A trindade do sucesso, parte 2

A trindade do sucesso
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A segunda parte da trajetória de Bernie Ecclestone na Fórmula 1.

*Confira a primeira parte dessa história clicando aqui.

Durante esses anos, Bernie, novamente, buscaria ganhar a credibilidade e reputação que dizia Rockefeller e que tão bem lhe havia servido em seus negócios. Bernie sabia que, para resultar convincente sobre sua capacidade e eficiência, nada melhor que fazer que sua própria equipe triunfasse. Assim, como o próprio Bernie disse então: “Para que uma equipe seja grande, é preciso contar com um grande patrocinador“. Para 1974, Bernie prescindiu dos pequenos patrocinadores que a Brabham tinha até então, e manteve a equipe do seu próprio bolso, competindo com os carros completamente pintados de branco. O sucesso obtido nessa temporada atraiu o patrocínio da Martini, um dos grandes patrocinadores do automobilismo da época.

Quando um novo contrato devia ser negociado com os organizadores e as televisões, a CSI tenta, novamente, romper a unidade da F1CA criando a WRC, um novo organismo para que negocie em seu nome. Contudo, Bernie já tinha assinado contratos com vários organizadores e estes preferem continuar com a F1CA. Incapaz de se enfrentar a Ecclestone, Pierre Ugeux, o presidente da CSI, se dá por vencido e Ecclestone ainda consegue melhorar as condições dos contratos. Em 1977, e já no fim do mandato de Ugeux, Paul Metternich, então presidente da FISA, apoia a candidatura de Jean Marie Ballestre para a CSI, pensando que este francês seria capaz de conter a crescente influência de Ecclestone e restaurar o poder da FISA. Se enganaria!

Então, Bernie já era o presidente da F1CA e logo soube ver o ponto débil do tal Ballestre, explorando-o desde o princípio. Ballestre era um homem arrogante e muito vaidoso que vestia roupas caras, se deslocava aos GPs num Rolls-Royce com chofer, se hospedava nas suítes dos melhores hotéis e repartia dezenas de tickets VIP entre seus amigos, tudo a custo da FISA. Quando Ballestre vai ao GP da Suécia, e é levado a um modesto quarto de um hotel de categoria média.

Ballestre, furioso, pergunta por que não lhe hospedam no mesmo luxuoso hotel em que estão todos os chefes das equipes. A resposta foi simples: Ecclestone havia reservado todos os quartos. Durante este GP foi quando Bernie convenceu seus colegas que a F1CA precisava de um maior protagonismo e, sob seu comando, esta passou a ser a FOCA.

A partir de então, Ballestre tentaria por todos os meios desacreditar Ecclestone com toda classe de acusações que Bernie, simplesmente ignorava. Ballestre, inclusive acusou Bernie de exercer pressão sobre os organizadores para conseguir mais dinheiro sob a ameaça de boicotar seus GPs. Na temporada de 1979, e em plena paranoia, Ballestre chegou a ameaçar com retirar do calendário o GP de Long Beach se o organizador não o apoiava em sua denuncia contra Ecclestone.

Nos anos seguintes, novas escaramuças surgiriam entre Ballestre e Ecclestone até que, em dezembro de 1980, Ballestre decide que o GP da África do sul deve se disputar no dia 11 de abril e não no dia 7 de fevereiro como estava previsto. Ballestre tratava apenas de mostrar seu poder. Os organizadores se queixam de que isto representava um grave problema, pois todos os contratos com os patrocinadores e televisão estavam assinados e até a campanha publicitaria estava pronta. Como o contrato era com a FOCA, e para minimizar o problema, Bernie diz às equipes que se apresentem como estava previsto, e que ele pagaria do seu bolso todas as despesas.

No meio de tanta tensão, em janeiro de 1981, se assinaria o chamado acordo de Maranello entre a FISA e a FOCA onde se estabelecia que FISA organizaria o campeonato mundial, mas só com aqueles GPs previamente aprovados pela FOCA. Esta clausula, efetivamente, dava a Ecclestone um grande poder de decisão, deixando em suas mãos a liberdade para escolher que GPs formariam o campeonato. Isto só foi possível graças à teimosia de Ballestre em ameaçar, uma vez mais, com retirar Long Beach do calendário, algo que suas “protegidas” Renault e Ferrari logo protestaram e disseram que participariam no GP, fosse qual fosse a decisão da FISA ao respeito, o que colocava Ballestre numa delicada posição (o mercado americano era muito importante para elas).

Ballestre, em sua obsessão por derrotar Ecclestone, começava a cavar seu próprio túmulo. Em fevereiro, e como estava inicialmente previsto, o GP da África do Sul se celebra, ainda que com a ausência das grandes montadoras alinhadas com a FISA, Renault, Ferrari, Alfa-Romeo e Ligier-Matra (Peugeot). Porém, foi uma boa ocasião para Ecclestone mostrar sua credibilidade perante os organizadores e deixar Ballestre em evidência. Bernie, inclusive forneceu seus pneus Avon, pois a GoodYear não se atreveu a contrariar a FISA. Assim, Ecclestone emergia como alguém que mantinha seus compromissos acima de tudo, enquanto Ballestre parecia alguém a quem não lhe importavam as consequências de suas arbitrárias decisões.

Tudo isto precipitou os acontecimentos e, já em março, FISA e FOCA se reúnem para negociar e o primeiro pacto da concórdia é assinado. Essencialmente, o pacto ratifica o acordado em Maranello, mas Bernie, ainda por cima, consegue um aumento na porção de dinheiro que a FOCA receberia das televisões, e o direito a negociar diretamente com elas de modo que FISA se ocuparia da parte esportiva e FOCA da comercial. Com isto, a disputa com Ballestre ainda não havia terminado, contudo Bernie se colocava em franca vantagem e o francês nunca mais seria capaz de ser um obstáculo à imparável ascensão de Ecclestone.

Como também disse Rockefeller: “Eu sempre trato de converter uma dificuldade em uma oportunidade“. Isso mesmo é o que Bernie também acabou fazendo, aproveitando muito bem suas oportunidades quando tudo parecia em sua contra. As três pessoas que dizia McArthur estavam presentes em Ecclestone: teve um sonho, visão de futuro e fez tudo quanto foi necessário alcançar os objetivos. Uma anedota que ilustra muito bem o caráter de Ecclestone aconteceu em 1979, quando as equipes haviam ido disputar o GP da Argentina. Quando os demais chefes de equipe, pilotos, etc. estavam descansando à beira da piscina do hotel, Bernie apareceu por lá bem vestido. Colin Chapman, ao vê-lo lhe propõe a Mario Andretti: “Mario, se você jogar o Bernie na piscina… te dou 1000 dólares!“.

Naquela época essa era uma soma muito respeitável. Andretti se aproxima a Bernie, mas fica dando voltas por perto dele sem se decidir se o jogava ou não na piscina. Então, Bernie ao vê-lo e intrigado lhe pergunta: “Oi Mario, o que há?“. Mario se aproxima e com temor lhe confessa o que Chapman lhe havia proposto. Bernie, sem hesitar, imediatamente responde: “Se você me der a metade… pode me jogar!

Enfim, Bernie em estado puro!

Até a próxima, amigos.

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Leia também: “O Plano de 4 anos”

Manuel Blanco
Manuel Blanco
Desenhista/Projetista, acompanha a formula 1 desde os tempos de Fittipaldi É um saudoso da categoria em seus anos 70 e 80. Atualmente mora em Valência (ESP)

6 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    O Tio Bam Bam Bam da Formula1 da Formula 1 não deve ser assim tão filho da puta. Afinal de contas sempre teve fortes relações de amizades com brasileiros enquanto era dono da Brabham (caso do Wilsinho, Moco e Piquet) e depois de virar dono da Formula 1 também pois é casado com uma brasileira e já admitiu que a categoria não pode ficar sem um brasileiro nas pistas.
    Agora é fato que não existe no circo ninguém a sua altura e carisma para substitui-lo.
    Como bem disse o Mauro o véio está com oitentinha e cheio de próteses para encarar a brasileira.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Lucas Giavoni disse:

    Excelente texto, querido Manuel. Obrigado por dividir seu conhecimento conosco.

    Bernie realmente foi Pai, Filho e Espírito Santo ao erguer a F1 a um patamar global e de liderança jamais imaginado. Mas o tempo passa – e como! E Bungay já avançou os 80.

    O sonhador há muito está morto. O negociador está cada vez mais inflexível, amarrado em modelos antigos, sem visão. Bungay continua vendo a internet como inimiga, e não como uma oportunidade. Já não segue mais a cartilha de Rockfeller – que em sua velhice doou praticamente toda a fortuna. Pelo que se sabe, Escrooge Bernie acumulou algo em torno de 6 bilhões de libras, mas não duvido que o saldo seja ainda maior.

    Conclusão que eu chego: só sobrou o filho da puta.

    Abração!

    Lucas Giavoni

    • Manuel disse:

      Muito obrigado caro Lucas !

      Rockefeller, certamente, doou uma fortuna imensa, mas éra apenas uma pequena parte do que possuia. Nem as leis anti-monopolio, primeiro, e anti-trust, depois, conseguiram reduzir seu poder e, ainda hoje, a maior empresa do mundo – Exxon-Mobil – teve sua origem no imperio Rockefeller.

      Rockefeller soube deixar o caminho despejado para que seu império continuasse sem ele, mas… parece que nao há ninguem a quem Bernie possa deixar o seu !
      Bernie, ao longo dos anos, tem negociado com os diretores das maiores e mais importantes empresas do mundo, e todos tiveram que ceder aos seus desejos. Como ele mesmo disse uma vez : ” Muitos dos diretores com os que eu tive que negociar, nem conseguiriam um emprego em minha empresa ! “.
      Só espero que, quando Bernie nao esteja, nao acabemos sentindo sua falta.

      abs. Manuel

      • Mauro Santana disse:

        Concordo contigo Manuel!

        Espero também que não tenhamos que lembrar daquele ditado – “Ruim com ele, Pior sem ele!”.

        Abraço!!!

  3. Mauro Santana disse:

    Belo texto Manuel!

    E a pergunta é:

    Até quando Bernie vai ter condições físicas e mentais para dirigir a F1!?

    O cara já tem mais de 80 anos e o tempo parece não passar pra ele.

    Impressionante.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  4. […] Confira amanhã a conclusão dessa história. […]

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