A batalha dos sexos – parte 2

A batalha dos sexos – parte 1
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A batalha dos sexos – parte 3
21/11/2018

Na temporada de 1976, Lella começa no Brasil com o March-Lavazza, onde parte da 22ª posição no grid para terminar em último lugar na corrida, sua última com a March. Não a veríamos novamente até o GP da Inglaterra, com a equipe RAM, onde não consegue se classificar, assim como na Alemanha. Se classificaria na Áustria para acabar última, e aquela seria sua despedida da formula um. Ainda que seus resultados nas pistas não foram nada alentadores, sua repercussão mediática tinha sido enorme e Lella proporcionou à Lavazza uma publicidade que a empresa jamais teria conseguido com um homem ao volante. John Webb, de quem se dizia que era uma “águia” para os negócios, consciente disto, trata de repetir o esquema e começa a buscar alguma mulher piloto.

Em 1974, numa daquelas corridas para celebridades que ele organizava em seus circuitos, contou com a presença de Divina Galica em Oulton Park. Galica, havia participado nas olimpíadas de inverno de Insbruck em 1968, onde conseguiu dois pódios, Grenoble e Sapporo. O caso é que Galica terminou segunda naquela corrida e Webb, rapidamente, lhe oferece um curso de pilotagem na sua escola em Brands Hatch e um convite para participar no campeonato Ford Escort Special em 1975. Divina, então com 28 anos de idade, aceita imediatamente e Webb apoiaria sua carreira desde esse momento.Também a inscreve no campeonato da Fórmula Ford.

Animado por seus bons resultados, Webb inscreve Galica no campeonato Shellsport de 1976, que se disputava com carros da F1, F2 e formula 5000. Galica, com um Surtess TS16 tem um bom começo de campeonato e, com motivo do GP da Inglaterra, em Brands Hatch, Webb a inscreve com aquele Surtess. Deste modo e a ponto de cumprir 30 anos, Galica chegava a um GP de formula 1 apenas dezoito meses depois de seu primeiro contato com o automobilismo! Contudo, Galica não consegue se classificar e, o resto do ano se dedicaria ao campeonato Shellsport, terminado numa boa 4ª posição, ainda que deve ser dito que apenas poucos pilotos participariam em todas as provas, como foi o seu caso. Em 1977, com um Surtess TS19, Divina terminaria em 6ª posição no Shellsport. Na corrida dos campeões terminaria penúltima e no BRDC Trophy não se classifica mas termina participando com a retirada de Lauda e de Arnoux, ainda que abandonaria ao derrapar na pista molhada. Em 1978, ainda teria uma nova oportunidade na formula um, mas com um velho Hesketh 308E pouco podia fazer. Assim, quando a temporada começa, Galica não consegue se classificar nem na Argentina nem no Brasil. Sua aventura na formula um… havia terminado,

Porém Webb, continuava apoiando a presença de mulheres no automobilismo pois, segundo dizia: “Garotas velozes sempre tem muito potencial mediático!”. Assim tentando repetir o sucesso promocional alcançado com Galica, Webb recruta a Ann Moore, outra estrela olímpica. Moore havia conseguido uma medalha de prata em hípica (salto de obstáculos) na olimpíada de Munich em 1972 e era muito popular no Reino Unido. Apos um curso de pilotagem em sua escola, Webb inscreve a Moore no campeonato de formula Ford 2000 de 1976. Porem, aquele era um campeonato muito competitivo e para uma novata como Moore, resultou ser demasiado exigente. Assim, no meio da temporada e devido a seu pobre rendimento, Moore toma consciência de que não estava à altura do que se esperava dela, e decide abandonar o automobilismo. Mas Webb não se desanima e logo toma sob sua proteção a uma promessa recém chegada da Africa do Sul. Se tratava de Desiré Wilson, quem apos vencer o campeonato sul-africano da formula Ford de 1976, havia ido à Inglaterra em busca da glória. Webb a inscreve na formula Ford 2000 para 1977, onde Wilson terminaria em 3ª posição no fim da temporada.

Em 1978, ainda na formula Ford 2000, Webb a inscreve para o GP da Inglaterra com o March que haviam conseguido para a ocasiao. Para ir se habituando ao carro, em junho Wilson leva a cabo dois dias de testes em Brands Hatch. No entanto, quando Wilson já se estava acostumando ao carro, Webb lhe diz que a inscrição havia sido cancelada. Tudo se tratava apenas um golpe publicitário de Webb para promover o GP. Como compensação, Wilson é inscrita no campeonato Shellsport com un Ensign N175 e, apesar de disputar apenas as últimas 5 provas (abandonando na primeira delas em Oulton Park), Desiré conseguiria um 3ª, um 4ª e dois 6ª lugares. Em 1979 continuaria na Shellsport e sua única participação na formula um seria na corrida dos campeões, onde terminaria em 9ª posição, a duas voltas do vencedor. Em 1980, ainda no campeonato Shellsport, onde acabaria 6ª, inclusive com uma vitoria em Brands Hatch, Webb consegue que seu amigo John Macdonald a acolha em sua equipe para disputar o GP da Inglaterra com um Williams FW07. Nos testes prévios em junho, Wilson ia muito bem com o carro mas, para a corrida, lhe foi entregue outro carro com o que não se deu nada bem e não conseguiu se classificar para o GP. Esta foi a última vez que Webb recorria a uma mulher com fins publicitários.

Passariam 12 anos para contar com a presença de outra mulher na formula 1. Seria em 1992, quando a italiana Giovanna Amati toma parte nas sessões de classificação para os GPs da Africa do Sul, México e Brasil pela equipe Brabham. Em Kyalami, Amati fica fora do grid ao ser a última classificada a 9″ da pole, enquanto que no México e no Brasil aconteceria o mesmo, sendo Interlagos a última vez que era vista na formula um. Amati se havia iniciado no automobilismo com o apoio de sua abastada família e, em 1984, passa a competir no campeonato da formula 3 italiana. Permaneceria nessa formula até 1986, sendo sua melhor classificação o 15º lugar no campeonato de 1985. Para o ano de 1987, passa a disputar a formula 3000, onde permaneceria até 1991, sendo habitual que não pudesse se classificar para disputar as corridas. Assim, resultou chocante quando, contando Amati já 29 anos de idade e sem haver conseguido nenhum ponto na F3000, foi anunciada sua presença na Brabham. No entanto, se consideramos que naquela época a Brabham agonizava e precisava desesperadamente do dinheiro que aportou o patrocinador da italiana, e de que Giovanna mantinha então um romance com um tal Flavio Briatore, quem, anteriormente, lhe havia permitido dar 30 voltas num Benetton 191, tudo parece cobrar sentido.

Teríamos que esperar outros 22 anos para ter noticias de outra mulher na formula um. Com a ridícula moda do politicamente correto invadindo todos os âmbitos (puxa, sempre pensei que aquilo que é correto não precisa de nenhum adjetivo!), surge o debate sobre a necessidade da presença da mulher no “machista” mundo da formula um. Assim, em 2012, a equipe Williams anuncia a contratação da escocesa  Susie Wolff como piloto de desenvolvimento. Susie havia conseguido bastante sucesso nos Kart e, apos disputar três campeonatos com monopostos na formula Renault 2000 , ascende à formula 3 em 2005, contando já 22 anos de idade. Na temporada de 2014, Susie, então já com 33 anos de idade, daria suas primeiras voltas num formula um nas sessões livres dos treinamentos para os GPs da Inglaterra e Alemanha e, em 2015, nas sessões livres dos GPs da Espanha e Inglaterra. Porem, no fim dessa mesma temporada, Susie anuncia que se retira do automobilismo.

Também em 2014, enquanto Susie dava suas primeiras voltas num formula um, outra mulher apareceria em cena: Simona de Silvestro. Pouco antes do inicio da temporada, a suíça é apresentada pela equipe Sauber com o sugestivo titulo de piloto “afiliado” e, no fim de Abril, Simona rodaria com um Sauber modelo C31da temporada de 2012 no circuito italiano de Fiorano, completando 112 voltas. Segundo se anunciou num comunicado oficial, Simona formava parte de um programa de treinamento com o objetivo final de que se incorporasse plenamente à equipe, tao logo a FIA lhe concedesse a licença correspondente, visando sua participação no campeonato de 2015 como piloto titular. Para o fim do mês de Júlio, Simona roda novamente em Valencia com o mesmo carro, e um novo teste se programa para a pista de Austin, ainda que não se lavaria a cabo pois, pouco antes, Monisha Kaltenborn, a diretora da equipe, anunciava que o programa se suspendia devido a problemas de índole contratual e financeira.

Naqueles anos, também tivemos a presença das espanholas Maria de Villota e Carmen Jordá. Graças ao apoio de seus patrocinadores pessoais, Maria teve seu primeiro contato com um formula um em 2011, quando a equipe Lotus lhe deixou provar um Renault R29 da temporada 2009, cortesia do patrocínio da revista “Holá”, publicação destinada ao publico feminino. Pouco depois, a equipe Marussia anuncia a contratação de Maria como piloto de testes para a temporada de 2012. Maria, então já com 32 anos de idade, tampouco tinha um histórico de resultados em formulas inferiores que fizesse ser muito otimista respeito ao seu rendimento, pois em suas duas temporadas na formula superleague, em 2010 e 2011, apenas se havia classificado em 17º e 15º lugares respectivamente. Ela mesmo sabia que tinha muitas poucas chances na equipe, pois admitia que era apenas piloto de provas, não de reserva. Infelizmente, numa prova no aeródromo de Duxford em Júlio, Maria choca contra um caminhão da equipe quando havia já terminado a sessão de testes, e sofre graves feridas cujas sequelas lhe causariam a morte em outubro de 2013.

Enquanto a Carmen Jordá, começou competindo com karts aos 10 anos de idade. Em 2005 e 2006 participa na formula júnior terminando em 7ª e 9ª posição. Em 2007, 2008 e 2009 participa na formula 3, nunca superando a 20ª posição final no campeonato. Seu histórico anterior à sua chegada à formula um é ainda mais modesto pois, em suas três temporadas na GP3 não conseguiu nenhum ponto, e sua melhor classificação foi em 2012 na 28ª posição do campeonato, apenas à frente de um rapaz 6 anos mais jovem. Assim, com quase 27 anos de idade, resultava surpreendente que Carmen fosse apresentada pela equipe Lotus-Renault como piloto de desenvolvimento para a temporada de 2015. Para 2016, Carmen teria seu contrato renovado, alem de ser inscrita no campeonato Renault Sport Trophy (para pilotos amadores), onde apenas terminou em 9ª posição. Sua incorporação à equipe de Enstone, foi muito criticada atribuindo-a mais às suas qualidades num estúdio fotográfico do que ao seu rendimento nas pistas.

Assim, uma vez mais, a chegada destas pilotos à formula um parecia estar ligado a fatores alheios aos méritos demonstrados nas categorias inferiores de promoção. Nenhuma destas pilotos podia exibir um histórico de resultados nessas categorias inferiores que fizessem abrigar alguma esperança de que tinham condições de afrontar o repto de pilotar na formula um com minimas probabilidades de sucesso. Portanto, tinham que ser outros os motivos que as levaram a desfrutar da possibilidade de se sentar no cobiçado cockpit de um formula um, alem da “necessidade” de ver uma mulher na máxima categoria. No caso de Susie, quem em suas 6 temporadas prévias no campeonato DTM só havia conseguido pontuar numa delas (dois sétimos lugares em 2010), alem da repercussão publicitaria da presença de uma britânica justo no GP local, os motivos bem podiam estar relacionados ao seu marido Toto Wolff, quem, naqueles tempos, possuía 15% das ações da equipe Williams e era um de seus diretores.

O caso de Simona é ainda mas peculiar. A suíça vinha sendo apoida pelo magnata indiano Imran Safiulla desde 2006, quem, inclusive, comprou a equipe KV da Indy Car Series onde Simona vinha competindo nas quatro últimas temporadas (com escasso sucesso dito seja, pois sua melhor classificação foi em 2010, sua quarta temporada, quando terminou 13ª). Aquele anuncio de piloto “afiliado” era apenas um eufemismo pois o que realmente aconteceu é que Safiulla simplesmente alugou um carro da equipe para que a moça desse umas voltas com ele. Era um carro já fora de serviço (inclusive sem o KERS) e que nem exibia as cores da equipe daquela temporada, pois tinha sido repintado para publicitar as empresas de Safiulla. A ” brincadeira ” custou 3 milhões de dólares mas proporcionou às empresas de Safiulla e seus sócios uma exposição que jamais teriam conseguido de outro modo. Depois desses testes, Safiulla deixa de apoiar Simona. Quanto a Maria e Carmen, creio que não há duvidas de que também se tratavam apenas de manobras publicitárias.

Na terça-feira, veremos a penúltima parte desta história.

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

2 Comentários

  1. […] Confira as partes anteriores clicando aqui […]

  2. Adriano disse:

    Discordo em relação a Simona de Silvestro, a moça mostrou certo talento, inclusive conseguindo vários 4ª e 5º lugares em diversas provas da Indy e chegando em segundo na décima sétima prova de 2013. Nem Barrichello conseguiu o que ela conseguiu na Indy. O que o barrichelo fez de melhor na Indy? provavelmente nos últimos anos foi a melhor pilota que vi. fez corridas em circuitos mistos muito boas para o carro que possuía. Sugiro uma matéria comparando as carreiras de Danica Patrick com Simona. Patrick venceu uma corrida e fez pole mas teve sempre mais apoio que a Simona. Minha opinião, no mais grande texto. PS: considero muito injusto comparar a Simona com Jorda, Susie, e outras.

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