A morte mais vil

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Era um dia escuro em Hockenheim, 7 de abril, 1968. Jim Clark, seu capacete azul, o pano branca cobrindo o rosto, a voz nunca ouvida.

Ele devia estar descansando, apascentando ovelhas nos amados campos da sua Escócia natal. Mas isso não era possível. Havia um contrato a cumprir, uma marca a expor. Ele tinha de estar em Hockenheim.

O carro ruim, o motor falhando, uma corrida insignificante em um campeonato insignificante. O maior piloto do todos os tempos, o único capaz de superar Fangio, estava lá apenas por uma imposição comercial, apenas uma maldita imposição comercial de um patrocinador recém-chegado, orgulhoso de ter mudado as cores sagradas da Lotus. Era o dinheiro chutando a porta, abrindo às custas de ombradas seu lugar no automobilismo.

Tudo aconteceu num instante. “Esperem um minuto, meninos. Sabem quem eu sou?” “Claro que sabemos. Já temos outro pro seu lugar”, disseram os anjos da morte que vieram buscar Clark. E o jogaram, às gargalhadas, contra árvores mirradas e retorcidas.

O choque, o carro ruim despedaçado, a morte instantânea, seja lá o que isso quer dizer. Um acidente que ninguém viu, que nunca foi apurado como se deveria, se bem que nenhum acidente (ou seria uma fatalidade?) é apurado como se deveria. O corpo martirizado de Clark foi cuidado por um companheiro muito digno de pistas e disputas, cujo nome deve ser aqui honrado – Graham Hill –, e que também se ocupou dos restos do carro, ajudando a junta-los em meio às árvores e colocá-los na caçamba de uma camionete ordinária.

O avião que levou o corpo de Clark de volta à Escócia quase caiu no caminho, foi uma viagem triste.

Haveria muitas outras nos anos seguintes. Naquele mesmo 68, na França, e depois Alemanha 69, Monza 70 e de novo em 78 e de novo em 2000, Estados Unidos 73 e 74, Espanha 75, Japão 77 e 2014, Bélgica 82, Imola 94, só para citar algumas mortes vis ocorridas em GPs. Houve várias outras, envolvendo pilotos da F1 correndo em outras categorias. McLaren, Rodrigues, Siffert, Bellof… Tantas! Todas tristes, todas inaceitáveis, todas merecedoras do título desta coluna.

 

 

Quando Clark voou para longe, eu estava apenas começando meus caminhos de vida – tinha dez anos mais alguns meses – e no esporte que me seguiu até aqui. Eu fui avisado logo cedo: não há automobilismo sem dor, sem morte. Faziam parte da minha escolha, como tudo o mais na vida. Não sofri tanto nas mortes seguintes.

Começava um longa estrada. “Business is business”. Bernie, as TVs, os patrocinadores, os paddocks, as guerras com as equipes, depois com a Fia, depois com os organizadores de GPs, muitas guerras – e contratos, contratos, contratos. E regulamentos, regulamentos, regulamentos. Advogados se tornaram figuras importantes na F1.

Os HPs dispararam: 300, 500, 700, mil. Mais de mil? Nunca saberemos ao certo. Ou os dinamômetros não conseguiam registrar tamanha potência ou os homens simplesmente mentiam, em busca de um segundo de atenção.

E dois meses depois daquele 7 de abril, delicadas asas apareceram sobre os carros de F1. Pareciam inofensivas, quase risíveis. Ninguém poderia imaginar que ali começava uma corrida desatinada, capaz de retorcer as formas dos carros, a ponto de torna-los incompreensíveis.

É que o contato com a pista passou a vir de cima, pelo ar. Mas os pneus seguiriam sendo decisivos, resolvendo muitas disputas, começando em 1971, quando os GoodYear de outro escocês lhe davam mais de um segundo de vantagem por volta sobre os Firestone.

As cores dos carros se multiplicaram. Deixaram de representar países e passaram a expor marcas, a nova pátria de tantos de nós. Houve diferentes predomínios: preto e dourado, vermelho, vermelho e branco, prata, entre outras, se sucederam nas hegemonias que sempre existiram, desde Silverstone 1950.

Também apareceram estrelas fora das pistas, engenheiros competentes e dedicados, que foram se multiplicando até se tornarem exércitos. Os carros concebidos e paridos por meia dúzia, se tanto, de insones fanáticos se tornaram obras de milhares. Segredos industriais, alguns deles roubados, passaram a valer bem mais do que ouro.

Mais potência, mais velocidade, mais cores, mais dinheiros. E mais contratos…

Por causa deles, ou apesar deles, tivemos muitos outros Clark, muitos outros melhores pilotos do mundo, poucos tão discretos quanto o escocês.

Tivemos também, talvez por causa da água que aqui se bebe, brasileiros nesta listra ilustre, o bom moço do capacete azul e vermelho, o irridento da gota vermelha, o obstinado do amarelo com as duas faixas, todos incrivelmente velozes, audazes e determinados. Tivemos ainda o brasileirinho, aquele do momento de silêncio inimaginável em Interlagos 2008, e tantos outros que, em alguns GPs foram tão grandes quanto os três compatriotas campeões. Todos eles, ganhadores ou não, cada um a seu jeito, expuseram as nossas melhores virtudes e piores defeitos ao mundo.

 

 

O tempo passou – ele sempre passa – desde aquele 7 de abril. Eu agora me vejo olhando para trás e com muito medo do que virá pela frente, na vida e no esporte.

Não poderia imaginar que tanto mudaria desde então. Não posso imaginar como as coisas mudarão a partir de agora.

Sobram as memórias.

Toquem Monza 72, Argentina 73, Interlagos 74, Monza 76, França 79.

Toquem Imola e Mônaco 81, Áustria 82, África do Sul 83, Mônaco 84, Portugal 84 e 85, Espanha e Austrália 86, Monza 87, Japão 88 e 90.

Toquem Interlagos e Silverstone 91, Donington 93, Japão 96.

Toquem Alemanha e Spa 2000, Silverstone 2003, Hungria 2006, Turquia 2007, Interlagos 2008, Austrália 2009.

Toquem Spa 2013 e Interlagos 2018, a última corrida que vi de perto.

Toquem Bob Dylan, toquem Murder Most Foul.

 

 

 

 

 

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

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