Clark e a bomba de combustível

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Se existe mesmo uma resposta para quem foi "o melhor de todos os tempos", talvez tenhamos descoberto o nome dele.

Primeiro, Mário Salustiano nos brindou com a assombrosa temporada de 1965 de Jim Clark, em que ele ganhou tudo de mais um pouco, a ponto de ir parar na capa da revista Time como “o homem mais rápido sobre rodas”.

Em seguida, Marcel Pilatti fez um brilhante texto complementar, mostrando o que Jim não havia conseguido vencer, como Le Mans ou alguma edição do GP de Mônaco. Lembrou até das duas espetaculares rodadas em Indianápolis 66, quando Jim perdeu a corrida para Graham Hill envolto a uma polêmica sobre a contagem de voltas. Ele não era, afinal, invencível, mas sim um candidato natural às vitórias.

O tema da coluna de hoje surgiu quando fiz a seguinte pergunta: Você se lembra de Jim Clark arruinar alguma corrida na F1?

A pedra fundamental do esporte a motor é a superação de limites. Falando estritamente sobre os pilotos, estes precisam se equilibrar entre a tênue linha que separa a perda de tempo e os limites da aderência do carro em relação ao solo. Ter uma má performance, fazer besteira ou arruinar uma corrida é algo pelo qual todo piloto de Fórmula 1 já passou. É natural. O erro faz parte do automobilismo e é o que dá a ele um aspecto essencialmente humano.

Não existe perfeição no esporte. OK, a romena Nadia Comaneci tirou um monte de nota 10 na ginástica na Olimpíada de Montreal 1976. Mas aquilo era a “perfeição do momento”, que seria superada com movimentos e técnicas mais complexas da modalidade através dos tempos. Hoje, aquelas mesmas apresentações não tirariam 10.

No esporte a motor, isso não acontece. Não há como ter uma evolução neste sentido, porque o desafio de levar os carros ao limite sempre existiu e isso não depende do avanço tecnológico ou de técnicas inovadoras de condução. O que existe é uma adaptação do piloto ao seu novo carro a cada começo de temporada. Os carros e circuitos mudam, o desafio permanece o mesmo.

Voltando a falar sobre o erro, este está presente não apenas naqueles personagens de fundo do grid, ou doidos saudosos como Gilles Villeneuve e Andrea de Cesaris – cada um em seu departamento de insanidade, claro. Campeões erram. E grandes campeões erram também.

Pense em Ayrton Senna, o cara mais obcecado pela perfeição a até hoje botar os fundilhos num carro de F1. No decorrer de sua carreira inclusive adotaria o slogan driven to perfection. E essa associação Senna/Perfeição se tornou tão forte que, quando se digita driven to perfection no Google Imagens, nada menos que oito das dez primeiras referências são para ele…

Mas pense por um instante quantos erros ele cometeu na carreira, como bater sozinho em Monte Carlo 88, forçar a barra em Jacarepaguá 89 ou rodar em Silverstone 90. Não, não é um dedo inquisitório que eu aponto aqui. É o dedo de, “ei, ele era humano, humanos erram, ainda mais quando buscam limites, e ali estava um cara tremendamente disposto a fazer isso”. Nessa busca pela perfeição, Senna nos presenteou com momentos fantásticos, cercado por competidores igualmente maravilhosos.

Até mesmo Juan Manuel Fangio, o Maestro, cometia erros. Ele teve um dia miserável em Silverstone 54 a bordo da poderosa Flecha de Prata. Não passou do 4º lugar, uma volta atrás do vencedor, o compatriota Froilán González, de Ferrari.

Fangio culpou a carroceria fechada de sua Mercedes por não conseguir encontrar as tangências, avariando o carro ao bater em obstáculos internos das curvas. Tanto que logo em seguida a Mercedes produziu uma versão com rodas descobertas e ele voltou a vencer brilhantemente como sempre.

Então voltamos a Jim Clark… E ele, no que errou?

Em sua primeira visita a Indianápolis, em 1963, Clark perdeu para Parnelli Jones, que tinha seu carro espirrando óleo em toda a pista nas voltas finais, e fazendo adversários rodarem. O escocês ficou absolutamente frustrado por Parnoil (convenhamos, o trocadilho é ótimo!) não ter tomado bandeira preta e pediu para Colin inscrevê-lo com a Lotus de Indy em outra corrida, porque ele sabia que podia superar pilotos e carros americanos em seu próprio jogo.

Ele e o amigo Dan Gurney foram a tradicional milha de Milwaukee, para correr a prova de 200 milhas, reunindo toda a nata americana do open wheels. Clark cravou a pole e deu uma daquelas mostras absolutas. Começou a abrir, colocar volta em todo mundo… colocou volta no próprio Gurney e só não deu volta no 2º colocado, o lendário AJ Foyt “porque teve humildade”, como diria a música. Venceu com uma facilidade absurda.

Hm… “Surtees superou Clark em Nürburgring 63”, é o que apontam os registros. Fato. Só que Clark corria com 7 cilindros e antes disso acontecer estava na frente. “Jim só foi 3º em Glen 63”. Claro, o carro ficou sem bateria na largada e ele perdeu quase duas voltas. Bom, Monza 67, em que foi “apenas” terceiro colocado é outro exemplo espetacular de sua carreira – um momento tão sublime quanto Senna nos treinos de Mônaco 88 ou Fangio em Nürburgring 57.

Muitos acidentes e rodadas registradas eram por falha mecânica ou armadilhas em que Jim não teve culpa alguma – como Monza 61, o episódio mais mortífero da F1, quando 14 torcedores e Wolfgang von Trips perderam a vida.

Comecei a ler, reler, e… nada! Como estava difícil conseguir mais do que duas rodadas em Indianápolis, tive que apelar para experts internacionais.

Primeiro, perguntei sobre erros de Clark para Paul-Henri Cahier. O lendário fotógrafo era ainda muito jovem, mas viu o próprio Clark nas pistas, tirou fotos dele. A resposta foi “Lucas, não me lembro de tal coisa ter acontecido… Clark era bom demais [para isso]. Desculpe!”. PHC ainda gentilmente me enviou o link de uma entrevista de Clark no fim de 1967 para a Revista Autocourse, reproduzida pelo site Motorsport.

Nessa entrevista ele contava as frustrações dos pneus Firestone para o carro de Fórmula 2. Ele praticamente previa o que aconteceria para provocar a própria morte, num bólido da categoria, no circuito de Hockenheim em 68. A morte de Jim foi um choque enorme porque todos o consideravam bom demais para morrer. “Se até Jim que é Jim morre, qualquer um pode morrer”.

Mas ainda estava sem um erro que fosse culpa do próprio Jim. Mandei um email para Clive Chapman, filho do fundador da Lotus, Colin. Através de seu assistente no escritório do Classic Team Lotus, ele me enviou um artigo de época. Era uma entrevista dupla a um repórter: Primeiro Clark falava de Chapman, depois o contrário.

Jim começava dizendo que Colin estava mais disposto a aceitar a falibilidade humana… com seus mecânicos e pessoas em geral. Mas nada com seu piloto principal!

Quando é a vez de Chapman, ele aponta como “erro” o fato de Clark ser muito inclinado à adaptar sua pilotagem às imperfeições do carro – ou seja, pra achar um defeito, teve que fazer um elogio antes, uma vez que a adaptabilidade de Clark também era notável. O episódio da vitória em Silverstone 65, quando ele desligava o carro nas curvas porque o motor estava com pouca pressão de óleo, não deixa a menor dúvida.

Finalmente chego na pergunta-chave: “Todo mundo tem suas falhas ou fraquezas. Você notou alguma aplicação disso a Jim?”. A resposta de Colin me fez rir. “Ele rói as unhas, se é isso que quer saber”, complementando que para quem tem reflexos tão afiados, ele não consegue tomar decisões banais, como escolher um prato no menu de um restaurante.

Vendo tudo isso, percebo que Jim não tinha rivais. Ele perdia muito mais para motores estourados ou suspensões empenadas do que para quem estivesse contra ele na pista. Não tinha o conhecimento de mecânica de um Jack Brabham, mas tinha uma sintonia tão fina com Colin que o projetista traduzia as sensações de Jim ao volante para poder encontrar os ajustes ideais.

Mesmo correndo contra competidores tão fantásticos como Graham Hill, John Surtees, Jack Brabham, Dan Gurney, Bruce McLaren e o jovem conterrâneo Jackie Stewart, Clark se mantinha num patamar inalcançável para todos eles.

Não tenho mais dúvidas que aquele fazendeiro de ovelhas da região de fronteira da Escócia com a Inglaterra, a famosa Border, que era tímido, roía as unhas e era muito indeciso, foi o piloto mais próximo a chegar à perfeição dentro de um carro de F1 em sua carreira quando pensamos o quão pouco ele errou ao volante.

E de tanto insistir, finalmente achei um erro enorme, imenso, irrepreensível e totalmente condenável na carreira de Jim na F1.

Em seu primeiro ano competitivo, 1962, ele esqueceu-se de ligar a bomba de combustível na largada para o GP da Alemanha, sob chuva, e todos passaram por ele. Clark teve que escalar todo o pelotão. Em certos estágios da prova, tirava 6s por volta, mesmo tendo que brigar por posições. Mas o próprio Jim achou que estava exagerando e maneirou o ritmo até chegar em 4º, marcando a segunda volta mais rápida, apenas pior que a do vencedor Graham Hill.

Esqueceu de ligar a bomba de gasolina… Ufa! Clark era humano!

Abração!

Lucas Giavoni
Lucas Giavoni
Mestre em Comunicação e Cultura, é jornalista e pesquisador acadêmico do esporte a motor. É entusiasta da Era Turbo da F1 e das 24 Horas de Le Mans.

9 Comentários

  1. Lucas Giavoni disse:

    Sim, meus amigos, devemos levar, sim, em consideração que pilotos tinham menos “disponibilidade” para errar – carros e circuitos bastante mortíferos. Um erro um pouco maior já significava um monte de ossos quebrados.

    Mas o erro é algo natural do ser humano. Os carros dos anos 50 de Fangio, e 60 de Clark, eram muito manhosos, e alcançavam velocidades altíssimas. Exigiam certamente muita precisão. Clark estava acima dos outros não apenas na rapidez, mas como também dentro dessa precisão. E isso era o mais assombroso.

    Abração!

    Lucas Giavoni

  2. Rodolfo César disse:

    Jim Clark faz parte de uma espécie de pilotos que não mais existem, disputava corridas em diversas categorias com especificações e estilos muito diferentes entre si. Trata-se de algo quase que inimaginável de se ver atualmente.

    Até de Nascar Jim Clark já correu! Foi apenas uma vez em Rockingham 1967. Classificou em 25º, mas abandonou logo no primeiro terço da prova por causa do motor… De monoposto para carros é uma grande diferença, então acho que não fez feio, se saiu muito bem!

    • Lucas Giavoni disse:

      Legal essa informação da Nascar, Rodolfo.

      Confesso que eu não sabia. Mas como ele era, possivelmente pegaria a mão rapidamente. Devemos lembrar que gênios dos monopostos como Mario Andretti e AJ Foyt ganharam edições da Daytona 500, justamente a corrida mais importante da categoria.

      Abração!

      Lucas Giavoni

      • Rodolfo César disse:

        Dan Gurney é outro bom exemplo… apesar de nunca ter ganho um campeonato de expressão, venceu corridas na F1, na USAC (Indy) e na Nascar. Considerando a quantidade de corridas que disputou e as vitórias que obteve, diria que tem números expressivos.

        Lucas, não sei se conhece, mas tem um site de estatística muito interessante e pouco divulgado, que traz as informações de diversas categorias (F1, USAC, Indy, Nascar, etc.). Foi daí que acabei descobrindo essa rara participação de Jim Clark na Nascar.

        O site é: http://racing-reference.info/. Para pesquisar informações é bastante abrangente, só deixo aqui como dica caso não conheça ainda.

        abraços!

  3. Mauro Santana disse:

    Coluna fantástica, amigo Lucas!!

    E o Fernando resumiu bem o quanto a morte estava próxima dos pilotos naqueles tempos.

    Mas também, nunca saberemos se Clark iria se adaptar as bestas feras turbinadas dos anos 80.

    A única resposta que temos é que, talento não lhe faltava pra poder lutar contra as feras da época.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    • Lucas Giavoni disse:

      Amigo Mauro,

      Do jeito que Clark ia de F1 para a F2, ovais americanos, daí pegava a Lotus Cortina e andava pendurado em 3 rodas nos torneios de turismo, vencendo pra caramba, podemos ter certeza que ele tinha um poder de adaptabilidade fantástico.

      Não duvido que pudesse, com algumas sessões de adaptação e condicionamento físico adequado, domar os turbos oitentistas. Ao menos isso dá pra imaginar, ainda que sem poder dar certeza.

      Abração!

      Lucas Giavoni

  4. Fernando Marques disse:

    Lucas,

    talvez se o Jim Clark tivesse corrido nos anos 80 e 90, quando se disputavam muito mais provas na temporada da Formula 1 do que em relação aos tempos dele, talvez ele pudesse cometer mais alguns erros … hehehehehe
    Eu penso que os pilotos da época do Clark talvez tinham mais noção do real risco que corriam de vida. E por isso sabiam que não podiam errar. Um erro poderia ser fatal. Se comparado a Formula 1 atual, os altos níveis de segurança, permitem que certos erros podem ser acometidos que eles não correm riscos de vida.
    Antigamente um Formula 1 era um carro onde o piloto era cercado por tanques de gasolina. Qualquer pancadinha o carro pegava fogo.
    Com certeza o Clark foi o mais perfeito de sua época e nem assim escapou da morte nas pistas.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Lucas disse:

      Perfeito. Lembro de ter lido uma frase parecida com essa, acho que do Fangio – que naquele tempo não se tolerava cometer erros, pois sabia-se que um grande erro tinha grandes probabilidades de ser também o último.

      E eu confesso que tenho muita mais afinidade com essa mentalidade daquele tempo (por isso que tenho cada vez mais admiração pelo Fangio) que com a de alguns fãs de hoje em dia que acham que cometer erros grosseiros, muitas vezes inclusive prejudicando outros pilotos – às vezes de propósito – é sinônimo de garra e bravura…

      • Fernando Marques disse:

        Lucas,

        há pouco tempo aqui disse que achava os pilotos atuais todos uns “cagões” … e não foi a toa …

        Fernando Marques

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