Balé imperfeito

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Na terra de grandes dançarinos como Mikhail Baryshnikov e Rudolf Nureyev, a Ferrari decidiu montar um balé durante a largada do Grande Prêmio da Rússia, com o intuito de fazer uma dobradinha, perdida ontem numa volta sensacional de Lewis Hamilton. Ao conquistar a pole neste sábado, Charles Leclerc parecia que estava pronto para conquistar sua terceira vitória em quatro corridas e entrar, pelo menos, na luta pelo vice-campeonato, além de corroborar a grande evolução da Ferrari nessa segunda parte do campeonato.

No apagar das luzes vermelhas, Vettel saiu como um raio e deixou Hamilton para trás e na longa jornada até a primeira grande freada, Vettel colocou por dentro de Leclerc para assumir a ponta da corrida. A falta de combatividade do monegasco surpreendeu a todos, porém não demorou muito para que os rádios trocados entre Ferrari e seus pilotos escancarassem uma manobra combinada entre Leclerc e Vettel para que a Ferrari conseguisse a dobradinha na largada. Foi um balé digno de Bolshoi. Porém, quando precisaria mudar quem liderava a dança, o balé desandou por completo e a Ferrari deu outro espetáculo de incompetência num dia que se desenhava toda dela, mas táticas esquisitas, falta de confiabilidade e falta de sorte culminou com uma dobradinha da Mercedes, com Lewis Hamilton mantendo a hegemonia da Mercedes no insosso circuito de Sochi.

Após tantas corridas boas, a F1 chegou num local onde normalmente as corridas não são boas e Sochi não ‘decepcionou’. Fatalmente a prova de hoje só não pode ser comparada à tenebrosa corrida de Paul Ricard pelas várias histórias ocorridas, principalmente pelo potencial do que poderá acontecer fora das pistas. A largada combinada da Ferrari parecia uma grande sacada no início da prova, mas Vettel ter ignorado a troca de posição com Leclerc como eles combinaram deu o tom do que pode ser o início de uma briga interna que há muito tempo não se via dentro da Ferrari.

Enquanto Leclerc ficava uma arara atrás de Vettel, Hamilton acompanhava a dupla da Ferrari com seus pneus médios, indicando claramente que pararia depois da Ferrari. Enquanto a Ferrari quebrava a cabeça em como trocar a posição dos seus pilotos, Hamilton tentava fazer funcionar a estratégia que a Mercedes tentou em Cingapura: esperar o safety-car. E hoje deu tudo certo! E com ajuda da Ferrari…

Com Vettel num bom ritmo a Ferrari não conseguiu efetuar a troca de posição na pista, mas o fez nos boxes.Leclerc fez seu pit-stop três voltas antes de Vettel e o monegasco usou bem seus pneus médios novos para superar o companheiro de equipe quando ele voltou à pista, enquanto a dupla da Mercedes ficava na pista. Contudo, o motor de Vettel entregou os pontos logo depois da parada do alemão, trazendo o safety-car virtual que se provou decisivo. A Mercedes trouxe seus carros para os pits e Hamilton emergiu na frente de Leclerc. Com a Williams de George Russell no muro e o safety-car real na pista, a Ferrari ainda tentou diminuir o prejuízo, mas acabou o aumentando. Confiando na potência do seu motor, mas com pneus inferiores (a Mercedes estava de macios e a Ferrari estava com os médios), a Ferrari chamou Leclerc para os pits colocar os pneus macios e enfrentar a Mercedes com os mesmos ‘calçados’. Tudo certo para Leclerc? Não. Agora atrás da segunda Mercedes de Bottas, mesmo claramente mais rápida na enorme reta dos boxes, a Ferrari tinha nítidas dificuldades no último setor da pista e mesmo podendo abrir a asa, Leclerc não conseguia a aproximação ideal para tentar qualquer manobra no final da reta dos boxes em cima de Bottas, que calmamente segurou a segunda posição e garantiu uma improvável dobradinha para a Mercedes. Se em Cingapura a Mercedes foi uma besta, hoje foram bestiais!

Claro que o não cumprimento do acordo de Vettel com Leclerc e a Ferrari terá consequências nos próximos dias. O alemão pode parecer gente boa e soltar algumas frases divertidas, como no abandono de hoje, quando solicitou gentilmente para que a Ferrari trouxesse a porra dos motores V12 de volta! Contudo, não é a primeira vez que Vettel tem problemas sérios de hierarquia com sua equipe e não cumpre algo com o companheiro de equipe. Mark Webber teve que engolir alguns sapos homéricos com algumas atitudes não muito éticas de Vettel nos tempos de Red Bull. Alguém falou Multi 21 aí?

Ter gana de vencer é muito importante, mas a postura de Vettel não foi das mais corretas com sua equipe, que perdeu uma vitória que parecia genuína desde sexta-feira e colocou uma questão no ar: se Leclerc tivesse assumido a ponta no momento combinado, ele teria construído vantagem suficiente para não ser ultrapassado por Hamilton no momento do safety-car? Essa pergunta irá pairar sobre a desobediência de Vettel e a dolorida derrota da Ferrari de hoje. Leclerc sai como vítima da ambição de Vettel, mas pelo menos subiu ao pódio, com MattiaBinotto com cara de pouquíssimos amigos embaixo do pódio. Mesmo com os dois títulos desse ano sendo algo inalcançável, a Ferrari vinha numa ótima maré, mas a falta de pulso de Binotto causou um constrangimento que poderá por ainda mais fogo no ambiente da Ferrari.Hamilton não teve nada com isso e partiu para a sua 82º vitória e já está fazendo contas de quando ele comemorará o hexacampeonato.

Enquanto isso em Barkley,Toto Wolff olha para o que está acontecendo na Ferrari e demonstra com todas as letras que a renovação de Bottasé extremamente lógica, mesmo que desagradando boa parte dos fãs da F1, inclusive a quem vos escreve. O finlandês não incomoda o juízode Lewis Hamilton e ainda garante pontos importantes para a Mercedes no Mundial de Construtores, além de estar numa confortável vice-liderança do Mundial de Pilotos. Já na Ferrari, pode estar começando a se iniciar uma luta aberta entre um multi-campeão estabelecido e um jovem talento querendo aparecer. Foi justamente isso que Toto Wolff evitou ao liberar EstebanOcon.

Max Verstappen fez o seu arroz-com-feijão após largar em nono devido à sua punição pela troca de motor Honda para chegar na quarta posição, mas o holandês e a Red Bull estão focados mesmo em Suzuka, pista caseira da Honda e que onde os japoneses farão de tudo para vencer. Porém, o grande nome da Red Bull hoje foi Alexander Albon. Após o erro na classificação de ontem, o tailandês largou dos boxes rumo a um excelente quinto lugar, efetuando várias ultrapassagens no caminho e se tornando o favorito a ser o companheiro de equipe de Max em 2020.

Ao lado de Vettel, Carlos Sainz teve a melhor largada do dia com o espanhol chegando a emparelhar com Hamilton na freada, mas o piloto da McLaren pouco pôde fazer contra a segunda Mercedes de Bottas e a dupla da Red Bull, garantindo a sexta posição e o simbólico lugar de melhor do resto. A McLaren começa um interessante processo de reestruturação após os anos terríveis ao lado da Honda e de Alonso. A chegada de dois pilotos jovens (Sainz e Lando Norris), além de uma liderança totalmente nova (Andreas Seidl e Gil de Ferran) fez que a McLaren evoluísse e já superar sua parceira Renault, que hoje só marcou um pontinho com o demissionário Nico Hulkenberg. Nesse final de semana foi anunciado que continuando esse trabalho de retorno ao pelotão dianteiro, a McLaren voltará a usar os motores Mercedes em 2021, indicando a ambição em retornar ao lugar que a McLaren sempre esteve: na ponta. Por outro lado, outra equipe tradicional e que muito lutou com a McLaren por títulos vai se apequenando cada vez mais. A gloriosa Williams mandou Robert Kubica encostar seu carro em perfeitas condições para economizar peças para as corridas vindouras, fora da Europa. Ano passado Williams e McLaren fecharam o pelotão algumas vezes, mas enquanto a McLaren trabalha para reverter a situação e retornar aos anos de vitórias e títulos, a Williams vai se afundando e se tornando tudo o que Frank Williams não mereceu estar vivendo.

Lewis Hamilton teve muita sorte na vitória de hoje, onde capitalizou a clarachance que lhe apareceu e a agarrou com as duas mãos. Se alguém der qualquer brecha para Hamilton, ele a agarra e hoje o inglês ainda foi ajudado pela sorte de um safety-car na hora correta. Quando Michael Schumacher vencia seguidamente nos seus anos dourados (ou vermelhos), muita gente falava da sorte do alemão. Existe campeão azarado? Não, existe competência premiada pela sorte, enquanto a Ferrari deixou escapar a vitória e ainda viu seus pilotos estranharem em mais uma presepada do seu comando.

Em suma, a situação dentro da Ferrari está russa e Leclerc ficou… Putin! 🙂

Abraços!

João Carlos Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

1 Comment

  1. Fernando Marques disse:

    JC,

    perfeita a analise da corrida.
    Duvido que Vettel vai se sujeitar a ser piloto 1B na Ferrari … creio que teremos grandes duelos na pista, desde que ambos tragam o carro inteiro para a garagem ao fim das corridas e que a Ferrari deixe(???) …
    Hamilton como piloto já mostrou mais que mostrado que está num patamar acima dos demais na Formula 1.
    A Mercedes mostrou mais uma vez que em termos de estrategia está também num outro patamar bem acima …
    O que me espanta é porque de tanta bobagem estratégica da Ferrari, já que era mais que sabido que a Mercedes faria uma “perna longa” na primeira parte da corrida pois usou pneus médios no Q2, enquanto o Leclerck bem poderia ter largado na frente e ter ditado um ritmo forte de corrida que jamais poderia ser seguido pela Mercedes por causa dos pneus …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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