Barbada do ano

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Não havia maneiras de Lewis Hamilton perder, na pista, esse GP da Grã-Bretanha – apenas um infortúnio muito pestilento tiraria sua vitória. Desde os treinos, o inglês foi superior, sua pole foi de tirar o fôlego e a festa após a bandeirada foi bonita demais, rapidamente associável às belas vitórias de Nigel Mansell, no mesmo palco, em 1987 e 1992. Faz-se o registro que testemunhamos mais um Grand Slam na F1: pole, vitória de ponta a ponta e volta mais rápida.

Eu adoro ver essas vitórias populares, quando o patrício faz a lição de casa e o público delira (algo que jamais vai acontecer numa Malásia ou Bahrein da vida). Lembram-se quando Fernando Alonso ganhou o GP de Valência em 2012 escalando o pelotão? Coisa linda.

Nessa vitória, com tamanha competência, um dos fatores a ser destacado é que, na guerra de pacotes, quem está com o melhor pacote do momento é a Mercedes. O time prateado conseguiu anular a leve superioridade de ritmo de prova que a Ferrari apresentou nas primeiras corridas do ano. Tanto que Hamilton conseguiu controlar com maestria seu ritmo de prova sem ser ameaçado, e Valtteri Bottas conseguiu completar a dobradinha, mesmo tendo partido da 9ª colocação, fruto de uma troca de câmbio.

Enquanto isso, a Ferrari, que tinha até então maior suavidade com os pneus, viu seus dois carros com seus dianteiros esquerdos que rasgaram nos quilômetros finais, jogando Kimi Räikkönen para 3º, e Sebastian Vettel ainda mais longe, para 7º. Aquela vantagem que Vettel tinha na tabela de pontos desapareceu: ele segue líder com 177 pontos, mas Hamilton agora tem 176.

Chegamos à exata metade do campeonato com uma disputa de pontos emocionante, mas não consigo enxergar poder de reação da Ferrari. OK, a próxima corrida vai ser na travada Hungaroring, e a Ferrari foi bem em Mônaco, e ainda teremos pela frente pistas travadonas como Cingapura (que eu gosto) e Abu Dhabi (que eu abomino).

Entretanto, a Mercedes parece já ter retomado um patamar de superioridade e tem chances de se sair melhor em pistas com médias horárias mais elevadas, como Monza, Spa, Suzuka, Hermanos Rodríguez e Interlagos. Minha dúvida maior fica para Sepang, onde as forças devem ficar equilibradas. Isso quer dizer que, quando passamos essa régua de previsões, a Mercedes tem mais pistas supostamente favoráveis, ainda mais em um cenário em que a Ferrari completa sua quarta corrida sem vencer.

O que espero, então, da outra metade da temporada? Mais tempo de Mercedes na frente. Um dos mais importantes fatores vai ser Valtteri Bottas. Ele já roubou pontos importantes de Hamilton nessa primeira metade, agora a Mercedes (lê-se Toto Wolff e Niki Lauda) tem que trabalhar para que ele roube pontos importantes de Vettel – que tem toda a Ferrari trabalhando para si.

Mesmo com um terceiro lugar na tabela bem próximo dos dois candidatos ao título (154), Bottas não é candidato ao título. De fato, o que podemos esperar é que ele seja um atormentador de Vettel, e que uma renovação de contrato com o time esteja ligada a bons serviços para que a Mercedes seja campeã de construtores (está a caminho disso: 330 x 275 da Ferrari), e que Hamilton consiga derrotar Vettel.

Um exemplo do que podemos esperar de Bottas aconteceu em Silverstone. Ele flagrantemente tirou o pé para que Hamilton pudesse voltar à sua frente assim que saiu dos boxes. O finlandês virou 1:32.231 na volta 22; 1:32.166 na 23; 1:32.194 na 24; 1:32.201 na 25… e 1:33.519 na 26, justamente a de retorno de Hamilton na pista. Na 27? Voltou a virar rápido, 1:32.458.

Nessa equação, claro, Hamilton precisa fazer sua parte, é o que se espera de um campeão que quer recuperar seu trono. Não pode mais ter fins de semana apagados, como no Azerbaijão, ou na Áustria, nos quais não conseguiu demonstrar seu grande talento.

Os dois únicos pilotos que pontuaram em todos os 10 primeiros GPs do ano são justamente os líderes Vettel e Hamilton. Uma quebra ou abandono ainda não influenciaram nessa disputa cabeça a cabeça. Mas tenham certeza que, quando um abandono acontecer, vai ser mais importante do que as pontuações em si.

Este fim de semana foi de comemorações. A Williams escolheu seu GP caseiro para celebrar os 40 anos da formação da equipe como a conhecemos, depois de Frank Williams ter se metido em muitas furadas até se reerguer junto ao fiel companheiro Patrick Head. Em dois anos, eles estariam vencendo corridas e escrevendo uma história bonita na F1.

Gostaria muito de ver a Williams mais competitiva, retomando o caminho das vitórias. Não faz muito tempo, e os carros que hoje levam o lendário layout da Martini estavam disputando a vitória na Áustria e na Grã-Bretanha, dois lugares em que o time não apenas ficou longe disso, como teve que remar muito partindo do fundo do pelotão, já que naufragaram na qualificação.

O fim de semana também marcou os 40 anos da estreia de Gilles Villeneuve na Fórmula 1, este personagem tão marcante para a categoria. A bordo da terceira inscrição da McLaren, um velho chassi M23, há quem diga que Gilles rodou em todas as curvas nos treinos para alcançar os limites da pista, que na época era composto só de curvas velocíssimas. Ele terminaria a corrida em 9º lugar, e no fim do ano seria chamado às pressas para o lugar de Niki Lauda, que ganhou o título e mandou uma banana para a equipe.

James Hunt, com o modelo M26, venceu a corrida, naquele que seria os últimos suspiros de competitividade da McLaren sob a batuta de Teddy Mayer. Aqueles eram tempos de revolução aerodinâmica, e quem ditaria os rumos da categoria seria a Lotus, com a introdução do carro-asa. O título daquele ano só não aconteceu porque o carro ainda não tinha confiabilidade, mas em 1978, a Lotus sobrou.

E por falar em revolução, a última comemoração, também de 40 anos, é a da estreia da equipe Renault na Fórmula 1 – celebrado com um bom 6º lugar conseguido na corrida por Nico Hülkenberg. Foi em Silverstone 77 que o time francês chegou com seu primeiro carro amarelo, o RS01, pilotado por Jean-Pierre Jabouille, que com seus conhecimentos de engenharia, também ajudou no projeto do carro.

O chassi em si não era importante ou impressionante, mas o motor sim. Era o primeiro turbo da F1, e que, a despeito da descrença inicial de todo o paddock, decretaria para os anos seguintes a maneira de se construir motores para a categoria após anos de sucesso do Cosworth DFV – uma história contada pelo meu amigo Mário Salustiano.

E é o próprio Mário quem vai trazer na próxima coluna mais detalhes sobre a Renault e seu DNA de competição, que nos remete aos primórdios do automóvel. Imperdível, né?

Abração!

Lucas Giavoni

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

3 Comentários

  1. Lucas disse:

    Lucas, vendo a corrida da stock car domingo e lendo sua coluna hoje me veio a dúvida: é grand slam ou grand chelem? Porque quando a múmia disse grand slam, na hora falei que nem o nome certo ele sabia. E agora ao ler seu texto encontro grand slam também. Saudações do lado B!

  2. Fernando Marques disse:

    Lucas e Mauro,

    a minha torcida para esta segunda metade de campeonato, é para a Ferrari voltar a reagir novamente … e para isso precisa voltar a vencer corridas e já faz um tempinho nesta temporada que isso não acontece … só que neste momento a minha torcida pode ser em vão pois não vejo a Ferrari com força para isso e se for realmente verdade o que penso, Hamilton vai dar aquele passeio pois a Mer cedes estão levantando poeira, já o Bottas primeiramente tem que se preocupar em fazer um bom campeonato e não necessariamente andar mais que o Hamilton para ter seu contrato renovado ao fim de ano … este é o objetivo principal dele … e se continuar assim vai conseguir ficar na Mercedes …
    E aí a grande peça deste jogo de xadrez será o Alonso … o que ele fará??? … Fica ou sai da Formula 1 …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  3. Mauro Santana disse:

    Grande Lucas!

    Por isso que o Hamilton abraçou Bottas de maneira tão calorosa, pois tivesse o finlandês voltado a sua frete, e sim, teríamos um Hamilton fazendo biquinho no pódio.

    A meu ver, no momento certo, Bottas dará o bote pra cima do inglês(estou torcendo pra isso), principalmente se o contrato com a equipe alemã for de apenas 1 ano.

    Nos resta aguardar.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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