A 300 km por hora – parte 1

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Aproveitando os dias natalinos de folga, decidi que era hora de voltar a assistir um velho filme de Roberto Carlos: “A 300 km por hora”. O filme foi o maior sucesso de público nos cinemas do Brasil em 1972, com mas de dois milhões de espectadores. Na película, Roberto Carlos, assume o papel de Lalo, enquanto que Erasmo Carlos é seu amigo Pedro Navalha. Ambos trabalhavam num concessionária da Chrysler situado no bairro do Ibirapuera, onde Lalo apenas era um modesto mecânico. Porem o rapaz, grande apaixonado do automobilismo, tinha o sonho de chegar a ser piloto de corridas e, realmente, estava muito bem dotado para o manejo de um automóvel.

Então, os dois amigos, com a desculpa de provar os carros dos clientes, arranjam um jeito de ir ao circuito de Interlagos para dar umas voltas, onde Lalo se desenvolvia muito bem. Isto, promovia ainda mais os sonhos de Lalo por ser piloto. Finalmente, sua perseverança terminaria rendendo bons frutos e nosso jovem e sonhador mecânico teria sua tao ansiada oportunidade.

Nesse mesmo ano de 1972, outro piloto cujos inícios recordam bastante aos de Lalo, venceria uma das mais importantes provas do automobilismo mundial. Norman Graham Hill é o nome de nosso protagonista e nasceu no dia 15 de fevereiro de 1929 em Hampstead, nos subúrbios de Londres. Hill sempre teve muito interesse pelos carros e a mecânica e começou estudos de engenharia que teve de abandonar devido a um grave acidente de motocicleta que sofreu. Porem, de certa maneira, completou sua formação na Royal Navy, onde se tornou especialista de sala de maquinas. Ao terminar seu serviço militar, Hill consegue emprego numa empresa fabricante de instrumentos de precisão até que, no fim de 1953 e com 24 anos de idade, Hill tem sua primeira experiência com carros de corrida. Foi no circuito de Brands Hatch, onde por uma libra, era possível dar 4 voltas à pista num Cooper de formula 3, sendo nesse momento quando Hill, definitivamente cativado pelo automobilismo, decidiu que queria ser piloto mas, ao contrario de Hawthorn ou Moss, Hill não teve o apoio de uma família com recursos suficientes para financiar sua carreira no automobilismo.

Desse modo, sem outros meios ao seu alcance do que seus conhecimentos, Hill decide se apresentar como mecânico voluntário na escola de pilotos Universal Motor Club, a troco de uma oportunidade para pilotar. Contudo, o dono não cumpre seu compromisso e Hill vai trabalhar em outra escola até que consegue se tornar mecânico de Don Parker, campeão de Fórmula 3. Em Brands Hatch conheceria a Colin Chapman e, em 1954, Hill logra que Colin o leve de carona a Londres, convencendo-o durante o trajeto para que o contrate para sua equipe. Trabalhando como mecânico na Lotus, Hill ainda participaria em algumas provas de pouca importância até que, no principio de 1956, convence a Chapman para que lhe deixe construir um carro sport com partes e peças que havia lá na oficina. Chapman acede com a condição de ficar com qualquer prêmio ou bonificação que Hill viesse a conseguir.

Assim, Hill, por fim,  podia participar na temporada completa e… quase conquista o campeonato, vencendo quatro corridas, alem de subir ao pódio em outras 8 ocasiões. Em 1957, novamente, Hill participaria em diversas provas, vencendo outra vez em quatro delas, com outros quatro pódios. Com seus bons resultados, Chapman o inscreve no Glover Trophy de 1958 em Goodwood com um velho Lotus 12, ainda com motor dianteiro. Hill não conseguiria terminar a prova, mas Chapman já estava convencido de seu potencial e lhe daria logo depois sua primeira oportunidade de disputar um GP de formula 1: Mônaco

A prova contava com 31 inscritos e Hill, com o mesmo velho e obsoleto Lotus 12, consegue superar a vários pilotos conhecidos no grid. Hill teria uma muito boa performance durante a corrida onde, com dois terços da prova já disputada, chegou a alcançar a quarta posição até que um parafuso solto d’uma roda o obriga a abandonar. O bom rendimento de Hill animou a Chapman a lhe dar um Lotus 16 para o resto do campeonato. Porem, ainda que Hill logo mostrou estar à altura de Cliff Allison, o primeiro piloto da equipe, a quem inclusive superou no grid já nas últimas provas do ano, a fragilidade dos carros só lhe permitiram terminar as duas últimas corridas do ano, conseguindo na Itália um bom 6º lugar.

Para a temporada de 1959, Hill já era piloto fixo da Lotus, mas o modelo 16 continuava com seus problemas de fiabilidade e os abandonos se sucediam. No último GP do ano nos EUA Hill nem participaria, pois já estava negociando sua incorporação à BRM. Como diria o próprio Hill, ele já estava cansado da inconsistência dos carros de Chapman. Ironicamente, se Hill tivesse ficado na Lotus como lhe pedia Chapman, teria pilotado o excelente Lotus 18 com o que Stirling Moss deu à Lotus sua primeira vitória na formula 1. Contudo, as duas primeiras temporadas na BRM não foram grande coisa, com apenas um 7º e 3º lugares em Mônaco e Holanda em 1960 e 5º e um 6º lugares na França e USA, respectivamente em 1961.

Porém, tudo mudaria em 1962 quando Hill começa a temporada vencendo o GP da Holanda, sua primeira vitória na F1. Em Mônaco, Clark e Hill ocupam a primeira linha do grid mas ambos, com problemas mecânicos, não terminam a prova. Na Bélgica a vitória é para Clark, com Hill longe em segundo lugar. Na França veríamos a vitória surpresa de Dan Gurney, com Porsche enquanto que nem Clark nem Hill pontuam. Na Inglaterra temos nova vitória de Clark, com Hill em quarto lugar mas, na Alemanha e Itália, Hill vence com autoridade para ser segundo nos EUA atrás de Clark, quem seria seu grande rival da temporada até a última prova na Africa do Sul, onde ambos disputariam o campeonato, que acabaria nas mãos de Hill com uma nova vitória em Kyalami.

Graham, foi muito mais consistente ao longo da temporada, conseguindo terminar todos GPs e vencendo quatro deles, confirmando o que havia dito daquele velho Lotus 12 com o que estreou na formula 1 : ” Uma sucata ! Qualquer um que queira ser piloto deveria começar num carro assim, pois ele te ensina delicadeza, equilíbrio e antecipação!“. E parece que Hill aprendeu rápido pois, segundo diria Stirling Moss então: “Ele é o arquétipo do piloto do futuro… preciso, refinado, inteligente. Graham é mesmo tão refinado quanto parece!“.

Essa história continua na próxima sexta-feira.

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

1 Comentário

  1. Fernando Marques disse:

    Manuel Blanco,

    um piloto que foi Bicampeão Mundial de Formula 1, Mister Monaco, duas vezes vencedor das 24 Horas de Le Mans, vencedor das 500 Milhas de Indianápolis merecia há muito tempo ter a sua história contada. Graham Hill sempre teve um de estilo de pilotagem sereno e talvez por isso era menos adorado que um Jim Clark. Mas ele ganhou muita e merece fazer parte das grandes histórias contadas e relembradas aqui no GEPETO
    Show de bola!!!

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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