Autodromicídio

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Tenho escrito diversas vezes ao longo dos últimos anos que o esporte a motor só sobreviveu aos altos custos, aos inúmeros acidentes e aos mais diferentes contextos sociais desde fins do século XIX, porque fincou suas bases sobre sólidas e básicas paixões humanas. Em especial o desafio aos limites (da velocidade, da tecnologia e do destemor…), e o fascínio pelo dinheiro. Necessariamente nessa ordem, no que se refere aos entusiastas das corridas, até porque sempre houve meios mais eficazes de se prosperar financeiramente. Nelson Piquet e Eddie Irvine que o digam.

A forma como cada indivíduo ordena essas paixões, aliás, bem que poderia servir como um critério de definição de público-alvo bastante nítido, identificando estas pessoas que, como nós, por algum motivo nasceram com o gene da gasolina nas veias. A bem da verdade, quando se pensa no tipo de impacto individual que o automobilismo desperta, não existem muitos tons de cinza. Chato, repetitivo e injusto para alguns; magnífico, inigualável e completo para outros. Um esporte tão maniqueísta, que para muitos nem mesmo merece ser chamado como tal.

E esse talvez seja o ponto central, para compreendermos a mecânica de autodromicídio que, em intensidades maiores ou menores, vem fazendo sombra constante sobre determinadas pistas, no Brasil e no mundo.

O caso clássico sempre será Jacarepaguá. Uma das seis únicas pistas no planeta a já ter recebido Fórmula 1, MotoGP e Fórmula Indy, Jacarepaguá foi construída numa das áreas mais bonitas já destinadas a um autódromo. O traçado, por sua vez, era repleto de curvas de média e alta, o nível do mar permitia funcionamento máximo a motores e aparatos aerodinâmicos, e a topografia plana permitia visibilidade total a quem estivesse nos degraus mais elevados das arquibancadas. Sem falar na posterior construção do oval, que tornou o complexo ainda mais rico, ao menos sob o ponto de vista esportivo.

Oficialmente, a agonia de Jacarepaguá começou há exatos 10 anos, quando o Rio de Janeiro foi escolhido para sediar os Jogos Pan-Americanos de 2007. As causas reais, no entanto, estavam latentes há muito mais tempo.

Quando foi idealizado, o autódromo do Rio ficava numa zona isolada da cidade, cercado de grandes casas, sítios e chácaras. Resumindo: Jacarepaguá era “longe pra caramba”, como já dizia a letra do Jota Quest. O Rio, no entanto, é uma cidade espremida entre o mar e as montanhas, e seu crescimento sempre apresentou traços de linearidade. Primeiro, foi a Zona Sul, e então, a Zona Oeste. Copacabana, Ipanema, Leblon, São Conrado, Barra da Tijuca…

O avanço irrefreável da urbe engoliu tudo em seu caminho, dando origem a um bairro diferente de todos os outros. Moldado à imagem de uma nova classe emergente, disposta a viver em condomínios cujo grau de suficiência remete aos antigos castelos feudais, e a depender do carro para ir a qualquer lugar que seja fora de seus domínios. E assim a Barra chegou ao autódromo.

Estive lá recentemente, podendo circular por um desses novos condomínios, que dão o tom atual da construção civil para classes A e B na Cidade Maravilhosa. E, basta ver o lugar a partir de um andar mais elevado, para compreender com nitidez a natureza e a magnitude dos interesses que condenaram o autódromo do Rio. Falando claramente, é dinheiro demais, poder demais, concentrado nas mãos de pessoas que olham para uma pista e veem um terreno a ser explorado, e não uma catedral.

Passados todos esses anos, sinto que o recado vindo do Rio de Janeiro talvez não tenha sido compreendido em todo seu significado. Existiu desde sempre um forte preconceito, raramente verbalizado, de que tudo poderia ter sido evitado e a destruição só teria acontecido porque “carioca não gosta de automobilismo”. Abraçando essa premissa, parcialmente verdadeira mas totalmente reducionista, entusiastas de outros cantos do Brasil mantiveram o sono tranquilo, acreditando tratar-se de um episódio isolado.

A história, no entanto, não é virgem em relação a tais situações. Pouca gente se lembra, por exemplo, que em meados da década de 50 Interlagos viveu situação muito parecida, quando acordou deitada sobre os trilhos do progresso e só não foi loteada pela Companhia Estradas S.A. por conta da atuação firme de gente como o saudoso Barão Wilson Fittipaldi. Para além de bairrismos e generalizações, portanto, riscos sempre existiram. E sem uma CBA forte e atuante, agora parecem ter chegado a Curitiba.

Vazaram, há coisa de poucos dias, rumores a respeito da pista paranaense permeados pelo mesmo tom progressista que lançou Jacarepaguá nas páginas da história. Como argumento, a mesma ladainha de sempre: a cidade cresceu, e de repente a pista tornou-se um obstáculo à construção de novos condomínios de luxo. E aí? Será que vamos perder mais uma importante praça do esporte a motor nacional?

No momento em que escrevo essas linhas, uma nota em resposta aos rumores é divulgada no site da pista. Nela é possível ler que “O AIC é de propriedade privada e portanto passa por estratégias e conceitos empresariais. Se eventualmente acontecer uma proposta concreta, seremos os primeiros a divulgar a notícia.”

Minha leitura a respeito dessas palavras dificilmente poderia ser mais negativa.

Claro que muita água ainda precisa passar por debaixo da ponte, e de forma alguma a questão deve ser encarada com derrotismo. Há que se lutar pela preservação da pista, e todos nós faremos isso, como sempre fizemos. Ainda assim, parece pertinente um questionamento acerca de soluções para os autódromos futuros, de modo a evitar que o mesmo conflito de interesses possa continuar a reduzir o potencial de nosso esporte favorito.

Há pouco mais de dois meses eu venho orientando informalmente uma arquiteta que me procurou em busca de informações para projetar um autódromo Grade 3 numa importante cidade do interior paulista. O projeto conta com uma importante rede de apoio, mas até o momento não existe nenhuma garantia de que venha a ser implementado. De qualquer forma, a migração de pistas de porte secundário para cidades médias ou de interior, ou ainda capitais menos inchadas, distantes do eixo Rio-São Paulo, parece ser um caminho natural, considerando o potencial propagandístico eternamente atrelado às corridas (vide Manama, Spa, Nürburg, Le Mans ou Indianápolis). Podemos lembrar, por exemplo, que Goiânia chegou a ter uma etapa fixa da motovelocidade nos anos 80, e não vejo qualquer motivo para acreditar que esse tipo de evento não possa voltar a acontecer, caso sejam mobilizadas as devidas forças políticas e empresariais.

É fato que esportes a motor precisam da televisão, e também por isso precisam de circuitos fechados. Autódromos, por sua vez, são invariavelmente grandes, e demandam enormes áreas que poderiam servir a outros propósitos. Pressões econômicas, portanto, sempre existirão, tornando ainda mais importantes as contrapartidas financeiras que justifiquem suas existências. Sob esse aspecto, cidades de médio porte têm muito mais a ganhar com a construção de autódromos do que grandes centros de turismo consolidado, como é o caso do Rio de Janeiro. O que nos deixa diante de dois caminhos principais em relação a tais metrópoles.

De um lado, resta a opção dos circuitos citadinos, como aquele utilizado pela Fórmula Indy quando corre em São Paulo. Pistas assim não ocupam espaço no restante do ano, e ainda apresentam a facilidade de serem relativamente moduláveis e flexíveis. Sob o aspecto esportivo, no entanto, a maior parte dos traçados fica a dever em termos de desafio puro, salvo exceções de cunho mais tradicional, sempre capitaneadas pelo espetacular Circuito da Guia, em Macau.

A outra solução para as grandes capitais talvez possa vir de Abu Dhabi, e do complexo que abriga o GP local em Yas Marina. Pistas desenhadas em meio a conjuntos turísticos ou esportivos, parques de diversões ou qualquer outro empreendimento conjunto que seja capaz de explorar e aproveitar o interior do perímetro nascem, certamente, sob um signo de maior sustentabilidade e segurança. Especialmente se houver um diálogo arquitetônico direto entre as demais estruturas funcionais e o próprio traçado, de modo a vincular seus destinos. Algo que havia sido originalmente previsto para Jacarepaguá, mas que jamais chegou a sair do papel.

Diante dos fatos e dos rumores, portanto, acredito que seja válida e urgente esta discussão, a fim de que sejam pesquisadas soluções para os problemas e riscos envolvendo os autódromos brasileiros na atualidade. Afinal, enquanto discutimos quais estados gostam mais do esporte a motor, os índices de audiência revelam que, no País inteiro, somos uma minoria sem taxas de renovação.

E se já não podemos vencer num confronto direto, como nos anos 50, então talvez devamos seguir o velho ditado que orienta a buscar meios de unir interesses àqueles que nos ameaçam.

Forte abraço a todos,

Márcio Madeira da Cunha

Márcio Madeira
Márcio Madeira
Jornalista e Engenheiro mecânico, nasceu no exato momento em que Nelson Piquet entrava pela primeira vez em um F-1. Sempre foi um apaixonado por carros e corridas.

6 Comments

  1. egidio manoel disse:

    comvem ler a materia do site nobres do grid sobre a pista. mesmo na foto aerea, percebe-se que são bairros da classe c e d em volta. em moro em um deles. outra coisa, a pista se paga, não da mas tb não tira dinheiro do bolso dos donos.
    e dividido em 3 a propriedade da area, parte dela esta ainda em inventario. se fosse construido um condominio de alto luxo, seria uma ilha de riqueza no meio de gente simples. ja tem saido ofertas no mercado imobiliario de imoveis a preço de custo, dai meter um caminhão de dinheiro num terreno desses, ate pode sair, mas acredite, me informei com boas fontes e ate agora ninguem fez oferta alguma, e so interesse mesmo.
    fora que o presidente do aic gosta do que tem.

  2. Annibal Silva disse:

    oi Marcio, vale a pena ler a matéria que o Eloi Gaspari publicou domingo passado (17 de julho) no O Globo “Haddad precisa das Liçoes da Carlos Lacerda”. Aborda o uso dos espaços públicos nas cidades, citando a possibilidade de Interlagos ser um parque aberto. “quando a prefeitura quer, Interlagos vira área pública . . .Neste ano estão programados uns 20 eventos, todos motorizados . . . Nos dias vagos, nada”. Vai além, dando exemplos mundo afora: “Não existe autódromo dentro da malha urbana da cidade sem que haja ali um parque. O de Monza convive com as pistas.”

  3. Lucas dos Santos disse:

    Belo texto, Márcio.

    O que me irrita profundamente nessa história é ver inúmeros comentários radicais em sites do nível do G1 apoiando o “autodromicídio”. Os apoiadores dessa ideia argumentam que as casas construídas no espaço previamente ocupado pelos autódromos seriam mais úteis para a sociedade. Na visão deles autódromos são “monstros capitalistas” que só servem para “riquinhos brincarem com seus brinquedos caros” e tem mais é que serem destruídos para a construção de casas no local.

    É claro que boa parte do pessoal que afirma isso é formada por “trolls”, que só querem causar confusão. Mas há quem apoie seriamente essa questão e é realmente triste que muita gente pense dessa maneira.

  4. Mauro Santana disse:

    Acredito que Santana Catarina com o projeto na Penha do Autódromo a ser construído no parque Beto Carreiro, seja excelente.

    Porem, como muitas coisas aqui no Brasil, só vou conseguir acreditar quando estiver pronto.

  5. Fernando MArques disse:

    É uma pena que as nossas cidades, quase todas em sua maioria, sejam mal projetadas … ao contrário haveria a meu ver espaço para tudo … escolas, hospitais, centro comerciais, centro residenciais, e centros de entretenimentos …
    Eu, discordando um pouco do Mauro, não acho que o automobilismo tenha perdido em importância … houve sim uma febre na época do Senna que depois voltou ao normal com a sua morte … quem curtia apenas Senna nunca mais quis ver corridas de Formula 1 … quem curtia o automobilismo em si, curte até hoje … mas concordo com ele que precisamos de um novo gás, um novo campeão … sempre ajuda …
    O que precisamos é de continuidade …
    Veja bem se o autómodromo paranaense é privado e seus donos estão tendo prejuizos financeiros, como resistir uma proposta imobiliaria???? …
    Aqui no Rio a causa já é perdida, nem sei se vale mais algum debate … a não ser que apesar dos pesares será construido um parque esportivo que pode ser um grande legado para a cidade e se teremos realmente uma nova pista em Deodoro … isto por que vejo muita pouca vontade politica neste sentido alem de muitas bombas para estourar …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  6. Mauro Santana disse:

    O negócio é sair as ruas, mas o grande problema é que hoje, infelizmente o brasil não tem mais ídolos em atividade como fora nos tempos do Emerson, Nelson e Ayrton, e sendo assim, nós amantes acabamos perdendo força.

    Ou aqui alguém tem alguma duvida que “SE” tivéssemos vivendo o HOJE a era de pelo menos um dos nossos três campeões, a história seria bem diferente, e certamente, Jacarepaguá estaria vivo e o AIC não estaria ameaçado.

    Mas, hoje, no Brasil, os ídolos são outros, e o automobilismo já não tem mais tal importância como um dia já teve.

    É isso, não sei nem mais o que dizer, pois confesso, é só notícias ruins recheadas de tristezas.

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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