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Piloto natural é o sujeito que tem um talento inato para tirar o máximo de uma máquina, que pode ser um avião de caça ou um F1. Jim Clark era um piloto natural, Graham Hill não.

 

Tem um velho filme sobre aviação, The Great Waldo Pepper, estrelado por Robert Redford, sobre a rivalidade entre um ex-piloto de caça americano (fictício, Waldo Pepper) e um antigo às alemão (personagem fictício baseado em um real, Ernst Udet). Ambos adoravam voar – voar solitariamente, aventureiramente. Um emprego na aviação civil equivaleria a pilotar uma escrivaninha, pouco mais que um cargo burocrático.

 

No entre guerras, acabam se encontrando como “stunts” em um filme de Hollywood. Em determinado momento, o antigo líder de esquadrilha de Waldo Pepper na I Guerra diz que ele era o melhor piloto natural que já tinha visto.

 

Piloto natural? É o sujeito que tem um talento inato para tirar o máximo de uma máquina, que pode ser um avião de caça ou um F1.

Jim Clark era claramente um piloto natural. Graham Hill não. Jim logo encontrava o caminho para ser rápido e se mantinha nele com facilidade.

 

Hill tinha que treinar mais e usar bem seu poder de concentração para tirar o máximo do carro. Nada que não fosse relacionado a possibilidade de melhorar a performance o interessava quando estava competindo. Tendo trabalhado como técnico de motores na Royal Navy, adquiriu um certo conhecimento de mecânica e assim podia cuidar de todos os detalhes nessa busca determinada para a vitória. Não foi um piloto qualquer: é o único com a Tríplice Coroa, bi-campeão na F1, vencedor da Indy 500 e das 24 Horas de Le Mans.

 

Jim não sabia nada de mecânica e nem precisava saber. Era inteligente e igualmente determinado a vencer, descobria modos de contornar a famosa fragilidade dos Lotus da época, em uma época em que os carros quebravam com frequência.

 

Colin Chapman, que como Rudolf Uhlenhaut também podia igualar ou superar ao volante os tempos de seus pilotos, achava que habilidade natural contribuía com 25% do sucesso, o resto ficando a cargo da experiência.

 

Talvez Ayrton Senna seja o melhor exemplo do piloto que aliava talento natural à dedicação de Graham Hill e seu cuidado com os detalhes. E foi melhorando conforme ganhava experiência.

 

Tanto Ayrton quanto Clark e Hill gostavam do que faziam. É famosa a frase de Hill, “incrível como podem me pagar tão bem para fazer uma coisa que eu gosto tanto.” Michael Schumacher também se encaixa nesse perfil, aliando talento natural, dedicação e prazer.

 

Em seu livro, Gerhard Berger conta que após oito exaustivos dias de teste, a ponto de criar bolhas nas mãos, ele e Michael estavam indo para Mônaco de carro e de repente o alemão dá seta, pára em uma pista de kart que ficava perto da estrada e o convida para correr mais um pouquinho!

 

///

 

Muitos de nós, brasileiros, não nos conformamos com a carência de títulos mundiais na F1 auriverdes depois de 1984. Tem gente que parece considerar Barrichello e Massa como inimigos pessoais, de tanta exigência, tanta frustração. Só falta dizer que são argentinos.

Convém lembrar que a Alemanha, mesmo produzindo alguns dos melhores automóveis do mundo, tendo esbanjado eficiência com suas equipes Mercedes e Auto-Union no passado, ficou a seco no campeonato de pilotos do fim da II Guerra até esse primeiro titulo michaeliano. 34 anos!

 

Mas enquanto a combinação Red Bull/Newey/Vettel permanecer, há o risco de todos os recordes conquistados pelo multicampeão tedesco serem batidos por este outro campeão alemão.

 

Entendo que o assunto que domina a mídia esta semana esteja sendo a intemperança do Hamilton, até porque ninguém mais se surpreende com as vitórias de Seb Vettel.

 

Mas é preciso observar que, embora ainda jovem, ele comete muito menos erros que o colega britânico, da mesma faixa etária, outro piloto natural. Mas um piloto natural que parece estar deixando em segundo plano a dedicação, a concentração. Ou sobrando em prazer, não necessariamente nas pistas.

 

Vettel não. Ele e Newey foram feitos um para o outro, como Clark e Chapman, e a Red Bull está na F1 para ficar. É uma marca que aposta tudo em esportes de alta carga emocional. Vão ter suporte financeiro, portanto chances de manter um conjunto vencedor, por um bom tempo.

 

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Se a Renault não mudar de idéia e continuar desenvolvendo motores tão competitivos quanto os Mercedes e Ferrari até o fim do contrato (2017), precisaremos torcer para que Bruno Senna se firme na equipe Renault/Lotus/Lopez e mostre que está a altura de um Kubica de antes do acidente para ter alguma chance.

 

Ou que um Felipe Nasr, campeão da F3 inglesa e apontado pelo meu amigo Gigante como o piloto brasileiro com maior potencial entre os que podem chegar até a F1, consiga o cockpit mais cobiçado do mundo quando seu atual ocupante, Mark Webber, se aposentar.

 

Massa precisa torcer para que o Ferrari da próxima temporada, que se anuncia revolucionário, saia mais de acordo com suas características de pilotagem que às do asturiano. E que essa revolução seja superior à evolução que Newey irá promover no RB8.

 

Mas não só. Felipe precisará obter uma seqüência de vitórias logo no começo, para evitar os famigerados “fernando-is-faster-than-you”, “we must consider the team’s ambitions” e assim por diante.

Não esqueça que o principal patrocinador da Ferrari é o Santander.

 

Mesmo que Rubens continue na Williams, parece improvável que ela atinja o mesmo nível da Red Bull, ainda que empurrada por um Renault.

 

Há ainda um outro fator a ser considerado a favor da predominância alemã. A atual equipe Mercedes, “all-german”, tem potencial para embolar mais ainda esse jogo. Tem dinheiro, tem motor, tem Ross The Fox, tem piloto. Sim, não subestime o veterano nem classifique o filho do Keke (não sabia que o GB era tão fã dele a ponto de ficar trocando os nomes constantemente) como um zé-ninguém.

 

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Desde a I Guerra, se convencionou que para atingir o status de ás, um piloto de caça de qualquer força aérea precisaria derrubar cinco adversários.

 

O às recordista mundial, Erich Hartmann, derrubou 350. Ele tem diversos colegas de farda na faixa de 200 inimigos abatidos e dezenas com mais de 50. Nenhum às aliado chegou a 50. Hartmann e seus colegas seguramente eram pilotos naturais que se dedicaram a cumprir suas tarefas com muita dedicação, sem perder o prazer de voar.

 

Não subestime a capacidade de gente como eles.

 

Bom final de semana

 

Carlos Chiesa

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

5 Comments

  1. alexandre disse:

    Hill tem a triplice coroa,que é ao contrario do que vc afirma,ganhar as 24 hs de Le Mans,as 500 Milhas de Indianapolis e o GP de Monaco.

  2. Cristiano disse:

    Só uma correção, de 1950 a 1994 são 44 anos…

  3. Luis Carlos disse:

    Me perdoe, mas imaginar que as duas últimas temporadas pífias de Felipe Massa são resultado de favorecimento é no mínimo uma piada de mal gosto. Em primeiro lugar: Banqueiro não tem pátria e sim prata e neste caso me parece que o mercado brasileiro anda bem melhor ao espanhol. Se fosse pra financiar alguém pela nacionalidade, era melhor o Santanter (um banco Basco) bancasse a Hispania. Uma sugestão: o Eike podia patrocinar a Ferrari. Dinheiro não lhe falta. Poderiamos ter o Barrica e Massa de titulares e o Bruno Senna nos testes.

  4. Walter Barbosa disse:

    O talento natural para guiar e para voar é o que leva os pilotos tanto de caça como de corridas, a tentar exceder os limites impostos pelas máquinas e condições adversas. Obviamente, isto leva a riscos na fronteira entre a genialidade e a tolice.
    Quanto a soberania alemã, lembremos que eles passaram 34 anos sem um campeão, e que já tinham uma tradição de pilotos do calibre de Caracciola, Rosemeyer, Lang e von Trips, em épocas diferentes e mais recentemente antes de Schumacher, Stefan Bellof, por muitos apontado como um futuro campeão. Quanto aos nossos pilotos vamos esperar para ver o que o Massa pode fazer e torcer para que o Bruno seja efetivado na Renault, quanto a Barrichello, infelizmente desconfio que não terá seu contrato renovado e este será seu último ano.
    Walter Barbosa
    Recife PE

  5. Fernando Marques disse:

    A soberania alemã na Formula 1 realmente parece que vai durar por muito tempo … e atualmente a na Formula 1 somente L. Hamilton e Alonso podem tentar impedir que esta soberania seja longa … mas do jeito que as coisas andam acho dificil … Hamilton anda fazendo muita bobagem e Alonso não tem um carro a altura de sua pilotagem … Massa é coadjuvante … e Barrichello nem isso mais é …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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