Arrivabeníssimo

40 Ringgits
29/03/2015
Valentino Rossi, um tipo de magia
02/04/2015

Ninguém contesta a superioridade das Mercedes, mas a Ferrari está ainda melhor que parecia.

O ruído dos motores da atual F1 não consegue me tirar o sono. Rastreio quando vai passar no SporTV e assisto no dia seguinte, sem ter que me entupir de café e com os neurônios mais alertas.

Também fico com os ouvidos desentupidos de certo tipo de bobagem ou exagero. Mas, como os demais colunistas e leitores do GPTo, tenho um conhecimento do assunto acima da média e estou ciente de que só gente como nós não dá audiência que justifique os altos custos gerados pela política negocial de Mr. Ecclestone.

Desde que aceitei o convite do Edu para escrever aqui defendo que devemos agradecer e lamber os dedos por ainda termos F1 na TV aberta, de graça, com uma equipe experiente, que inclui ex-pilotos e, eventualmente, câmeras exclusivas. Descontem os arroubos do Galvão e/ou similar: são vendedores de emoções assumidos e falam para os sujeitos que estão fazendo hora esperando o futebol.

Gente que não entende nada de automobilismo, quanto mais F1, são aqueles que acham que depois do Senna só tivemos braços-duros na categoria… Precisamos dos Galvões  e deles, se quisermos assistir os GPs gratuitamente, com uma qualidade maior do que na maioria dos demais países. Vejo as reclamações de alguns europeus com suas transmissões e fico bem quietinho.

Com a audiência mundial caindo – não me perguntem porque, vocês sabem muito bem – a tendência é que a F1 se torne tão popular quanto badminton, arremesso de troncos, tocar carneiros para o curral…

Se entendi direito a Ferrari descobriu nos long runs dos treinos que seus carros tinham menos fome de borracha que os da Mercedes. Logo, se não chovesse e a temperatura se mantivesse onde se esperava, provavelmente precisariam de uma parada a menos. Como a Mercedes confirmou que a parada durante o SC foi apenas antecipada, estava prevista, me parece claro que aí estava a chance da vitória rossa. Dessa vez os estrategistas da Ferrari, que tanto deixaram a desejar nos últimos anos, acertaram.

Mas, como bem observou o Marcel, não foi só isso.

Na 37ª volta Vettel liderava com 14,4 segundos de vantagem para Hamilton. Seb fez seu segundo e último pit stop na volta seguinte, colocando pneus duros novos. Hamilton fez seu terceiro e ultimo pit na 39a., e, como sabemos, também calçou pneus duros novos.

…wrong tyres, man. Faltou ouvir a resposta provável: Sorry, we don’t have any other… Era o que a Mercedes tinha para o momento. Não havia outra opção. Mesmo assim as simulações apontavam que o inglês alcançaria o alemão em 5 voltas.

Então os dois pilotos estavam na pista na mesma hora, em igualdade de condições.

Usando todo o seu talento, Hamilton não conseguiu tirar mais que três décimos por volta, em média. A primeira declaração de Vettel após o GP foi que estava morrendo de medo (estou sendo menos literal) de fazer alguma besteira e por a perder sua primeira vitória na nova equipe, portanto é natural concluir que estava sendo conservador em seu ritmo de corrida.

Se não estava dando tudo que tinha é lícito pensar que a SF15-T poderia se equiparar ao ritmo da W06 Hybrid.

Mas até aqui podia ser sorte ou competência do tetracampeão tedesco. Então vamos examinar quem não teve sorte e cuja competência vinha sendo questionada até o GP passado.

Se Nasr não tivesse se enroscado com Kimi, talvez o terceiro lugar do pódio tivesse outro ocupante.

A única sorte que Kimi teve foi a entrada do SC, que permitiu que encostasse na turma, mas em último lugar. Teria que passar 12 carros, incluindo as Williams (não estou considerando as RB nem as ST, muito menos McLaren) para chegar onde chegou.

Quem apostaria nisso ao vê-lo se arrastando por uma volta inteira?

Pois assim que teve de volta 4 pneus, Kimi mostrou como pode ser hábil com eles. Fez seu segundo pit na 14a. volta, colocando médios novos. Não tinha tempo a perder e manteve o ritmo mais forte que pode. Nessa condição os pneus duraram 20 voltas!

Como também fez uma parada a menos que Rosberg, se não tivesse tido o atraso inicial pode-se imaginar que a diferença seria muito menor ou nem sequer existiria.

A escalada de Kimi confirma que a Ferrari é hoje um oponente de respeito para montadora germânica?

Ninguém menos abalizado que Toto Wolff para informar, não?

Pois ele confirma, sim, quando diz que talvez tenham que parar com o fair-play  e concentrar esforços em um único piloto. Se alguém esperava isso da Mercedes no início do ano por favor mostre a bola de cristal.

Ao menos nos circuitos onde forte calor e pista abrasiva se combinarem, onde estratégias de mais de uma parada forem factíveis, podemos concluir que a Ferrari será sim uma ameaça real para a Mercedes.

Pensando bem, era até de se esperar que as SF15-T se contentassem com uma dieta pobre de borracha. James Allyson já tinha obtido esse efeito na Lotus.

Não seria tão rigoroso com o Rosberg. Ele teve que esperar parado a troca de Hamilton e ainda pegou tráfego no próprio pit lane. Acho cedo para concluir que já está batido, ainda que – como todo mundo – considere Hamilton mais talentoso.

Também não seria tão descrente do Massa. Bottas é, curiosamente, um piloto consagrado, que confirmou todas as opiniões favoráveis a seu respeito no ano passado. Ele e Ricciardo foram os nomes do ano, fora o planeta Mercedes. Massa, ao contrário, é um piloto sobre o qual existem sombras acerca da real capacidade. E ele tem sido rápido e consistente. Ninguém menos que o legendário Lauda disse que ele não deve ser subestimado. O que ninguém pode negar é que ele não está acomodado, continua querendo ser campeão. Louvável. Quem pode ser contra alguém que não desiste de seu sonho?

Não vejo grande problema em ele ter sido superado por Bottas, assim como a imprensa australiana não deverá crucificar Ricciardo por ter chegado atrás de seu xará russo e assim por diante. Foi apenas uma corrida. Não espero que o Alonso fique na frente do Button em todas as corridas, assim como não ficou na frente do Massa em todas, na época da Ferrari, e sabemos que tipo de colega de equipe ele é.

Ninguém contesta que as flechas prateadas seguem favoritas, mas as mudanças feitas em Maranello, que não foram poucas nem superficiais, produziram resultados acima do esperado.

Pessoalmente tinha muito receio que isto não funcionasse.

Parece que tudo se encaixou bem e Maurizio Arrivabene, o último componente a chegar, visivelmente chegou bem.

Como disse Toto Wolff, não foi o melhor resultado para a Mercedes mas foi ótimo para a F1. Tomara que a progressão continue nesse ritmo.

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

12 Comments

  1. Lucas dos Santos disse:

    Creio que o Arrivabene fará muito bem para a Ferrari. Se ele realmente trabalha e pensa da maneira que ele expressou na coletiva de imprensa realizada no fim de semana do GP da Austrália, só vejo razão para bons resultados.

    Na entrevista ele se mostrou um sujeito “pés no chão”, que sabe trabalhar com aquilo que tem à sua disposição – em outras palavras “faz dos limões, uma limonada” – e sabe muito bem como manter a equipe unida e motivada. O resultado do GP da Malásia mostra que eles já começaram a colher os frutos.

    (Nossa! Acho que nunca utilizei tantas metáforas em um mesmo comentário!)

    Ah, para quem ficou curioso quanto à entrevista, aqui vai a transcrição (em inglês): http://www.fia.com/news/2015-australian-grand-prix-friday-press-conference

    • Carlos Chiesa disse:

      Com o confronto MarchionneXMontezemolo, a FIAT optou por colocar gestores de negócios e não gestores esportivos. Decisão que deixava grandes dúvidas sobre a eficácia, a meu ver. A experiência Mattiacci reforçava essa impressão. Embora Arrivabene tenha chegado por último, tenho a impressão de que, por ter sido parceiro da Ferrari (Philip Morris/Marlboro) desde a época do Schumacher, tinha suficiente conhecimento da F1 para obter bons resultados. Penso que ele não atrapalhou e talvez até tenha ajudado a consolidar as principais modificações anteriores, notadamente a saída do grego Tombaszis e a ascensão de Allison. Também importante observar que o setor de motores correspondeu, mesmo com a saída de Marmorini.

  2. Fernando Marques disse:

    Uma coisa é o Galvão Bueno narrando as corridas … outra coisa é ele nas narrações achar sempre que conhece mais de Formula 1 e se achar dono da razão do que os outros … no futebol é a mesma coisa …
    Quanto o que vai ser desta temporada depois desta vitoria da Ferrari, fico na torcida que ela não tenha sido casual e sim que a Ferrari esteja realmente com um pacote para fazer frente a Mercedes …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Carlos Chiesa disse:

      Fernando, o GB está há tanto tempo nesse negócio, e há tanto tempo no topo que se tornou uma atração à parte. O programa “Bem amigos”, montado em cima de sus popularidade e conhecido bordão são indícios de seu tamanho dentro da RG. Nem a Ferrari acredita que pode fazer frente à Mercedes em todos os circuitos. Mas evidentemente vão tentar.

  3. Robinson Araujo disse:

    Será a velha estrela de Vettel brilhando novamente?
    No lugar dele estaria torcendo para uma briga interna das flechas prateadas e dai em diante ir colhendo resultados preciosos.
    Aguardemos mais três GPS, a continuar assim poderemos ter um novo penta brilhando!

    Pena a Williams ter limitações, o carro do ano passado era muito bom o deste ano também, mas não excepcional como os alemães. Nosso zaca terá uma boa temporada, beliscando até alguns pódiuns e quem sabe até uma vitória casual, algo próximo a 180 a 190 pontos ao final do ano sem pontuação dupla dos infernos!

    Uma boa semana a todos amigos do GPTo

    Robinson Araujo
    Cuiabá-MT

    • Carlos Chiesa disse:

      Realmente a Williams não entendeu até agora como o Kimi pode passar por seus dois carros depois de ter perdido tanto tempo. Chegar atrás das Merc, tudo bem. Mas não tão longe e ainda perdendo para as duas Ferrari.

  4. Ronaldo de Melo disse:

    A observação de Totto Wolf, e outras no mesmo sentido de Smedley e outros, transparecem a preocupação de todos com o futuro do esporte. Nunca vi Jean Todd, Ross Brawn, Ron Denis e etc, acharem graça em uma corrida que ameaçasse suas hegemonias; esse papo de “bom pra F1” me passa um recaodo claro: Vamos fazer esse negócio parecer um esporte, senão vai deixar até de ser negócio.

    • Carlos Chiesa disse:

      Poie é, Ronaldo. A Red Bull está fazendo pressão para mudar o regulamento. Não deixa de ter certa razão, este regulamento foi pensado para embaralhar totalmente um jogo em que ela estava vencendo há 4 anos, e poderiam ter sido mais. Você tocou no ponto certo, a F1 hoje é mais negócio que esporte. Pessoalmente acho que esse regulamento pesou demais no aspecto “laboratório para futuros carros de rua” e esqueceu que antes de tudo deve ter motores potentíssimos, desafiadores.

  5. Carlos Chiesa disse:

    Rssss Escrevi que ficava com o ouvido desentupido de um CERTO tipo de bobagem… E que os colunistas e frequentadores do GPTo tem conhecimento acima da média, portanto o que é bobagem para nós pode parecer interessante para o fanático por futebol que está apenas fazendo hora. Lito e Max Wilson cumprem o que se espera deles e o Sergio Mauricio é mais comedido nas narrações. A soma é que, para quem não vê a hora de ver seu time entrar em campo, ambas transmissões podem gerar algum interesse. Continuo achando que é o que precisamos.

  6. Mauro Santana disse:

    Olá Amigos do Gepeto!

    Bela coluna Chiesa!

    Olha, a respeito da transmissão da RG, sempre gostei da narração do Galvão, e para quem acompanhou a F1 nos anos 80, sabe do que estou falando, pois era sempre aquela expectativa a cada corrida de que o narrador fosse o Galvão, pois não era fácil ter que assistir as corridas naquela época com narradores do fraco nível como Cléber Machado, Luiz Alfredo e Oliveira Andrade.

    Tudo bem que nos dias atuais, ele Galvão fala bastante besteira, mas a parte dos comentários com Reginaldo Leme e Luciano Burti é excelente, e um narrador que vai muito bem também, é o Luiz Roberto.

    Agora, no Sportv, gosto muito dos comentários do Lito Cavalcanti, mas aquele Sergio Mauricio narrando, é muito fraco.

    Então, enquanto tivermos esta cobertura da RG, pra mim esta ótimo, pois se for pra TV fechada, a coisa vai ficar muito complicada mesmo, e com certeza, o nível de audiência aqui no Brasil vai despencar de uma vez por todas.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Lucas dos Santos disse:

      Mauro,

      Tenho exatamente as mesmas opiniões que você sobre os narradores e comentaristas citados. Até parece que fui eu que escrevi! Assinaria embaixo sem titubear!

  7. Carlos,
    Só vou discordar de você em uma coisa em seu primeiro parágrafo. Assisti parte da transmissão do SporTV na segunda-feira e a quantidade de bobagem dita na transmissão me fez sentir IMENSAS saudades da TV Globo, Galvão Bueno….

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *