As listas

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Lista. Substantivo feminino capaz de atiçar paixões em indivíduos simplesmente por que sua preferência não está no topo da lista de outra pessoa. Quando uma publicação quer vender revistas ou jornais nas bancas, ou simplesmente quer ganhar cliques em sua fanpage da rede social, basta anunciar uma lista. Lista de melhor jogador de futebol da história, melhor álbum de música da história, melhor carro da história e por aí vai. Tudo isso basta para se criar uma boa polêmica, além de um longo papo de botequim. Na Fórmula 1 isso não é diferente e, para muita gente, não colocar um determinado piloto no topo da lista é quase um sacrilégio.

Claro que muitas listas extrapolam a subjetividade e se concentram unicamente em números. A estatística nunca responde todas as perguntas, mas é um bom indicador do que aconteceu na história. Todo ano atualizo uma lista, de forma apenas recreativa, com os maiores pilotos da história da F1. Utilizando apenas os números. Com o fim da temporada 2017, fiz uma nova atualização e o resultado será mostrado em seguida.

Antes disso, porém, vou explicar como é feita, sua metodologia. Inspirado num velho ranking feito pela Revista Quatro Rodas no início dos anos 1990, atualizo essa lista todo ano, mas com algumas mudanças. A revista usava um método mais simples, na qual somava as médias de vitórias, poles, melhores voltas e pontos conquistados por cada piloto e multiplicava pelo desempenho dele em cada campeonato ao longo do tempo. Usando o campeonato atual como exemplo, Lewis Hamilton ficaria com o número de pontos da vitória pelo título conquistado, Vettel ficaria com o número de pontos do segundo colocado pelo vice e assim por diante. Era levantado todos os resultados finais dos campeonatos desde 1950 e se formava o cenário do desempenho de todos os pilotos na história da F1.

A Quatro Rodas faz tempo que não atualiza esse ranking (a última vez que eu vi foi em 1992…), mas não apenas atualizei, como fiz algumas modificações nessa matemática. Primeiro eu ponderei cada fator utilizado no ranking, multiplicando por cinco a média de vitórias e por três o número de poles, já que vitórias são mais importantes. A média de melhores voltas e de pontos deixei inalterado, mas havia outro ponto a ser melhorado. Com as mudanças da FIA de 2003 para cá, não era justo com os pilotos mais antigos comparar a pontuação bruta dos pilotos atuais, quando um campeão sempre faz mais de 200 pontos numa única temporada, enquanto Keke Rosberg, por exemplo, amealhou 159,5 pontos em toda a sua carreira.

Portanto, peguei corrida a corrida (incluindo as provas em dupla nos anos 1950 e as corridas interrompidas e que deram metade dos pontos aos pilotos) e ‘pontuei’ apenas os seis primeiros lugares de cada corrida nos 68 campeonatos da história, na velha fórmula 9-6-4-3-2-1, que foi a mais utilizada ao longo da história. Outro ponto foi para que houvesse uma maior abrangência de pilotos, até mesmo incluindo algumas más temporadas de grandes pilotos, como Nelson Piquet em 1984, para o desempenho histórico por campeonato, utilizei a fórmula atual de pontos, com os dez primeiros de cada campeonato recebendo ‘pontos’.

Outra observação foi que retirei os pilotos americanos que ‘ganhavam’ pontos pela participação das 500 Milhas de Indianápolis nos anos 1950, afinal, nem eles sabiam que pontuavam no Mundial de F1. Resolvi não mexer nos pontos conquistados por Schumacher em 1997. Após o final da temporada 2017, a atualização dos dez primeiros ficou assim:

Piloto

Pontos

1

Michael Schumacher

1915,84

2

Juan Manuel Fangio

1718,91

3

Lewis Hamilton

1439,08

4

Alain Prost

1348,10

5

Sebastian Vettel

1129,94

6

Ayrton Senna

1079,24

7

Jim Clark

864,76

8

Jackie Stewart

855,27

9

Alberto Ascari

673,48

10

Stirling Moss

639,78

Schumacher tem números tão superlativos, que mesmo tendo feito mais de 300 Grandes Prêmios na carreira, ele ainda lidera esse ranking. Fangio tem números mais humildes, mas suas médias são espetaculares. Em cada duas corridas que o argentino fazia, ele ora marcava uma vitória, pole ou volta mais rápida. Se Schumacher tivesse essas médias, ele teria mais de 150 vitórias, por exemplo!

Muitas vezes reclamamos da geração atual de pilotos, mas os números de Hamilton e Vettel já são impressionantes e ambos já ocupam o top-5 dessa lista. Por isso coloco a temporada 2017 como uma das mais interessantes dos últimos dez anos, pois tivemos a oportunidade de ver dois tetracampeões se digladiando e dando o seu melhor para derrotar seu rival, tendo como exemplo já clássico o Grande Prêmio da Bélgica de 2017.

A mesma lógica de Fangio colocam Alberto Ascari e Stirling Moss no top-10, ficando à frente de pilotos com números mais robustos do que eles, como Alonso (11º), Piquet (12º), Räikkönen (13º) e Lauda (14º). Falando em brasileiros, Emerson Fittipaldi ocupa a 27º posição, Rubens Barrichello é 29º, Felipe Massa encerrou sua carreira em 40º, José Carlos Pace é 102º e Roberto Moreno é 144º de uma lista de 152 pilotos que chegaram entre os dez primeiros nos campeonatos de 1950 para cá.

Certa vez eu conversava com Marcel Pilatti sobre uma lista observando apenas os números frios que cada piloto conquistou em sua carreira e não podemos ignorar que muitas vezes não é olhado o contexto de como cada piloto fez sua carreira. Um exemplo claro e atual são os casos de Hamilton e Vettel. Ambos são grandes pilotos e não há dúvidas disso, mas seus números foram turbinados pelos domínios da Red Bull (2010-13) e Mercedes (2014-16). Emerson Fittipaldi foi uma das estrelas dos anos 1970, mas ele passou a primeira metade da década brigando pelas vitórias nas melhores equipes da F1 de então e a segunda metade brigando para não levar uma volta com a Copersucar.

Para quem tem trinta e poucos anos como eu, deve se lembrar da dificuldade que era explicar que Michael Schumacher era o melhor piloto do mundo sem ser campeão. Damon Hill, Jacques Villeneuve e Mika Häkkinen foram campeões com todos os méritos, mas ninguém tinha a mínima dúvida que o melhor piloto da F1 na segunda metade dos anos 1990 era Michael Schumacher, mesmo quando o alemão era derrotado na pista (1997 por Villeneuve e 1998 por Häkkinen).

Mesmo sem ser campeão, um piloto pode se tornar uma referência técnica durante uma geração. A derrota naquele campeonato pode ter acontecido por vários fatores, mas esse piloto é a grande estrela da F1 da atualidade. Assistindo documentários e lendo sobre a F1 ao longo da sua rica histórica, fica até fácil perceber quem era esses pilotos. Essas referências. Segue abaixo em ordem cronológica:

Período

Piloto referência

1950-1957

Juan Manuel Fangio

1958-1961

Stirling Moss

1962-1967

Jim Clark

1968-1973

Jackie Stewart

1974-1979

Niki Lauda

1980-1984

Nelson Piquet

1985-1987

Alain Prost

1988-1993

Ayrton Senna

1994-2006

Michael Schumacher

2007-2013

Fernando Alonso

2014-2017

Lewis Hamilton

Alguém irá perguntar o motivo de Moss estar nessa lista sem ter sido campeão. Como explicado acima, ele foi a grande referência do final da Era Fangio, mas o título teimou em lhe escapar por variados motivos, inclusive escolhas erradas na carreira. Como o que acontece agora com Alonso, por exemplo.

Porém, essa é uma lista sem contar a matemática e observando apenas a subjetividade. Uma lista estritamente pessoal, em que alguém pode ter ficado de fora de maneira injusta na visão de outra pessoa. Quem entra e quem sai na sua lista?

Que 2017 tenha sido um ano repleto de paz, saúde e alegria. E que 2018 tenhamos tudo isso em nossas vidas.

Boas festas!

JC Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

3 Comments

  1. Mauro Santana disse:

    Grande JC!

    Parabéns, descreveu de maneira excelente e transparente esta lista acima.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  2. Fernando Marques disse:

    JC Viana,

    show de bola!!!
    Os conceitos usados são bons. A lista me parece justa. Digamos 90% justa.
    Números são apenas números e eles são frios. Eu nunca gostei de listar meus favoritos levando apenas em consideração os números … para mim a emoção que vivi sempre valeu mais … Por isso uma lista que não conste nomes como o do Gilles Villenueve e Ronnie Perterson entre os melhores, pelo que vi eles fazerem na pistas, nem sempre vai me agradar totalmente. O melhor piloto francês que vi na Formula 1 se chamava F. Cevert … no entanto … nem mais lembrado ele é …
    Mas valeu. É muito complicado achar um conceito 100% correto … até por que a Formula 1 viveu épocas bem diferentes o que dificulta uma comparação …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. Leandro disse:

    Na minha opinião, uma boa lista deve ser feita de forma justa para com todos os listados e foi isso que vi aqui.

    A lista de pilotos referência particularmente achei no ponto.

    Parabéns.

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