A derrota pela vitória

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Seis GPs, seis histórias , seis personagens. Tem história triste de vida, de remorso, tem história de caráter e tem história de ego.

Carlos Drummond de Andrade escreveu um verso onde ele diz: “Eu sei que o esporte é assim mesmo: um dia a gente ganha, outro dia a gente perde. Mas por que é que quando a gente ganha, ninguém se lembra que o esporte é assim mesmo?”.

Não é preciso que pessoas iluminadas pela sabedoria nos ajudem a perceber que o esporte, qualquer que seja, carrega no seu bojo, a emoção, enquanto componente integrante de sua essência é capaz de despertar múltiplos sentimentos.

Atire a primeira pedra quem nunca sentiu uma pequena ponta de inveja de alguém, de um colega de escola ou de trabalho, enfim, de alguma pessoa que tinha um “quê” a mais e, por conta disso, muitas vezes são consideradas vitoriosas. Sim, nós somos naturalmente competitivos e, por vezes, nos excedemos nessa questão de vencer.

Às vezes, isso começa lá na infância, quando queremos ter um brinquedo mais legal ou ser o centro das atenções; passa pela adolescência, quando queremos nos destacar no meio da turma e continua pela idade adulta, quando continuamos a disputar com outras pessoas, uma vaga de emprego, uma promoção no trabalho. De forma cíclica mantemos essa competição. Ou seja, muitas pessoas buscam um modelo de vida onde se quer ser o melhor em tudo. Mas até que ponto isso pode ser saudável?

Esse ano estamos acompanhando, desde seu inicio, a intensa rivalidade entre os dois pilotos da Mercedes. Comparações com outras duplas de pilotos já foram feitas e para evitar as polemicas envolvidas nesse tipo de circunstância, a equipe Mercedes se manifestou desde o começo do ano – “não vamos interferir com ordens aos nossos pilotos, eles estão livres para competir a única recomendação é não baterem entre si” – foram as palavras da cúpula da equipe.

A principio, nós comemoramos. Deixem a competição rolar e que o melhor vença essa disputa. Nós puristas acreditamos nesse mantra, mas desde o GP da Hungria quando Hamilton desobedeceu a uma ordem para deixar Rosberg passar e, na corrida seguinte, na Bélgica os dois se tocaram, acabou vindo à tona um clima muito tenso dentro da Mercedes. Após muita polêmica a equipe reuniu os dois às vésperas do GP da Itália e Rosberg assumiu que não evitou o choque. Paira no ar a possibilidade da Mercedes voltar atrás e definir através de ordens aos seus pilotos o comportamento e o resultado na pista.

Mas, afinal, qual deve ser a postura a ser adotada numa encruzilhada como essa? Quem ganha e quem perde quando uma equipe impõe aos seus pilotos ordens que definem as suas posições num GP?

Fiz uma pesquisa na história da Fórmula 1 para tentar estabelecer em situações como essas quais foram seus desdobramentos subsequentes e elenquei um pódio fictício sobre ordens de equipe: de um lado um pódio com as 3 ordens cumpridas e, do outro, as 3 ordens desobedecidas, como aconteceram e suas consequências aos protagonistas.

Deixo em aberto a possibilidade para nossos leitores concordarem ou discordarem da escolha, o debate está aberto.

Em termos de OBEDIÊNCIA, escolhi as três corridas abaixo:

GP da Itália 1956 – disputado em 2 de setembro no autódromo de Monza, os protagonistas foram os pilotos Peter Collins e Juan Manuel Fangio, ambos pilotando pela Ferrari.

Depois de um início de campeonato com vários problemas, Fangio foi direto a Enzo Ferrari exigir um tratamento de primeiro piloto e assim ele se recuperou e chegou a Monza como líder do mundial. Mas Collins que havia feito um bom inicio de temporada também tinha chances matemáticas de ser campeão e havia recebido a garantia do comendador de que ele não teria obrigação de entregar o carro a Fangio em caso de quebra do argentino, lembrando que o regulamento da época permitia a uma equipe entregar ao seu primeiro piloto outro carro em disputa. A prova daquele ano foi disputada utilizando o anel externo que exigia muito da suspensão e dos pneus e a disputa era bem acirrada e o improvável aconteceu.  Fangio vai aos boxes com um braço de suspensão quebrado e, naquela altura da prova, tanto Striling Moss, quanto Peter Collins tinham a chance de ganhar o mundial.

Quando Collins vai aos boxes fazer sua parada para checar seus pneus, ele vê Fangio sentado num canto e, numa atitude de generosidade, entrega seu carro ao argentino abandonando assim a chance de sair como campeão. Um gesto que depois ele justificou: “ainda é cedo para mim, tenho apenas 25 anos e prefiro continuar a desfrutar da vida sem as obrigações que um campeão tem de assumir. E, de qualquer forma, Fangio merece esse título”.

Tendo terminado em segundo dividindo o carro com Fangio, Collins terminou o campeonato com 25 pontos, contra 30 do argentino. Eles dividiram a pontuação do segundo lugar – 6 pontos – dessa forma com menos 3 de Fangio e mais 3 de Collins o inglês poderia ter levado o título com 2 pontos de vantagem.

GP da Itália 1979 – disputado em 9 de setembro no autódromo de Monza , nesse GP os protagonistas foram Gilles Villeneuve e Jody Scheckter, ambos pilotando pela Ferrari

O campeonato de 1979 chega a Monza com três postulantes ao título daquele ano. Eram eles Scheckter e Villeneuve pela Ferrari e Jacques Laffite pela Ligier.

Na Ferrari, Villeneuve poderia prolongar suas possibilidades caso vencesse a prova , mas a equipe determinou aos seus pilotos que aquele que estivesse à frente, na primeira volta, não seria atacado pelo companheiro e essa determinação foi crucial para o resultado da prova e do campeonato.

Pouco antes da volta de apresentação é constatado um problema nos freios do carro de Scheckter e o reparo é feito mas havia a incerteza do quanto isso poderia influenciar o desempenho do carro.

Após a largada, Scheckter assume a ponta seguido por René Arnoux , Gilles Villeneuve , Jacques Laffite , Jean-Pierre Jabouille.

Na segunda volta ultrapassa Scheckter e comanda a prova até a volta 12 e, em seguida, devido a um problema no motor, ele perde rendimento e a dupla da Ferrari o ultrapassa.

Agora de volta à liderança, Scheckter é seguido de Villeneuve. Nas últimas voltas Villeneuve pode se manter na disputa pelo campeonato, mas não ataca Scheckter, mesmo tendo um carro mais rápido pois ele sabe da ordem e cumpre o acordo, abdicando assim de manter suas chances no campeonato.

GP da Holanda 1978 – disputado em Zandvoort em 27 de agosto. Aqui os protagonistas são Ronnie Peterson e Mário Andretti, ambos pilotando pela Lotus

1978 marca a incrível superioridade do Lotus 79 diante dos adversários. As chances no campeonato se restringem à sua dupla de pilotos. Tendo vencido a corrida anterior, o sueco chega a Zandvoort com 9 pontos de desvantagem para Andretti, mantendo assim suas chances matemáticas de lutar pelo título.

Mas, contrariamente ao que se espera, o sueco declara de imediato que não vai quebrar sua palavra e sua posição de segundo piloto: “Eu dei minha palavra e eu vou manter o meu compromisso. Mario merece ganhar o título porque me superou desde o início da temporada”.

Disputada em 75 voltas, o público assiste na volta 50 a quebra do escapamento do carro de Andretti e Peterson tem nítidas condições de ultrapassar chegando mesmo a colocar seu carro ao lado de seu companheiro de equipe. Mas ele se mantem em segundo lugar acatando a ordem de Chapman que mostra a placa para ele ficar em segundo. Abdica, dessa forma, da chance de disputar o título.

Em termos de DESOBEDIÊNCIA, escolhi as três provas abaixo:

GP da França de 1982 – disputado em Paul Ricard em 25 de julho. Os protagonistas são a dupla francesa, René Arnoux e Alain Prost, ambos pilotando pela Renault

A dupla de pilotos da Renault nessa temporada era formada por Alain Prost e René Arnoux, existia um acordo dentro da equipe que visava favorecer Prost.

Na corrida a dupla assume os dois primeiros lugares na 24ª volta. A partir dali, Prost esperava que Arnoux se lembrasse do acordo que tinham feito naquele final de semana , caso a Renault ficasse com os dois primeiros lugares. Arnoux teria que ceder o primeiro posto a favor de Prost porque este último tinha mais pontos na classificação geral.

Naquela altura da corrida, Arnoux lidera com segurança e não faz nenhuma menção que irá entregar a liderança e finge ter esquecido o acordo. Havia, na verdade, a possibilidade de quebra que era algo não tão raro nos carros franceses, já conhecidos por quebrarem bastante.  Ele ficou na frente o mais que podia e, ao contrário do normal, o carro aguentou até ao fim e o francês venceu a corrida à frente de Prost, que no pódio iria mostrar que estava visivelmente contrariado por ele ter “quebrado” o acordo.

GP de San Marino – disputado em Imola em 25 de abril, os protagonistas são Didier Pironi e Gilles Villeneuve, ambos da Ferrari

A Ferrari possuía o melhor carro de 1982 e sua dupla de pilotos sabia que as chances de ganhar aquele campeonato eram muito grandes.  Villeneuve lembrava que sua obediência em 1979 haveria de ser recompensada ainda mais que o velho Enzo insinuava de forma enviesada que ele tinha a sua preferência.

Chegando a Imola, a guerra entre a FISA e a FOCA atinge o estágio de quase ruptura entre as partes, as equipes ao lado da FOCA resolvem boicotar a prova e apenas 14 carros vão para a disputa.

A prova é bem movimentada em seu inicio mas com o abandono das duas Renault, a dupla da Ferrari se ver bem à frente dos demais competidores na 46° volta.

Nesse momento, o boxe da Ferrari passa a ordem para os pilotos diminuírem a velocidade e garantir a dobradinha para a equipe. Villeneuve em seu estilo de obediência, rapidamente, diminui quando é surpreendido por um Pironi que o ultrapassa. Ele recupera a liderança três voltas depois e, novamente, diminui seu ritmo. Pironi o ultrapassa na última volta não dando chance para uma recuperação do canadense.

Os fãs estavam absolutamente eufóricos com essa dobradinha, lembrando que por uma coincidência fazia três anos que a Ferrari não conquistava uma dobradinha . No pódio Pironi recebe os aplausos da multidão. Mas ao seu lado Villeneuve está visivelmente contrariado e o canadense se sente traído por Pironi e não vai mais lhe dirigir a palavra .

Do resto da história já sabemos seu desfecho, na corrida seguinte Villeneuve sofre seu acidente fatal e mais adiante em Hockenheim é Pironi quem se acidenta e não volta mais a competir.

GP do Brasil 1981 – disputado em Jacarepaguá em 29 de março, os protagonistas são Carlos Reutemann e Alan Jones, ambos os pilotos da Williams

Na primeira prova do ano em Long Beach, a Williams consegue uma dobradinha tendo Alan Jones vencido a prova. Chegando ao Rio para disputar a segunda prova, o Wiliams FW07 C dá mostras que está em sua melhor forma e novamente a dupla domina a prova só que dessa vez o argentino esta à frente. Por diversas voltas vem a ordem dos boxes para que ele ceda a liderança a Jones, feito que Reutemann ignora solenemente. Após a prova, ele primeiro alega não ter visto a placa em função da forte chuva que caiu durante a prova, depois ele muda e declara: “Sei que contratualmente sou o segundo piloto mas vou às corridas com a intenção de ganhar, quando vi a placa pensei, se deixo Jones passar o melhor que posso fazer é parar de correr e dar adeus a tudo isso”.

A equipe ficou contra o argentino e, a partir disso, sabemos muito bem que esse boicote velado tirou a sua chance de ganhar o mundial de 1981.

Seis GPs, seis histórias, seis personagens – Peter Collins ,Gilles Villeneuve, Ronnie Peterson, René Arnoux, Didier Pironi e Carlos Reutemann. Tem história triste de vida, de remorso, tem história de caráter e tem história de ego.

Ora envolvidos por obediência, ora desobediência às ordens de suas equipes, um fato em comum: nenhum deles se sagrou campeão na Fórmula 1.

Questionei-me se eu estivesse numa situação semelhante, o que faria? Obedeceria, desobedeceria? Ainda não quero concluir nada com a leitura dessas histórias. Só penso que ante a ausência de campeões entre eles, o que seria a causa? Equipe, carro ruim, estratégia e comandos equivocados ou egos surpreendentes?

Vamos torcer para que esse ano a disputa na pista entre Hamilton e Rosberg seja resolvida sem maculas e sem ordens de equipe.

Talvez os deuses do automobilismo mexam seus pauzinhos em algum lugar lá no Olimpo, para deixar claro que ordens de equipe não são bem vindas nesse esporte e, no caso, é o tipo da vitória com sabor de derrota.

Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

5 Comentários

  1. Mauro Santana disse:

    Bela Coluna Mário!

    Bom, eu penso da seguinte maneira que, se um piloto quer peitar e desobedecer alguma ordem da própria equipe, esse piloto tem que ter bala na agulha, ou seja, bater no peito e mostrar que é forte o suficiente, pois caso contrario, não adianta fazer chororo depois da corrida e de um campeonato.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  2. Rodolfo César disse:

    Muito bacana a matéria, de fato são histórias fascinantes. Eu incluiria a ordem de equipe obedecida na McLaren em Jerez 1997. Talvez esteja com algumas imprecisões, mas vou tentar compartilhá-la nesse espaço se me permitirem.
    Era a ultima corrida da temporada, Schumacher e Villeneuve brigavam pelo título e a McLaren sentia novamente o gosto da vitória naquela temporada. Após a batida (sacanagem) do Schumi com resultado infrutífero contra Villeneuve, o título estava decidido em favor do canadense.
    Restava, no entanto, a retribuição de um certo favor ou agrado que Frank Williams “devia” para Ron Dennis. Williams e McLaren no decorrer da temporada acordaram não se intrometerem na briga contra a Ferrari e Schumacher.
    Ao final da prova, Villeneuve liderava, seguido por Coulthard e Hakkinen. De forma fria a mcLaren passa um rádio solicitando que Coulthard ceda sua posição para Hakkinen, O escocês se impõe contra a ordem inicialmente, contudo libera a ultrapassagem. Na ultima volta Hakkinen e Coulthard ultrapassam Villeneuve e o Finlandês conquista sua primeira vitória na F1. A Williams retribuía a McLaren pelo apoio recebido durante a temporada e a polêmica da ordem de equipe se iniciava
    Segundo Coulthard, ele indagou Ron Dennis após a prova o motivo de ter recebido a ordem de ceder sua posição. Ron acreditava que tendo dois pilotos vencedores na escuderia isso fortalecia o time como um todo.
    No ano seguinte, a McLaren dominaria o campeonato e logo na primeira corrida Coulthard cede novamente sua vitória a Mika Hakkinen que ao final se sagraria campeão, Essa é outra história, mas talvez esteja ligada ao que aconteceu em Jerez 1997.
    Minha abordagem poderia ter sido melhor, peço desculpas. David Coulthard, de certo modo, conta essa história em um vídeo intitulado “Coulthard on Team Orders” produzido pelo banco UBS e disponível no Youtube.
    É isso, Abraços! E parabéns pela coluna!

  3. Allan disse:

    Ficou meio incompleto, especialmente temporada e prova em que Arnoux desobedeceu a ordem de ceder para Prost. De resto, mais uma matéria excelente.

  4. Fernando Marques disse:

    Mario,

    a hierarquia dentro de uma equipe tem que estar definida em contrato. Deixar bem claro quem é o piloto nº 1 e quem é o numero 2.
    Acho eu que em nenhum dos exemplos acima, talvez somente no caso do Andrtetti e Perterson, não havia esta definição de piloto nº 1 bem clara e expressa em contrato. No caso de Reutman, se ele fosse mesmo punido internamente pela desobediência cometida no Brasil, talvez ele nem sequer teria completado a temporada. A Willians, mesmo a contra a gosto, deu um bom carro ao argentino até o fim daquela temporada.
    Um bom exemplo disso é o caso do Rubinho x Schumacher na Austria. A obediência de Rubinho era obrigatória em contrato no sentido de ceder a vitoria me do Alemão ter todas aspreferências. Caso contrário ele certamente estaria na rua e pagando até hoje possivelmente uma multa milionária .
    No caso da Mercedes, Hamilton “desobedecer” uma ordem na Hungria não foi tão grave quanto ao incidente “provocado” pelo Rosberg na Bélgica. O que o alemão fez foi pior que desobecer. Ele foi antiesportivo e merecia punição esportiva.
    Agora o que vai acontecer até o fim eu não sei. Eu sei que Monza o Rosberg errou tanto quanto ele errou em Mônaco. Um dia a mascara cai.

    Fernando Marques

    Niterói RJ

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