Clima de amistoso

Ferrari vs. Ford, final
11/11/2019
Cadeia de eventos
19/11/2019

Quando a F1 chega à Interlagos, o clima é um dos fatos mais destacados. Primeiro, é o clima proporcionado pela torcida brasileira, que mesmo sem nenhum piloto tupiniquim para torcer, abraça a F1 e vibra com os seus grandes pilotos. Outro clima bastante falado é a instabilidade climática de São Paulo, que já proporcionou corridas épicas em Interlagos e que provavelmente será um fator nesse final de semana. Além de todos esses ‘climas’, há um terceiro clima para esse 48º Grande Prêmio do Brasil de F1: é o clima amistoso.

Com tudo praticamente definido, a F1 chegou em Interlagos relaxada e com poucas brigas realmente sérias a serem definidas. Os dois campeonatos já estão decididos, com Mercedes e Lewis Hamilton tendo muito a comemorar. Até mesmo os vice-campeões já estão definidos. No Mundial de Pilotos há uma animada briga entre Charles Leclerc, Sebastian Vettel e Max Verstappen, mas nenhum dos três cometerá um haraquiri se não conseguirem essa meta. A McLaren ainda não se garantiu como a quarta força? O ritmo da equipe é forte demais para ser alcançada pela Renault, num grande fracasso da montadora francesa. Porém, ao contrário do que ocorre em outros esportes, esse clima amistoso não significa obrigatoriamente que a corrida seja arrastada ou modorrenta. Muitas vezes ocorre exatamente o contrário, com os pilotos tendo menos responsabilidades para fazer uma ótima corrida no domingo.

Interlagos já entrou no patamar de palco icônico da F1. Para quem é adepto dos ‘bons tempos’, onde acredita piamente que a F1 só era boa dos anos 1980 para trás, Interlagos demonstra que muitas vezes olhamos com tanto carinho o passado que nos esquecemos de curtir o presente. Dois das melhores finais de campeonato da história da F1 ocorreram na pista paulistana poucos anos atrás, em 2008 e 2012, com o título sendo decidido em corridas sensacionais e com a chuva (olha o clima voltando…) sendo um fator primordial para que Hamilton e Vettel, respectivamente, conseguissem vitórias inesquecíveis em 2008 e 2012.

Com uma pista curta e ‘old school’, Interlagos também está entre as preferidas dos pilotos, que enfrentam um traçado curto e técnico, onde um erro na classificação pode jogar um piloto de ponta três ou quatro posições abaixo do seu potencial, devido a uma volta rapidíssima, em torno dos 70s.

Lewis Hamilton foi bastante homenageado pelo sexto título e correndo sem maiores pressões, estará bastante relaxado nesse final de semana, mesmo que sem ter a presença do seu amigo Toto Wolff nos boxes da Mercedes. A Ferrari correrá sob pressão pela polêmica da potência do seu motor. Como sempre ocorreu na história da F1, quando uma equipe consegue uma vantagem técnica, as rivais rapidamente colocam dúvidas sobre a legalidade dessa vantagem. O motor Ferrari garantiu aos italianos um desempenho assombroso depois das férias da F1, particularmente em ritmo de classificação. Em Austin a Red Bull consultou a FIA sobre o medidor de fluxo de combustível e após a posição da entidade, eis que a Ferrari não repetiu o desempenho das últimas provas, com Leclerc chegando mais de 40s atrás dos líderes. 

Max Verstappen, que esse ano perdeu a pole no México por falar demais, declarou que a Ferrari estaria trapaceando. Pressionada, a Ferrari terá que mostrar na pista que o desempenho abaixo do esperado nos Estados Unidos foi uma exceção e que nada teve a ver com a diretiva da FIA.  A saída da Junção até a freada para o Esse do Senna é um dos setores onde o motor é mais exigido no calendário e a Ferrari tem uma boa chance de calar seus rivais, mesmo com Leclerc sabendo que perderá posições pelo problema de motor enfrentado em Austin. A Red Bull aproveitou essa semana pré-Interlagos para confirmar seus pilotos para 2020, onde sem surpresa confirmou Alex Albon ao lado de Verstappen na equipe principal, enquanto Pierre Gasly e Daniil Kvyat ficarão na Alpha Turi, antiga Toro Rosso. Albon vem fazendo um bom trabalho como segundo piloto, com uma atuação que Valtteri Bottas assinaria. Albon não incomoda o primeiro piloto Verstappen e ainda marca pontos importantes no Mundial de Construtores para Red Bull. O tailandês até marcou mais pontos do que Max nas corridas que estão correndo juntos pela Red Bull, mesmo que Albon fique atrás do holandês no quesito velocidade pura. Lembrando que um ano atrás Albon estava fadado a correr na porcaria da F-E e agora está confirmado numa equipe de ponta da F1. Uma mudança e tanto!

No pelotão intermediário, a McLaren pode não ter os pontos necessários para se garantir como a quarta força da F1 atual, mas o ritmo imposto pelos ingleses não nega essa marca. A saída de Fernando Alonso tirou o clima pesado que pairava sobre a McLaren. Com os jovens Sainz e Norris, a McLaren conseguiu melhorar e sorrir. Quem não tem muito motivos para sorrir é Nico Hulkenberg, com sua saída iminente da F1. Com a confirmação das duplas das equipes rubrotaurinas e a recusa de entrar na barca furada que hoje é a Williams, Hulk está praticamente fora da F1, após chegar como um possível campeão na F1, mas acabando por entrar no folclore da categoria por não nunca ter conseguido subir ao pódio. Se entre as equipes grandes tudo está praticamente decidido, no pelotão de trás não está muito diferente. Ameaçada por uma nova CEO da Renault, a equipe da montadora francesa precisa de uma reação. Racing Point e Alfa Romeo sofrem no Mundial de Construtores por terem apenas um piloto forte por opção das próprias equipes. A Haas tentará não sofrer tanto em ritmo de corrida e quem sabe encostar na dupla da Toro Rosso. E ficar longe da Williams!

Esse final de semana será especial para o esporte a motor não apenas pelo Grande Prêmio Brasil, como também pela decisão da Nascar em Homestead e a corrida final da MotoGP. Em Valência, teremos uma corrida ainda mais especial. Após uma temporada pífia e decepcionante com a Honda, Jorge Lorenzo anunciou sua aposentadoria ao final da prova valenciana. O espanhol teve uma carreira gloriosa dentro das pistas, onde conquistou cinco títulos mundiais, sendo três pela MotoGP, se tornando o piloto mais forte de sua geração, que continha ainda Daniel Pedrosa, Casey Stoner e Andrea Doviziozo. Foi essa geração que realmente peitou Valentino Rossi nos melhores anos do Doutor. Já fora das pistas Lorenzo causou polêmicas e brigou com praticamente todos os seus companheiros de equipe. Passando boa parte de sua carreira aos trancos e barrancos com a lenda Valentino Rossi, Lorenzo atraiu para si muita antipatia por boa parte dos fãs da MotoGP.

Contudo, o estilo suave e técnico de Jorge Lorenzo não poderá jamais ser esquecido. Sua finesse em cima de uma moto casou maravilhosamente bem com a Yamaha, onde Lorenzo teve nove temporadas de altíssimo nível. A saída de sua zona de conforto, onde Lorenzo teve que montar em motos, digamos, mais selvagens fez com que a confiança do espanhol fosse caindo. A grande queda em Assen nesse ano foi mais um aviso. Lorenzo sairá da MotoGP com o respeito de todos os seus pares, mesmo com aqueles com quem brigou ao longo dos anos. Sua entrada no rol das Lendas da MotoGP de forma imediata não foi por acaso. Jorge Lorenzo fará falta!

Além de todas essas atrações, esse final de semana teremos a oportunidade de assistir ‘Ford vs Ferrari’, o esperado filme retratando a épica briga entre essas gigantes da indústria automobilística. Vale demais a pena tirar um tempo para ir ao cinema nesse feriado!

Mesmo com tudo praticamente definido na F1 para essa temporada, Interlagos raramente decepciona para termos uma boa corrida. Com pilotos mais relaxados e menos pressões sobre as equipes, a prova de domingo deverá ser assistida com atenção, pois como já aconteceu em outras oportunidades, podemos ver outra corrida épica.

Abraços!

João Carlos Viana

JC Viana
JC Viana
Engenheiro Mecânico, vê corridas desde que se entende por gente. Escreve sobre F1 no tempo livre e torce pelo Ceará Sporting Club em tempo integral.

1 Comment

  1. Fernando Marques disse:

    JC,

    mesmo estando o GP do Brasil num clima amistoso,acho que deve-se exaltar a excelente temporada que a Formula 1 proporcionou em 2019 depois das chamadas férias do meio ano … com “mutreta” ou não a Ferrari pôs lenha na fogueira e deu outra cara ao campeonato que parecia ser um passeio das Mercedes nas pistas … eu torço que a história do GP do Brasil de 2019 seja no mesmo íivel de disputas que tivemos no meio da temporada prá cá e que seja quem sabe a melhor corrida da temporada …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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