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Leia a 1ª parte desta coluna, sobre a decisão da temporada 1958 da Fórmula 1: http://gptotal.com.br/a-primazia-1a-parte/

 

O suspense dominava os espectadores, os freios a tambor da Ferrari de Hill não eram tão bons quanto os a disco do Vanwall e Moss sabendo disso mostrava essa vantagem nas freadas, o que acabou dando certo: Hill rodou na volta 4. Hawthorn subiu para o segundo lugar, com Bonnier em terceiro. Hill se apressou na recuperação e na volta 5 passou novamente por Bonnier e uma volta depois estava atrás de Hawthorn, que imediatamente acenou para ele passar e dar uma nova pressionada em Moss.

Se desse certo e Hill ultrapassasse Moss, Hawthorn se tornaria campeão. Se Hill não fizesse a ultrapassagem, receberia ordens para diminuir e permitir que Hawthorn ficasse em segundo lugar. Só havia mais um problema: era Tony Brooks no outro Vanwall. Ele atormentou Bonnier para alcançar o quarto lugar. Na volta 12, o passou e saiu em perseguição a Hawthorn.

Todo o equilíbrio da corrida começou a mudar.

Enquanto isso, Moss afastou-se de Hill com facilidade, abrindo uma larga vantagem volta a volta. Finalmente Brooks chegou perto o suficiente de Hawthorn e podia buscar a ultrapassagem – e com isso fazer de Moss campeão. A perseguição de Brooks sobre Hawthorn não foi uma tarefa tão fácil, a Ferrari era muito rápida nas retas, enquanto o Vanwall o era nas curvas. Dessa feita Hawthorn foi bem astuto em segurar Brooks, a batalha entre eles era o que mantinha a audiência atenta e em suspense

Na volta 18, Moss moveu-se para ultrapassar um Maserati e eles colidiram. O nariz do Vanwall cedeu, mas Moss manteve o controle e continuou. A entrada de ar foi danificada, embora não o suficiente para afetar a temperatura da água.

Uma volta depois, Brooks passou Hawthorn. O inglês ficou calmo pois percebeu algo de errado no carro de Brooks. “Percebi que havia um pequeno jato de fumaça saindo do compartimento do motor perto dos escapamentos e, ocasionalmente, Tony teria de limpar o para-brisa e os óculos de proteção. Bem, ele não vai durar muito. Eu pensei, nada com que me preocupar, vou esperar ele ter problemas”.

Na volta 21, Moss pressionou a Vanwall e estabeleceu o tempo de 2m22,5s, uma velocidade média de 192,4 km/h. Sem dúvida ficaria com ele o ponto crucial para a volta mais rápida.

O que Hawthorn viu na Vanwall de Brooks foi um problema vindo direto do motor – óleo acumulando-se no cano de escapamento e queimando. Hawthorn resolveu passar novamente por Brooks e ficar à sua frente. Na volta 29, o carro de Brooks piorou e o motor com uma válvula quebrada o forçou a abandonar.

Moss tinha uma vantagem de 30 segundos sobre Hill e ele uma vantagem substancial sobre Hawthorn.  Aí veio a ordem dos boxes, nas palavras de Hill: “Em um certo ponto, eu recebi a ordem da equipe para desacelerar e deixar Hawthorn passar, o que eu fiz. Eu era um garoto novo e eu queria ficar no time, eu tinha que fazer o que estavam me pedindo e de qualquer maneira era o certo a se fazer com Hawthorn.”

Assim na volta 39, o inglês assumiu o segundo lugar, Bonnier e sua BRM vinha forte em quarto e ameaçava chegar próximo das Ferraris.

Hawthorn sabia que tinha o escudo protetor de Hill e também poderia usar mais da potência da Ferrari se precisasse. Hawthorn estava conservando o carro, que funcionava perfeitamente. Alguns se perguntaram: e Lewis-Evans? Ele poderia encontrar alguma velocidade, partir para cima e mudar o equilíbrio novamente? Só que na volta 42 seu motor estourou, o Vanwall afundou na areia e foi engolido pelo fogo. Ele ficou gravemente queimado nesse acidente, lutou para escapar, mas teve uma grande concussão. Dias depois, veio a falecer.

 

 

Hawthorn viu uma enorme coluna de fumaça preta e quando passou pelo local dava para ver parte do capô pendurado no carro com Vanwall escrito nele. Não dava para ver nenhum número no carro. Quando Hawthorn passou pelos boxes, sua equipe sinalizou o intervalo de tempo e ele soube que devia ser Lewis-Evans. Se fosse Moss, a Ferrari sinalizaria que ele liderava a corrida,

Moss venceu por 1m 24.7s de vantagem. Imediatamente Hawthorn deu um soco no ar e lamentou que de alguma forma não tinha saboreado seus últimos momentos em um carro de corrida mais plenamente. Ele se lembrou exatamente quando pensou isso: a cem metros dos boxes da Ferrari, na sua volta de honra.

O chefe da equipe Ferrari disse a ele: “no próximo ano faremos isso de novo”. Hawthorn respondeu: “Eu não correrei. Eu vou me aposentar”. No pódio, Moss, magnânimo como sempre, sorriu e disse a Hawthorn: “você conseguiu”. A primazia de ser o primeiro inglês campeão mundial de Fórmula 1.

 

 

Quatro meses depois dessa corrida, Mike Hawthorn estava morto. Seu Jaguar supostamente derrapou em uma rodovia no sul da Inglaterra e atingiu uma árvore.

No futuro distante, Moss contava a um amigo que não sabia quando o campeonato de Fórmula 1 havia perdido o significado para ele. A esposa do amigo disse: “Eu sei quando foi, foi em 1958”.

Moss comentou: “Pensei nisso por um longo tempo e percebi que ela estava certa. Tentei com a mesma força em 1959, 1960, 1961, mas foi então que o significado disso saiu para mim – 1958? Naquele ano perdi a primazia de ser o primeiro inglês, e isso também envolve palavras, palavras que caem suavemente no fundo da vida”

 

Até a próxima

 

Mário Salustiano

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

7 Comments

  1. Grande Mário! Seus textos são irretocáveis, meu caro. Linda maneira de contar uma história!

    Abraço!

  2. Mauro Santana disse:

    Grande Salu!

    Mais uma vez nos brindando com uma excelente história.

    Grande abraço, e mais uma vez, obrigado!

    Mauro Santana

  3. Fernando Marques disse:

    Mario,

    corridas são corridas … e a historia contada ” A Primazia – 2ª parte” deixa bem claro isso … Mike Hawthorn teve a honra de ser o primeiro inglês campeão na Formula 1 … S. Moss bateu na trave 4 vezes mas não deixou de ser um “Sir” por causa disso … foi também um dos grandes na Formula 1 … e teve G. Hill mostrando a força dos pilotos ingleses na Formula 1 nos 60 …
    Parabéns por ter nos contado uma bela historia

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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