Centésimo capítulo

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O maior espetáculo que os EUA podem oferecer no esporte a motor

Já faz algum tempo desde que, com meu irmão Márcio Madeira, esquadrinhamos aquela que achamos a melhor definição para se entender como se corre nas 500 Milhas de Indianápolis. Nós a comparamos com uma prova de 800 metros rasos do atletismo.

Em ambas as situações, o resultado é obtido numa delicada relação entre velocidade máxima, resistência e acompanhamento do ritmo dos adversários mais fortes. O objetivo é mostrar todos esses predicados junto a um fundamental sprint no final para sagrar-se campeão.

Normalmente associamos esse sprint final com um arranque vigoroso, como uma locomotiva que atropela todos os rivais. Na maioria das vezes, de fato, é isso o que acontece.

Olhem para fantástica a corrida de Carlos Muñoz. Em determinado ponto da prova, pensei comigo “puxa, o cara já mostrou que é bom, tem igualmente um bom carro (Andretti) em mãos, mas está super apagado neste ano”. Pois bastaram chegar as voltas finais para que o colombiano voasse como nunca na pista, passando todos os favoritos em ritmo insano.

Era, sem sombra de dúvida, o carro mais forte do final da prova. Era um conjunto para vencer, mesmo que isso não tivesse ficado tão nítido nos primeiros três quartos de prova aos meus olho e da grande maioria dos que assistiram.

Contudo, o sprint também pode acontecer na forma de uma inteligente economia de energia, quando o ritmo dos líderes é forte demais e há a constatação de que aquela não é a melhor estratégia para se vencer.

Foi mais ou menos isso que o chefe Brian Herta cochichou para o vitorioso Alexander Rossi quando este fez seu último pit stop. Era preciso, após a bandeira verde que seria a derradeira, economizar incríveis 34 voltas de combustível, sendo que, durante a prova, ninguém havia conseguido andar mais que 31, 32 com um tanque… De cara pro vento, a autonomia era de apenas 29 voltas.

Mas Rossi, saindo da 9ª posição naquela altura, foi lá e fez.

O jovem americano de 24 anos, três meses atrás estava desempregado, recebeu a bandeira quadriculada da 100ª edição das 500 Milhas de Indianápolis com motor seco, travado, absolutamente sem combustível, apenas num embalo que resultou em vantagem final de 4.5s para Muñoz. As últimas quatro voltas de Rossi na liderança foram, em média horária, em 214, 212, 202 e, na última, em apenas 179 milhas por hora.

Algo notório, entretanto, seria pouco comentado: Rossi seria, na volta 106, o autor da volta mais rápida da prova, 39.9488s, a uma média de 225.2 mph. Ou seja, o rookie estava com um ótimo carro nas mãos do time Herta-Andretti e, mesmo novato, mostrou plena adaptação ao lendário circuito. Não era apenas um azarão aparecendo bem no final, era um piloto que demonstrou velocidade e foi premiado por sua competência ao seguir a tática perfeita para vencer.

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Para além de Rossi e Muñoz, que acabaram surgindo como líderes na batalha final pela vitória, a edição teve outros nomes de destaque.

O primeiro destaque foi negativo, e veio em forma de rodada e batida para Juan Pablo Montoya, aquele mesmo que venceu no ano passado e que este ano foi o primeiro a abandonar. Isso não acontecia desde 1977, quando o defensor da vitória Johnny Rutherford teve o câmbio de sua McLaren-Cosworth quebrado com apenas 12 voltas e fecharia o dia em 33º.

Montoya jamais esteve contente com o acerto do carro e acabou se perdendo sozinho, sendo bastante humilde para reconhecer o erro.

Por sinal, o único carro da Penske de fato competitivo em Indianápolis foi o de Hélio Castroneves. Correndo com as clássicas cores da Pennzoil, de vitórias do próprio Rutherford e do meu preferido Rick Mears, Helinho teve o infortúnio de ter sofrido avaria na asa traseira no quarto final da prova.

Seu último pit foi para trocar a peça, justamente na volta 164 em que a grande maioria parou. No entanto, para escalar o pelotão, o brasileiro gastou mais combustível que Rossi, e precisou de um splash de emergência, fechando a prova na desolada 11ª posição.

Tony Kanaan, 4º colocado, era outro que tinha um carro muito bem acertado nas mãos, mostrando mais velocidade que seu companheiro de Ganassi. Scott Dixon, que fez uma corrida bastante conservadora, mas quando foi dar o arranque final, estava com um carro empenado nas mãos, resultado de uma raspada no muro.

Foi também particularmente satisfatório ver a plena recuperação de James Hinchcliffe, esse canadense muito competente e bem-humorado. De uma edição 2015 em que teve um acidente horripilante, em que um braço de suspensão atravessou sua coxa e parou no seu abdômen para uma edição em 2016 em que marcou a pole-position. Uma bela volta por cima.

Outros nomes se destacaram mais, como Josef Newgarden, que chegou em excelente 3º lugar e andou muito mais que o patrão Ed Carpenter, além de Ryan Hunter-Reay, líder da equipe Andretti e em quem eu colocava minhas fichas para vencer.

A trajetória de Hunter seria prejudicada pelo abestalhado Townsend Bell. O veterano americano, em sua participação esporádica com um carro da Andretti, mostrou sua velha velocidade intacta.

Mas caramba, o cara, no alto de seus 41 anos de idade, ainda não perdeu a afobação que marcou – negativamente – sua carreira. Ele jogou duro o tempo inteiro da corrida, de maneira absolutamente desnecessária. Numa dessas jogadas que, apesar de não serem desleais, foi dura, fez com que Sage Karam assinasse o muro do Indianapolis Motor Speedway.

Foi inevitável pensar no trocadilho Townsend Hell, o piloto que chegou para infernizar os outros…

E claro, sua trapalhada-mor foi ter acabado com a corrida de Ryan Hunter-Reay e sua própria numa saída estabanada de pits. Os dois Andrettis tiveram bicos quebrados e acabaram perdendo tempo em reparos.

Se Bell acabaria a corrida pela porta dos fundos, Hunter ainda teria um papel de destaque, oferecendo um providencial vácuo para o vencedor Rossi nas voltas finais em que só contava com o cheiro do combustível no tanque.

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Vale o registro: mais um ano sem vitória de um piloto de sobrenome Andretti em Indianápolis desde 1969. Marco até aprendeu a poupar mais o carro, mas desta vez, defeitos ceifaram sua corrida ainda antes de mostrar qualquer potencial.

A escrita foi mantida em mais uma edição.

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Fecho a coluna dizendo que foi especialmente emocionante olhar para o número 98 do carro de Rossi e pensar em Dan Wheldon e sua incrível vitória em 2011. Brian Herta, portanto, ganhou como chefe de equipe nas duas datas mais especiais disponíveis: no ano de centenário, e agora também na edição centenária.

Me despeço ainda curtindo os momentos de Indianápolis, em transição para a minha corrida preferida, as 24 Horas de Le Mans, que terá largada dia 18.

Abração!

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

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