A batalha dos sexos – parte 3

A batalha dos sexos – parte 2
18/11/2018
A batalha dos sexos – final
23/11/2018

Naqueles anos, houve muitos comentários sobre a presença de mulheres na formula um, tanto a favor quanto em contra e, dentre aqueles que mostravam eceticismo tivemos os do mítico Stirling Moss, quem manifestou que as mulheres careciam das condições e da atitude necessária para uma competição de primeiro nível como a formula um, enquanto que Bernie Ecclestone o fazia em termos muito parecidos. Desnecessário dizer que ambos foram muito criticados por aquelas palavras, pois suas opiniões não resultavam ser ” politicamente corretas ” para os tempos atuais. Contudo, estavam realmente ausentes de razão?

A superioridade dos homens respeito às mulheres no que diz respeito ao rendimento físico é algo evidente no que aos esportes se refere, e é decorrente de fatores hormonais e da própria evolução natural da espécie humana, que foi dotando a uns e outras de características próprias. Essa mesma evolução levou homens e mulheres por caminhos um pouco diferentes, desenvolvendo as qualidades mais necessárias em cada um para assegurar a supervivência e progresso da espécie ao longo dos anos. Não devemos esquecer que o homem (a espécie humana) é um predador. Isto significa que, para sobreviver, desde o principio teve de caçar e enfrentar-se a outros humanos. Portanto, um bom estado físico era essencial para o sucesso dos seus objetivos.

Porém, os “filhotes” humanos são os que mais tempo demoram para se tornarem independentes e precisam muitas e constantes atenções e cuidados durante os primeiros anos da sua vida, e isso acabou marcando a diferença entre homens e mulheres. Sendo uma espécie mamífera, é a mulher quem se ocupa dos cuidados dos filhos, enquanto o homem procura o sustento de todos. Assim, é lógico que fosse o homem quem acabasse desenvolvendo uma maior musculatura, capacidade pulmonar e cardiovascular, assim como habilidades próprias de predador. Dentre estas habilidades, não todas são puramente físicas pois, a caça e o combate demandam algumas outras como uma maior visão espacial e de profundidade ou sentido de antecipação e oportunidade. Um maior aprimoramento do instinto depredador que, em definitiva, procura um maior desenvolvimento das virtudes próprias e um maior aproveitamento das debilidades do adversário, rival ou vitima. A competição, trata-se, praticamente, de uma luta entre dois ou mais sujeitos por conseguir um objetivo determinado. Desde faz milhares de anos o objetivo é comida e… no esporte, uma vitória. Portanto, não é nada surpreendente que os homens sejam mais competitivos do que as mulheres. Isso é fruto da natural evolução.

Certamente, a mulher esteve relegada do esporte até épocas recentes, mas felizmente isso já não acontece. Assim, num estudo realizado sobre todas as olimpíadas celebradas, onde se comparava as diferenças nos recordes em cada disciplina entre homens e mulheres, se constatou como, com a cada vez maior incorporação da mulher ao esporte, essas diferenças diminuíam continuamente ao longo dos anos. Porem, desde 1983, as diferenças se mantem estabilizadas e, por muito que as mulheres tenham melhorado sua condição física desde então e consigam bater seus próprios recordes, essas diferenças permanecem invariáveis pois os homens também melhoram ao mesmo ritmo. Por exemplo, no atletismo os recordes masculinos superam os femininos em torno a um 10%, para ir subindo em outros disciplinas, como o salto de altura onde chega a 17%, e se aproxima a 35% na halterofilia. Com uma massa muscular nas mulheres de apenas cerca de 66% da dos homens (na parte superior do tronco é apenas cerca de 56%), parece que não há margem para melhoras.

Outros estudos nos apresentam dados referentes às capacidades visuais de homens e mulheres que confirmam as diferenças entre uns e outros e, uma vez mais, a natureza dotou os homens de maior capacidade para a caça e o combate. Enquanto que as mulheres apresentam um campo de visão mais amplo do que os homens, estes são capazes de focalizar um objeto muito melhor do que as mulheres. Esta característica permite aos homens um mais preciso calculo da distância à que se encontra o objeto em questão (algo muito valioso para a caça). Os homens também percebem melhor os detalhes em objetos em movimento, pois estão dotados de uma melhor capacidade no que a visão espacial se refere, superando amplamente as mulheres na chamada “rotação mental” (segundo alguns estudos, a vantagem chega a ser de um 20%). Esta capacidade, junto ao melhor calculo de distâncias, permite a visualização de objetos em movimento e, considerando sua velocidade e trajetória, conseguir uma projeção mental de qual sera sua posição futura no espaço.

Neste ponto, convém citar os casos de competições onde a condição física não é determinante como o bilhar, tanto europeu como americano. Em ambas especialidades a condição física não importa, pois o esforço requerido esta ao alcance tanto de homens quanto de mulheres, mas a visão espacial é fundamental e os grandes astros mundiais do bilhar europeu (principalmente na modalidade a trés tabelas) e detentores dos recordes são homens, mesmo que haja campeonatos femininos. A visão e projeção mental das trajetórias das bolas é algo fundamental no jogo e os homens estão melhor dotados para isso. No bilhar americano ou snooker (sinuca em português) acontece o mesmo e, ainda que as mulheres podem participar nos campeonatos masculinos, desde que superem a fase classificatória e se coloquem entre os 32 melhores jogadores, nunca nenhuma mulher, nem as maiores campeãs, jamais conseguiu se classificar. Em 2017, a britânica Reanne Evans, 11 vezes campeã mundial feminina de snooker, foi convidada a participar nas eliminatórias para o campeonato mundial masculino, sendo logo derrotada por Lee Walker, quem ocupava então o lugar 91º no ranking masculino.

Contudo, ainda que a condição física masculina supere a feminina, não devemos esquecer que tanto homens quanto mulheres se desenvolvem de forma diferente até alcançar dita condição própria de cada um quando chegam à idade adulta. Assim, partindo da infância, podemos logo constatar uma maior inquietude e agressividade nos meninos e uma maior tendência às brincadeiras e jogos de caráter competitivo. No entanto, nesses primeiros anos de vida, praticamente não há diferenças no rendimento físico entre os meninos e as meninas, e a igualdade se mantem até a puberdade, que chega em torno aos 11 ou 12 anos nas meninas, enquanto que nos meninos a puberdade se manifesta aproximadamente um par de anos mais tarde. Então, em virtude de mudanças hormonais e fisiológicos, se produz um repentino desenvolvimento tanto físico quanto mental (mais rápido no caso das meninas) para continuar mais lentamente durante a adolescência até que se completa em torno dos 16 ou 17 anos nas meninas, e até os 18 ou 20 anos nos meninos. Nesses anos iniciais de transição à idade adulta, as meninas superam os meninos em estatura e condição física, enquanto que ao desenvolvimento da madureza mental se refere, as meninas a alcançam vários anos antes do que os meninos. Assim, temos como durante alguns anos, as meninas superam os meninos, tanto em condição física quanto mental.

Deste modo, e tendo em mente essa diferença no ritmo de desenvolvimento entre as meninas e os meninos, vale a pena prestar a atenção ao histórico de uns e outras desde o momento em que se dedicam ao automobilismo. Assim, vemos como as garotas conseguem seus melhores resultados justo nesses anos em que desfrutam de vantagem física e mental sobre os garotos. Também é bastante habitual ver como as garotas competem com garotos mais jovens do que elas. Porem, conforme a natureza segue seu inexorável curso e a evolução vai dotando a garotas e garotos das características e condições que lhe são próprias, seu rendimento na pista vai se equilibrando de modo que, conforme se ascende de categoria e as exigências são cada vez maiores, as garotas vão perdendo competitividade. Por um tempo, a maior madureza mental das mulheres ainda lhes permite competir com pilotos mais jovens, pois estes mostram um comportamento errático e pouco ponderado. Porem, quando os garotos chegam ao estado de pleno desenvolvimento, as garotas, habitualmente,  terminam nos últimos lugares das classificações. Podemos comprovar isso vendo o histórico de algumas das mulheres protagonistas desta coluna.

Começando por Lella Lombardi, vemos que ele se iniciou no automobilismo em 1965, ainda só seria em 1967 quando participa em seu primeiro campeonato, contando já com 26 anos de idade. Era o campeonato italiano de formula 3 e, devido a que resultou demasiado exigente para Lombardi, esta passa a competir na formula 850 para aspirantes a piloto. Permaneceria nessa formula até 1971, ganhando o campeonato em 1970 com 29 anos de idade. Em 1972 volta à formula 3 e sua melhor classificação viria em 1973 quando foi 10ª no campeonato, contando já 32 anos de idade. O caso de Giovanna Amati é muito parecido, pois também chegou à formula 3 já a tardia idade. Amati começou a competir na formula Abarth em 1981 (com 21 anos), onde ganharia algumas corridas, mas só passaria à formula 3 em 1984, a ponto de cumprir 25 anos de idade. Em ambos casos, as duas se enfrentavam a pilotos mais jovens e na barreira de seu completo desenvolvimento.

O caso das seguintes pilotos a aparecer na formula um é muito parecido. Para então  as corridas de Kart se haviam convertido num autentico celeiro de futuros pilotos e o habitual era ( e continua sendo ) se iniciar no automobilismo nessa especialidade, onde se pode competir desde idades muito tenras. E foi nos kart onde Susie, Maria, Simona e Carmen, tiveram seu primeiro contato com a competição de 4 rodas. Susie começou a competir nos campeonatos femininos de Kart em 1999 e com 17 anos de idade, onde participaria até 2004. Dos 10 campeonatos em que tomou parte, venceria em 6 deles. Nesses anos, também competiria em alguns campeonatos de promoção junto a rapazes, mas com muito menos sucesso. Em 2005, com 23 anos, e apos duas corridas na formula 3 britânica e outras duas na GB Porsche cup, passa a competir na DTM a partir de 2006 com o resultado que já conhecemos.

Maria, teria uma trajetória parecida à de Suzie, pois começa nos Kart aos 16 anos, onde competiria até 1999 com bastante sucesso e até alguma vitória, para passar a competir na formula Castrol espanhola em 2000 e 2001 com um 7ª e 2ª lugar respectivamente. Com esses bons resultados, passa a competir na formula 3 espanhola das temporadas 2002, 2003 e 2004, sendo sua melhor classificação o 10ª lugar conseguido em 2002, quando contava 22 anos. Apos varias temporadas nos turismos, disputaria uma corrida na formula 3000 com a equipe de seu pai e antigo piloto Emilio de Villota, onde terminaria em 22ª posição. Nessa mesma temporada, passaria à formula superleague com os resultados sabidos.

No que a Simona e Carmen se refere, uma vez mais, ambas começam competindo com Karts para ir se desvaindo ao passo que cresciam e ascendiam de categoria. Simona disputaria vários campeonatos e copas durante as temporadas de 2002 e 2003 com muito boas colocações, como os segundos lugares na troféu Parma ou a Bridgestone Cup suíça, alem de outros bons resultados. Em 2004 disputa a formula A francesa e em 2005 a formula Renault 2.0 italiana, onde termina 15ª e 20ª respectivamente. Seu melhor resultado viria em 2009, contando 21 anos de idade, na formula Atlantic, onde termina na 3ª posição (havia sido 8ª na temporada anterior), ainda que então se tratava de uma categoria inferior. Nas 4 temporadas seguintes correria na Indycar series sendo sua melhor classificação um 13ª lugar em 2013 (19ª, 20ª e 24ª foram suas classificações anteriores).

Enquanto a Carmen, como já vimos, seus resultados também foram bons num principio para ir se afundando nas classificações nos anos seguintes. Em 2014, em sua segunda temporada na GP3, Carmen vinha sendo sempre ao redor de 3 ou 4 segundos mais lenta do que seus adversários e se encontrava em última posição do campeonato, quando a equipe decide não inscrevê-la para os dois últimos eventos da temporada. Dean Stonemann ocupa seu lugar nas últimas quatro corridas e, com aquele mesmo carro, consegue uma pole, uma vitória e três pódios, deixando fora de toda dúvida que os maus resultados de Carmen não eram imputáveis ao carro. Assim, parecia raro que, alem do britânico Alex Lynn, o campeão, fosse justo Carmen a única dentre todos os concorrentes a ser recrutada por uma equipe de formula um, havendo tantos pilotos melhor classificados do que ela.

Como última surpresa (até agora) temos a colombiana Tatiana Calderon. Ao inicio da temporada 2018, a equipe Sauber anunciou a incorporação da colombiana como piloto de provas em simulador. Uma vez mais, sua contratação não parecia se dever ao seu histórico nas categorias de acesso à formula um e, uma vez mais, sua trajetória segue o mesmo padrão de suas antecessoras na categoria. Tatiana começa sua carreira nos Kart em 2003, com dez anos de idade e com 12 se consagra campeã júnior de Colômbia. Em 2006 disputa sua primeira temporada nos EUA. terminando terceira no ” Stars of Karting “. Continuaria competindo com Karts até 2009 com bastante sucesso, ganhando por terceira vez o campeonato colombiano. Já na Europa Tatiana competiria na formula 3 de 2012 (obtendo o 9º lugar) até 2016 sendo sua melhor classificação um 7º lugar em 2013 aos 20 anos de idade, para ir caindo até a 15ª em 2014 e 27º em 2015, ainda que melhoraria em 2016 com o 9º lugar, contando já 23 anos de idade. Nessa mesma temporada, Tatiana competiria por primeira vez na GP3 terminando em 21ª posição, e na temporada de 2017 seria a 18ª dentre os 22 participantes. Na atual temporada, sua terceira na categoria, Tatiana ocupa a 16ª posição com uma corrida ainda por disputar.

Concluiremos essa narrativa na sexta-feira.

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

1 Comentário

  1. […] Confira as partes anteriores clicando aqui. […]

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