Aceita que dói menos

Penúltimo capítulo
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Três razões para dar Hamilton
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Vamos continuar reclamando, e vamos continuar seguindo a Fórmula 1.

Houve um tempo, em que eu entrava no paddock de Interlagos para cobrir o GP do Brasil de Fórmula 1 e me sentia como o personagem de Jeff Goldblum quando chega ao “Parque dos Dinossauros”. Maravilhada e incrédula diante de tanta tecnologia produzida pelo gênio humano. A corrida de 1992 foi particularmente marcante neste aspecto, quando vi, pela primeira vez, o Williams FW14B “respirando” no box: equipado com suspensão ativa, o carro era posto em espécie de demonstração para quem estivesse pelo pedaço, subindo e descendo como se tivesse vida própria e levando ao encantamento até o coração mais duro daquelas paragens.

Hoje, quando chego ao mesmo paddock, parece que estou sendo recebida em algum clube de militares reformados. Onde quer que eu vá, praticamente só ouço lamentos, críticas e ataques agudos de saudosismo. Vamos ver se me lembro de todo chororô: o grid reduzido pela ausência de Marussia e Caterham, a escolha dos pneus pela Pirelli, o excesso de celebridades e subcelebridades pouco ou nada relacionadas ao automobilismo, a pouca disposição dos pilotos para falar com a imprensa fora dos horários pré-estabelecidos, a impossibilidade de que o título fosse definido no Brasil, o domínio extraordinário da Mercedes e a falta de competitividade da categoria, o gosto duvidoso do troféu oferecido aos primeiros colocados neste ano e, claro, campeão dos campeões, o tímido, raquítico e indigno silêncio dos motores.

É um balaio de grafos, eu sei. Uma porção de letras misturadas, tratando de temas relevantes, outros menos importantes e alguns picolés de chuchu. Como costuma dizer Eduardo Correa – alinhando-se a gigantes da estirpe de Millôr Fernandes – jornalista está aí para bater, não para adular. A frase do Millôr: “Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.” Como meu convívio, durante o final de semana do GP do Brasil, é basicamente com jornalistas, torna-se natural a avalanche de críticas. E, embora algumas observações façam referência a temas pouco relevantes (e daí que o ex-BBB hoje paraplégico estava no paddock?), na maioria das vezes a Fórmula 1 fez por merecer cada tabefe desferido por mim e pelos meus colegas.

Um grid de Fórmula 1 com 18 carros é, sim, um cenário vexatório para a maior categoria do automobilismo mundial. E a vergonha fica ainda maior quando se sabe que a ausência das nanicas e a situação bastante preocupante das equipes médias é resultado da pouca disposição da categoria em dividir seus lucros com quem faz o espetáculo. Tolos somos nós, que acreditamos que alguém está na Fórmula pelo mesmo amor que dedicamos a ela. Nessas horas, tendo a me alinhar com críticos desavisados que abominam a categoria dizendo que ela “nem é esporte”. Dizem isso pelos motivos errados, mas estão com a razão em certo sentido: é um grande negócio, no qual os lucros precisam antes ser distribuídos para os acionistas. Óxi, meu povo: se fazem isso até com a água, líquido da vida, farão diferente com a Fórmula 1?

O miolo daquele balaio que despejei acima tem pouca ou nenhuma relevância: os pneus da Pirelli, afinal, não determinaram o resultado da corrida; as celebridades sempre gravitaram em torno da Fórmula 1, isso não tem novidade nenhuma; os pilotos falam pouco com a imprensa mesmo, principalmente se não querem ou não precisam aparecer e, em geral, não temos perguntas tão geniais assim para fazer a eles; o título não seria decidido no Brasil nem que Hamilton ganhasse e Rosberg quebrasse, por conta da pontuação dobrada em Abu Dhabi e todo mundo sabia, desde o GP da Austrália, que isso poderia acontecer; o domínio da Mercedes e a falta de competitividade da categoria… Ah, gente, não… Sobre isso serei obrigada a encarnar a Luciana Genro diante de um daqueles próceres do humor (?) politicamente incorreto: “se tu estudasse um pouco mais, ia conhecer o assunto”, porque Fórmula 1 sempre foi uma sucessão de ciclos de dominação, não tem nada de novo aqui; o troféu não era de fato feio, era só meio tosco, parecendo maquete de feira de Ciências e isso, sejamos honestos, não tem importância nenhuma.

Os motores… Esses merecem algumas pérolas de sabedoria. Como meu estágio para Gandhi foi adiado para uma próxima e distante encarnação, vou apenas destilar minhas impressões pedestres mesmo. À primeira audição, é chocante. Não parece Fórmula 1, não parece nem carro de corrida. Com alguns metros de distância, parece um motorzinho de dentista. Todo mundo reclamou do silêncio dos motores, mas o elemento de que mais senti falta não foi nem o ronco, mas aquele “pipocar” na aproximação das frenagens.

A falta do ronco foi suprida, para mim, com o nítido ruído do acionamento do turbo, um som bem semelhante ao que ouvíamos naqueles anos 1980. O estupor foi desaparecendo. A pá de cal no meu saudosismo veio com os tempos: ora, no final da temporada, os Fórmula 1 já estão batendo recordes de velocidade. A pole position de Nico Rosberg (1min10s023) derrubou a marca obtida por Rubens Barrichello em 2004, alcançada com motor de dez cilindros. Como diz o personagem de Goldblum em “Parque dos Dinossauros”, temendo pelo descontrole sobre os bichos pré-históricos que, afinal, acabariam se reproduzindo longe da tutela de seus (re)criadores, “life finds a way”. É isso. A vida encontra um caminho, e também a tecnologia.

Seguiremos – os jornalistas, os saudosistas e os de coração duro – reclamando das mazelas da Fórmula 1. E seguiremos lá, como Nelson Piquet, achando tudo “uma merda”, distribuindo grosserias e passeando com seu filho Pedro que, ao que parece, não está na Fórmula 3 brasileira almejando ganhar quilometragem para pilotar, daqui alguns anos, no Campeonato Paulista de Automobilismo. Ou como os devotados fãs, aboletados em arquibancadas desconfortáveis, sob sol ou sob chuva, nostálgicos desde o momento da bandeirada, já esperando o GP do ano que vem. Seguiremos, porque é nossa sina seguir esse amante desalmado que nos maltrata e sempre voltamos a ele. O grid pequeno, o regulamento esdrúxulo, o troféu tosco, o motor raquítico, o resultado que nos desagrada: vamos aceitar que dói menos. Porque sabemos, no fundo, que um domingo com Fórmula 1 é melhor que todos os outros 33 domingos.

Alessandra Alves
Alessandra Alves
Editora da LetraDelta e comentarista na Rádio Bandeirantes desde 2008. Acompanha automobilismo desde 83, embalada pelo bi de Piquet e pelo título de Senna na F3.

12 Comments

  1. Fernando Marques disse:

    Mauro,

    também acho que a coisa está feia mas o David Couthard pensa o contrario …

    Fernando Marques

  2. Mauro Santana disse:

    Pois é Fernando, mas aí entramos na questão de, ou todos são Ferraris, ou a Ferrari sai da F1, e aí, acaba a F1.

    Um grid com somente 18 carros, só rindo mesmo pra não chorar.

    Lembro na temporada de 89, acho que foi o auge das nanicas garagistas, aonde existi até a pré-qualificação.

    A coisa esta muito, mais muito feia pra F1, e quem sofre com isso, somos nós.

    Como muito bem descreveu a Alessandra.

    “Seguiremos, porque é nossa sina seguir essa amante desalmada que nos maltrata e sempre voltamos a ela”.

    Abraço!

  3. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    entendo e concordo … mas fica aqui a pergunta: se o regulamento não é flexivel para que ter então multi marcas na Formula 1?

    Fernando Marques

  4. Fernando Marques disse:

    Mauro,

    já comentei sobre isto aqui no GP Total … vide os carros que são produzidos atualmente … são cheios de tecnologia e são bonitos … mas não chegam aos pés em termo de glamour se comparado com os carros produzidos nos anos 60 e 70 … até o Fusca entra nesta onda … o novo é bonito mas bacana mesmo é o antigo com o motor a ar …


    A Formula 1 está indo para uma mesmice sem igual … com carros são tão semelhantes que somente pela pintura dos patrocinadores voce consegue distinguir uma Ferrari de uma RBR … e olha que é uma categoria de multi-marca … cada uma deveria ter sua própria assinatura … mas não é um tal de um copiar o outro e por ai vai … por isso não tem o glamour …

    Fernando Marques

    • Lucas dos Santos disse:

      Não é nem questão de uma equipe copiar a outra. É que, com regulamentos cada mais restritos, especificando, nos mínimos detalhes, como deve ser cada parafuso dos carros, fica difícil as equipes adotarem soluções visivelmente diferentes entre si.

      Antigamente o regulamento era muito mais flexível e dava muito mais espaço para os construtores criarem suas próprias soluções. Daí as diferenças que davam identidade própria aos carros da época.

  5. Mauro Santana disse:

    Já pararam pra pensar como teria sido os GPs do Japão de 88 e 89 com a tal asa móvel, drs, kers e outras frescuras mais, como a obrigação de utilizar compostos diferentes que não duram mais que 10 voltas as vezes!?

    Só citei dois exemplos, mas, analisem vocês e puxem na memória as corridas que lhes marcaram numa F1 que já não existe mais à muitos anos.

    Concordo contigo Fernando, acho que a evolução é necessário, porem, sem jamais perder o glamour.

    E à tempos que a F1 vem perdendo e muito o glamour.

    E isso, é um risco muito grande.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  6. Fernando Marques disse:

    Só complementando … com esta postura do politicamente correto que o mundo tanto prega hoje em dia … poder ver o Nelson Piquet quebrando regras e divertindo o circo chega a ser admirável … pelo menos o GP do Brasil foi menos chato neste sentido …

    Fernando Marques

  7. Fernando Marques disse:

    Alessandra,

    parabens pelo texto …

    A evolução da tecnologia muda comportamentos. Seu texto deixa isso bem claro.
    Só que essa evolução parece não querer o saudosismo fazendo parte historia.
    Saudosismo pela emoção que você teve e destaca quando viu o Willians FW-14B e que não existe mais quando vê um Formula 1 atual.
    O mesmo saudosismo que faz o Nelson Piquet, com toda propriedade, dizer que a Formula 1 é uma merda se comparado coma Formula 1 de sua época. E olha que o Nelson defende toda a evolução tecnologica que a Formula 1 sempre produziu …

    Para mim o grande problema da evolução do mundo num todo, é a perda e inexistência do glamour … pode até ser bonito de se ver mas não encanta …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  8. CARLOS ABREU disse:

    Qualquer um tem direito de reclamar e achar tudo uma m… um tricampeão da categoria também. Piquet é desse jeito adora polemizar e falar oq pensa. Não tinha paciência para jornalistas que não estudavam p perguntar, e sempre teve o humor acido. Quem o conhece sabe que é um grande cara. A imprensa e as mídias sociais estão politicamente correta demais, hipocrisia pura. Penso que antes era possível ganhar c equipamento inferior, hj nem tanto, aliás, quase impossível. Temos também grandes pilotos, mas o equipamento fala mais alto.(o motor não hehehe). E as disputas, desculpem pelo saudosismo, mas não tem igual. Acho chato vc conseguir ultrapassar apenas porque acionar a asa móvel… As ultrapassagens na curva, nos lugares improváveis é que ajudavam a criar a paixão pelo esporte. As pessoas conversavam no padock, brincavam criavam amizade tbem.Por que ,em nome do profissionalismo, isso é execrado? A categoria vai ter que retomar um caminho, com barulho, tecnologia otimização de combustível, freios, mas principalmente emoção e valorização do bom piloto. Se a retomada será só com as montadoras, prefiro isso a ter nanicas, mais atrapalhando que incrementando a categoria. Que venham Porsche, Audi,,BMW, Toyota, Nissan…

  9. Mauro Santana disse:

    Perfeito Alessandra!

    Faço minhas as suas palavras.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  10. Lucas dos Santos disse:

    Excelente texto, Alessandra.

    Quanto ao troféu, não achei tão ruim assim. Acho que vai ser difícil – para não dizer impossível – algo superar aquele vergonhoso “troféu de plástico” que os pilotos receberam no pódio de 2008 (e de 2009 também, se não estou enganado).

  11. Simplesmente perfeita!! É por aí mesmo: o mundo muda, e com a Fórmula 1 não seria diferente!!

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