As corridas que (não) gravei

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A maior decisão de título de todos os tempos completa 50 anos em 2014. Vale relembrar essa história.

Alguns GPs são especiais, ora por trazerem uma decisão de título dramática, ora por proporcionarem uma performance “extraterrestre”, ou uma mistura das duas coisas. Quanto mais a gente puder encontrar e ter corridas como essas em nossos acervos, melhor. Mas há alguns GPs que são históricos ou marcantes para  nós por diferentes razões. Muitos leitores e colunistas (não é, Márcio?) certamente têm uma vastíssima videoteca, e minhas referências poderão ser bastante rasas.

Em minha casa, sempre tivemos uma fita “para gravar” no videocassete, ora porque, durante a prova, se anunciasse algum momento histórico (Japão 1990, Canadá 1991, Alemanha 2000, França 2002, Japão 2003) ao final, ou porque desde antes já houvesse planejado assistir depois (Austrália-90, Brasil 1991, Inglaterra 2003, Nurburgring-2007).

Certamente eu queria ter as fitas de corridas como Nurburgring 1957 ou Japão 1989, por exemplo, mas o GP que eu queria ter visto mesmo, na íntegra, em todos os lances, é o GP do México de 1964. Pra mim, o ‘maior GP de todos os tempos’.

Neste ano, no dia 25 de outubro, se completarão 50 anos daquela corrida que marcou o único título de John Surtees, na Fórmula 1: “Big John”, como é(ra) conhecido, já havia sido multicampeão nas motos (conquistou quatro campeonatos nas 500cc, e foi tricampeão nas 350!) sendo, até hoje e para sempre, o único homem sobre a face da terra a ser campeão mundial de Fórmula 1 e da “MotoGP” – um feito ainda maior que a tríplice coroa do mítico Graham Hill, um dos protagonistas dessa história.

Antes de relembrarmos a corrida, vale destacar que o GP do México também é histórico por dois motivos: primeiro (no GP anterior, nos EUA, isso também aconteceu), por ter sido uma das duas corridas em que houve uma Ferrari azul (e branca): por questões judiciais na Itália, a Scuderia correu com o nome de “North American Racing Team”.

Outro fato histórico é que Surtees se tornaria o primeiro de dois pilotos (o outro foi Ayrton Senna, em 1988) a ser campeão mesmo tendo somado menos pontos no total, mas ficando à frente na contagem dos pontos válidos, descontando os ditos descartes.

Vamos à corrida, então.

Os prognósticos à conquista de Surtees eram contrários: o inglês precisaria, necessariamente, vencer e torcer para que Graham Hill fosse no máximo terceiro. Outra chance seria ele chegar em segundo com Hill não subindo ao pódio. Para Hill, a vitória daria o título independente de qualquer outra combinação. Ele podia levar o caneco também sendo segundo ou terceiro, desde que Surtees não vencesse.

Além de Hill e Surtees, havia Jim Clark na disputa: apesar de ostentar o número 1 no seu carro, o escocês voador corria como azarão: Clark precisava vencer e torcer para que Hill não chegasse ao pódio e Surtees fosse no máximo terceiro. Em suma, tinha-se uma decisão aos moldes clássicos de Adelaide 1986, Interlagos 2007 ou Abu Dhabi 2010.

Nos treinos, Clark conquista a pole, sua quinta no ano (num universo de 10 GPs), por quase 0.9 segundo, e via suas esperanças de bicampeonato crescerem mais ainda uma vez que Surtees (quarto) e Hill (sexto) ficaram fora do top 3. Jim é um piloto descendente, e só o que se poderia imaginar era que ele sumisse à frente e ditasse o ritmo da corrida. Restava a Graham Hill e John Surtees partir para uma estratégia agressiva, almejando os pontos que dariam o caneco.

Nenhuma largada poderia ser melhor para Clark: ele parte bem, como esperado, e ainda vê Graham Hill cair de sexto para décimo, porque os elásticos dos seus “óculos” arrebentaram (eita!); Surtees, que partia em quarto, teve problemas no motor, e caiu para décimo-terceiro. Agora, além do elemento tríplice disputa, tínhamos dois pilotos tendo de realizar corridas de recuperação, numa decisão aos moldes Japão 1988 e Brasil 2012. Perfeito para o espectador!

A recuperação de Graham Hill foi impressionante: já na volta 12 ele era terceiro, angariando o pontinho que precisava para conquistar seu segundo título. Surtees também fazia sua parte: chegou a sexto na volta 12, e alguns giros depois era quinto. Enquanto isso, o escocês voador seguia seu voo solitário – ele registrou a melhor volta da prova –, impondo seu domínio e aguardando que o imponderável atingisse seus adversários.

Na metade da prova, acontece um lance épico, alvo de discussões até hoje, e talvez uma manobra ainda mais difícil de engolir que os choques de Senna e Prost ou as colisões de Schumacher.

Estávamos na volta 31, quando ocorre um acidente entre Graham Hill (3º colocado e virtual campeão) e Lorenzo Bandini, o 4º colocado, companheiro de equipe de Surtees, que vinha em quinto. A mecânica da batida – confiram as imagens na galeria – não comprova a intenção de Bandini, mas indubitavelmente parece uma manobra extremamente precipitada, coisa de principiante. E ele era um piloto de qualidade.

Tanto Hill quanto Bandini conseguiram voltar à pista, mas o britânico não teve a mesma sorte do italiano: enquanto Hill retomava com problemas no exaustor – e precisou de um pitstop emergencial que o jogou para a 13ª posição –, Bandini seguiu sem maiores complicações, agora na quarta colocação, uma vez que Surtees ascendeu ao terceiro posto com o choque dos adversários.

Dessa maneira, o título era de Jim Clark. Surtees, terceiro, é ultrapassado (devolveu a posição?) por Bandini na volta 34, e assim seguiu a vida até a 63ª e antepenúltima volta: Clark em primeiro, seguido por Dan Gurney, Lorenzo Bandini e John Surtees. Graham Hill capengava lá no fundo, não indo além de décimo.

(breve pausa: dois anos antes, no GP da África do Sul, último da temporada de 1962, Jim Clark liderava a corrida tranquilamente e ia garantindo seu primeiro mundial quando começou a sofrer vazamento de óleo a menos de 20 voltas do fim: perdeu a prova e o campeonato para… Graham Hill).

Volta 64: o motor Climax, que sete voltas antes começava a ter problemas com vazamento de óleo, abre o bico. Clark estava um minuto e meio à frente de Surtees, que agora era terceiro, atrás de Bandini e do eventual vencedor da prova, Dan Gurney.

Então, o óbvio acontece: Lorenzo Bandini devolve a gentileza de 30 giros antes e inverte as posições com John Surtees, que chegando em segundo somava seis pontos e contabilizava 40 (todos válidos), um a mais que Graham Hill (que totalizara 41, mas tinha de descartar um quinto lugar).

Como se vê, decisões em batidas não são coisa “de hoje”, e o ‘modus operandi’ da Ferrari também é antigo: coincidência ou não, a equipe atravessaria uma das piores fases de sua história, só voltando a vencer o mundial em 1975.

Surtees campeão mundial, Hill vice, Clark e mais uma decepção, Bandini e o emprego garantido. Mas esse não era o capítulo final da temporada. No natal daquele ano, Graham Hill enviou uma encomenda a Lorenzo Bandini: um conjunto de discos com um curso intitulado “Aprenda a Dirigir seu Carro em Dez Lições”.

O humor britânico em sua versão mais genial: e essa sim, uma vingança com classe.

Abraços a todos!

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

4 Comments

  1. Rafael disse:

    Nada a acrescentar, muito bom o texto!

  2. Sandro disse:

    best results (melhores resultados) foi “traduzido” ou “interpretado” para “descarte dos piores resultados”… 😛

    “Lorenzo, John is faster than you. Understood?” 😛

    Surtes campeão mundial com duas e quatro rodas!

  3. Mauro Santana disse:

    Belo Texto Marcel!

    E sem duvida, foi uma corridaça!

    Segue abaixo um vídeo de como era a pista do Hermanos Rodrigues no México nos anos 60.

    Bem interessante se comparada ao traçado que a F1 utilizou de 86 a 92.

    http://www.youtube.com/watch?v=aLzTkuV-B6I

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  4. Ballista disse:

    Belo texto, desconhecia os detalhes dessa disputa.

    Seria muito bom ter um acervo de corridas antigas gravadas. Ou pelo menos disponíveis no youtube.

    Hill mandou bem no revide! o cara era realmente um gentleman.

    Abraços

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