Biscoito Fino

Charlatanismo
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Nunca mais título, nunca mais glória, nunca mais mito, nunca mais honra lavada, nunca mais feliz. Enquanto o espírito vencedor do Brasil minguava na Fórmula 1, o futebol renascia.

A bola na marca da cal. Dez passos para trás. Um corte de cabelo esdrúxulo, mas isso não vem ao caso. Corre com passinhos miúdos, chuta forte com a perna direita. A bola passa em cima do travessão. “Acabou, acabou, é tetra, é tetra, é tetra.” Ao fundo, antes que Roberto Baggio erguesse os olhos do lodo da vergonha e que Taffarel abaixasse os braços erguidos em glória, o “Tema da Vitória” começou a tocar.

“Tan-tan-tan… tan-tan-tan”. E assim, naquele 17 de julho de 1994, dois meses e dezesseis dias depois da Tamburello, Ayrton Senna morria mais uma vez. A faixa dos jogadores brasileiros, homenageando o herói, só reforçou o que a música, minutos antes, reacendeu na torcida. Celebração e luto.

Um dia depois da derrota traumática para a França, na Copa de 1986, Senna elevou o moral da nação ao vencer nos Estados Unidos e agitar uma bandeira do Brasil. Virou um gesto, uma marca, fundou o mito. Era como se, naquele momento, mandasse um recado: eles não conseguiram, consigo eu. Naquele 17 de julho, a seleção irmanada nas honras póstumas parecia dizer: ele nunca mais vai conseguir, conseguimos nós.

Que praga…

Nunca mais título, nunca mais glória, nunca mais mito, nunca mais honra lavada, nunca mais feliz. Felipe Massa chegou perto, muito perto, mas feito um Ícaro que voou perto demais do sol, queimou suas asas, murchou, despencou. Enquanto o espírito vencedor do Brasil minguava na Fórmula 1, o futebol renascia.

É provável que não passe de coincidência o fato de que os oito títulos brasileiros na Fórmula 1 tenham ocorrido, sem exceção, em tempos de vacas magérrimas no futebol. O Brasil conquistou o tricampeonato, que lhe rendeu a posse definitiva da Taça Jules Rimet, em junho de 1970. Em 4 de outubro do mesmo ano, Emerson Fittipaldi consegue a primeira vitória brasileira na Fórmula 1.

Entre o primeiro título de Emerson, em 1972, e o último de Senna, em 1991, aconteceram cinco Copas do Mundo, uma pior que a outra para a seleção brasileira. Em 1974, a primeira sem Pelé, desde 1958, o Brasil se perdeu no carrossel holandês. A Copa realizada na Argentina, quatro anos depois, foi a da marmelada, deixando o Brasil com a humilhante condição de “campeão moral”. Quando um time nacional reacendeu as esperanças brasileiras, paramos traumaticamente nos pés de Paolo Rossi, em 1982. No México, em 1986, a derrota nos pênaltis que ensejou a reação patriótica de Ayrton Senna. Tantas cacetadas depois, e a seleção de 1990 parecia não inspirar entusiasmo nem simpatia, e o fato de ser eliminada pela arquirrival Argentina foi insuficiente para causar grande comoção na plateia.

Se o futebol brasileiro começou a se parecer com uma fonte quase inesgotável de decepções nas décadas de 1970 e 1980, a Fórmula 1 foi ocupando espaços, não apenas com a transmissão das corridas ao vivo, mas também nos noticiários e com a presença dos pilotos em outros nichos da mídia, inclusive na propaganda.

Emerson anunciando autorama, barbeador e bateria para carro. Nelson Piquet ajudando a vender laticínios, plano de saúde ou eletrodomésticos. Senna como garoto propaganda de banco, de marca de automóvel ou de relógios. E até Maurício Gugelmin vendendo salsicha e Rubens Barrichello anunciando ketchup. Em muitos casos, a associação de imagens estava vinculada a patrocínios dos pilotos na própria Fórmula 1. Em outros, era a simples utilização de uma personalidade de relevo a serviço de uma marca. Fosse como fosse, a vinculação da imagem desses esportistas a etiquetas de prestígio denota a popularidade que pilotos de Fórmula 1 atingiram no país nesse período.

A Fórmula 1, no Brasil, era um esporte de massa, e não é mais.

Pode ser sido mera coincidência a ascensão da Fórmula 1 e a decadência do futebol. O que não dá para colocar na conta do acaso é a abordagem que parte da mídia, especialmente a TV, continuou fazendo da categoria. Tínhamos campeões mundiais que emprestavam seus rostinhos manjados para vender produtos e serviços porque, de fato, suas imagens agregavam mais valor que champanhe no camarote. Supor que essa relação permaneça nos dias atuais é mover-se em direção ao equívoco. Não, amigo, Felipe Massa não vai agregar valor à sua marca se aparecer como entregador de macarrão. Isso será, no máximo, um bom tema para piada.

O fato de ter se recolhido a um nicho no Brasil faz da Fórmula 1 um esporte para poucos? Vejamos. Há alguns meses, contribuí com a pesquisa do jovem jornalista Rodrigo Morel, do Rio Grande do Sul, que se dedicou a investigar as causas da queda da audiência da Fórmula 1 no Brasil nos últimos anos. Segundo dados dessa pesquisa, a audiência das corridas pela Rede Globo caiu quase 60% em relação ao ano de 2003. A média daquele ano foi de 21 pontos e neste ano é de 8,7 pontos (números do IBOPE, média parcial).

Um dos fatores que debati com ele, na época, foi a associação da audiência da massa na Fórmula 1 a conquistas brasileiras. A parcela de espectadores fiéis ao automobilismo é reduzida em relação à audiência interessada em triunfos brasileiros. A mesma situação se observa em outras modalidades, como o tênis, por exemplo, que também experimentou um aumento de interessados durante o auge do brasileiro Gustavo Kuerten. Morel questionou-me, também, sobre a opção da TV Globo por privilegiar eventos concomitantes a corridas, como um amistoso da seleção brasileira de futebol ou a visita do Papa Francisco, em detrimento à Fórmula 1. Por que isso acontece com maior regularidade atualmente?

Ora, porque o público brasileiro não está mais tão interessado em Fórmula 1 como esteve no passado. Ao contrário do que muitos acreditam, não acho que a TV tenha o poder de moldar o gosto popular, mas apenas o de responder a ele. E acredito, além disso, que a programação é estruturada com base em pesquisas que apontam as preferências populares. Desta forma, acho seguro afirmar que a maior parte da audiência da TV Globo estava mais interessada em futebol e na visita do Papa que na corrida de Fórmula 1, nos dois casos citados.

É fato que as audiências da TV aberta têm caído nos últimos anos, com vários fatores explicando o fenômeno: concorrência das TVs por assinatura, acesso a conteúdos pela internet, outras opções de entretenimento dentro e fora de casa etc. O “Jornal Nacional”, da própria TV Globo, marcava média de 39 pontos em 2000. Na metade deste ano, registrava 26 pontos, tendo atingido média de 28 pontos ao longo de 2012. Os números apontam que o público do telejornal mais famoso da TV brasileira encolheu em um terço na última década. Sim, as audiências de TV caíram em geral, mas o desinteresse pela Fórmula 1 foi ainda mais significativo, como mostra o levantamento acima, levando a categoria a perder mais da metade de sua audiência.

Parece verdade que a plateia da Fórmula 1 no Brasil reduziu-se pela falta de ídolos locais. Ainda assim, a categoria continua despertando interesse e – o mais importante para a emissora que a transmite – potencial de negócios. Podemos bater bumbo e nos arvorarmos “os verdadeiros amantes da Fórmula 1”, porque gostamos de corrida de carro, não necessariamente de ver um brasileiro vencendo. Mas não vamos nos esquecer de que o Brasil é um país com 200 milhões de habitantes. Números menores, aqui, ainda são números robustos.

Os dados do relatório de audiência divulgado anualmente pela Fórmula 1 comprovam. O Brasil foi o maior mercado da categoria tanto em alcance quanto em audiência média, com 85,55 milhões de pessoas sintonizadas para assistir ao recorde de 20 corridas em 2012. O problema maior, neste aspecto, é a queda de audiência global da categoria, como informou esse mesmo relatório. Antes de temer o que a TV local possa fazer com a Fórmula 1 – confiná-la a uma emissora por assinatura, passar apenas compactos das corridas, introduzir propagandas no meio das provas – acho que vale mais a pena questionar o que categoria tem feito de bizarrices para recuperar a audiência ao redor do globo. Porque a Globo pode apenas tratar mal esse biscoito fino que, vez por outra, adoça a vida da massa. Mas Bernie Ecclestone é quem escolhe os ingredientes da receita.

Alessandra Alves
Alessandra Alves
Editora da LetraDelta e comentarista na Rádio Bandeirantes desde 2008. Acompanha automobilismo desde 83, embalada pelo bi de Piquet e pelo título de Senna na F3.

5 Comentários

  1. Fernando Marques disse:

    Sem duvidas é muita coincidência …
    Não sou expert no assunto mas quando Senna morreu era comum ouvir de muitos que não assistiriam mais a Formula 1 por causa do drama/trauma que aquele acidente em Imola … ali naquele momento nasceram as “viuvas do Senna” … quem realmente gostava do automobilismo num todo jamais deixou de acompanhar a Formula 1 por causa da morte do Senna …
    Creio eu que este trauma não existe mais …
    A chamada queda de audiência em relação a Formula 1 aqui no Brasil não deve ser ligada apenas as conquistas da seleção brasileira de futebol depois daquele acidente … outros esportes brilharam e brilham no coração do torcedor tupiniquim … o voley é prova disso … tivemos o Gustavo Kuerten … o Cielo atualmente arrebenta na natação … tem o Falcão no futsal … e por aí vai … o torcedor brasileiro de certa forma está podendo se diversiificar neste sentido …
    O sol dá para brilhar para todos

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Fabiano disse:

      Concordo com o Fernando Marquez.
      A queda de audiência tem vários motivos, mas talvez o principal seja mesmo a variedade de opções de entretenimento existente nos dias de hoje, seja na TV, seja fora dela.
      E acrescento um aspecto à discussão: a possibilidade da paixão das pessoas pelo “esporte” estar diminuindo. Hoje temos acesso a muito mais informações do que tínhamos nos anos 70, 80 ou 90, e a categoria perdeu um pouco do seu encanto e mistério.

  2. Mauro Santana disse:

    Tema interessante e texto gostoso de ler, parabéns Alessandra!

    Puxando na minha memória, lembro que no GP de Detroit de 1986, aquele mesmo que você destacou no texto, não foi transmitido ao vivo pela RG, e sim em compacto, pois na mesma hora jogavam pela copa do mundo Argentina e Inglaterra.

    Também lembro que até a temporada de 1987 a RG por umas 4 vezes interrompia por uns 30 segundos a transmissão dos gps para dar espaço as propagandas de seus patrocinadores, e que isso a partir de 1988 não ocorreu mais.

    Mas o caso é o seguinte:

    Os tempos são outros.

    Hoje temos internet, e é possível acessar qualquer assunto voltado a F1 em um simples “click”.

    Antigamente não era tão fácil assim.

    Tínhamos alem das revistas especializadas como 4 rodas, Placar, Grid, e pela TV os programas Globo Esporte, Sinal Verde, e um ou outro especial a respeito da F1.

    Não é só a audiência da RG que caiu, mas também muitas assinaturas de revistas, pois muitos não às compram mais, pelo acesso rápido e fácil da internet.

    Sabe Alessandra, só quero ver como serão as coisas aqui no Brasil a respeito da F1 quando o sedã branco levar o senhor Bernie Ecclestone.

    Parabéns mais uma vez pelo texto.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Mário Salustiano disse:

      amigo Mauro

      Eu também sou desse tempo, agora para mim as coisas evoluíram para melhor nesse sentido, quando relembro que nos anos 70 as vezes ficávamos vários dias esperando sair uma publicação com mais detalhes sobre alguma corrida e hoje num click acessamos até alguns pilotos via twiter, ficou bem melhor.
      Sobre que pode acontecer aqui no Brasil depois do sedã branco (gostei dessa…rsrs)com o Bernie, se houver um bom dinheiro no negócio pode ter certeza que o ou os sucessores dele vão deixar continuar as coisas por esses lados

      abraços

      Mário

  3. Mário Salustiano disse:

    oi Alessandra

    Semanas atrás conversando eu e Lucas chegamos a rascunhar cerca de 5 perfis diferentes de torcedores de automobilismo, existem alguns estudos de marketing onde campanhas publicitárias e grades de programação levam em conta essas diferenças, e elas são levadas em conta na hora que se decide, se vão passar a visita do Papa ou a corrida de F1, hoje esses mecanismos são tão sofisticados quanto aquelas bancadas que vemos nas corridas dos engenheiros fazendo telemetria, ocorre que a parte da torcida que é digamos, conduzida pelos meios de mídia e formam sua opinião através desses meios, de cerca de 65 a 70% da audiência (existem estudos comprovando), e é esse publico que volatiza o resultado da audiência, tendo um conhecimento técnico mais restrito e pouca base para formar uma opinião própria, é o alvo perfeito para cair nessa onda ufanista, dos brasileirinhos contra o mundo e evidente comprar produtos que os vencedores vendem nas campanhas publicitárias.
    Se caisse outro raio no mesmo lugar e de repente Massa acertar uma temporada com vitórias e até títulos, ou algum brasileiro surgisse no cenário e desbancasse Vettel e a Red Bull, veriamos de repente como um milagre um monte de zumbis sairem do cemitério e inundarem o Brasil de ufanismo, o tam-tam-tam-tam!, voltaria a tocar sem parar e rapidamente nem lembrariam dessa fase de escassez, eu não acompanho futebol,nem de times nem copa do mundo, não conheço absolutamente nada…rsrsrs, mas como moro aqui no Brasil não sou de todo alienado sobre esse esporte e sentado aqui no meu cantinho vi isso ocorrer nos gramados barsileiros.

    bom feriado!!

    Mário

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