A batalha dos sexos – parte 1

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A batalha dos sexos – parte 2
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A olimpíada de 1964 em Tokyo, marcaria o inicio das retransmissões televisivas via satélite e, quando se celebrou a olimpíada do México em 1968, estas já haviam consolidado os esportes como um dos mais importantes eventos nas programações das televisões de todo o mundo. Isto aumentou a popularidade do esporte em geral, o que levou a um maior interesse por parte dos patrocinadores, que bancavam com os custos das retransmissões. Um dos esportes que mais se beneficiou com sua maior difusão foi o tênis, cujos grandes torneios se retransmitiam com regularidade.

Porém, as jogadoras logo se queixaram de que as televisões davam preferencia à retransmissão dos partidos da categoria masculina, o que logo promoveu comentários a favor e em contra de suas queixas. Um dos que mais criticava as pretensões das jogadoras era Bobby Riggs, antiga estrela do tênis, quem dizia que as mulheres não ofereciam o nível de espetáculo dos homens e que, portanto, não promoviam o mesmo interesse entre o público. Riggs, apesar de estar já retirado fazia muitos anos e de contar então com 55 anos de idade, inclusive lança um desafio às três máximas estrelas femininas da época: Riggs disse que derrotaria qualquer uma delas na pista.

No fim, apenas Margareth Court, quem liderava a classificação das jogadoras naquele ano, aceita o desafio (atraída pelos 10.000 dólares que lhe ofereceram). Se enfrentariam no dia 13 de maio de 1973 e Riggs, claro favorito nas apostas, venceria com facilidade em menos de uma hora. Contudo, a partida despertou muito interesse a desfrutou de muita audiência, tanta que Riggs manteve seu desafio às outras duas jogadoras. Desta vez, uma delas, Billy Jean King, então 26 anos mais jovem do que Riggs e que havia dito anteriormente que tudo era uma farsa, aceitaria, ainda que exige umas condições econômicas muita mais altas, mas isso não foi problema pois não faltaram patrocinadores ávidos por cobrir as despesas do evento. Com o parte financeira resolvida, o encontro é fixado para o dia 20 de setembro, e seria promovido com o sugestivo nome de “A batalha dos sexos”. Uma vez mais Riggs mantinha grande vantagem nas apostas.

A partida teria lugar no astrodome de Houston perante mais de 30.000 espectadores (recorde de público a uma partida de tênis até hoje!) alem da ampla cobertura televisiva que contou com mais de 90 milhões de espectadores em vários países. Depois de tomar vantagem nos primeiros jogos, Riggs, surpreendentemente, acabaria perdendo o partido. Contudo, sempre houve a suspeita de que Riggs havia perdido a propósito. Riggs era um grande apostador e tudo parecia indicar que devia muito dinheiro à mafia. Segundo diria muitos anos depois uma testemunha acidental d’uma conversa entre dois poderosos gangster da época, tudo estava arranjado pois haviam oferecido a Riggs cancelar sua importante divida a troco de perder a partida. Assim, ganhariam muito mais dinheiro apostando em contra sua. De qualquer modo, aquela inesperada vitória de King ajudou a promover o tênis feminino e a que tivesse maior presença mediática desde então.

O automobilismo em geral e a formula um em particular não foi alheia à grande exposição que as transmissões televisivas via satélite proporcionavam ao esporte, e logo os patrocinadores inundam a categoria em busca de uma maior promoção de seus produtos. A equipe Lotus seria a primeira do campeonato a assinar um acordo de patrocínio em 1968, e todas as outras vieram a continuação. Anteriormente, a cobertura dos GPs quase se limitava à sua retransmissão no pais anfitrião do evento, mas os satélites permitiram que os grandes prêmios logo começassem a ser transmitidos de forma regular em cada vez mais países. No Brasil, o primeiro GP transmitido foi o da Inglaterra de 1970, coincidindo com a estreia de Emerson Fittipaldi no campeonato. A chegada massiva de dinheiro à categoria proporcionava às equipes verbas cada vez maiores que, por sua vez, tornavam o campeonato cada vez mais atrativo e faziam que as audiências televisivas não parassem de crescer. Enfim, o sonho de qualquer patrocinador!

Contudo, ao contrario do que acontece no tênis, e na imensa maioria dos esportes, no automobilismo não existem categorias masculina e feminina, e todos podem competir juntos. No entanto, desde a instauração do campeonato, apenas uma mulher havia participado : Maria Teresa de Filippis. No entanto, podemos até concluir que sua participação foi produto do seu diletantismo mais do que do seu talento. A italiana, filha de um rico nobre de Nápoles, se dedicou ao automobilismo só quando seus irmãos Antônio e Giuseppe zombaram dela dizendo que não tinha condições para pilotar. Maria, após participar em varias corridas de diversas categorias, e com ajuda do seu namorado o piloto Luigi Musso, decide entrar na formula um em 1958. Para isso, Maria compra o Maserati usado por Fangio em 1957, e com o que havia sido campeão. Com aquele carro, Maria se inscreve para o GP de Mônaco, mas não consegue se classificar. Se classificaria para o GP da Bélgica, onde acabou em último lugar, enquanto que em Portugal e Itália, se retiraria logo no inicio das provas. Naquele mesmo ano de 1958, Maria havia participado anteriormente no GP de Siracusa onde terminaria penúltima (a vitória seria para Musso). Maria não superaria novamente a classificação para o GP de Monaco de 1959, desta vez com um Porsche da equipe de Jean Behra, e pouco depois se retira da competição.

Com a década dos anos 70 iniciada, e com o automobilismo em geral e a formula um em particular em constante crescimento, ao amparo do auge televisivo, não faltavam patrocinadores e havia aspirantes a piloto em abundância. Porem, parecia raro que, justo onde mulheres e homens podiam competir juntos, não houvesse nenhuma mulher nas categorias de formula. Mas isso logo se solucionaria. Naquele mesmo ano de 1973, uma italiana chamaria a atenção de John Webb durante o GP de Mônaco de formula 3 do campeonato italiano, ao conseguir se classificar dentre os mais de 60 inscritos para a prova e terminar sem problemas ( finalmente se classificaria 10ª no campeonato, como já havia feito em 1972 ). A prova tinha se disputado no dia 2 de junho, pouco depois do partido entre Riggs e Court e com todo o interesse que havia despertado ainda vigente, Webb logo percebe o enorme potencial promocional que a presença de uma mulher poderia ter no automobilismo. Webb era coproprietário de vários circuitos na Inglaterra, entre eles o de Brands Hatch, e organizava corridas alem de possuir escolas de pilotagem. Assim, sua mulher Angela, pouco depois convida Lella a tomar parte numa das corridas que organizava o marido para o mês de júlio. Era a chamada ShellSPORT Celebrity Series, que se disputava com carros Ford modelo Escort e onde participavam alguns pilotos tanto profissionais quanto aficionados, assim como gente famosa da época. John e Angela, ficariam gratamente surpreendidos quando Lella vence a corrida e uma boa amizade surge entre eles, fazendo que  mantivessem o contato desde então.

Pouco tempo depois Lella é convidada a formar parte da equipe de Jackie Epstein para 1974, um amigo de John Webb e quem organizava o campeonato de formula 5000 na GB. Lella foi bastante bem no campeonato, terminando em 5º lugar. Lella também é inscrita para a corrida dos campeões e o BRDC Trophy e, ainda que em ambas corridas termina nas últimas posições com volta perdida, sua presença teve boa repercussão mediática. Assim, para o GP da Inglaterra desse mesmo ano, que se disputaria pouco depois, Webb aluga um Brabham BT42 de Bernie Ecclestone, enquanto que Epstein arranja os patrocinadores e inscrevem a italiana para a corrida. Infelizmente, Lombardi não conseguiria se classificar. Porem, como a presença de uma mulher nas pistas despertava muito interesse, Epstein a recomenda a seu amigo Max Mosley, da March, quem a incorpora à sua equipe para a temporada de 1975, graças ao patrocínio do conde Gughi Zanon, famoso por sua paixão pelo automobilismo e que aportaria 50.000 libras. Zanon, junto à sua mulher, era o proprietário da empresa italiana de café Lavazza.

O interesse midiático por Lella, ficou fora de toda dúvida quando ela foi provar seu March no circuito de Goodwood, e ali estava uma equipe de repórteres da BBC para cobrir o acontecimento. A temporada começa na Africa do sul, onde Lella se classifica na 26ª posição do grid. Dezessete anos haviam se passado desde a última aparição de uma mulher no campeonato. Contudo, Lella abandonaria na 23ª volta. A seguinte prova seria o GP da Espanha, onde a italiana terminaria em 6ª posição, fato que lhe representou ser a primeira mulher a conseguir terminar um GP em posição com direito a pontos. Porem, deve ser dito que aquela foi uma corrida com muitas incidências e abandonos e apenas 8 pilotos estavam ainda em pista quando a corrida se interrompeu na volta 29 a causa do acidente de Stommelen. Nesse momento, Lella estava já a duas voltas do vencedor, igual que Tony Brise, para quem aquela era sua estreia na categoria, a bordo de um pobre Williams FW03, enquanto que o 8ª colocado foi John Watson, uma volta atras deles, e que vinha perdendo muito tempo por problemas de estabilidade no seu carro, sendo seu abandono iminente. Em Mônaco Lombardi não se classifica e, nas seguintes 5 provas, abandonaria em três e terminaria última nas outras duas. Na Alemanha, tivemos um GP com apenas 9 pilotos terminando, onde Lella acaba 7ª à frente de Harald Ertl com um Hesketh alugado e de Patrick Depailler que havia entrado a trocar um pneu, perdendo uma volta no processo. Na Áustria, novamente é última e na Itália abandona, enquanto que nos EUA não consegue largar.

Continuaremos esta história em breve.

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

2 Comentários

  1. […] Leia a primeira parte desta história clicando aqui. […]

  2. Fernando Marques disse:

    Manuel,

    bela lembrança e uma bela história para se contar

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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