As voltas mais rápidas de Senna – final

As voltas mais rápidas de Senna – parte 2
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Breve comentário à edição de 2018:

O reabastecimento retornou à F1 em 1994 e vigoraria até 2009. Nesse período de 16 anos não houve piloto mais dominante do que Michael Schumacher,  que muitas vezes, inclusive, compensava deficiências do equipamento com uma técnica que seria consagrada: voltas rápidas em sequência antes de ir aos boxes. Episódios clássicos como os GPs da Hungria de 1998 ou do Japão de 2000 são exemplos notórios.

No único ano, porém, em que essa regra foi, digamos, parcialmente abolida, o alemão teve apenas brilharecos: em 2005 não eram permitidas as trocas de pneus, o que atingiu em cheio o grande mérito de Schumacher. Para conseguir voltas milagrosas como essas do video acima, ele precisava combinar um tanque mais leve e pneus em vias de esfarelamento.

Senna nunca pôde trabalhar nessas condições seja a curto ou longo prazo. Do contrário, ele as experimentou em somente uma corrida.

Chegamos a 1994, onde houve uma das grandes mudanças de regulamento da história: além do banimento da eletrônica, aconteceu a volta do reabastecimento. Isso mudou totalmente o panorama das corridas, principalmente em termos de estratégia, e também no que diz respeito ao preparo – físico e psicológico – dos pilotos.

Senna se fez presente apenas nos três primeiros GPs. É inegável que o rendimento da Williams do brasileiro, depois da proibição de todos os recursos eletrônicos que fizeram os super carros campeões de pilotos e construtores de 1992 e 1993, era inferior ao da Benetton de Schumacher, que ainda por cima infringia o regulamento.

Mas mesmo com essas dificuldades todas, Senna marcou a pole-position em todas as corridas, enquanto que seu companheiro de equipe, Damon Hill, chegou a ficar atrás das Ferrari, o que mostra bem que o equipamento não era dos melhores, posto que o mesmo Hill seria vice-campeão naquele ano e foi campeão do mundo em 1996.

Nos treinos para o Grande Prêmio do Brasil Senna é o único piloto a fazer um tempo abaixo de 1’16: 1m15s962. Schumacher foi segundo, com 1m16s290. Jean Alesi, com Ferrari, foi o terceiro, anotando 1m17s385. Damon Hill fez o 4º tempo, registrando 1m17s554. Isso significa que Senna fez um tempo 1,6 segundo melhor do que um piloto com o mesmo equipamento.

Na corrida, a situação foi a seguinte: Schumacher cai para terceiro na largada, mas no fim da segunda volta recupera a segunda posição. Anda próximo de Senna (média de 0.9s atrás) até a volta 21, quando ultrapassa o brasileiro nos boxes (graças à bomba de gasolina modificada). Schumacher fez sua melhor volta no giro 7, Senna no 11º. O tempo do alemão foi de 1m18s455; o de Senna, 1m18s764. Diferença de 3 décimos, como nos treinos.

Embora fique claro que Schumacher só obteria tal tempo em virtude do controle de tração (pois os tempos do alemão, meio segundo inferiores ao de Senna nos setores 1 e 2, melhoravam na casa de 1 segundo no último trecho da pista), o GP Brasil de 1994 é uma amostra de quão superiores Senna e Schumacher eram ao resto do grid: a terceira melhor volta foi de Damon Hill: 1m20s386, 1.9 segundo pior que a de Schumacher, e 1.6 acima da de Senna!

Outro destaque impressionante é que Senna e Schumacher chegaram ultrapassar (!) Damon Hill. Em outras palavras, o brasileiro e o alemão eram os únicos que estavam na mesma volta. Após a segunda parada nos boxes, Senna forçou demais — ele chega a diminuir a distância para Schumacher em aproximadamente 4 segundos — e escapou na junção, na volta 55.

No GP do Pacífico, novamente Senna bate Schumacher nos treinos com vantagem parecida à do Brasil: 1m10s218 para o brasileiro, contra 1m10s440 do alemão. Dessa vez, Damon Hill foi melhor: largou em terceiro, ficando a “apenas” meio segundo de Senna. Aquela foi a última obra-prima de Senna.

Na corrida, porém, uma decepção muito maior que a do Brasil: Ayrton, tocado pela McLaren de Mika Häkkinen, não passou da 1ª curva. Damon Hill, por sua vez, abandonou na volta de número 49, com uma quebra no câmbio. Schumacher marcou o melhor tempo, com 1m14s023 na 10ª volta. Hill foi o segundo melhor, com 1m14s368 na volta 45! Além dos dois, apenas Martin Brundle (com McLaren) andou abaixo de 1m15, ficando três décimos atrás de Hill. Senna, lógico, não registrou tempo.

Chegando em Ímola, tínhamos um Senna determinado a recuperar o terreno perdido. Nos treinos, o piloto registra 1m21s548. Schumacher, mais uma vez segundo colocado, anotou o tempo de 1m21s885: a diferença média entre os dois permanecia nos três décimos, mas aqui foi a maior delas, com 337 milésimos. Os dois foram os únicos a baixar de 1m22.

A exemplo do que acontecera no Brasil, Damon Hill fica atrás de uma Ferrari: dessa vez de Gerhard Berger que, com 1m22s113, terminou apenas 55 milésimos à frente do inglês. Senna colocou uma diferença de seis décimos para o companheiro de equipe, mais uma vez mostrando andar mais que o carro. A surpresa fica por conta da Benetton de Lehto, classificado em 5º, substituindo o atabalhoado Jos Verstappen que obtivera 9º e 10º tempos nos primeiros GPs. A diferença de Schumy e Lehto foi a mesma de Senna e Hill: 0s6.

E foi o mesmo Lehto que envolveu-se num terrível acidente na largada, quando Pedro Lamy bateu na traseira do seu Benetton, fazendo um prelúdio do que viria a acontecer. Devido ao acidente, as primeiras 5 voltas da corrida aconteceram com o safety-car. Senna sofreria o acidente fatal na 7ª volta. Isso significa que ele deu apenas uma volta rápida, a sexta. E o piloto registrou a marca de 1m24s887. Naquele dia, Damon Hill, sexto colocado, fez o melhor tempo com 1m24s335, na volta 10. Schumacher, o segundo mais rápido, deu seu melhor giro na 43, com 1m24s438: um décimo acima do inglês.

Apenas os três ficaram abaixo de 1m25. O detalhe principal é que Senna partiu com 86 litros de gasolina, e tinha planejado uma corrida de duas paradas, uma a menos que Schumacher e Damon Hill. Isso quer dizer que Senna, numa única volta, com o carro mais pesado e com pneus frios, fez simplesmente a terceira melhor marca da corrida!

Sem entrar no mérito sobre “se” Senna venceria aquela corrida ou se seria campeão naquele ano, alguém duvida que o panorama das suas voltas mais rápidas iria mudar?

Marcel Pilatti

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

2 Comentários

  1. Guilherme Guizi disse:

    Não canso de ver o final dessa volta de classificação do Senna no Pacífico. É demais! teve outro lance que mostra como ele tava no limite naquela volta e com aquele carro.

    • Marcel Pilatti disse:

      Oi, Guilherme

      Inseri no texto, onde diz “a última obra-prima”, link para matéria que escrevi sobre esta pole position.

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