A César o que é de César

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Uma história sensacional sobre a saga de Colin Chapman, Jim Clark, Graham Hill e Maurice Phillipe.

Segundo o evangelho de São Mateus, quando Jesus foi perguntado se era legitimo o pagamento de impostos a Cesar, o invasor Romano, este lhes respondeu: “Dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus”. Assim, Jesus, fez uma clara distinção entre os assuntos terrenais e os espirituais. Com o passar do tempo, esta frase passaria a ser usada no sentido de que, quando alguém é digno credor de algum mérito por seus feitos, o próprio é que se lhe reconheça esse mérito publicamente. Se trata, portanto, de distinguir corretamente a natureza das coisas e a competência e participação das pessoas involucradas, procurando atribuir a cada um o reconhecimento que justamente lhe corresponde, impedindo desta maneira que outro usufrua de méritos que não lhe pertencem.

No dia 31 de maio de 1965, Jim Clark e seu Lotus 38 ganhavam as míticas 500 milhas de Indianapolis. Nessa mesma tarde, Len Terry, o engenheiro que havia projetado aquele carro, decide abandonar a equipe. Após varias desavenças com Colin Chapman e sua obsessão por açambarcar todo o protagonismo dentro da equipe, Terry justificaria sua decisão dizendo que “aquele era o momento apropriado para sair”. Para então, com a frutífera participação de Terry, Chapman já se havia convencido de que precisava de um bom engenheiro ao seu lado (sabido é que Chapman não gostava do trabalho perante a prancha de desenho e, além do mais, carecia dos conhecimentos técnicos específicos necessários, pois ele era engenheiro civil).

Para cobrir a vaga deixada por Terry, Chapman chama um jovem engenheiro entusiasta do automobilismo e antigo companheiro de seu colaborador Frank Costin na empresa aeronáutica De Havilland. Se tratava de Maurice Phillipe, engenheiro aeronáutico especialista em estruturas que havia participado no desenho das asas do modelo Comet da De Havilland, o primeiro avião a jato de passageiros e, em seu tempo livre, havia desenhado seu primeiro carro de corrida com um pioneiro chassi monocoque: o MPS (Maurice Philippe Special) para o campeonato da Fórmula Ford 1172 de 1955.

No fim dos anos 50, Maurice desenha o Delta Ford 105E, um modelo para a então popular Fórmula Júnior, com o qual participaria dos campeonatos de 1960, 1961 e 1962, enquanto que em 1963 e 1964, Maurice participaria com um Lotus 7. Naquela época, Philippe havia deixado a De Havilland e trabalhava como engenheiro de desenvolvimento na Ford. Chapman era um entusiasta da aeronáutica e o trabalho de Philippe não lhe havia passado despercebido.

Assim, Chapman não hesitou em convidar Maurice para ocupar o lugar de Terry. Com a chegada de Philippe, se iniciaria uma simbiose perfeita entre ambos, onde o atrevimento e intuição de Chapman se uniam aos conhecimentos e talento de Philippe, dariam inicio a uma fértil e frutífera relação que acabaria influenciando toda uma época na Fórmula 1.

Para 1966, o regulamento especificava os motores de 3 litros e o primeiro trabalho de Philippe seria adaptar o chassi do Lotus 39, que havia sido construído para receber o motor Coventry-Climax flat 16 (que nunca chegaria a ser terminado), para equipar o motor Climax 2,5l. FDF. O carro participaria na Tasman Cup sem muito sucesso e Chapman busca outro motor para a temporada de formula 1. No fim dessa mesma temporada de 1966, apareceria o Lotus 43 com motor BRM H16 que resultaria muito pesado e frágil. Na única prova em que o carro terminou (o GP dos EUA), Clark venceu.

Para então, Chapman soube que Keith Duckworh e Mike Costin, antigos colaboradores na Lotus (Duckworth também havia sido companheiro de Philippe na De Havilland ), estavam trabalhando no projeto de um motor de 3 Litros, mas precisavam de ajuda financeira. Chapman, com seu enorme carisma e poder de persuasão, convence a Walter Hayes, então diretor de marketing da Ford no Reino Unido, de que se involucre no projeto e Hayes, numa reunião do conselho de direção da Ford, lhe diz ao próprio Henry Ford que as 100.000 libras necessárias para o projeto, “seria o melhor investimento que ele jamais faria”. O dinheiro é liberado e a construção do motor começa. A única condição imposta por Hayes, foi que ele queria a Graham Hill na Lotus.

Com o motor garantido, Chapman encomenda a Philippe o desenho de um novo carro para 1967: o Lotus 49. Como era habitual em Chapman, este entrega a Philippe um dossiê com seus requerimentos e sugerências e vai com a equipe para disputar a Tasman series. Então, Philippe usaria todo o seu talento e experiência adquirida na De Havilland para desenhar o carro com um ligeiro chassi monocoque com o motor formando parte estrutural do conjunto. O Lotus 49 terminou de ser montado justo antes do GP da Holanda de 1967 e, enquanto Hill conseguia a Pole, mas abandonava na volta 11, Clark vencia a prova com a volta mais rápida. Nada mal para a estréia do carro e do motor! Porém, os problemas próprios de um motor ainda em desenvolvimento, provocam vários abandonos e Denny Hulme e Jack Brabham, com seus confiáveis motores Repco, acabariam superando a Clark na classificação final.

A temporada de 1968 começa como terminou a anterior: com o Lotus 49 vencendo. Jim Clark o faria na primeira prova e Graham Hill nas duas seguintes. Infelizmente, Clark perderia a vida logo depois de sua vitória, mas Hill, com outras duas vitórias para o 49, seria o campeão. Anteriormente, na Tasman series, Clark já havia sido campeão conseguindo 4 vitórias com o 49.

Nesse mesmo ano de 1968, Chapman havia decidido participar nas 500 milhas de Indianápolis com um carro movido a turbina e Philippe desenha o Lotus 56 equipado com uma turbina Pratt & Whitney. A equipe Granatelli havia participado em 1967 com um carro propulsado a turbina e Chapman gostou logo da ideia. Porém, o 56 melhorava bastante aquele modelo, pois Philippe colocou a turbina na traseira e dotou o carro de uma forma em cunha muito aerodinâmica e tração nas 4 rodas. Nos treinamentos, Graham Hill e Joe Leonard se disputariam a pole que, finalmente, seria para Leonard (batendo o recorde de velocidade do circuito) com Hill em segundo.

Aquela foi a primeira ocasião em que dois companheiros ocupavam a primeira linha do grid. Na corrida, Hill abandona na volta 110 por um acidente, mas Leonard domina a prova com autoridade até que, na volta 192, faltando apenas 8 para o fim, a rotura de uma bomba de combustível lhe obriga ao abandono. A superioridade do carro era tanta que Chapman já pensava disputar o resto de provas do campeonato, mas o sonho acabou quando a USAC, alguns dias depois, proíbe as turbinas.

Contudo, Chapman estava convencido de que as características do 56 seriam uteis na formula um e pede a Philippe que desenhe um carro que, mantendo a simplicidade do 49, incorpore a forma de cunha e a tração nas 4 rodas. Assim, surgiria o Lotus 63. Contudo, os pilotos logo se queixaram de que o carro resultava muito difícil de guiar. Hill, após prová-lo, inclusive, se negou a seguir com ele. Chapman, que não gostava de ser contrariado, ficou enfurecido, mas, finalmente, teve que admitir que o carro não era bom (ainda assim, Hill abandonaria a equipe no fim da temporada).

Confira aqui a continuação dessa história.

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

3 Comentários

  1. Helton Oliveira disse:

    Muito bom texto !
    Parabens !

  2. Sandro disse:

    Motor BRM de 16 cilindros (H16): dois motores V8 unidos por um virabrequim; devia ter um barulho ensurdecedor! e o mito Clark conseguiu o feito de ter vencido com um motor H16 na F-1; unica vez que isso aconteceu!

    Quem poderia imaginar que o motor Ford Cosworth iria dominar a F-1 com piloto campeão entre 1968 ate 1982 (exceto 75, 77 e 79).

  3. Fernando Marques disse:

    Beleza pura!!! Gepeto de voltas as belas historias …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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