A velocidade perfeita

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1970 um sueco chegava à categoria top do automobilismo e redefiniria a condição de pilotar na velocidade perfeita.

A Fórmula 1 e o mundo entraram em 1970, uma nova década, em um período marcado por um mundo que parecia muito jovem e nossos horizontes sem limites. Existia uma efervescência por todos os lados, as relações pessoais tornaram-se mais leves, a contracultura consolidava-se e velhos estereótipos perdiam seu espaço.

Tivemos duas estreias em 1970 que ajudaram a mudar ainda mais o velho conceito vigente. Na literatura, foi lançado nos Estados Unidos o livro “Jonathan Livingston Seagull”, do americano Richard Bach, traduzido por aqui como “Fernão Capelo Gaivota”.

Na Fórmula 1, um sueco de nome Ronnie Peterson chegava à categoria top do automobilismo. Sua forma de condução iria encher nossos olhos nos anos seguintes e redefiniria a condição de pilotar na velocidade perfeita.

Richard Bach havia sido piloto de caça da Força Aérea Americana entre o período de paz que houve entre as guerras da Coreia e a guerra do Vietnã. Após dar baixa e ir para a reserva, ele resolve se dedicar a literatura e torna-se escritor. Fernão Capelo Gaivota é seu primeiro livro e de cara alcança enorme sucesso mundial.

O livro nos traz a metáfora sobre a importância de se buscar propósitos mais nobres para a vida. À primeira vista, é a história de uma gaivota um tanto incomum, diferente das outras de sua espécie, que não se preocupa apenas em conseguir comida. Fernão Gaivota está preocupado com a beleza de seu próprio voo, em aperfeiçoar sua técnica e executar o mais belo dos voos.

Ele era diferente da maioria das gaivotas de seu bando, que só pensava em lutar por comida, junto aos barcos de pesca. Ele amava voar. Passava dias inteiros sozinho no mar, treinando voos rasantes em alta velocidade, para aflição de seus pais e desaprovação de todos. Seu único interesse era aprender mais e mais sobre a arte de voar.

Para Fernão, não era importante receber elogios por sua vitória, por sua técnica, e ele queria apenas partilhar com seus amigos o que havia descoberto. Mas o bando só lembrava-se de comer os restos deixados pelos pescadores, nada mais.

Assim, o bando não deu importância a Fernão Capelo Gaivota, que por sua insistência em querer fazê-los o ouvir, acabou por ser excluído do grupo, tendo que viver sozinho em um lugar muito distante.

Mas nem isso fazia Fernão ser triste. O que o entristecia era ver que seus amigos não queriam aprender a voar, aprender a ser feliz, aprender a pegar peixes frescos em cada mergulho magnífico que podiam dar.

Através da história de Fernão Capelo, Bach transmitiu uma lição positiva de vida que, até os dias de hoje, ainda fazem desse livro um dos mais lidos. Recentemente, uma nova edição foi publicada.

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No automobilismo, a Fórmula 1 é uma categoria hipercompetitiva e desde os seus primórdios fomenta a ideia de ser a reunião dos maiores expoentes dos pilotos e carros em atividades. Ali, o objetivo é a velocidade máxima, a velocidade perfeita.

Ronnie Peterson foi um sujeito gentil, suave, ociosamente relaxado, um homem que, no seu melhor, tornou-se um piloto bem diferente do seu tempo. Seu estilo de pilotagem mostrou um jeito bem mais ousado que os demais pilotos da época.

Ronnie era um entusiasta de uma forma de dirigir que podemos descrever como “flat-out”, ou o mais rápido possível. Quando motor era ligado havia uma transformação naquele sueco calmo e tranquilo, ele parecia estar integrado ao carro como uma extensão de seu corpo e, na pista, o limite era o seu patamar.

Ronnie descrevia suas corridas, dirigindo no estilo flat-out pelo amor que ele tinha de fazer do carro e do asfalto um termo de compromisso entre diversão e arrojo, que ficavam igualmente aparentes. Observar seu carro durante uma corrida, ou até num treino, era visivelmente enxergar um esforço quase sobrenatural de cada componente: carro, piloto e asfalto, resistindo nas frenagens, aceleração e curvas a cargas de forças que ele habitualmente aplicava. Muitas vezes duvidávamos que ele seria capaz de realizar aquela manobra.

Esse seu estilo o tornou muito admirado pelos torcedores, querido pelos mecânicos, e respeitado pelos rivais. Ronnie foi absolutamente um “Fernão Capelo Gaivota”.

Ele aspirava desde cedo chegar ao nível do Campeonato Europeu de Fórmula 3. Em 1969, ele pilotou na Fórmula 3 o March em sua corrida inaugural, e 1970 foi dada a ele uma unidade privada de F1 da March por equipe minúscula de automóveis antigo de Colin Crabbe.

Se não marcou pontos ou venceu nesse ano de estréia na Fórmula 1, o seu talento não passou despercebido para o dono da Lotus, Colin Chapman. Na Fórmula 2, Ronnie estava se mostrando imbatível e várias vezes derrotou o piloto que viria a ser campeão da temporada de 1970 de Fórmula 1 que também era considerado o rei da Fórmula 2, Jochen Rindt.

Peterson demonstrou uma incrível lealdade com a equipe March, mesmo diante dos esforços de Colin Chapman para levá-lo para Lotus. Chapman tentou novamente no final de 1971, mas Ronnie estava feliz por ficar com o time que tinha originalmente dado sua chance na equipe oficial em 1971, quando ele conquistou o vice-campeonato de pilotos, obtendo 5 segundos lugares e um terceiro lugar. Ele não mudaria para Lotus até seu contrato expirar no final de 1972.

Ele era o único piloto que já conheci que apreciou o risco que estávamos impondo em oferecer-lhe um contrato de três anos“, recordou Max Mosley, então diretor e dono da March. “Nós pagamos-lhe U$2.000 em 1970, U$5.000 em 1971 e U$ 10.000 em 1972. Ele era totalmente leal e nunca teria sinalizou em ter vontade de quebrar esse compromisso”.

Colin Chapman finalmente levou Ronnie para a Lotus em 1973 e formou o que ele chamou de “supertime”, já que o outro piloto era o campeão vigente Emerson Fittipaldi.

Demorou até a Lotus reforçar seus carros modelo 72 suficientemente para suportar as cargas geradas pelo estilo de pilotagem de Ronnie. Quando a Lotus conseguiu, ele teve uma sucessão de pole-positions e conquistou 4 vitórias naquela temporada , sendo a primeira vitória em grandes prêmios no GP da França em Paul Ricard. Venceria ainda na Áustria, Itália e Estados Unidos.

Em 1974, a Lotus aposta erroneamente no novo modelo 76, que se mostra um tanto problemático. Quando o time volta para o já obsoleto 72, Ronnie obtém mais três vitórias, em Mônaco, na França em Dijon-Prenois e novamente em Monza. Sem um projeto novo imediato, a Lotus ainda insiste em mais um ano com o 72 em 1975, temporada em que o sueco não obtém nenhum resultado expressivo.

Para a temporada de 1976, Ronnie volta para a March e ganha novamente o GP da Itália, em Monza. Isso faz com que algumas equipes vejam que Ronnie manteve sua boa forma, o que ele precisava mesmo era de um carro competitivo.

Em 1977, a companhia Elf, petrolífera francesa, faz com que a Tyrrell contrate seus serviços para pilotar o carro de seis rodas, que havia sido o terceiro melhor carro da temporada anterior, apenas superado por Ferrari e McLaren.

Mas essa combinação não resulta em resultados positivos. O Tyrrell P34 não é mais um modelo competitivo como no ano anterior, e não casou bem com o estilo flat-out de Peterson. O melhor resultado do ano um pódio ao terminar em terceiro o GP da Bélgica.

Apoiado por seu amigo, o rico conde italiano “Googie” Zanon, ele consegue verba suficiente para procurar um novo time. Então Ronnie volta a Lotus para 1978 – mas tem de aceitar o status de segundo piloto em relação a Mario Andretti.

Para a temporada de 1978, a Lotus estava de volta ao topo, pela criação genial de Colin Chapman que introduziu o efeito-solo na F1. Os modelos tipo 78 e 79 eram carros de design aerodinâmico diferenciados e dominaram a Fórmula 1 naquele ano. Os Lotus 78 e 79 exigiam uma pilotagem bem mais agressiva e isso devolve a Peterson a chance de reencontrar o antigo piloto que ele era.

Só que para Ronnie, a única opção que ele tinha de vencer Andretti seria na possibilidade do americano não estar na pista. Juntos, eles fazem 4 dobradinhas sem que o sueco tenha a chance de disputar abertamente.

Nesse ponto, tenho uma nítida lembrança ao assistir a corrida na Holanda e ter visto pela primeira vez, como torcedor, um chefe de equipe sinalizando a um piloto para não ultrapassar seu companheiro. Andretti enfrentava um problema nos freios dianteiros e varias vezes Ronnie emparelhou o carro na reta, sem ultrapassar. Chapman mostrava-lhe a placa “stay”. Essa também era uma característica marcante de Peterson: ser uma pessoa de palavra. Por essa razão, ele não desrespeitou os termos do acordo assinado em seu contrato.

Esse bom desempenho no ano, que incluiu vitórias nos GPs da África do Sul e da Áustria, sob chuva, não deixa dúvidas que Ronnie ainda é um vencedor. Ele assina para 1979 com a McLaren para ser piloto número 1 do time.

O GP seguinte é o italiano, em Monza, onde Ronnie havia vencido três das últimas 5 edições. O campeonato ainda não estava definido matematicamente para Andretti e tendo vista o retrospecto de sucesso, havia uma remota possibilidade para o sueco. No GP, no entanto, Peterson encontra seu destino em forma de um acidente na engavetada largada que se revelaria fatal. Um grande piloto havia desaparecido.

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Então, como lembrar de Ronnie? Como ele era? Bem, este sueco de gestos calmos e afável no trato era, dentro do carro, um cara de um estilo ímpar. Ele misturou o gênio da condução de tal forma que era simplesmente um deleite observar e ouvir o rugido dos motores e dos pneus no asfalto quando ele passava. Era velocidade pura, apenas isso.

Muitos de nós, tenho certeza, ainda lembram: capacete azul e amarelo, cabeça inclinada ligeiramente para a frente, no cockpit dos elegantes modelos negros e dourados da Lotus, com pneus sempre cantando durante a fração de segundos e na competição frenética a nossa frente, numa velocidade puramente perfeita.

Nesse ponto, retomo ao livro “Fernão Capelo Gaivota” e tomo a liberdade de imaginar um dialogo do sueco em um outro plano:

Certa feita voando e testando novas técnicas de voo, Fernão se questionou “Onde está o mundo? – Porque não há mais de nós por aqui?”. Outra gaivota, ao perceber a dúvida de Fernão, responde a ele: “A única resposta que posso te dar Fernão é que você é uma ave em um milhão, a maioria de nós chegou aqui muito devagar, e vamos levando a vida sem se importar com o momento. Na verdade, temos de nos perguntar quantas vidas mais teremos de viver até perceber que há muito mais na vida que comer brigar ou ter poder no bando”.

Eles continuaram o treino e fizeram alguns loops invertidos.

Certa noite, as gaivotas que não estavam voando juntaram-se na areia, pensando. Fernão reuniu toda a sua coragem e dirigiu-se à gaivota anciã, que, segundo se dizia, em breve deixaria esse mundo.
– Chiang – disse ele, um pouco nervoso.
A velha gaivota fitou-o bondosamente.
– O que é meu filho?
Em vez de envelhecido pela idade, o ancião fora fortalecido pelo tempo. Podia vencer qualquer gaivota do bando e aprendera perícias que as outras ainda estavam a conhecer.
– Chiang, este mundo não é o céu, é?
O ancião sorriu à luz da lua
– Você está aprendendo novamente, Fernão Gaivota – respondeu.
– O que acontece a partir daqui? Para onde nós vamos? Não há esse tal lugar chamado céu?
– Não, Fernão, não há esse tal lugar. O céu não é um lugar e também não é um tempo. O céu é um ser perfeito – Ficou calado por um tempo – Você é um voador muito rápido, não?
– Eu… gosto de velocidade – Disse Fernão, surpreso mas orgulhoso porque o ancião notara esse fato.
– Você começará a tocar o céu, Fernão, no momento que alcançar a velocidade perfeita. E isso não significa voar a mil quilômetros por hora, ou um milhão, ou à velocidade da luz. Isso porque todo número é um limite, e a perfeição não tem limites.

A velocidade perfeita meu filho é estar lá.

Abraços,
Mário

Mário Salustiano
Mário Salustiano
Entusiasta de automobilismo desde 1972, possui especial interesse pelas histórias pessoais e como os pilotos desenvolvem suas carreiras. Gosta de paralelos entre a F1 e o cotidiano.

6 Comments

  1. Manuel disse:

    A coluna perfeita !

    obrigado amigo Mario.

  2. Mauro Santana disse:

    Grande Salu!!

    Que texto belíssimo!!

    Olha, infelizmente eu não tive o privilégio ter poder ter visto Peterson guiando na F1, mas mesmo assim sou fã deste cara, e é sempre um prazer lê estas histórias de pessoas timbradas no assunto.

    Realmente, ele teria batalhado com Piquet e cia no início dos anos 80.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-Pr

    • Fernando Marques disse:

      Mauro,

      Em Monza/1978, Piquet ainda com um carro alugado, participou da corrida e viu todo o acidente que acabou por vitimar o Perterson.

      Fernando Marques

      • Mauro Santana disse:

        Pois é Fernando, tanto o Emerson como o Piquet, infelizmente, presenciaram várias mortes no automobilismo.

        Abraço!!

  3. Fernando Marques disse:

    Grande Mario,

    que belo texto!!!
    Comparar o Sueco Voador com Fernão Capelo Gaivota foi simplesmente o máximo.
    Ronnie Perterson sempre realmente buscou a velocidade perfeita. Era isso que realmente deixava ele feliz, mais que vencer corridas ou se tornar um campeão mundial, algo que para mim sinceramente ele mais que merecia ter conquistado.
    A foto acima com ele creio que no Lotus 76 tendo o Emerson no fundo com sua Mclaren, comprova mais do que nunca o seu estilo flat-out de pilotar. Era lindo. Era emocionante ver ele por aquelas maquinas de lado na curva. Não se vê mais isso na Formula 1 há muito tempo.
    Ele sempre foi um piloto leal. Nem mesmo a briga que Emerson teve com Chapman por causa indireta dele, foi capaz de atrapalhar a leal e verdadeira amizade que existia entre eles.
    Sempre fui um fã incondicional do Ronnie. Ele nunca deixou de estar na minha lista dos mais preferidos e melhores pilotos que já vi passar na Formula 1.

    Mario, você está a cada dia melhor em suas colunas.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  4. wladimir duarte sales disse:

    Fico imaginando se Peterson sobrevivesse e só se aposentasse depois de disputar o título com Piquet, Jones e Reutemann em 1981; Com Watson, Keke e Pironi em 1982; vencendo uma corrida entre tantas dominadas pelos turbos em 1983 e escoltando Lauda para o terceiro título em 1984. Como seria Peterson domando um mclaren tag porsche ou qualquer outro carro turbo de fundo plano? Já que seu estílo era mais afinado com o carro asa seria um tremendo desafio.

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