade de suas respostas, mas não oprimia a missão dos escribas menos versados no tema F1, classe onde, claro, imodestamente não me incluía.

Monza, 1987. GP importante para o campeonato e para minha carreira de repórter. Entre outras coisas, uma revistinha da fábrica dos motores que empurravam os carros de ambos, a Honda, me encomendara fotos deles com a tal revista na mão e, claro, entrevista para emoldurar as imagens. Três, cinco perguntas, não mais que isso, e um click ou dois. Moleza!

Senna “lacei” no paddock. Ao me ver, reconheceu meu focinho. Não sei se do tempo do kart, dos GPs no Rio ou das coletivas no escritório de Santana. “Olá, o que tá fazendo aqui. Do quê você precisa?” disparou ele.

Foto, pequena entrevista e tchau, disse sorridente o Judas aqui.

Era sábado, e os treinos tinham acabado fazia instantes. “Faz o seguinte…. pensou um pouco… Vem comigo!” E lá fui eu atrás dele que, três ou cinco passos depois me fez adentrar no chiquérrimo e exclusivérrimo Hospitality Center da Lotus, dizendo: “Me espera aqui, tenho uma reunião ali dentro, e em meia hora volto e fazemos tudo, ok?” E lá foi Ayrton porta adentro do grande motor-home da Lotus, ainda vestindo o macacão preto, não sem antes fazer um sinal para uma moça que, segundos depois me ofereceu comes, bebes e sorrisos. E eu ali, olhando o típico footing pós-treinos do paddock, com alguns fazendo muito e muitos fazendo nada, entre eles eu, esperando Ayrton Senna da Silva, o Beco, comendo do bom e bebendo do melhor. Na F1 e em Monza. Delícia…

Meia-hora, pouco mais, pouco menos, volta o Sr. Senna. “Onde você quer a foto. Aqui mesmo? Ta bom assim? O que você quer saber?”

Fiz tudo o que tinha que fazer e me mandei, pensando o quanto profissional era aquele sujeito pelo qual não nutria grande simpatia.

E o Nelson, meu caro ídolo?

Nem vi. Ou melhor, vi, de longe, no pódio no domingo, no degrau mais alto, ao lado do agora reconsiderado Ayrton, que foi 2º colocado. Um bom dia para a Honda, e para os brasileiros em Monza, eu incluso.

A caminho de seu 3º título naquela temporada, Nelson Piquet não se dignou a atender minha solicitação de foto ou entrevistinha. Ou melhor dizendo, a solicitação da Honda via moi même.

Sequer soube se ele foi avisado mesmo de minhas necessidades, pois não consegui chegar perto dele. Esbarrei na assessoria “parede” da Williams e no entourage pessoal de Nelson, onde nem Lua, nem Sol nem tampouco Júpiter foram capazes de fazer o cara a me dar cinco minutos de prosa e uma pose.

Piquet soube ou não do que eu precisava?

Aposto que sim! Sem dúvida foi mesmo uma atitude 100% Piquet recusar uma foto com a Revista Clube Honda (?!?!?!?) na mão? Tinha mais o que fazer…

E naquele 6 de setembro de 1987 minha agenda de aventuras na F1 recebeu a seguinte anotação: “Estive em Monza. Nelson e Ayrton também. Eram eles mesmos…”.

Roberto Agresti

Coluna publicada originalmente em 5/3/2008

6 thoughts on “Nelson e Ayrton: eram eles mesmos

  1. amigos
    Recentemente re-assisti as entrevistas de Emerson, Piquet e Senna para o programa Roda Viva, é muito interessante observar o pouco conforto que o Piquet teve para responder as perguntas, verdade seja dita ele foi um grande piloto e está no mesmo nível dos outros dois, agora em relação ao contato dele com o mundo externo fora do ambiente de corridas, via entrevistas, ele foi pouco preparado e nunca pareceu querer melhorar esse lado, numa época onde a mídia passou a ter uma importância acentuada para os torcedores como fonte de informações a posição dele ficou sempre delicada, já Emerson e principalmente Senna entenderam essa dinâmica e foram mestres em lidar com isso, não estou querendo entrar no mérito se houve lado certo ou errado, pois para mim bastou ver os três pilotando e me foi mais do que suficiente
    abraços
    Mário

    1. Mario,

      certo ou errado o `Piquet nunca ligou para a midia e/ou fazer marketing pessoal … para ser sincero e pensando isto não tem nada a ver com ele

      Fernando MArques

  2. Mais um texto que esta entre os meus prediletos aqui do Gepeto!

    Tempos mágicos!!!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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