Apesar de você

Wing Wars – Parte 6
10/12/2020
Virada de Jogo – Parte 3
17/12/2020

Abu Dhabi foi a última da temporada de 2020, aquela que quase não existiu. Como também foi a última da trinca de corridas pelo Oriente Médio, aproveitou para testar o limite dos carros, pilotos, equipes e da paciência do querido telespectador.

A semana do GP da Shakir começou com a dúvida latente da presença do Heptacampeão. Que se pese o carinho dos fãs por um conto de fadas, nada seria mais inóspito nesse ano de que seu campeão histórico não conseguir fechar a temporada.

Com todas as confirmações feitas a prova de Abu Dhabi reservava uma única batalha digna de televisão: o terceiro lugar de construtores! Mclaren e Racing Point entraram muito perto nessa corrida final, ainda de olho numa Renault que aparece crescendo no final da temporada.

For a isso, o GP também muitas despedidas e um tanto de incertezas para alguns, um dia emocionante em vários boxes!

A corrida começou a se definir já no sábado, no quase ignorado treino livre 3. Ali as Mercedes mostraram que o pneu mais macio do final de semana não lhes serviria, restando apenas o médio e o mais duro para fazer a prova. Além disso, os motores Mercedes estava sofrendo com o excesso de quilometragem nesse final de campeonato. Perez incendiou o seu no Bahrein poucas semanas atrás, George enfrentou problemas no primeiro treino livre e os dois carros da Mercedes também sofreram problemas nesse decisivo terceiro treino. A Mercedes não quer ver a imagem de imbatível explodir pelos ares com seus carros e seus clientes pegando fogo e toma a decisão mais conservadora: todos os motores Mercedes deveriam diminuir sua potência para a classificação e corrida.

Sem sabermos disso no sábado, vimos um classificação equilibrada, coma Mercedes escolhendo no Q2 os pneus médios para começar a corrida. Com previsão de uma parada, nada melhor do que começar o primeiro trecho com a possibilidade de deixá-lo mais longo.

As despedidas começam já em dose dupla. Racing Point e Sergio Perez encerram suas participações nesse ano.

Perez ainda tem uma chance (esperança) na Red Bull ou voltar em 2022, mas de qualquer forma não segue mais no time que lhe deu a primeira vitória.

Já a Racing Point vai começar o projeto que pretende devolver o dinheiro investido por Lawrence Stroll no time. O valente time de Silverstone trará de volta a marca Aston Martin para Formula 1, quase 60 anos depois.

Ao menos não é uma marca obscura do mundo. Há uma tradição envolvida!

Milagrosamente, dessa vez, a largada foi limpa e sem nenhum desempenho catastrófico dos favoritos. Nada de troca de posições na linha de frente e o destaque, pasmem, era Magnussen que já alcançava o maravilhoso décimo sétimo posto!

Com isso, logo de cara o trenzinho estava formado e a corrida, decidida. Havia sim alguma chance de troca de posições nos pits e estratégias diferenciadas. Para não cair no sono, essa era a esperança.

Na pista mesmo, demorou 6 voltas pra alguma disputa emocionante. Albon (sem bater até o momento), passou pela Mclaren de Lando Norris. Na mesma volta que Ocon abriu passagem para Ricciardo fazer sua estratégia funcionar. Logo na sequência, primeira janela de pitstops aberta para aqueles que largaram de macios. Totalmente temerário parar na volta 08 e sonhar com só uma parada, quem assim o fizesse teria que calibrar o pé – e o otimismo – para se divertir pela pista nas 47 voltas restantes.

Ninguém optou por esse caminho e na volta 10, os maiores pesadelos da Mercedes se manifestaram em uma das estrelas da temporada: Sergio Perez viu sua história com a Racing Point ficar pela pista.

A Haas se despediu dos seus dois pilotos também no Oriente Médio. Grosjean um pouco antes e Magnussen hoje.

Infelizmente os dois enfrentaram o pior ano da Haas bem no ano de suas despedidas. Eles bateram tanto os carros durante esse período que a Haas só liberou um volante pra cada como presente. Foi o que restou intacto, os maldosos diriam.

A nova dupla de pilotos não empolga pelos resultados passados, mas trazer de volta o nome Schumacher é imperdível!

A impressão que fica, realmente, é que Grosjean e Kevin ficaram tempo demais nessas vagas. Mas pode ser só impresão.

Por conta da quebra de Perez, carro de segurança virtual e o conservadorismo da Mercedes veio para a pista novamente. Os dois pilotos são chamados para o box, marcando o ponteiro Max Verstappen. Colocando todos na mesma janela de paradas, Hamilton perde a chance de fazer um período mais logo na pista e tentar o ataque no final. Além disso, com 44 voltas ainda para percorrer, ninguém poderia se dar ao luxo de grandes pressões, sob o risco de ter um estouro no final ou ter que fazer uma nova parada.

A incompetência do traçado, se estendeu para o time de retirada do bólido de Perez. O virtual virou real e o pelotão todo se juntou. Leclerc, Vettel, Ricciardo, Giovinazzi e Magnunssen não param, atentos ao plano original de voltas previstos para seus pneus. Era a chance de tentar fazer algo diferente e melhorar a chance na briga por pontos.

Depois de passar um ano se despedindo dos bons desempenhos, a Ferrari também se despediu de Sebastian Vettel. Com pesar, teria sido uma bela história Vettel ser campeão pelo time italiano.

Um cavalheiro como sempre, manteve a esportividade até o fim, mostrando a classe de um verdadeiro campeão.

Voltando para corrida, tudo dentro do esperado. As ultrapassagens, como sempre em Abu Dhabi, só por conta do DRS no meio do pelotão. Nada que mereça nossa atenção.

Se você deu uma cochilada, no susto deu pra acordar e ver o Lance Stroll escapando da pista na volta 26. E já que ainda estamos acordados, podemos acompanhar os dois últimos pilotos a parar: Vettel na volta 36 e Ricciardo que entra na volta 45. Um mago de pneus nesse tapete de circuito.

Esse mesmo Ricciardo que deixa a Renault. Essa mesma Renault que muda de nome para Alpine.

O movimento de Ricciardo parece estranho, sair da equipe de fábrica? Mas tem muito mais coisa por trás disso. Teremos uma Mclaren Mercedes o ano que vem novamente, além disso, dividir equipe com Alonso não é lá uma das coisas mais agradáveis do mundo. Dizem. Que tal então se divertir e ficar rico? Foi isso que Ricciardo fez, com um contrato que lhe deixa somente atrás de Lewis Hamilton em rendimentos como assalariado da F1.

Já Alpine, jogada claramente de marketing, abre espaço para divulgar duas marcas do Grupo pelo preço de uma. Movimento inteligente que nos traz para o mundial o participante de número 169.

“Corrida morna”. Machado, Cleber.

Assim, trocando b*st! por morna no último segundo, voltamos pra corrida. Sem paradas, com as Mercedes só cumprindo tabela, até Max Verstappen pediu pro time diminuir a potência do motor. Tava tudo garantido e controlado. No campeonato de endurance da F1, nem a última prova os pilotos conseguem ir ao “limite extremo”. É uma vergonha.

Pro finalzinho mesmo, após a confirmação do pódio com Max, Bottas e Hamilton, ainda teve tempo para o Ocon ampliar o vexame do Stroll e passá-lo na última volta. Além da maravilhosa volta de Ricciardo, registrando para si a volta mais rápida da prova no último giro.

Fica a lembrança pro time: sua última volta em uma Renault foi a mais rápida da corrida.

O ambiente asséptico de Abu Dhabi nos deu umas das corridas mais preguiçosas da temporada. Um contraste inacreditável com as pistas “sujas” da F1. Saudades de um traçado apertado como de Imola, as caixas de brita de Mugello, a variações de altura de Portimão…. Corridas que traziam variáveis e risco para os pilotos.

Apesar de você, Abu Dhabi, não podemos nos enganar! Muito menos, reclamar!

Foram 17 corridas em 23 finais-de-semana. Foram 4 trincas de corridas.

Certamente, a temporada mais intensa da F1! Claramente, não deve se repetir tão cedo, mesmo em campeonatos com 22 ou 23 corridas. Paciência.

De um campeonato que não deveria ter acontecido, a F1 transformou 2020 em um dos seus melhores anos. A única ressalva fica para essas pistas assépticas desenhandas por Tilke. É público e notório a diferença gritante que um circuito de verdade faz nas corridas.

Apesar da corrida insossa, houve uma grande vitória de Max e um campeonato maravilhoso em 2020. Também não podemos esquecer do papel fundamental do Esporte e da Cultura para atravessarmos esse ano pandêmico. É absurdamente claro a diferença que fez nas nossas vidas ter a opção de ver eventos ao vivo durante esse ano maluco.

Obrigado a todos que fizeram isso possível!

Cuidem-se e, se possível, cuide de mais alguém também.

Abraços
Flaviz

Flaviz Guerra
Flaviz Guerra
Apaixonado por automobilismo de todos os tipos, colabora com o GPTotal desde 2004 com sua visão sobre a temporada da F1.

1 Comment

  1. Fernando Marques disse:

    Flávis,

    ando meio cheio de teorias conspiratórias … na corrida passada ventilei a hipótese daquele pit stop atrapalhado na corrida passada, ter sido uma armação pro Bottas chegar na frente do Russel. Ontem apesar da informação dos problemas que os motores da Mercedes estavam tendo e da tática conservadora tomada pela equipe, me pareceu bem claro que Hamilton jamais iria ser uma ameaça ao Bottas na corrida … tudo para garantir o vice campeonato ao Finlandês … Bottas jamais foi importunado na corrida … penso que o mesmo aconteceria se os motores da Mercedes pudessem usar toda a sua potencia … Bottas venceria a corrida com Hamilton de escudeto logo atrás …



    Agora a temporada de 2020, pelas condições e tudo que vem acontecendo no mundo por causa da pandemia, acabou sendo um campeonato muito bacana de se acompanhar e vale destacar as vitorias de Gasly e Peres neste contexto … a temporada mostrou que não é só o Hamilton, ou Bottas ou Verstappen que vencem corridas … e teve aquele acidente do Grosjean, algo raro Graça a Deus de se ver na Formula 1 mas que pode acontecer, como aconteceu …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *