Capitalismo selvagem

As Lágrimas de Maio
07/05/2012
Barcelona!
11/05/2012

Ainda neste ano, ações da F1 serão vendidas na Bolsa. Sim, amigos, o capitalismo, quem diria, pode salvar a categoria da ambição indecente de Bernie Ecclestone. É minha torcida, é minha esperança.

A Fórmula 1 vai, finalmente, à Bolsa? Bernie Ecclestone e sua gang de amantes e praticantes do capitalismo mais selvagem e predatório vão finalmente se submeter às melhores práticas empresariais vigentes – governança corporativa, auditoria independente (se é que isto existe…), métodos e regulamentos rígidos e, o principal, transparência na gestão dos negócios?

Difícil acreditar, dados os precedentes dos indigitados. No entanto, é isso o que se anuncia: ainda neste ano, ações de uma empresa que reúne os negócios da F1 estariam sendo vendidas na Bolsa de Valores de Cingapura. O chefe da empresa seria Peter Braback-Letmathe, austríaco, ex presidente mundial da Nestlé. Bernie, 81 anos, seguiria à frente dos negócios, como seu principal executivo.

Não sei o quanto os leitores do GPTotal entendem de bolsa de valores. Imaginando que, como pessoas normais, não entendam muito, peço licença para algumas breves informações para chegar à minha conclusão. Uma empresa vai à Bolsa para vender parte dela própria. Quem a vende são os atuais proprietários (no caso da F1, o fundo de investimentos CVC, por meio de uma empresa chamada Delta Topco); quem compra as ações são investidores que acreditam que a empresa crescerá, se valorizando – o que permitiria ao comprador revender as ações por um valor maior – e produzindo lucros. Os donos geralmente vendem parte da empresa para obter recursos que possam ser reinvestido na própria empresa ou simplesmente para ganhar dinheiro, o que parece ser o caso da CVC. Importante: apenas muito raramente os proprietários da empresa perdem o controle sobre ela ao abrir o capital; eles seguem sendo os únicos responsáveis pela gestão, apenas tendo de dar satisfações e distribuir lucros, se houver, entre os demais acionistas. É este o caso da F1: a CVC anunciou que, agora, venderá apenas 20% das ações que detém da categoria. Por isso, continuará mandando, por meio de Bernie ou um outro executivo qualquer.

Não muitos anos atrás, bolsas de valores eram como o far west antes da chegada do xerife. O investidor comprava a ação e rezava para que o vendedor simplesmente não fugisse com o dinheiro. Havia até uma piada clássica nos anos 70: a Merposa anunciava abertura de capital e prometia lucros milionários, arregimentado milhares de investidores que, só depois de entregarem a ela suas economias, descobriam que o nome da empresa era uma abreviação de M… em Pó Sociedade Anônima.

Mas os tempos da Merposa ficaram para trás. Para ser negociada em Bolsa, uma empresa hoje precisa obedecer de forma estrita a regulamentos detalhados, para oferecer um mínimo de garantias aos investidores. Gestores que burlam as regras estão sujeitos até à prisão, ainda que isso não aconteça muito comumente.

Bernie Ecclestone terá, portanto, de ter os seus contratos com autódromos, TV e equipes absolutamente regulares e, senão públicos, passiveis de auditagem independente. Planos de longo prazo devem ser estipulados, balanços publicados, práticas gerenciais tornadas claras etc. Mutretas não deixam de ser possíveis mas se tornam menos prováveis até porque, como no futebol, não há mais bobos no capitalismo. Se a Delta Topco der bandeira, os investidores vão fugir dela, os preços das ações vão cair na proporção em que crescerá a desconfiança de bancos, credores, parceiros de negócios e futuros acionistas, do mesmo jeito que investidores fogem de uma petroleira que provocou um vazamento de óleo ou de uma construtora envolvida em corrupção.

Logo, a abertura do capital da F1 é uma excelente notícia para quem, como nós, desaprova os métodos de Bernie e o seu tratamento, digamos, leviano dos fundamentos da categoria. A partir da abertura do capital, ele não mais poderá manipular os contratos a seu interesse exclusivo e conto que mesmo as regras da competição passem a ser monitoradas e cobradas pelos acionistas, para preservar aquilo que a F1 tem de melhor: a aventura esportiva, humana e tecnológica, numa superação contínua, sempre elevando os níveis de segurança para os pilotos e o público.

Se a F1 já fosse uma empresa com capital em bolsa, Bernie talvez não a tivesse exposto de forma tão vergonhosa quanto no Bahrein, semanas atrás, numa demonstração explícita de capitalismo selvagem e asqueroso, faltando só o ditador de plantão presente ao pódio, com as indefectíveis cafia, óculos escuros e sorrisinho mofino, mandar uma banana para o resto do mundo. Empresas abertas normalmente têm mais escrúpulos, ao menos para manter as linhas de crédito e a cotação em bom nível. O objetivo segue sendo ganhar dinheiro mas com um mínimo de respeito.

Sim, meus amigos, o capitalismo, quem diria, pode salvar a F1 da ambição doentia de Bernie. É minha torcida, é minha esperança.

Separador

A F1 retomou na semana passada, em Mugello, a prática dos testes entre corridas. Foram quatro anos sem eles, com impactos profundos sobre a categoria. A Ferrari, por exemplo, nunca mais achou o caminho da vitória.

Os resultados de Mugello sugerem a retomada da hegemonia da RBR mas o que queria dizer é que, apesar de não ter acompanhado par e passo a evolução dos treinos, creio que eles ficaram irremediavelmente superados, assim como tantas outras práticas da Fórmula 1 clássica, aquela que pereceu junto com Ayrton Senna.

Creio que os engenheiros acreditam agora que todos os testes podem ser feitos usando simuladores de pilotagem e desempenho de componentes, túneis de vento e supercomputadores. Juntos, estes equipamentos estariam se tornando capazes de emular nos laboratórios cada emenda de asfalto das pistas ou pelo menos é isso o que esperam os engenheiros. Os pilotos, mais do que nunca, vão se tornando meros detalhes.

Outra faceta desta, para mim, triste realidade: foto publicada na edição de maio da revista MotorSport mostra algo de que já tinha ouvido falar mas que eu – de besta, porque já está até no Youtube – nunca tinha visto: treze engenheiros da McLaren em uma sala na sede da equipe, chamada de Mission Control, numa óbvia referencia à Nasa, monitorando online os seus dois carros e também toda a oposição durante a disputa do GP do Brasil 2011, a cerca de 10 mil km de distância. Os engenheiros vigiam ao menos 27 telas de computador, estão uniformizados e têm fones para se comunicar com a equipe na pista.

httpv://www.youtube.com/watch?v=Ple7W6bdxJc

Ok. Já vimos muitos casos em que a superaparelhada equipe manda tudo por água abaixo com uma estratégia digna da Merposa mas de tanto tentar e sorver dinheiro um dia eles acertam.

Acho que deste futuro cavernoso nem o capitalismo salva a F1…

Abraço a todos

Eduardo Correa

Eduardo Correa
Eduardo Correa
Jornalista, autor do livro "Fórmula 1, Pela Glória e Pela Pátria", acompanha a categoria desde 1968

9 Comments

  1. Leandro disse:

    Ótimo texto! Só um comentário, discordo de sua afirmação de que, com as restrições para testes nos últimos quatro anos, a Ferrari nunca mais achou o caminho da vitória. Ora, em 2008 Massa não foi campeão por uma curva e em 2010 Alonso chegou como favorito na última corrida. Mesmo em 2009 e 2011, que não foram tão bem assim, não passaram em branco, vencendo ao menos uma corrida na temporada. Não me parece que eles tenham errado tanto a mão assim nos últimos 4 anos, ainda que realmente tenham perdido a hegemonia de outrora.

  2. Lucas Giavoni disse:

    Edu,

    Como quem está fazendo todo o processo é o Bernie, não consigo ficar tranquilo.

    Ao mesmo tempo que vejo nessa manobra uma diminuição radical do método Bernie de comandar o circo (o que seria benéfico, sem dúvida), torço para que essa oferta acionária NÃO SEJA comprada por grupos ligados a montadoras ou atuais equipes.

    Imagine se, por exemplo, a Ferrari ou a Genii Capital adquiram os 20%. Ou Daimler-Benz, Red Bull GmbH etc. A agora tênue estabilidade entre as equipes (A FOTA vai de mal a pior) iria, nesse novo cenário, definitivamente pro vinagre, pois quem for detentor de ações será movido sempre por interesses duplos. No fim das contas, pode ser mais uma jogada venenosa do anão inglês para implodir o poder das equipes, fazendo com que elas se peguem de porrada.

    Em se tratando de Bernie, não descarto essa.

    Abração!

    Lucas Giavoni

  3. Walter disse:

    Caro Mauro Santana.
    Creio que, os motores boxer não tinham a disposição dos cilindros em “V” e sim a 180º

  4. Em relação aos testes, Edu, me parece que existem dois pontos a serem destacados.

    De um lado, a partir do momento em que os resultados de simulador e túnel de vento conseguem emular com proximidade confiável a realidade de pista, deixa de ser vantajoso montar uma equipe de testes. Não apenas pelos custos, mas também para evitar prováveis cópias por parte da concorrência.
    Nos últimos anos foram gastos rios de dinheiro neste tipo de tecnologia, justamente por conta da proibição dos testes. E, agora, parece que a F1 aprendeu a viver sem eles, mesmo que ainda esteja abrindo mão de alguma qualidade técnica.

    O contraponto, no entanto, fica por conta dos pilotos. A falta de testes dificulta muito a vida de quem pretente ingressar na categoria, e ainda existe uma grande diferença entre guiar no simulador, e acelerar o monstro de verdade, colocando o pescoço em risco.

    Abraço, e excelente texto, mais uma vez.

  5. Mauro disse:

    Por que a bolsa de Cingapura e não Nova York ou Frankfurt, as maiores do mundo?

    • Edu disse:

      Vai saber! Cingapura, pelo que pesquisei, não é nem a maior bolsa do Oriente. Imagino que, lá, as exigências de governança corporativa possam ser um pouco mais brandas mas não pode ser muito diferente do resto do mundo.
      A preparação de uma empresa para abertura de capital não é brincadeira. Há empresas que demoram mais de um ano para acertar todos os contratos, planos e balanços exigidos. Há uns dez anos, Bernie tentou abrir o capital das próprias empresas mas simplesmente não conseguiu atender às exigências das bolsas europeias. Foi por isso que ele vendeu a Fórmula 1 primeiro para aqueles empresários alemães que acabaram falindo, depois para o CVC. (Edu)

  6. Fernando Marques disse:

    A Ferrari 312 T é para mim junto com a Lotus 72 e Brabham Alfa Romeu (aquela pilotada pelo Pace) os mais belos Formula 1 que já vi …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  7. Mauro Santana disse:

    Segue outro belo vídeo da homenagem a Gilles Villeneuve realizada ontem pela Ferrari.

    O ronco do motor Boxer V12 é mágico!!!

    http://www.youtube.com/watch?v=6KOG6q2sQIQ&feature=related

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  8. Mauro Santana disse:

    Belo Texto Edu, pois gosto quando você escreve desta maneira técnica!

    Segue o vídeo da Ferrari em que Jacques Villeneuve pilotando na data de ontem o clássico Ferrar1 312 T4 de 1979.

    http://www.ferrari.com/English/Formula1/Multimedia/Pages/Multimedia.aspx?serverid=620cdae2-20fd-4cb3-9753-2b86948d6079

    Abraço a todos!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *